40 – A Nossa Casa
Foram dezanove dias.
Ninguém lhos tinha dito à partida, porque no primeiro dia ninguém sabia, e o Rafael foi-os descobrindo aos bocados: a tensão que tinha de estar boa, a ferida da perna que tinha de estar limpa, as dores de cabeça que tinham de passar de sete a três, e um homem de bata que aparecia às quartas e que decidia tudo aquilo olhando para uns papéis.
Ao quinto dia já sabia os nomes das enfermeiras todas.
Ao nono chorou uma vez, às três da manhã, e o Leo fingiu que não deu por isso, porque era o que ele queria.
Ao décimo terceiro sentou-se sozinho na cama pela primeira vez e ficou tão contente que teve de contar a três pessoas.
E ao décimo nono o Lucca entrou no quarto com um sorriso que não estava a conseguir esconder.
— Então, dorminhoco.
— Que foi?
— Vais para casa hoje.
O Rafael ficou com a boca aberta.
— Hoje hoje?
— Hoje hoje. — O Lucca pousou-lhe a mão na cabeça, e o Rafael deixou, que era uma coisa que ele não deixava a ninguém. — Vais para casa com regras, e as regras são muitas, e eu vou dizê-las à frente do meu irmão para depois não haver dúvidas sobre quem é que se porta mal.
— Eu porto-me sempre bem.
— Não é de ti que eu estava a falar.
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Saiu numa cadeira de rodas, com uma camisola larga do Leo e umas calças de fato de treino cortadas ao comprido para a perna passar.
A mãe empurrou a cadeira até à porta e não a largou até ao carro, e o Rafael deixou-a, porque percebeu que aquilo não era por causa dele.
À porta do hospital estava sol.
Era um daqueles dias de dezembro, frios e limpos, com um céu que não tem nuvem nenhuma e uma luz baixa que bate de lado e faz as pessoas fechar os olhos.
O Rafael parou a meio do passeio.
— Que foi? — perguntou o Leo.
— Nada.
Ficou ali um bocado com a cara virada para cima e os olhos fechados.
— Já não me lembrava do sol.
Ninguém disse nada, e ninguém o apressou.
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Entrar no carro levou quatro minutos e duas pessoas.
— Eu consigo.
— Ninguém disse que não.
— Então larga-me o braço.
— Estou a segurar o braço para ti não caíres de cara no passeio à frente da tua mãe — disse o Leo. — Mas se quiseres cair, cai, e depois é a ela que tens de explicar.
O Rafael riu-se, e o riso puxou-lhe uma coisa nas costelas e transformou-se numa careta.
— Ai.
— Pois.
Quando finalmente se sentou, com a perna esticada e a almofada por baixo do joelho, ficou um bocado calado a olhar em frente.
O Sr. Wei inclinou-se à janela.
— Liga quando chegares.
— Ligo.
— Não é a ti que eu estou a dizer. — Olhou para o Leo. — É a ele.
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A cidade passou pela janela e o Rafael não falou durante os primeiros quilómetros.
Estava a olhar para as pessoas.
Uma senhora de casaco cor de vinho a atravessar com dois sacos. Um rapaz encostado a um poste com os auscultadores postos. Um homem a lavar uma montra com uma esfregona.
Toda aquela gente a fazer coisas, e nenhuma delas a saber que ele tinha estado a dormir dezanove dias.
— Leo.
— Diz.
— É esquisito.
— O quê?
— Que o mundo tenha continuado.
O Leo pousou-lhe a mão na perna boa e não disse nada, e foi a melhor resposta.
Mais à frente, quando o semáforo abriu e o carro começou a andar, o Rafael agarrou-se ao cinto com a mão que tinha livre.
Foi pouco. Foi meio segundo.
O Leo viu e não disse nada, e guardou aquilo.
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Quando o carro parou à frente do portão, o Rafael franziu a testa.
— Não vamos a minha casa buscar as minhas coisas?
— Sobre isso.
— Leo.
— Hum.
— Leo, o que é que tu fizeste?
O Leo saiu do carro sem responder, contornou-o e abriu-lhe a porta, e o Rafael reparou numa coisa que não estava ali em novembro: uma rampa de madeira, feita à medida, a subir os dois degraus da entrada.
— Isso apareceu como?
— Apareceu com o teu pai e com o Jorge, num sábado.
— O meu pai fez uma rampa?
