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Capítulo 37 — A Nossa Casa

         Alguns dias depois a porta abriu-se.

         Lucca entrou no quarto com um sorriso que não conseguiu disfarçar, mesmo tentando manter a postura calma.

— Então, dorminhoco… — disse, cruzando os braços. — Estás pronto para uma boa notícia?

         Rafael, sentado na cama com a cabeceira elevada, levantou o olhar. Leo estava ao lado dele, a segurar-lhe a mão como se fosse a coisa mais natural do mundo.

— O que foi? — perguntou Rafael, curioso.

         Lucca aproximou-se de Rafael, pousando com carinho a mão na cabeça do rapaz e deixando transparecer um sorriso maroto.

— Que achas de ir para casa? — perguntou Lucca. — Ou será que te tratamos tão bem aqui que já nem queres ir embora com o chato do meu irmão?

          Os olhos de Rafael brilharam de felicidade e, sem conseguir conter a animação, quase gritou:

— Para casa… posso mesmo ir para casa? Prefiro ir com o chato do teu irmão, Lucca!

          Quando Leo largou a mão de Rafael e tentou, sem sucesso, fingir estar zangado, Rafael abriu um sorriso tão genuíno que iluminou o rosto. Leo cruzou os braços sobre o peito, como se fosse uma criança a fazer birra, arrancando gargalhadas de todos que estavam no quarto.

— Se sou assim tão chato, então podes ficar aqui — brincou Leo, tentando manter o ar sério.

         Rafael olhou para ele, com o sorriso ainda mais rasgado:

— Tu és o meu chato, aquele que eu amo muito. E, olha, nem sabes mentir!

          Leo não conseguiu segurar e soltou uma gargalhada feliz, apertando de novo a mão de Rafael.

— Hoje, anjo. Vamos para casa.

         A mãe do Rafael, que estava sentada numa cadeira ao lado, levou a mão ao peito, emocionada.

— Graças a Deus…

         O pai sorriu, orgulhoso.

— O meu rapaz está de volta.

         Rafael olhou para todos, depois para Leo, e o sorriso dele foi tão sincero que iluminou o quarto inteiro.

— Eu quero ir — disse, com a voz ainda fraca, mas cheia de vontade. — Quero ir para casa.

         Leo inclinou-se e beijou-lhe a testa.

— Então vamos.

         O processo foi lento, cheio de cuidados, mas carregado de alegria, Rafael vestiu a roupa confortável que Leo lhe trouxe — uma camisola larga e umas calças de algodão — e deixou-se ajudar a sentar na cadeira de rodas.

— Não precisas de me empurrar como se eu fosse de cristal — resmungou Rafael, meio a brincar.

        Leo riu.

— És o meu cristal. Aguenta.

         Rafael revirou os olhos, mas o sorriso denunciava-o.

         Lucca, Luís, Nuno que, entretanto, tinham aparecido, e os pais acompanharam-nos até à porta principal.

         O sol batia suave, como se o mundo tivesse decidido ser gentil naquele dia.

— Vais descansar muito — disse a mãe, ajeitando-lhe o cabelo. — E nada de te armares em herói.

— Mãe… — Rafael suspirou, mas deixou-a fazer.

        O pai inclinou-se e deu-lhe um beijo na cabeça.

— Liga-nos quando chegares.

— Vamos lá, pessoal — disse Leo, sorrindo. — Ele vai estar bem. Prometo.

        Rafael olhou para ele, e naquele olhar havia tudo: confiança, amor, futuro.

        Leo ajudou-o a entrar no banco do passageiro com cuidado.

        Rafael acomodou-se, respirando fundo.

— Cheira a novo — comentou, franzindo o nariz.

        Leo sorriu, ligando o cinto dele.

— Limpei o carro ontem. Queria que tivesses uma viagem confortável.

         Rafael olhou-o com ternura.

— Tu pensas em tudo

       Leo deu-lhe um beijo rápido nos lábios.

— Só em ti.

        O carro arrancou devagar, Rafael observava a cidade pela janela, como se estivesse a vê-la pela primeira vez., cada rua parecia mais viva, cada pessoa mais real.

— Senti falta disto — murmurou.

De quê? — perguntou Leo.

— De… existir. De estar aqui. Contigo.

        Leo pousou a mão sobre a dele, sem tirar os olhos da estrada.

— Nunca mais vais deixar de estar.

        Quando chegaram ao prédio do Leo, Rafael franziu o cenho.

— Pensei que íamos à minha casa primeiro… para eu buscar as minhas coisas.

       Leo estacionou, desligou o carro e virou-se para ele com um sorriso misterioso.

— Sobre isso

        Rafael ergueu uma sobrancelha.

— O que fizeste?

