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38 – A Face da Loucura

O Luís estava à porta da esquadra, de braços cruzados, e o Lorenzo ao lado dele a bater com o pé no chão sem dar por isso.

Endireitaram-se os dois quando viram o Leo e o Lucca sair do carro.

— O Rui está lá dentro. — O Luís tinha a boca seca. — Disse-me para não te preparar para nada, porque não há maneira de preparar.

Entraram.

Aquele edifício cheirava a café velho e a papel, e o corredor era de um verde que ninguém escolhe. O Leo ia a contar os passos sem dar por isso.

O Lucca pôs-lhe a mão nas costas e não a tirou.

🍃 🍃 🍃

O Rui estava numa sala pequena, com um dossiê aberto à frente e a manga da camisa dobrada.

Levantou-se assim que eles entraram.

Era mais novo do que o Leo estava à espera. Tinha a idade do Luís, portanto, e uma cara de quem não dorme desde segunda-feira.

— Sentem-se.

Sentaram-se.

— Vou ser direto, porque não vos vou fazer isto devagar. — Pousou a mão em cima do dossiê. — Temos a matrícula, temos o carro, e temos a pessoa. Foi detida esta manhã às sete e vinte, em casa dela. O carro estava na garagem com a frente amolgada e não tinha sido lavado.

O Luís fechou os olhos.

— Confessou? — perguntou o Lorenzo.

— Confessou. — O Rui hesitou meio segundo. — Mas a maneira como confessou é o assunto desta reunião.

— Como assim?

O Rui olhou para o Leo.

E o Leo percebeu, naquele olhar, que a próxima coisa que ia acontecer naquela sala tinha que ver com ele.

— Antes de eu dizer o nome, quero deixar uma coisa clara: isto não foi um desconhecido, não foi uma distração e não foi obra do acaso. — Abriu o dossiê. — E a pessoa que conduzia aquele carro não tinha nada contra o Rafael.

— Então porque é que…

Foi nessa altura que se ouviu o barulho no corredor.

Passos a mais. Uma voz de mulher, alta, a dizer uma coisa que ninguém percebeu. Um agente a dizer minha senhora duas vezes.

O Rui pôs-se de pé com uma cara que não era de surpresa. Era de raiva.

— Eu disse que a levassem pelas traseiras.

Abriu a porta e, ao abri-la, deixou de ter maneira de a fechar.

🍃 🍃 🍃

Ela estava no corredor, entre dois agentes, com um casaco escuro e o cabelo apanhado.

Era exatamente como a Luísa a tinha descrito, e o Leo percebeu isso com uma clareza doentia: morena, arranjada, bonita de uma maneira que dava trabalho de manhã.

E estava a olhar para ele.

Não para o Rui, nem para os agentes, nem para a porta.

Para ele.

E a cara dela abriu-se toda.

— David.

O Leo pôs-se de pé sem saber porquê.

— Minha senhora, vamos por aqui…

— David!

Ela largou-se do braço do agente com uma força que ninguém estava à espera e entrou pela sala dentro, e antes de alguém lhe chegar ao pé já tinha os braços à volta do pescoço do Leo.

Cheirava àquele perfume.

— Eu sabia. — Estava a chorar e a rir-se ao mesmo tempo, encostada a ele. — Eu sabia que tu vinhas. Eu disse-lhes que tu vinhas.

O Leo ficou de braços abertos, a olhar por cima do ombro dela para o irmão, com uma expressão de um homem a quem alguém tinha acabado de deitar água a ferver em cima.

— Eu não sou o David.

— Claro que és.

— Eu chamo-me Leo.

— Tu estás a fazer isso por causa deles. — Afastou-se um bocadinho, e pôs-lhe as duas mãos na cara, e o Leo não conseguiu mexer-se. — Não faz mal, meu amor. Eu já tratei de tudo.

O Lucca deu um passo.

— Senhora…

— Já não há nada no caminho. — Ela continuava a olhar só para o Leo, e a voz dela era doce, e era isso o pior de tudo. — Eu fiz o que tu não podias fazer. Tu não podias, eu percebo, tu tinhas de ficar bem visto. Mas eu fiz.

O Luís, atrás, tinha a mão na boca.

— O que é que a senhora fez? — perguntou o Leo.

E ouviu a própria voz sair de muito longe.

— Tirei-o do caminho.

A sala inteira ficou sem ar.

— O rapaz — continuou ela, e disse aquilo como quem fala de uma mala que se pôs na arrecadação. — Ele estava sempre contigo. Andava sempre atrás de ti. Eu vi-vos na rua, David, eu vi-te a pôr-lhe a mão no pescoço à frente de toda a gente, e eu sei que tu não fazias aquilo por vontade tua.

