Capítulo 39 — Três Anos Depois
Três anos depois…
Nos bastidores do auditório, Rafael ajeitava a capa pela terceira vez, tentando disfarçar o nervosismo. O coração batia-lhe depressa — não pelo diploma, mas pela sensação de que aquele momento fechava um ciclo inteiro da sua vida.
Ao lado dele, Nuno batia o pé no chão, inquieto.
— Se continuares a mexer nessa capa, ela foge — resmungou Nuno, cruzando os braços.
Rafael soltou um riso nervoso.
— Não consigo. Parece que… isto é demasiado grande.
Nuno virou-se para ele, pousando-lhe a mão no ombro.
— Rafa… tu passaste por tudo. E chegaste aqui, se existe alguém que merece este palco, és tu.
Rafael respirou fundo, emocionado.
— Obrigado, mano.
Nuno sorriu, aquele sorriso maroto e terno que só ele sabia fazer.
— E além disso… — inclinou-se para ele, em tom conspiratório — se desmaiares lá em cima, eu ganho destaque. Portanto, mantém-te firme.
Rafael deu-lhe um empurrão leve.
— Idiota.
— Sempre — respondeu Nuno, rindo. — Mas sou o teu idiota.
Os dois riram juntos, e por um instante, o nervosismo desapareceu.
Uma funcionária abriu a porta e espreitou.
— Preparados? Vocês são os próximos.
Nuno esticou a capa, respirou fundo e murmurou:
— Vamos lá fazer história.
Rafael assentiu.
— Vamos.
🍃 🍃 🍃
O auditório estava cheio, vibrante, iluminado por flashes, vozes e o burburinho alegre de famílias inteiras reunidas para celebrar. Capas negras alinhadas, fitas coloridas, câmaras a disparar — um mar de orgulho e novos começos.
Na terceira fila, Leo estava sentado com o filho ao colo — um menino de três anos, de olhos vivos e sorriso fácil, que balançava as pernas com impaciência. Ainda se lembrava do dia em que Maria lhe batera à porta com aquela pequena vida nos braços e, sem dizer uma única palavra, lho entregara. Nesse instante, quando o menino se calou assim que foi aconchegado nos seus braços, Leo soube, com uma certeza funda, que ele lhe estava destinado. Rafael apoiara essa decisão sem hesitar.
— Papá, quando é que o pai sobe ao palco? — perguntou ele, puxando a manga de Leo.
— Já falta pouco, campeão — respondeu Leo, beijando-lhe o topo da cabeça.
À esquerda deles, Lucca e Luísa estavam de mãos dadas, e entre os dois, a irmãzinha dela que lhes segurava-lhes as mãos como se fosse a ponte perfeita entre os dois. Nos braços de Lucca, a filha dos dois — uma bebé ruiva de olhos curiosos — observava tudo com aquele ar atento e tranquilo que só as crianças muito pequenas têm.
A menina olhava em volta, fascinada, e de vez em quando puxava o braço do Lucca:
— Olha, olha! É o Nuno ali! E o Rafael vai ser chamado já? Posso gritar quando ele subir?
Lucca, completamente rendido, respondia a tudo com uma paciência que ninguém acreditaria que ele tinha.
— Podes gritar, mas não me arranques o braço, princesa.
Luísa ria, encostando a cabeça ao ombro dele, num gesto simples que dizia tudo sobre os dois.
À direita, Henrique e Mário conversavam baixinho, cúmplices, rindo de algo que só os dois entendiam.
Mais atrás, Lorenzo e a esposa observavam tudo com orgulho. Ela, com a barriga já bem visível, acariciava-a com ternura. Ao lado deles, Amélia agitava uma pequena bandeira com o nome do irmão, vibrante como sempre.
Os pais do Rafael estavam na primeira fila, emocionados, a tirar fotografias de tudo e de todos.
Jorge, o irmão mais velho, estava ao lado da esposa grávida, que sorria enquanto ele gritava o nome do irmão como se estivesse num estádio de futebol.
E Luís — agora advogado — estava sentado ao lado da família, à espera de que Nuno fosse chamado. O sorriso dele era de pura admiração.
O microfone chiou, e o auditório silenciou.
— Chamamos agora ao palco… Rafael Wei!
O nome ecoou pelo espaço, a sala explodiu em aplausos. A irmãzinha da Luísa gritou tão alto que até o Lucca se riu. O menino de Rafael saltou do colo de Leo, puxando-lhe a mão com força.
— Papá! É o pai! É o pai!
Leo levantou-se, rindo, e deixou-o correr pelos corredores laterais, enquanto ele seguia atrás, atento.
Rafael subiu ao palco com passo firme, o diploma na mão, o sorriso aberto — um sorriso que dizia tudo o que tinha vivido, tudo o que tinha superado, tudo o que tinha conquistado.
Quando desceu as escadas, o menino correu para ele com toda a força do mundo.
— Pai!
Rafael ajoelhou-se, abriu os braços e recebeu-o num abraço que quase o derrubou, levantou-o ao colo, girando-o no ar, rindo com aquela alegria que só ele tinha.
Leo aproximou-se, e Rafael estendeu a mão livre para ele.
Os três ficaram ali, juntos, num abraço que parecia conter toda a história deles.
À volta, a família inteira aplaudia, os amigos sorriam.
Os casais trocavam olhares cúmplices, e o mundo parecia exatamente no lugar certo.
O microfone voltou a chiar.
— E agora… Nuno Mattos!
Desta vez, foi a vez de Amélia gritar tão alto que até Lorenzo se assustou.
A irmãzinha da Luísa juntou-se ao coro, e Lucca tapou os ouvidos, a rir.
Luís levantou-se de imediato, aplaudindo com um orgulho que lhe iluminava o rosto inteiro.
Nuno surgiu no palco com aquele sorriso meio tímido, meio atrevido que sempre o acompanhara, a capa balançava-lhe nos ombros, e os olhos procuraram instintivamente alguém na plateia, encontraram quem procurava.
Luís.
E nesse instante, o sorriso dele abriu-se por completo.
Recebeu o diploma, agradeceu ao professor, e quando desceu as escadas, Luís já estava a avançar para ele. Nuno riu, quase tropeçando na pressa, e caiu nos braços do namorado num abraço apertado, cheio de emoção e de futuro.
— Conseguiste — murmurou Luís, a voz embargada.
— Nós conseguimos — corrigiu Nuno, encostando a testa à dele.
Ao lado deles, Rafael — ainda com o filho ao colo — sorriu, sentindo o coração aquecer.
Leo aproximou-se, pousando a mão nas costas do Rafael, e juntos observaram o reencontro dos amigos.
Rafael olhou para Leo, depois para o filho, e murmurou:
— Agora sim… está tudo completo.
Leo sorriu, beijando-lhe a têmpora.
— Está. A nossa história… e a deles.
O menino abraçou o pescoço do Rafael com força, rindo.
E naquele instante, Rafael soube — com uma certeza tranquila — que estava exatamente onde pertencia.