04 – Provar o Seu Valor
Não eram só os candidatos que olhavam.
Da mesa do júri, um homem de barba curta e caneta atrás da orelha observava Rafael com um meio sorriso, como quem já percebeu uma coisa e se diverte com ela. Rafael não sabia quem ele era. Sabia só que não conseguia desviar os olhos, e que o homem também não desviava os dele, e que tinha as mãos a suar outra vez.
À mesa, Leo falou antes que o amigo abrisse a boca.
— Nem uma palavra. Eu sei que fiz asneira.
O Henrique pousou a caneta com muito cuidado, como se fosse de vidro.
— Eu não ia dizer nada. — Encostou-se para trás na cadeira. — Só ia dizer que o rapaz parece um anjo. Daqueles das igrejas antigas, com cara de quem desceu por engano.
— Henrique. Não brinques com isso.
Saiu-lhe mais seco do que queria. Mais depressa, também. E Leo percebeu, pela maneira como o sorriso do amigo se apagou devagar, que tinha acabado de se denunciar.
O Henrique olhou para ele um bocado. Depois olhou para o fundo da sala, onde o rapaz louro estava sentado muito direito, com as orelhas ainda vermelhas, a fingir que lia o papel com o programa do dia.
— Leo. — Baixou a voz. — Tens noção do que acabaste de dizer?
— Agora não.
— Tem dezoito anos.
— Eu sei quantos anos tem. — Leo passou a mão pela cara. — Perguntei-lhe. Agora não, por favor. Hoje já fiz asneira que chegue, e acabei de o pôr à frente desta gente toda como se fosse o meu protegido.
O Henrique suspirou.
— Pelo menos reconheces. — E, ainda mais baixo: — Então faz-me um favor e deixa de olhar para ele. O pobre já não sabe onde pôr as mãos.
Leo desviou os olhos na hora. Pegou na lista dos candidatos e obrigou-se a lê-la do princípio ao fim. Treze nomes. Nove raparigas, quatro rapazes. Tinha de ser justo. Fosse o que fosse que se tinha passado lá em baixo, no bar, ali dentro não podia contar para nada.
Levantou-se e pegou no microfone.
— Bom dia a todos.
A sala calou-se de repente. Rafael sentiu a voz dele antes de a ouvir, uma voz grave, um pouco rouca, que enchia o salão sem precisar de ser alta. Sentiu-a na nuca, e depois mais abaixo, ao longo das costas. Endireitou-se na cadeira e cruzou os braços, e não percebeu bem porque é que fazia uma coisa nem outra.
— Sejam bem-vindos à L&L. Sei que muitos de vocês estão nervosos. Eu também estive, no meu primeiro dia neste mundo. Era estagiário numa revista, tinha um bloco de notas numa mão, e mandaram-me entrevistar uma modelo famosa. Esqueci-me de ligar o gravador. — Um riso baixo passou pela sala. — Hoje não procuramos caras perfeitas. Caras perfeitas há muitas. Procuramos pessoas que a câmara queira continuar a ver quando a sessão acaba. A seleção é feita pelo mérito, e só pelo mérito. Confiem no processo, e confiem em vocês.
Passou o microfone ao Henrique e inclinou-se para o ouvido dele.
— São todos teus. No fim dizes-me quem escolheste. E Henrique… nada de favoritismos.
O Henrique olhou para ele de lado.
— Estás a dizer isso a mim, ou a ti?
Leo não respondeu. Pegou no casaco e saiu pelo lado da sala, junto à parede, onde ninguém reparava. Só à porta se permitiu voltar a cabeça. Uma vez só.
O rapaz estava a olhar para ele.
Como é que alguém que conheces há uma hora te faz isto?
A porta fechou-se atrás dele.
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— Muito bem, vamos começar! — O Henrique bateu as palmas. — Primeira prova: desfilam até ao centro, param, fazem uma pose, voltam. Simples. Não inventem.
Alinharam-se junto à parede. Ao lado de Rafael ficou um rapaz alto, moreno, de ombros largos e camisola justa, que o mediu de cima a baixo com um sorriso torto.
— Primeira vez? — perguntou.
— Sim.
— Nota-se.
A Sara, do outro lado, revirou os olhos.