— Eu amo aquele rapaz.

— Não. — Ela sorriu. — Tu amas-me a mim. Tu e eu e o nosso filho.

E pousou a mão na barriga.

E foi ali, com aquele gesto, que o Leo percebeu a coisa toda de uma vez, e teve de se agarrar às costas de uma cadeira.

— Vera. — Foi a primeira vez que disse o nome dela em voz alta desde outubro. — Vera, olhe para mim. Eu não sou o seu marido.

O sorriso dela vacilou.

Vacilou um segundo e voltou.

— Tu sempre gostaste de me fazer zangar.

— Rui, tira-a daqui — disse o Lucca, e tinha uma voz que o Leo não lhe conhecia. — Agora.

Os agentes agarraram-na pelos braços.

E ela começou a gritar.

Gritou até ao fim do corredor, e gritou ainda depois de a porta se ter fechado, e o que ela gritava não era nada de assustador. Era pior. Era o nome de um homem morto, e pedidos para ele não deixar que a levassem, e uma coisa sobre o filho.

O Leo sentou-se.

Não foi uma decisão.

🍃 🍃 🍃

Levaram um bom bocado a conseguir falar outra vez.

O Rui foi buscar um copo de água e pô-lo à frente do Leo, e pediu desculpa duas vezes por aquilo ter acontecido, e explicou que era para ela sair por outro lado e que alguém tinha feito asneira.

Ninguém o culpou. Ninguém tinha cabeça para culpar seja quem fosse.

— Ela chama-se Vera Monteiro. Tem trinta e quatro anos e é professora de artes visuais. — O Rui falava devagar. — Era casada. O marido chamava-se David Monteiro.

Abriu o dossiê e tirou de lá uma fotografia.

Pousou-a na mesa e empurrou-a para o Leo.

E o Lorenzo, que estava a olhar por cima do ombro dele, deixou escapar um som.

Não era igual. Era pior do que igual: era daquelas parecenças que não se conseguem apontar com o dedo. A altura, a maneira de pôr os ombros, o cabelo, qualquer coisa nos olhos. Um homem que se cruzava com o Leo na rua e que, se estivesse escuro, dava para confundir.

— Meu Deus — disse o Lucca.

— Há dois anos e meio houve um acidente numa estrada nacional — continuou o Rui. — Ela ia a conduzir. Ele morreu no local. — Uma pausa. — Ela estava grávida de sete meses.

O Luís encostou-se à parede.

— O bebé não sobreviveu — disse o Rui. — E a investigação concluiu que ela tinha acelerado de propósito.

Ninguém disse nada.

— Esteve internada. Fugiu três vezes. À terceira, ninguém mais lhe pôs a vista em cima, e isso foi há catorze meses. — Fechou o dossiê. — Até segunda-feira.

— E encontrou-me a mim — disse o Leo.

— Encontrou-o a si.

🍃 🍃 🍃

Foi aí que o Rui tirou a outra folha.

— Sr. Mattos, eu preciso de lhe fazer umas perguntas e vou fazê-las agora, à frente da família, porque a família vai ter de saber isto de qualquer maneira.

O Leo levantou a cabeça.

E soube, antes de a pergunta chegar, qual é que ela era.

— Nós fomos ver o telemóvel dela. — O Rui pousou a folha na mesa e virou-a. — São quarenta e uma mensagens, de sete números diferentes, entre dia dois de outubro e domingo passado. Todas para o mesmo destinatário. E o destinatário é o senhor.

Houve um silêncio na sala que o Leo sentiu na pele.

— Sim.

— O senhor recebeu-as todas?

— Recebi.

— Respondeu a alguma?

— Só à primeira. Perguntei quem era.

— E bloqueou os números.

— Bloqueei três. Depois deixei de bloquear.

— Porquê?

O Leo olhou para a mesa.

— Porque enquanto elas chegavam eu sabia que ela existia.

O Rui assentiu, como quem já tinha ouvido aquilo antes a outras pessoas, e continuou.

— Há registo de uma ida dela a um estabelecimento seu em outubro. Um bar chamado Refúgio.

— Há.

— Foi barrada à porta e perguntou por um rapaz.

— Perguntou se ele era meu.

— Quando é que isso foi?

— No primeiro domingo de outubro.

O Lorenzo virou-se devagar na cadeira.

O Leo sentiu-o virar-se e não olhou.

— Flores?

— Duas vezes. Rosas brancas, sem cartão. Uma no escritório e outra em minha casa.

