37 – Aperta a Minha Mão
A manhã entrou devagar por aquela janela, com uma luz cinzenta de novembro que não servia para nada.
O Leo acordou com o pescoço torto e a cara marcada pelo lençol.
Durante um segundo não soube onde estava, e foi o melhor segundo dos três dias seguintes. Depois viu o monitor, e o braço engessado, e o tubo por baixo do nariz, e lembrou-se de tudo ao mesmo tempo, que é como a gente se lembra destas coisas.
Endireitou-se na cadeira.
— Bom dia, carinho.
Ainda tinha a mão dele na dele.
🍃 🍃 🍃
Levaram-no para o bloco às oito e vinte.
O Leo acompanhou a cama até ao sítio onde já não podia ir e ficou parado no corredor a ver as portas fecharem-se, e teve de encostar a mão à parede.
A operação à perna durou três horas e vinte minutos.
Ele contou-as todas.
A D. Clara chegou às nove com um saco de roupa lavada e uma escova de dentes para o Leo, que ela tinha comprado na farmácia do hospital sem lhe perguntar nada, e sentou-se ao lado dele naquele corredor.
Não falaram muito.
A certa altura ela disse:
— Tu tresandas a hospital.
— Eu sei.
— Isso não é uma censura. É um facto. — Deu-lhe uma palmadinha no joelho. — Vai tomar um duche naquela casa de banho do fundo e veste a camisola que eu trouxe, que é do Jorge e serve-te. Eu fico aqui e não saio daqui, e se aquela porta se abrir eu grito por ti.
O Leo foi.
E, debaixo daquela água, com a testa encostada aos azulejos, chorou o que não tinha chorado à frente de ninguém.
🍃 🍃 🍃
O Lucca veio ter com eles ao princípio da tarde, ainda com a touca na mão.
— Correu bem.
A D. Clara levou as mãos à boca.
— Puseram-lhe uma haste dentro do osso da coxa, que é o que se faz nestas idades e que é o que agarra melhor. Vai andar, vai correr, e daqui a uns anos só se lembra disto quando mudar o tempo. — Sentou-se no banco à frente deles, com os cotovelos nos joelhos. — A cabeça está igual desde ontem à noite. Igual é bom. Igual é o que nós queríamos.
— E agora?
— Agora esperamos. — O Lucca olhou para o irmão. — E, se a pressão se mantiver assim até amanhã, começamos a baixar-lhe a medicação devagarinho. Não é acordar. É deixá-lo subir sozinho, um degrau de cada vez.
O Leo assentiu.
— Lucca.
— Está feito.
— O quê?
— O sensor. — O irmão tirou o telemóvel do bolso, mexeu nele e virou-lho. — Pusemos-lho no braço direito, porque o esquerdo está engessado. Instala a aplicação outra vez e mete este código.
O Leo pegou no telemóvel com as duas mãos.
Demorou três minutos a fazer aquilo, porque os dedos não lhe acertavam nas letras.
E depois apareceu.
Uma linha, no ecrã, a andar da esquerda para a direita, com um ponto novo de cinco em cinco minutos.
118.
O Leo ficou a olhar para aquele número, sentado num banco de corredor, com uma camisola emprestada que lhe ficava larga nos ombros.
Cento e dezoito.
Estava vivo, e estava a fazer contas, e alguém naquele edifício estava a tomar conta daquilo.
— Obrigado.
— Não é nada.
— É tudo — disse o Leo.
E o Lucca, que não era homem de grandes cenas, levantou-se e foi-se embora antes que fosse preciso dizer mais alguma coisa.
🍃 🍃 🍃
Nessa noite o Leo levou o carregador.
Ligou o telemóvel do Rafael à corrente, na mesa de cabeceira, e ficou a ver a bateria subir com a atenção parva de quem não tem mais nada para fazer.
Ao fim de vinte minutos o ecrã acendeu-se.
Estalado num canto, mas acendeu-se.
E pediu-lhe um código de quatro algarismos.
O Leo ficou a olhar para aquilo.
Tentou o dia dos anos dele. Não era.
Tentou o dia dos anos dele ao contrário. Não era.
E depois parou, porque percebeu uma coisa parva e triste ao mesmo tempo: que ele nunca tinha visto aquele rapaz a desbloquear o telemóvel à frente dele. Não porque o escondesse, mas porque nunca lhe tinha ocorrido olhar.
Pousou-o na mesa de cabeceira, virado para cima, a carregar.
— Depois dizes-me tu.