— Não lhe ligues. É o Miguel. Já fez três castings este ano e acha que isso faz dele o Cristiano Ronaldo das passerelles.
Rafael quase se riu. Quase.
Quando chegou a vez dele, o coração batia-lhe tão alto que abafava a música. Deu o primeiro passo e pensou que ia tropeçar. Não tropeçou. Chegou ao centro, parou, levantou o queixo como tinha visto nos vídeos e ficou quieto durante três segundos, os mais compridos da sua vida. Depois voltou para trás, e só quando se sentou é que percebeu que não se lembrava de nada do caminho.
O Henrique escreveu qualquer coisa no bloco. Não disse nada. Mas, ao levantar os olhos, fez-lhe um pequeno aceno com a cabeça.
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A segunda prova foi fotografia. Um fundo branco, um fotógrafo de boné virado para trás, dois minutos para cada um.
— Não quero poses de revista — avisou o Henrique. — Quero ver quem vocês são. Se não souberem quem são, finjam bem.
— Finge que estás sozinho no quarto — sussurrou-lhe a Sara, antes de ele avançar.
Rafael fingiu. Olhou para a lente como se fosse o espelho da manhã. Depois lembrou-se, sem querer, de uns olhos claros do outro lado de uma mesa de bar, e o rosto mudou-lhe sozinho. O fotógrafo baixou a câmara e ficou um segundo a olhar para ele.
— Isso. Faz outra vez isso.
Rafael não sabia o que tinha feito. Corou até ao pescoço. O flash disparou na mesma.
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Foi no intervalo, junto à mesa das garrafas de água, que ouviu.
— Viram como é que ele chegou? — Era a voz do Miguel, baixa, mas não baixa o suficiente. — Pela mão do dono da revista. Há gente que tem sorte.
— Sorte — repetiu uma rapariga de cabelo muito liso, e riu-se. — Chama-lhe sorte, chama.
— Uns trabalham — disse o Miguel. — Outros fazem-se notar.
Rafael ficou parado com a garrafa na mão. Sentiu o calor subir-lhe à cara, mas desta vez não era vergonha. Era outra coisa, mais quente e mais dura, que ele raramente sentia.
A Sara pôs-se ao lado dele.
— Estão com medo de ti — disse, alto o suficiente para os outros ouvirem. — É só isso.
Rafael não respondeu. Pousou a garrafa, fechou-a com cuidado e voltou para o seu lugar. Mas qualquer coisa tinha mudado. Até ali, estava a fazer o casting para ver se era capaz. A partir dali, estava a fazê-lo para provar que merecia estar ali.
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A manhã arrastou-se até à hora de almoço. Provas em dupla, perguntas rápidas, mais fotografias. Quando o Henrique lhe perguntou o que o tinha trazido ali, Rafael respondeu sem pensar:
— Quero saber se sou capaz de uma coisa que me mete medo.
Dois ou três reviraram os olhos. O Henrique escreveu no bloco e sublinhou.
Por volta da uma da tarde, as mãos começaram outra vez a tremer.
Rafael conhecia aquele aviso. Sabia exatamente o que devia fazer: sair um minuto, tirar o estojo preto da mochila, picar o dedo, ver o número. Comer alguma coisa. Mas a mochila estava do outro lado da sala, junto às cadeiras, e o Miguel estava sentado mesmo ao lado dela. E Rafael imaginou-se a abrir o estojo à frente dele, a espetar a agulha no dedo, a ouvi-lo dizer olha, o protegido do chefe ainda por cima é doente, e não foi.
Aguenta. Falta pouco. É só a última prova.
A última prova era a passerelle a sério. Luzes fortes, música alta, a sala às escuras de um lado e um corredor branco a brilhar do outro.
— Rafael Cardoso Wei — chamou o Henrique.
Levantou-se. O chão estava inclinado outra vez. Deu um passo, e outro. As luzes pareciam mais fortes do que um minuto antes, e a música vinha de muito longe, como se tocasse noutro edifício. Sentiu o suor a escorrer-lhe pela testa, frio. Viu o fim da passerelle a afastar-se em vez de se aproximar.
Só mais três passos.
Ouviu alguém dizer o nome dele. Não soube quem.
E depois não ouviu mais nada.
Mais nada. E podes sair da lista quando quiseres.