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39 – O Recomeço

Foi de madrugada, e não houve música nenhuma.

O Leo tinha adormecido na cadeira com a testa em cima do colchão, e o que o acordou foi a mão dele a mexer-se debaixo da dele. Não um aperto. Um puxão pequeno, de quem quer tirar a mão e não consegue.

Levantou a cabeça.

O Rafael tinha os olhos abertos.

Não estavam a olhar para nada. Estavam abertos, virados para o teto, e havia neles um pânico surdo de animal que acorda num sítio onde não se deitou.

— Anjo.

Nada.

— Anjo, sou eu.

Os olhos dele moveram-se, devagar, com um esforço que se via, e acabaram por o encontrar.

E ficaram lá.

— Leo?

Foi um som e não foi uma palavra, porque ele tinha a garganta em ferida do tubo, mas o Leo percebeu-a como se ela tivesse sido gritada.

— Sou eu. Estou aqui.

O Rafael piscou.

— Onde…

— Estás no hospital. Estás bem, estás seguro, e eu não saí daqui.

E foi só até aí que o Leo conseguiu ir, porque a seguir teve de pôr a mão na boca e chorar como não se chora à frente de um doente, e o Rafael, que não fazia ideia nenhuma do que estava a acontecer, ficou a olhar para ele com a testa franzida, a tentar perceber porque é que aquele homem estava a desfazer-se.

🍃 🍃 🍃

Chamaram o Lucca, e o Lucca chegou em três minutos com a bata por abotoar.

Fez-lhe perguntas simples, com uma voz que não era de irmão.

— Sabes como te chamas?

— Rafael.

— Rafael quê?

— Cardoso… Wei.

— Sabes onde estás?

— Num hospital.

— Sabes quem é este senhor que está aí a chorar?

E o Rafael, com metade da cara a funcionar, fez uma coisa a que a boca dele quase chegou a chamar sorriso.

— É o meu namorado.

O Lucca assentiu, e virou-se de costas durante dois segundos a fingir que procurava uma coisa no bolso.

— Estás com dores?

— Estou.

— Onde?

O Rafael demorou a responder, porque estava a tentar descobrir.

— Em todo o lado.

🍃 🍃 🍃

A família chegou toda antes das sete da manhã.

A D. Clara entrou primeiro e não conseguiu dizer nada durante um bocado. Ficou com a cara do filho entre as mãos, a olhar para ele, a passar-lhe o polegar pela sobrancelha como se estivesse a confirmar uma coisa.

— Mãe, não chores.

— Eu choro o que muito bem me apetecer.

O Jorge riu-se de uma maneira estranha e teve de sair para o corredor.

O Luís chegou-se à cama, abriu a boca para dizer alguma coisa engraçada, e acabou por não dizer nada. Pousou a mão na testa do irmão e deixou-a lá.

E o Sr. Wei parou aos pés da cama.

Ficou ali, com as duas mãos ao lado do corpo, a olhar para o filho.

— Pai.

— Estou a ver-te.

Só isso.

Depois chegou-se, sentou-se na beira da cama, e pegou-lhe na mão com as duas dele, e ficou assim muito tempo sem dizer mais nada, e foi ele o último a sair do quarto nessa manhã.

🍃 🍃 🍃

O Nuno chegou às nove, a correr, e parou à porta.

— Ó parvo.

— Ó parvo tu.

O Nuno começou a chorar de pé, no meio do quarto, com as mãos na cabeça, e o Rafael ficou a olhar para ele sem perceber nada.

— Nuno.

— Que é?

— Porque é que estão todos a chorar?

E foi aí que toda a gente naquele quarto percebeu, ao mesmo tempo, que ele não sabia.

🍃 🍃 🍃

O Lucca tirou-os a todos dali com uma delicadeza que não lhe era costume, e depois sentou-se na cadeira ao lado do irmão do Rafael e explicou.

— Rafael, eu vou fazer-te umas perguntas e tu responde-me o que te vier à cabeça, mesmo que aches que está errado.

— Está bem.

— Qual é a última coisa de que te lembras?

O Rafael fechou os olhos.

Esteve muito tempo calado.

— Estava a chover — disse, por fim. — E eu estava debaixo do alpendre da faculdade à espera de que abrandasse.

— E isso foi quando?

— Não sei. — Abriu os olhos. — Numa quinta? Numa sexta?

— Mais alguma coisa depois disso?

O Rafael ficou a olhar para o teto.