— Um veículo estacionado à porta da residência dos pais do Rafael Cardoso Wei?

— Duas vezes que eu saiba. Uma o pai dele comentou à mesa.

— E um veículo à porta do lar onde está a sua mãe?

— Uma quinta-feira, no fim de novembro. — A voz do Leo estava a ficar mais baixa e mais firme ao mesmo tempo. — Fiquei parado no passeio a olhar para ele e não consegui ver a matrícula.

O Rui pousou a caneta.

— Sr. Mattos, o senhor sabia que andava uma pessoa a segui-lo há dois meses.

— Sabia.

— E não apresentou queixa.

— Não.

— Porquê?

E ali, naquela sala pequena, com o irmão de um lado, o irmão dele do outro e o irmão do Rafael encostado à parede, o Leo disse a coisa em voz alta pela primeira vez.

— Porque eu achei que resolvia sozinho.

🍃 🍃 🍃

O Lorenzo levantou-se da cadeira.

Não disse nada. Foi até à janela e ficou de costas para a sala, com as mãos nas ancas.

O Luís continuava encostado à parede.

— Sr. Mattos. — O Rui falou com um cuidado que não era profissional, era outra coisa. — Eu vou dizer-lhe uma coisa e o senhor é que sabe o que faz com ela. Uma queixa em outubro dava uma folha num processo. Não dava vigilância, não dava proteção e provavelmente não dava nada. Eu estou nisto há onze anos e conheço vinte casos destes.

— Está a tentar consolar-me.

— Estou a tentar impedi-lo de dizer a si próprio uma coisa que não é verdade. — O Rui olhou-o nos olhos. — Aquele rapaz está naquela cama por causa de uma mulher doente que decidiu que ele estava a mais. Não por causa do senhor.

O Leo assentiu com a cabeça.

Não acreditou numa palavra.

🍃 🍃 🍃

À porta da esquadra ninguém sabia o que fazer com as mãos.

O Lorenzo acendeu um cigarro, e ele não fumava havia nove anos.

— Tu contaste ao Henrique — disse, sem olhar para o irmão. — Foi ele que me ligou a dizer que não te deixasse conduzir. Ele sabia.

— Sabia.

— Desde outubro?

— Desde a primeira semana.

O Lorenzo tirou uma fumaça e ficou a olhar para a rua.

— Eu sou teu irmão, Leo.

— Eu sei.

— Tu tens trinta e dois anos e ainda não percebeste que não tens de fazer as coisas todas sozinho.

E isso doeu mais do que se ele tivesse gritado.

O Luís aproximou-se. Tinha os olhos vermelhos e uma calma esquisita.

— Leo.

— Diz.

— Eu não te vou dizer nada agora, porque agora eu não estou bom da cabeça e porque o meu irmão está numa cama. — Engoliu. — Mas isto vai ter de ser falado.

— Eu sei.

— E não sou eu que to vou fazer. — O Luís passou a mão pela cara. — Tu vais ter de contar isto lá em casa. Hoje.

🍃 🍃 🍃

Contou.

Foi na sala de espera do sétimo piso, com o café da máquina a arrefecer em cima da mesa e a D. Clara ainda com o casaco vestido, e ele ficou de pé porque lhe pareceu que aquilo não se dizia sentado.

Contou tudo por ordem. O clube, em maio, antes de conhecer o Rafael. O telefonema do Henrique em outubro. As flores. As mensagens, e quantas. Os carros. A noite em que abriu a boca para lhe dizer e disse nada. E a discussão de domingo.

Enquanto falava, foi vendo as caras a mudarem, e não conseguiu parar de as ver.

Quando acabou, houve um silêncio longo.

A D. Clara foi a primeira a falar.

— Senta-te.

— Clara…

— Senta-te, que tu não te aguentas de pé.

O Sr. Wei não disse nada.

Ficou sentado onde estava, com as mãos nos joelhos, a olhar em frente, e foi isso que o Leo levou consigo: não uma censura, mas um homem que tinha ouvido e que não tinha nada para dizer naquele momento.

E depois o Jorge levantou-se.

🍃 🍃 🍃

— Dois meses.

— Jorge — disse a D. Clara.

— Não, mãe. Dois meses.

O Jorge atravessou a sala e parou à frente do Leo, e não levantou a voz nem uma vez, o que foi muito pior.

— Tu lembras-te do que me disseste no quintal lá de casa, em outubro?

— Lembro.

— Disseste-me que querias ser o porto seguro dele. — Estava a olhá-lo nos olhos. — Disseste-me aquilo ao pé do canteiro da minha mãe, com a cara direita, e eu acreditei em ti.