— O teu pai fez a rampa, o Jorge cortou a madeira, e o Nuno esteve lá o dia todo a segurar coisas e a dizer que estava a ajudar.
O Rafael ficou a olhar para aquela rampa mais tempo do que uma rampa merece.
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E depois entrou, e percebeu o resto.
O corredor estava desimpedido, sem o móvel estreito que lá estava. A porta da casa de banho tinha sido alargada e havia uma barra de metal ao lado da sanita e outra dentro do duche. Tinham tirado o tapete da sala.
E, no quarto, encostada à parede onde não havia nada, estava a secretária dele.
A secretária dele, com o portátil dele, e os apontamentos dele alinhados do mesmo jeito.
E, por cima, pregado na parede, o placard de cortiça.
Com as fotografias todas. O Nuno a rir-se. Os pais numa praia. Os irmãos. Ele aos oito anos com um joelho ralado.
O Rafael ficou parado na cadeira, no meio do quarto.
— Quem é que…
— Foi a tua mãe que as tirou da parede. — O Leo estava atrás dele, com as mãos nas pegas da cadeira. — E fez-me um mapa numa folha, com a posição de cada uma, porque disse que tu ias reparar se elas estivessem trocadas.
O Rafael levou a mão à boca.
— Ela conhece-me bem demais.
— Conhece.
— Leo…
— Eu sei.
— Não sabes nada, deixa-me falar. — Mas não conseguiu falar, e ficou ali sentado, com a mão na boca, a olhar para uma parede. — Eu ia ter de vir para aqui como quem vem passar uns dias a casa de alguém.
O Leo baixou-se ao lado da cadeira, de cócoras, para ficar à altura dele.
— Isto não é casa de alguém.
— Eu sei.
— Isto é a tua casa desde outubro, e eu é que devia ter dito isso há mais tempo.
O Rafael virou a cara para ele.
E disse uma coisa de que o Leo se lembrou muitos anos depois, em circunstâncias completamente diferentes.
— Então é a nossa casa.
— É.
— Diz.
— É a nossa casa.
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O resto do dia foi ridículo e foi bom.
Descobriram que a cadeira não passava entre a mesa e o aparador. Descobriram que o Rafael não conseguia alcançar coisa nenhuma do armário de cima e que o Leo tinha passado três dias a pôr as coisas todas em cima. Descobriram que era preciso meia hora para uma coisa que antes levava cinco minutos, e que ninguém tinha paciência para isso, e que ia ser assim durante semanas.
Ao jantar, o Rafael deixou cair um garfo e ficou a olhar para ele no chão.
— Eu apanho.
— Não apanhas nada.
O Rafael apoiou-se no braço da cadeira, chegou-se à frente com a mão boa, quase o alcançou, e não o alcançou.
Tentou outra vez.
Não.
E, à terceira, ficou parado a meio, com a mão estendida e a respiração alterada, e disse uma coisa numa voz que o Leo nunca lhe tinha ouvido.
— Eu tenho dezoito anos.
O Leo não se mexeu.
— Eu sei que tens.
— Eu não consigo apanhar um garfo do chão.
— Hoje não consegues.
— Não me digas isso.
— Não te estou a dizer nada para te consolar. — O Leo pousou o pano em cima da mesa. — Daqui a três meses tu apanhas o garfo. É a única coisa que eu sei sobre isto, porque foi o que o meu irmão me disse, e o meu irmão não me mente.
O Rafael ficou a olhar para o chão.
— E até lá?
— Até lá apanho-o eu, e tu ficas com raiva de mim de vez em quando, e eu aguento.
Apanhou o garfo.
Foi buscar outro à gaveta e pô-lo ao lado do prato dele sem fazer disso um acontecimento.
🍃 🍃 🍃
À noite, já deitados, o Rafael estendeu a mão para a mesa de cabeceira.
— Dás-me o telemóvel?
O Leo deu-lho.
O ecrã acendeu-se, com o estalo no canto, e pediu os quatro algarismos.
— Ah, é verdade. — O Rafael marcou-os com o polegar. — Tu não sabias o código.
— Não.
— Porque é que não perguntaste a ninguém?
— Porque é o teu telemóvel.
O Rafael parou com o polegar em cima do ecrã.
Depois virou-se para ele.
— O código é o dia em que nós nos conhecemos.
O Leo ficou calado.
— Tu puseste isso quando?
— No dia a seguir.
O Leo ficou a olhar para ele.
— No dia a seguir?
