Capítulo 4 — Provar o Seu Valor
O salão estava cheio de candidatos ansiosos. Rafael sentia-se profundamente incomodado ao perceber que vários olhares recaíam sobre ele. Mas o que mais o perturbava era a atenção insistente de um homem que aparentava ser professor — um olhar maroto, avaliador, que o deixava ainda mais nervoso. Sentia-se exposto, como se todos conseguissem ver a confusão que lhe fervilhava por dentro. Queria desaparecer dali, mas ficou preso ao contacto visual, incapaz de desviar o olhar.
Percebendo o desconforto evidente de Rafael, Leo aproximou-se de Henrique. Antes que o amigo pudesse abrir a boca, Leo adiantou-se, num tom baixo e urgente:
— Não te atrevas a dizer nada. Eu sei que fiz merda. Falamos depois.
Henrique ergueu as sobrancelhas, mas não havia repreensão no seu olhar — apenas divertimento.
— Não ia dizer nada…, mas o rapaz parece mesmo um anjo. Lindo.
O comentário, leve, mas certeiro, atingiu Leo como uma faísca. Henrique estava a brincar, mas também a observar. E Leo sabia disso.
Sentindo-se exposto, talvez até vulnerável, Leo respondeu num impulso que o surpreendeu até a si próprio:
— Para, Henrique. Não brinques com isso.
As palavras saíram-lhe rápidas, mais defensivas do que pretendia. Leo percebeu tarde demais que estava a reagir com um ciúme estranho — não de posse, mas de medo de ser óbvio, de se expor, de comprometer o rapaz.
O sorriso de Henrique desapareceu. O amigo fitou-o com seriedade, como quem vê algo que não esperava.
— Tens noção do que acabaste de dizer?...
A preocupação era evidente. Henrique não estava a julgá-lo — estava a alertá-lo.
Leo passou a mão pelo rosto, exausto.
— Agora não, Henrique. Por favor. Falamos depois. Já fiz merda que chegue por hoje… e acabei de humilhar o pobre garoto perante todos.
Henrique olhou para Rafael, que continuava imóvel, o rosto tingido de vermelho, claramente desconfortável. O rapaz parecia não saber onde pôr as mãos, nem como reagir à atenção que recebia — especialmente a de Leo, que não conseguia deixar de o observar.
Com um suspiro, Henrique murmurou:
— Ainda bem que reconheces. E… deixa de olhar fixamente o pobre coitado, que já não sabe o que fazer.
Era uma brincadeira, mas carregada de verdade. Leo desviou o olhar de imediato, como se só então percebesse o quanto estava a ser evidente.
Rafael, por sua vez, sentia o desconforto crescer. O rubor subia-lhe pelas faces, denunciando cada emoção. A sensação de ser observado deixava-o inquieto, quase sem ar. E, quando percebeu que era o tema da conversa entre Leo e o outro homem, o embaraço intensificou-se, trazendo-lhe um nó na garganta.
Finalmente, Leo afastou o olhar e tentou concentrar-se nos restantes candidatos. Havia cerca de dez pessoas, maioritariamente mulheres, todas bonitas e confiantes. Leo sabia que tinha de ser justo. Por mais que Rafael lhe mexesse com os sentidos, a escolha teria de ser imparcial.
Pegou no microfone. A sua voz grossa e rouca ecoou pelo salão, preenchendo o espaço com autoridade e presença. Rafael sentiu o corpo reagir de imediato — um arrepio quente percorreu-lhe a coluna, deixando-o ainda mais consciente de si próprio. Era como se cada palavra dita por Leo tivesse o poder de tocar num ponto sensível dentro dele, despertando sensações que não sabia nomear.
— Olá a todos! Em primeiro lugar, sejam muito bem-vindos…
Enquanto Leo falava, Rafael tentava controlar a respiração. O som daquela voz deixava-o inquieto, com um calor subtil a espalhar-se-lhe pelo peito e pelo ventre, obrigando-o a ajustar a postura para disfarçar o desconforto. Era impossível ignorar o efeito que Leo tinha sobre ele.