E o Leo viu a cara dele mudar, devagar, à medida que ele foi tentando alcançar uma coisa que não estava lá.

— Não.

— De certeza?

— Não há nada. — A voz dele começou a subir. — Não é que eu não me lembre. É que não há nada. É como quando se vira uma página e a página seguinte é branca.

— Rafael, olha para mim. — O Lucca falou devagar. — Isso é normal.

— Isso não é normal!

— É, sim. — Não levantou a voz uma única vez. — Tu bateste com a cabeça. Quando isso acontece, o cérebro costuma perder o que estava a arrumar no momento, e o que estava a arrumar eram as horas e os dias à volta da pancada. Tem um nome, acontece a toda a gente, e na maior parte das pessoas volta aos bocados.

— E se não voltar?

O Lucca não lhe mentiu.

— Então não volta.

🍃 🍃 🍃

O Rafael ficou calado.

— Hoje é que dia?

— Sexta-feira.

— Sexta-feira de quando?

O Lucca disse-lhe a data.

E o Leo, de pé ao lado da cama, viu-o a fazer a conta.

— Eu perdi cinco dias.

— Perdeste quatro e estiveste a dormir por vontade nossa em três deles.

— Como assim, por vontade vossa?

E o Lucca contou-lhe tudo o que era dele para contar, sem enfeitar nada: a cabeça, o inchaço, a medicação para o pôr a dormir, o fémur partido, a haste dentro do osso, o braço partido em dois sítios, os hematomas. Disse-lhe quantas semanas de cadeira de rodas. Disse-lhe quantos meses de fisioterapia. Disse-lhe que ia voltar a andar e que ia voltar a correr, e disse-lho olhando-o nos olhos para ele poder decidir se acreditava.

O Rafael ouviu tudo sem dizer uma palavra.

E, quando o Lucca acabou, fez a única pergunta que lhe interessava.

— E o que é que me aconteceu?

🍃 🍃 🍃

Foi a primeira vez que o Leo teve de tomar aquela decisão, e ele soube, no momento em que a tomou, que ia ter de a tomar outra vez todos os dias.

O Lucca olhou para ele.

Foi um olhar de meio segundo, e o que estava lá dentro era uma pergunta.

E o Leo abanou a cabeça.

— Foste atropelado à porta da faculdade, à hora de almoço — disse o Lucca, virando-se outra vez para o rapaz na cama. — Ias a atravessar na passadeira com o Nuno, com o sinal verde. O carro não parou.

— E apanharam-no?

— Apanharam.

— Ainda bem.

O Rafael fechou os olhos.

— Eu não me lembro de nada disso.

— Eu sei.

— Eu nem sequer me lembro de ter tido medo.

E o Leo, que estava encostado à parede, teve de olhar para a janela.

Porque era verdade: aquele rapaz tinha sido o único, de todas as pessoas envolvidas naquilo, a quem tinha sido poupado o susto.

🍃 🍃 🍃

Ao princípio da tarde, quando ficaram sozinhos, o Rafael puxou-lhe a mão.

— Carinho.

O Leo virou-se tão depressa que bateu com o cotovelo na grade da cama.

— Diz.

— Anda cá.

O Leo sentou-se na beira da cama.

E o Rafael olhou para ele durante muito tempo, com aquela cara toda partida e um olho ainda meio fechado, e disse uma coisa que lhe caiu em cima como um telhado.

— Tu estás com um ar horrível.

— Obrigado.

— Não, a sério. — Estava a falar devagar, porque falar cansava-o. — Tu estás com um ar de quem não dorme há uma semana.

— Eu estou bem.

— Tu não estás nada bem.

O Rafael ficou a olhar para ele.

E depois, com a mão que tinha livre, a que não estava engessada, puxou-lhe a manga.

— Vem para aqui.

— Rafael, tu tens um fémur partido.

— Do outro lado não tenho nada partido.

— Eu não vou…

— Leo. — E foi a primeira vez que ele o disse com aquela voz. — Eu acordei há oito horas e tu ainda não me tocaste.

E era verdade.

O Leo tinha-lhe pegado na mão a semana toda enquanto ele dormia e, desde que ele tinha aberto os olhos, não tinha sido capaz de fazer mais nada do que estar de pé encostado à parede.

Não por falta de vontade.

Por outra coisa.

Sentou-se com cuidado do lado esquerdo, com medo de lhe bater em qualquer coisa, e o Rafael encostou a cabeça ao ombro dele, com esforço e mal, e ficou assim.