— Cheguei a casa, mudei o código e fui-me deitar. — O Rafael encolheu um ombro, e ficou vermelho até às orelhas, o que ainda conseguia fazer mesmo com metade da cara por sarar. — Achei que era uma coisa muito inteligente.
— Rafael, nós tínhamos falado uma vez.
— Eu sei.
— Uma vez.
— Eu sei. — Estava a tentar não se rir. — E tu nem te lembravas do meu nome.
— Eu lembrava-me perfeitamente do teu nome.
— Pois. — O Rafael voltou a olhar para o ecrã. — Foi há cinco meses, e eu nunca mais o mudei.
Ficou a mexer no telemóvel um bocado, com uma mão só.
Havia dezenas de mensagens. Do Nuno, umas quarenta. De colegas do curso que ele mal conhecia. De uma rapariga da turma que lhe tinha escrito todos os dias durante duas semanas sem nunca ter resposta.
Respondeu a algumas, devagar.
A única conversa que não abriu foi a do homem que estava deitado ao lado dele, porque o homem estava deitado ao lado dele.
E, dentro dessa conversa, à espera, por baixo de tudo o resto, continuava uma mensagem escrita e não enviada.
O Rafael pousou o telemóvel na mesa de cabeceira e apagou a luz.
🍃 🍃 🍃
Foi às quatro e dez da manhã.
O Leo acordou com um som que não fazia sentido nenhum naquela casa, e demorou dois segundos inteiros a perceber que vinha do lado dele.
O Rafael estava a gritar.
Não era um grito de dor. Era outra coisa. Estava a gritar com a boca fechada, um som preso, de garganta, e tinha a mão boa agarrada ao lençol com tanta força que tinha os nós dos dedos brancos.
— Rafa.
Nada.
— Rafael. — O Leo sentou-se e pôs-lhe a mão no peito. — Anjo, estás em casa.
O Rafael abriu os olhos de repente e deu um safanão que lhe torceu a perna, e gritou outra vez, agora de dor a sério.
— Está tudo bem. Estás na cama. Estás comigo.
— Eu…
— Respira.
— Eu não…
— Devagar.
O Rafael ficou ali, sentado, a arfar, com a cara molhada e o coração a bater-lhe visivelmente no pescoço, e o Leo não lhe fez uma única pergunta durante um minuto inteiro.
Depois perguntou.
— O que é que era?
E foi aí que aconteceu a pior parte.
— Eu não sei.
— Não te lembras?
— Não é isso. — O Rafael tinha os olhos muito abertos. — Não havia nada, Leo. Não havia imagem nenhuma.
— Então…
— Havia um barulho. — Estava a tremer. — Havia um barulho muito alto e eu não me conseguia mexer.
O Leo fechou os olhos um segundo.
— Está bem.
— Eu nem sei do que é que estou com medo.
— Eu sei.
— Como é que eu tenho medo de uma coisa de que eu não me lembro?
E o Leo, que tinha dezanove dias de hospital em cima e que sabia exatamente qual era o barulho, e que sabia coisas piores do que essa, puxou-o para si com cuidado por causa do braço e deixou-o encostar a cabeça ao seu peito.
— O corpo lembra-se de coisas que a cabeça não guardou — disse. — Disse-me isso o Lucca há duas semanas e eu não percebi. Agora percebi.
O Rafael ficou ali.
Ao fim de muito tempo, já quase a adormecer, disse uma coisa contra a camisola dele.
— Não me largues.
— Não largo.
🍃 🍃 🍃
O Rafael voltou a adormecer às cinco menos um quarto.
O Leo não.
Ficou deitado de costas, no escuro, com aquele rapaz encostado a ele, e ao fim de algum tempo estendeu a mão para a mesa de cabeceira e pegou no seu telemóvel.
Abriu a aplicação.
61.
Levantou-se com o cuidado de quem desarma uma coisa, foi à cozinha, encheu um copo de sumo e voltou.
— Anjo.
— Hum.
— Bebe isto.
O Rafael bebeu de olhos fechados, sem acordar bem, encostado ao ombro dele, e voltou a adormecer a meio do último gole.
O Leo pousou o copo no chão.
E ficou acordado até ser dia, com o telemóvel em cima do peito e o ecrã aceso de dez em dez minutos, a ver aquele número subir.
Sessenta e oito.
Setenta e quatro.
Oitenta e um.
Mais nada. E podes sair da lista quando quiseres.