O Leo não desviou os olhos, e foi a única coisa que ele conseguiu fazer bem naquele dia.

— Disse.

— E nessa altura já sabias.

— Já.

— Nessa altura já uma mulher tinha ido perguntar por ele à porta do teu bar.

— Já.

O Jorge abanou a cabeça devagar.

— E eu ainda te perguntei quem é que te segurava a ti. Lembras-te do que me respondeste?

O Leo fechou os olhos.

— Que estava habituado a segurar-me sozinho.

— Pois. — E aí a voz do Jorge começou a tremer. — Eu fiquei a olhar para o canteiro e pensei que era só um homem orgulhoso. Não era. Era isto.

— Eu não estou zangado por tu teres medo. Toda a gente tem medo. — Apontou-lhe o dedo ao peito, sem lhe tocar. — Eu estou zangado porque tu tinhas aqui uma casa cheia de gente. Tinhas o meu pai, que te recebeu à mesa. Tinhas o Lorenzo. Tinhas o Luís, que é quase advogado. Não é polícia, mas é irmão dele e tem carro. — A voz partiu-se-lhe. — Tinhas-me a mim. Eu tinha-te dito, naquele quintal, que me agradecesses daqui a uns anos, se ainda estivesses cá.

— Jorge.

— E tu escolheste não dizer nada a ninguém desta família. — Recuou um passo. — E agora o meu irmão está a dormir ali dentro com a perna em ferros.

O Leo ficou de pé, à frente dele, sem uma única palavra na boca que prestasse.

— Tens razão — disse.

E o Jorge, que ia a meio da respiração seguinte, ficou desarmado, porque tinha ido para ali preparado para discutir.

Virou costas, deu três passos e ficou a olhar pela janela.

🍃 🍃 🍃

Foi a D. Clara quem falou a seguir.

— Já acabaram?

Ninguém respondeu.

— Então ouçam-me, porque eu só digo isto uma vez. — Estava sentada, com as mãos no colo, e não levantou a voz. — Aquela mulher está doente e vai ser tratada, e o meu filho vai acordar, e nós vamos ter meses pela frente de médicos e de fisioterapia e de noites más. E eu não vou ter uma família dividida enquanto isso acontece.

Olhou para o filho mais velho.

— Jorge, tu disseste o que tinhas a dizer e disseste bem. Já está dito.

Olhou para o Leo.

— E tu ouviste, e fizeste bem em ouvir. Também já está.

Levantou-se.

— Agora há uma coisa muito mais difícil do que esta que ainda ninguém falou, e eu quero-a resolvida hoje. — Respirou. — Quem é que lhe conta?

O Leo levantou a cabeça.

— Eu.

— Leo…

— Eu — repetiu. — Eu conto-lhe tudo, desde a primeira mensagem até hoje, e conto-lhe sem tirar nada nem pôr nada, e conto-lhe quando o Lucca me disser que ele aguenta ouvir.

— E se ele não te perdoar? — perguntou o Jorge, da janela, sem se virar.

— Então não me perdoa.

O Leo disse aquilo com uma calma que não tinha em nenhum outro assunto.

— Mas quem lho tem de dizer sou eu. Esta é a única coisa que eu ainda posso fazer direita, e não vou estragar essa também.

O Sr. Wei levantou-se da cadeira.

Foi a primeira vez que se mexeu desde que o Leo tinha começado a falar.

Atravessou a sala, parou à frente dele e pôs-lhe a mão no ombro, uma vez só.

— É assim que se faz — disse.

E foi buscar café para toda a gente.

🍃 🍃 🍃

Entrou no quarto já passava das dez.

O Nuno tinha adormecido na cadeira com a cabeça em cima da cama e alguém lhe tinha posto um casaco por cima.

O Leo acordou-o com cuidado e mandou-o para casa, e ficou sozinho.

Sentou-se.

Pegou-lhe na mão.

E, pela primeira vez em cinco dias, não teve nada para lhe contar.

Ficou ali, a olhar para aquela cara, a pensar na conversa que ia ter de ter com ele qualquer dia daqueles, numa cadeira igual àquela, com aquelas mesmas palavras todas por ordem.

— Amanhã não — disse, baixinho. — Nem depois de amanhã.

A mão do Rafael fechou-se à volta da dele.

O Leo fechou os olhos.

— Eu sei. Eu também não te queria dizer nada.

E ficou a noite inteira acordado, com a mão dele na dele, a olhar para uma linha no telemóvel que subia e descia como se o mundo continuasse a funcionar.

Quando sair o próximo livro, queres saber?

Mais nada. E podes sair da lista quando quiseres.

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