Leo continuou:
— A seleção será feita com base no mérito. Quero que confiem no processo…
Quando Leo terminou e passou o microfone a Henrique, inclinou-se discretamente para o amigo e murmurou:
— São todos teus. No final diz quem escolheste. E, por favor… nada de favoritismos.
Era uma tentativa de se afastar, de recuperar o controlo. Mas, ao virar-se para sair, não resistiu a olhar para Rafael uma última vez.
E Rafael sentiu.
Sentiu como se aquele olhar lhe tocasse a pele.
O pedido de Leo — “nada de favoritismos” — era mais para si do que para Henrique. Precisava de se agarrar a alguma regra antes que o impulso o denunciasse por completo.
Saiu sem esperar resposta, mas a pele parecia ainda sentir o olhar de Rafael preso nele. Quando, instantes depois, se voltou antes de desaparecer pela porta, os olhos de ambos se encontraram uma última vez — breve, intenso, suficiente para lhe confirmar que fugir não ia ser possível.
“Como pode alguém mexer tanto comigo?”, pensou Leo, surpreendido pela força do que sentia.
🍃 🍃 🍃
— Atenção, por favor! Vamos começar com a primeira prova. Peço que todos se alinhem junto à parede.
Rafael levantou-se, sentindo as pernas trémulas. Enquanto se posicionava, cruzou o olhar com um rapaz alto, de ar confiante, que lhe lançou um sorriso desafiante. Rafael sentiu-se pequeno, mas respirou fundo, recordando as palavras de Nuno e o apoio dos pais.
A primeira prova era simples: desfilar até ao centro da sala, parar, posar e regressar. Rafael observou os outros, tentando aprender com cada passo, cada gesto. Quando chegou a sua vez, sentiu todos os olhares sobre si. O coração batia tão forte que quase abafava a música ambiente. Deu o primeiro passo, tentando manter a postura. No centro da sala, parou, ergueu o queixo e deixou-se ficar por um instante, como se o tempo tivesse abrandado. Depois, regressou ao seu lugar, sem se lembrar de como o fizera.
Henrique, responsável pela avaliação, observava atentamente cada candidato, tomando notas num pequeno bloco. O seu olhar era sério, mas transmitia compreensão e incentivo — especialmente quando se detinha em Rafael.
Enquanto aguardava pela próxima prova, Rafael trocou impressões com a rapariga de há pouco e com outros candidatos. O ambiente, apesar da competição, era de partilha e apoio mútuo. Alguns confessavam sonhos antigos, outros apenas curiosidade. Rafael sentiu-se, pela primeira vez, parte de algo maior.
A segunda prova foi anunciada: uma sessão fotográfica improvisada. Henrique explicou as regras com um sorriso encorajador.
— Cada um terá dois minutos para mostrar o melhor de si em frente à câmara. Não se preocupem com poses perfeitas; quero ver atitude e autenticidade.
Os candidatos alinharam-se junto ao fundo branco. Rafael sentiu o nervosismo regressar, mas a rapariga de cabelo encaracolado sussurrou:
— Vais ver que é mais fácil do que parece. Finge que estás sozinho em casa!
O rapaz alto piscou-lhe o olho:
— Força, miúdo. O segredo é não pensar demasiado. — disse Miguel.
Quando chegou a sua vez, Rafael respirou fundo, lembrou-se das palavras de Nuno e tentou esquecer os olhares à sua volta. O flash disparou. Henrique incentivou:
— Muito bem, Rafael! Olha para a câmara, mostra quem és!
Rafael sorriu, mudou de pose, arriscou um olhar mais sério, depois um sorriso tímido. Sentiu-se estranho, mas também livre — como se, por um momento, pudesse ser qualquer coisa.
Quando terminou, a rapariga bateu-lhe no ombro:
— Estiveste ótimo! Aposto que vais passar.
Rafael corou, agradecendo em voz baixa.