🍃 🍃 🍃
Os dias seguintes foram todos iguais e nenhum foi igual.
O hospital tem um horário e as pessoas acabam por entrar nele. Às sete mudavam o turno. Às oito e meia vinha a enfermeira da manhã, que se chamava Sandrina e que ao terceiro dia já tratava o Leo por Leo. Ao meio-dia o Lucca passava, estivesse ou não de serviço. À tarde era a D. Clara, e ao fim do dia o Sr. Wei, que se sentava no mesmo sítio e ficava calado o mesmo tempo.
O Leo falava com ele.
Ao princípio custou-lhe, porque falar para alguém que não responde é uma coisa que faz um homem sentir-se ridículo. Depois deixou de custar.
Contou-lhe como estava o tempo. Contou-lhe que a Luísa estava a segurar a revista sozinha e que ele não sabia como. Contou-lhe que o Nuno tinha ficado em casa e que a Amélia lhe fazia chá e lhe lia em voz alta até ele adormecer, e que o Nuno, que detestava chá, estava a beber o chá todo.
Contou-lhe coisas que não interessavam nada, que era o que ele queria ouvir, se estivesse a ouvir.
E, à noite, quando não estava lá ninguém, ficava calado a olhar para a linha do telemóvel.
Cento e dez. Noventa e quatro. Cento e dois.
Aquele gráfico, que não servia para nada e que o Lucca lhe tinha dito na cara que não servia para nada, era a única coisa naquele hospital que dizia ao Leo, de meia em meia hora, que o rapaz dele continuava a fazer coisas.
🍃 🍃 🍃
A Luísa apareceu à quarta-feira, ao fim da manhã.
Chegou com um saco de papel numa mão e uma pasta debaixo do braço, atravessou aquele corredor como quem já lá tinha estado (não tinha) e parou à frente dele sem lhe fazer nenhuma das perguntas que toda a gente lhe fazia.
— Senhor Leo.
O Leo levantou a cabeça.
— Luísa.
— Trago três coisas e depois vou-me embora. — Pousou o saco no banco ao lado dele. — Isto são camisas. São suas, fui buscá-las a sua casa com o Henrique, ele abriu-me a porta e eu não mexi em mais nada.
— Luísa…
— A segunda. — Abriu a pasta. — Isto tem de ser assinado por si e não há ninguém que possa assinar por si, senão eu não vinha cá. São quatro folhas e eu trago a caneta.
Estendeu-lha.
O Leo assinou as quatro folhas em cima do joelho, sem ler uma única linha, e foi só ao devolver-lhas que reparou nela.
Tinha os olhos inchados e a maquilhagem posta por cima.
— E a terceira?
— A terceira é uma lista de decisões que eu tomei sozinha esta semana e que o senhor tem o direito de saber. — Falava depressa, como quem já ensaiou. — A capa de dezembro foi para a gráfica na segunda, com a versão que o senhor tinha aprovado. Adiei as reuniões todas para janeiro, menos a do papel, que essa fui eu. Disse à equipa que o senhor está com um assunto de família e não disse mais nada, e a única pessoa a quem eu contei foi à Dona Fernanda da contabilidade, porque ela ia dar por isso à mesma e é melhor saber por mim.
— Luísa.
— Ainda não acabei. — Fechou a pasta. — E, se houver qualquer coisa que eu não saiba resolver, eu ligo-lhe. Se eu não lhe ligar, é porque resolvi.
Houve um silêncio.
— Você entrou nesta casa em julho — disse o Leo.
— Entrei.
— E está a segurar um edifício de duzentas pessoas.
— Estou a segurar uma semana. — Encolheu os ombros. — O edifício é seu, eu só não o deixei cair.
Depois olhou para a porta do quarto, e a voz dela mudou uma vez só.
— Como é que ele está?
— Está a dormir. Estão a baixar-lhe a medicação.
A Luísa assentiu com a cabeça.
— Está bem. — E pegou na pasta. — Então eu vou andando, que o senhor não precisa de mais gente aqui a ocupar-lhe uma cadeira.
— Luísa.
— Diga.
— Obrigado.
— Não é preciso. — Já estava a andar. — Coma o que está no fundo do saco, que eu vi o que vocês vendem nesta cafetaria.
E foi-se embora.
🍃 🍃 🍃
O Lucca viu aquilo tudo do fundo do corredor, encostado ao balcão da enfermagem, com um processo aberto na mão e sem ler uma palavra dele há dois minutos.