        Leo saiu do carro e contornou-o para abrir a porta do Rafael, ajudando-o a levantar-se, apoiando-o com cuidado.

— Os teus pais ajudaram. E todos os outros também.

       Rafael piscou, confuso.

— Ajudaram… com o quê?

       Leo aproximou-se, pousando as mãos no rosto dele.

— A tua casa… já está na nossa casa.

       Rafael ficou imóvel, os olhos dele encheram-se de lágrimas antes mesmo de conseguir reagir.

— Leo…

— Gostaria que, ao deixares o hospital, não precisasses preocupar-te e viesses direto para casa, iniciando a nossa nova etapa juntos.

        Rafael levou a mão à boca, emocionado.

— Eles… ajudaram mesmo?

— Claro que sim — disse Leo, sorrindo. — Eles querem o melhor para ti. E para nós.

        Rafael deixou escapar um riso trémulo, cheio de amor.

Eu não acredito que fizeste isto…

        Leo aproximou-se e beijou-o, devagar, com toda a ternura do mundo.

— Bem-vindo a casa, meu amor.

        Rafael encostou a testa à dele.

— A nossa casa.

       Leo sorriu.

— A nossa casa.

       E juntos, devagar, subiram as escadas rumo ao novo capítulo das suas vidas.


🍃 🍃 🍃


         Algumas semanas passaram desde que Rafael deixara o hospital, e a casa que agora partilhava com Leo tinha-se tornado um refúgio de luz, silêncio confortável e pequenos rituais que só pertenciam aos dois.

         As manhãs começavam devagar.

         Rafael acordava sempre antes do despertador, ainda com o corpo a habituar-se ao ritmo da recuperação, e ficava a observar Leo dormir — o peito a subir e descer num compasso tranquilo, o cabelo desalinhado, a mão sempre pousada sobre a dele, como se mesmo no sono tivesse medo de o perder.

         Leo acordava pouco depois, puxando-o para mais perto, murmurando um “bom dia, anjo” contra o pescoço dele.

       E Rafael sorria sempre — aquele sorriso pequeno, íntimo, que só Leo conhecia.

        A fisioterapia era cansativa, mas Rafael encarava cada sessão como uma vitória.

       Leo acompanhava-o sempre, sentado ao lado, a segurar-lhe a garrafa de água, a incentivar, a rir quando Rafael resmungava, a celebrar cada pequeno progresso como se fosse um triunfo épico.

— Estás a ficar mais forte — dizia Leo, orgulhoso.

— Estou a tentar — respondia Rafael, ofegante, mas feliz.

        À tarde, Rafael estudava no sofá, livros espalhados, o portátil aberto, enquanto Leo cozinhava ou trabalhava ao lado dele.

        Às vezes, Rafael adormecia ali mesmo, e Leo cobria-o com uma manta, beijando-lhe a testa antes de se sentar ao lado dele.


🍃 🍃 🍃


        O primeiro dia de volta à faculdade foi um marco.

        Rafael vestiu-se devagar, com cuidado, mas com uma determinação que Leo reconheceu imediatamente.

       Os olhos dele brilhavam — nervosos, mas cheios de vontade.

— Tens a certeza de que estás pronto? — perguntou Leo, ajeitando-lhe a gola da camisola.

— Tenho. Quero voltar. Quero… sentir que a minha vida continua.

       Leo sorriu, orgulhoso.

— Então vamos.

        No campus, os amigos receberam-no com abraços, lágrimas e risos. Rafael sentiu-se vivo outra vez — parte do mundo, parte de si mesmo.

        E Leo, encostado a um muro, observava-o com um sorriso que dizia tudo:

       É assim que ele deve ser. É assim que ele merece viver.

       Nessa noite, quando voltaram para casa, Rafael estava cansado — mas feliz.

       Leo ajudou-o a tirar a mochila, a sentar-se no sofá, a massajar-lhe os ombros tensos.

— Tenho orgulho em ti — murmurou Leo, beijando-lhe o pescoço.

       Rafael fechou os olhos, inclinando-se para trás, deixando-se envolver.

— Senti falta disto — disse ele, num sussurro.

— De quê?

        Rafael abriu os olhos, encontrou os de Leo, e sorriu — um sorriso lento, cheio de significado.

— De nós.

        Leo envolveu-o nos braços, beijando-lhe o topo da cabeça, e Rafael ficou ali, quieto, a ouvir o coração do outro a bater.

         Rafael olhou para Leo, e sorriu — um sorriso pequeno, verdadeiro.

— Acho que… finalmente… estou de volta.

         Leo tocou-lhe a mão, com uma ternura simples que dizia tudo.

— Eu sabia que estava. E agora… o futuro é nosso.

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