A terceira prova foi em grupo: improvisar uma pequena apresentação, como se estivessem numa passerelle real. Henrique dividiu os candidatos em duplas e trios para a dinâmica. Rafael ficou com a rapariga de cabelo encaracolado e com Miguel.
— Vamos fingir que somos estrelas internacionais. — Sugeriu ela, divertida.
O rapaz alto concordou:
— Eu faço de modelo rebelde, tu de estrela pop, e o Rafael… de misterioso!
Riram-se, quebrando o gelo. Quando chegou a vez deles, desfilaram juntos, cada um com o seu estilo. Rafael surpreendeu-se a si próprio, sentindo-se mais confiante a cada passo.
No final, Henrique aplaudiu:
— Muito bem, grupo! Gostei da energia.
Enquanto aguardavam os resultados, os candidatos trocaram impressões.
— Se não ficarmos, pelo menos já valeu pela experiência. — disse a rapariga.
— Concordo.— respondeu Rafael, sorrindo. — Nunca pensei que fosse tão desafiante… e divertido.
O rapaz alto acrescentou:
— E quem sabe, ainda nos cruzamos noutros castings. O mundo da moda é pequeno.
O nervosismo deu lugar a uma expectativa ansiosa, enquanto Henrique se preparava para anunciar os nomes dos selecionados. Ao ver o avaliador sorrir discretamente para ele, Rafael ganhou coragem. Talvez, afinal, estivesse no lugar certo.
As provas sucediam-se, cada vez mais exigentes. Entre desfiles, poses e improvisos, Rafael tentava manter a concentração, mas sentia o corpo a ceder ao cansaço e à fome. Durante uma pausa, alguns candidatos começaram a conversar em voz baixa, lançando olhares furtivos na direção dele.
O rapaz alto aproximou-se do grupo e comentou, num tom malicioso:
— Viram como o Rafael chegou com o Leo? Aposto que já tem meio caminho andado… Não é qualquer um que entra assim, tão próximo do chefe.
Uma das raparigas, com um sorriso enviesado, acrescentou:
— Pois… parece que há quem tenha “apoios especiais”. Uns trabalham, outros… fazem-se notar.
Rafael ouviu os comentários. O rosto aqueceu, o coração acelerou. Tentou ignorar, mas o orgulho ficou ferido. A rapariga de cabelo encaracolado aproximou-se e sussurrou:
— Não ligues. Eles só falam porque estão nervosos. Mostra-lhes quem és.
O ambiente tornou-se mais tenso. Henrique incentivava todos a darem o melhor de si, mas Rafael sentia-se cada vez mais pressionado a provar o seu valor — não só pela competição, mas para mostrar que estava ali por mérito próprio.
A seguir, Henrique propôs uma dinâmica de grupo: cada dupla teria de criar uma pose original em trinta segundos. Rafael ficou emparelhado com o rapaz alto, que não resistiu a provocar:
— Espero que consigas acompanhar. Não quero fazer má figura.
Rafael respirou fundo, ignorou o comentário e surpreendeu-se ao conseguir arrancar um sorriso discreto de Miguel.
Mais tarde, durante uma sessão de perguntas rápidas, Henrique olhou para Rafael:
— O que te inspira a estar aqui hoje?
Rafael hesitou, mas respondeu com sinceridade:
— Quero desafiar-me e provar a mim próprio que sou capaz.
Alguns candidatos sorriram, outros reviraram os olhos, mas Rafael sentiu-se mais leve por ter sido honesto.
À medida que o tempo passava, Rafael começou a perceber que talvez estivesse a exigir demasiado de si próprio, tendo em conta a sua condição física. A fome apertava, mas ele, determinado a não demonstrar fraqueza, decidiu continuar.
Persistente, manteve-se firme na passerelle, onde o objetivo era observar como cada um se comportava durante o desfile. Mas o esforço prolongado começou a manifestar-se: o suor escorria-lhe pelo rosto, sentia-se tonto, confuso, desorientado. O coração batia acelerado e a visão tornava-se turva.
Sem forças para resistir, a escuridão tomou conta dos seus sentidos.