Viu uma mulher entrar a direito, resolver o que tinha para resolver, não chorar, não se sentar, não pedir nada a ninguém.
E, sobretudo, viu-a ir-se embora depressa.
Chegou-se ao irmão quando ela já tinha virado a esquina.
— Aquela é a tua secretária?
— É a Luísa. — O Leo tinha o saco de papel aberto ao colo e estava a olhar lá para dentro. — Trouxe-me camisas.
— Hum.
— E comida.
— Pois.
E o Lucca ficou ali mais um bocado, a olhar para o fundo do corredor vazio, com o processo na mão.
Depois foi trabalhar.
O Leo não deu por nada, porque naquela semana o Leo não dava por nada, e porque naquela altura ainda havia coisas naquele hospital que aconteciam ao lado dele sem lhe dizerem respeito.
🍃 🍃 🍃
Foi nesse mesmo dia que começaram a baixar a medicação.
O Lucca explicou-lhe como quem explica a uma criança, de propósito.
— Não esperes um filme. Ele não vai abrir os olhos e dizer o teu nome. Vai ser assim: primeiro reflexos, depois caretas, depois abrir os olhos sem estar ninguém lá dentro, e só depois é que ele volta. Pode demorar horas ou pode demorar dias, e há um bocado do meio em que ele parece acordado e não está. Quando chegarmos a esse bocado, eu aviso-te, para tu não te assustares.
— E se ele não voltar todo?
O Lucca não fugiu à pergunta.
— Então tratamos disso quando chegar. — Pousou-lhe a mão no braço. — Mas até agora, Leo, tudo o que este rapaz fez foi o que nós queríamos que ele fizesse.
🍃 🍃 🍃
Foi na quinta-feira de manhã.
O Leo tinha-lhe pegado na mão como pegava sempre, sem pensar, a falar de outra coisa qualquer.
E os dedos do Rafael fecharam-se.
Foi pouco. Foi um bocadinho de nada, e o Leo ficou de respiração presa durante três segundos inteiros antes de se atrever a olhar para baixo.
— Rafa?
Nada.
— Anjo. Se me estás a ouvir, aperta outra vez.
Nada.
O Leo ficou ali sentado, a olhar para aquela mão, sem saber se tinha acontecido ou se ele estava a inventar de tanto querer.
Não disse nada a ninguém durante duas horas, porque teve medo de dizer e de depois não se repetir.
🍃 🍃 🍃
O Nuno chegou ao meio-dia.
Era a primeira vez que vinha desde a noite do acidente. Parou à porta do quarto com a mochila num ombro e não conseguiu entrar.
— Anda — disse a D. Clara, de dentro.
— Eu não sei se…
— Nuno. Anda cá.
Ele entrou e foi direito a ela e desfez-se-lhe nos braços, como se tivesse doze anos e não dezoito.
— Desculpe.
— Desculpa o quê, meu amor?
— Fui eu que corri.
A D. Clara afastou-o dela, segurou-lhe a cara com as duas mãos e disse-lhe uma coisa que o Nuno nunca mais esqueceu.
— Tu és amigo dele desde os doze anos. Nesta casa nunca ninguém te culpou de nada, e não vai ser hoje que se começa. — Limpou-lhe a cara com o polegar. — E se tu me voltas a pedir desculpa eu zango-me contigo a sério.
O Nuno riu-se e chorou ao mesmo tempo, que é uma coisa que só se consegue fazer com dezoito anos.
Depois puxou a cadeira e sentou-se ao lado da cama.
— Olá, parvo.
O Leo, do outro lado, fingiu que estava a olhar pela janela.
— Já viste a trabalheira que me deste? — continuou o Nuno, com a voz a fugir-lhe. — Tenho de ir às aulas sozinho. Tenho de me sentar sozinho. A professora do sotaque já perguntou por ti duas vezes e eu não sei o que lhe hei de dizer.
Pegou-lhe na mão.
— Ó Rafa. Tu não me deixes sozinho na faculdade, ouviste? — E, mais baixo: — E não me deixes sozinho no resto, também não.
E foi então que a mão do Rafael se fechou à volta dos dedos dele.
O Nuno ficou branco.
— D. Clara.
— Que foi?
— Ele apertou-me a mão.
A D. Clara pôs-se de pé.
O Leo já estava do outro lado da cama.
— Outra vez — disse o Nuno, com a voz a tremer. — Rafa, faz outra vez. Se me estás a ouvir, faz outra vez.
E ele fez.