— Pronto — disse. — Agora sim.

🍃 🍃 🍃

Ficaram calados um bocado.

— Leo.

— Hum.

— A última coisa de que eu me lembro de ti é de uma coisa boa.

O Leo fechou os olhos.

— Ai é?

— É. — O Rafael tinha os olhos fechados e estava a falar quase a dormir. — Estávamos os dois na tua sala e tu estavas com os meus pés debaixo de uma almofada, e estavas a queixar-te de que eu tinha os pés gelados.

Aquilo não tinha acontecido em nenhuma das noites de que eles se lembravam ao mesmo tempo.

Ou tinha acontecido em todas.

— Foi isso que ficou — disse o Rafael.

— Foi boa coisa para ficar.

— Pois foi.

E adormeceu.

O Leo ficou com ele ao ombro, sem se mexer, com a coisa toda a arder-lhe no peito: o domingo à noite, a mesa baixa, o dedo apontado, a porta, o autocarro, a chamada das oito e vinte, o sim, mãe, o amanhã.

Uma noite inteira em que aquele rapaz tinha sido mais adulto do que ele.

E tudo isso tinha desaparecido do mundo, porque a única pessoa que o tinha guardado do outro lado já não o tinha na cabeça.

O Leo era agora o único dono daquela discussão.

Eu conto-lhe, pensou. Eu conto-lhe tudo. Mas não hoje, que ele acordou hoje.

E, porque era um homem que já tinha aprendido alguma coisa, acrescentou a si próprio uma segunda frase, e essa é que lhe custou.

E se eu andar a dizer isto a mim próprio todos os dias, alguém me tem de puxar as orelhas.

🍃 🍃 🍃

Ao fim da tarde, a D. Clara e o Sr. Wei voltaram, e trouxeram a conversa que tinha de vir.

— Filho, nós já falámos com o médico. — A D. Clara sentou-se. — Quando te derem alta, ainda vais estar de cadeira de rodas umas semanas e vais precisar de ajuda para tudo. Para tudo mesmo.

— Eu sei.

— A nossa casa tem escadas até ao teu quarto e a casa de banho é lá em cima.

O Rafael olhou para o pai.

— Nós arranjamos maneira — disse o Sr. Wei. — Pode-se pôr uma cama na sala.

Houve um silêncio.

E depois o Rafael, que tinha a voz de alguém que esteve quatro dias a dormir e que não tinha força nenhuma para nada, disse aquilo com uma clareza que não se discute.

— Eu quero ir para casa do Leo.

O Leo levantou a cabeça.

— Rafa…

— Espera. — O Rafael continuou a olhar para os pais. — A casa dele é toda no mesmo piso, tem a casa de banho grande e não tem um único degrau à entrada. Isso é a parte prática, e vocês sabem que eu tenho razão.

A D. Clara não disse nada.

— E a parte que não é prática é que eu quero. — Engoliu, e foi um esforço. — Eu quero acordar ao pé dele. Não é por causa disto. Eu já queria antes disto.

O Sr. Wei olhou para a mulher.

A D. Clara pegou na mão do filho.

— Eu ia dizer-te exatamente a mesma coisa — disse. — Só estava à espera de que fosses tu a dizê-la primeiro.

E o Sr. Wei, que estava aos pés da cama com as mãos atrás das costas, acrescentou a única condição daquela casa.

— Nós vamos lá todos os domingos.

— Vão.

— E se ele te tratar mal…

— Pai.

— Eu sei. — O Sr. Wei fez um gesto com a mão. — Estava só a ver se ele ainda se ria.

🍃 🍃 🍃

Nessa noite, quando se apagaram as luzes do corredor, o Rafael virou a cabeça para a mesa de cabeceira.

— O meu telemóvel está aí?

O Leo endireitou-se na cadeira.

— Está. Está carregado. Eu trouxe o carregador na terça-feira.

— O ecrã partiu-se?

— Um bocadinho num canto.

O Rafael estendeu a mão, pensou melhor, e deixou-a cair outra vez em cima do lençol.

— Amanhã.

O Leo ficou a olhar para ele.

— Está bem — disse. — Amanhã.

E ficou acordado muito depois de ele adormecer, a olhar para aquele telemóvel apagado em cima da mesa, sem ter maneira nenhuma de adivinhar o que é que estava lá dentro à espera dos dois.

Quando sair o próximo livro, queres saber?

Mais nada. E podes sair da lista quando quiseres.

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