🍃 🍃 🍃
A D. Clara sentou-se do outro lado e pegou-lhe na outra mão, a que estava presa ao gesso, com cuidado.
— Meu menino. Sou eu.
Esperou.
— Se me ouves, aperta.
E o filho apertou-lhe a mão.
A D. Clara fechou os olhos e não deu um grito, nem um soluço, nem nada. Ficou só com a cabeça baixa a respirar fundo, três ou quatro vezes, como quem estava a pousar no chão uma coisa que andava a carregar há quatro dias.
— Está bem — disse. — Está bem, meu amor. Já percebi.
E depois, quando conseguiu, disse-lhe o que lhe apetecia dizer.
— Assustaste-nos muito. O teu pai não dorme. O teu irmão não está aqui porque anda a tratar das coisas e não porque não queira. E o Leo não saiu deste quarto uma única noite.
E a mão do Rafael apertou outra vez.
Foi mais forte do que todas as outras.
A D. Clara levantou a cabeça e olhou para o homem que estava do outro lado da cama.
— Ouviste?
O Leo não conseguiu responder.
🍃 🍃 🍃
O Lucca veio, olhou para os monitores, fez duas ou três coisas com as mãos e uma pergunta à enfermeira, e só depois se virou para eles.
— É verdade. Não é reflexo nenhum. — E, pela primeira vez em quatro dias, sorriu com a cara toda. — Ele está a responder a estímulos. Isto é o degrau que nós queríamos.
— Quando é que ele acorda? — perguntou o Nuno.
— Não sei. — O Lucca encolheu os ombros. — Mas a partir de agora ele já está do lado de cá a tentar.
🍃 🍃 🍃
Foi nesse momento que o telemóvel do Leo vibrou.
Luís.
Ele atendeu ainda com a mão do Rafael na dele.
📞 — "Diz."
📞 — [Leo. O Rui acabou de me ligar.]
A voz do Luís estava esquisita. Não estava aflita. Estava de outra maneira, e foi isso que fez o Leo levantar-se da cadeira.
📞 — "Diz."
📞 — [Ele já sabe de quem é o carro.]
O quarto continuou igual: o monitor a apitar devagar, o Nuno com os olhos vermelhos, a D. Clara com a mão do filho na dela.
E, no meio daquilo tudo, o Leo sentiu uma coisa a abrir-se-lhe no fundo do estômago que não tinha nada a ver com alívio.
📞 — "E é de quem?"
📞 — [Ele não me disse ao telefone.] — Uma pausa. — [E eu perguntei-lhe duas vezes, Leo.]
📞 — "Como assim, não te disse?"
📞 — [Disse que nos queria ali aos dois. A mim e a ti.]
O Leo ficou com o telemóvel encostado à orelha e não disse nada durante uns segundos.
📞 — [Leo? Estás aí?]
📞 — "Estou."
📞 — [Ele foi muito claro. Quer falar contigo.]
🍃 🍃 🍃
Quando desligou, ficou de pé ao lado da cama, com o telemóvel na mão.
A D. Clara olhou para ele.
— Aconteceu alguma coisa?
— Já sabem de quem era o carro. — Ouviu-se a dizer aquilo com uma voz que não era bem a dele. — Tenho de ir à esquadra com o Luís.
A D. Clara pôs-se de pé.
— Então vai.
— Clara…
— Vai. — E não havia ali tremor nenhum. — Eu fico com ele. O Nuno fica comigo. Não sai daqui ninguém e não lhe acontece nada.
O Leo baixou-se sobre a cama.
Ficou um segundo a olhar para aquela cara, com o corte na testa já a fechar e a barba de quatro dias a nascer, e depois beijou-lhe a testa e encostou-lhe a boca ao cabelo.
— Eu volto já, anjo.
E, ao endireitar-se, viu o telemóvel dele em cima da mesa de cabeceira, ligado à corrente, com a bateria cheia e o ecrã à espera de quatro algarismos que ninguém ali sabia.
Saiu para o corredor a apertar o passo.
O Lucca alcançou-o ao pé dos elevadores.
— Eu vou contigo.
— Não é preciso.
— Eu vou contigo — repetiu o irmão, e carregou ele no botão.
E o Leo, que tinha passado quatro dias inteiros a agarrar-se a uma mão e a um número no telemóvel, entrou naquele elevador a perceber uma coisa que o deixou com frio: que tinha estado quatro dias sem pensar nisto, e que tinha sido bom, e que aqueles quatro dias tinham acabado agora.
Mais nada. E podes sair da lista quando quiseres.