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36 – As Imagens

Dentro do carro o silêncio era quase sólido.

O Lorenzo conduzia com o queixo travado e os dedos apertados no volante. O Luís ia a olhar pela janela sem ver nada, porque a cabeça dele estava a passar outra coisa em cima da paisagem, uma e outra vez, e não havia maneira de a desligar.

— Luís.

— Hum.

— Nós vamos entrar ali e vamos falar com calma.

— Eu sei.

— Não sabes nada. — O Lorenzo disse aquilo sem tirar os olhos da estrada, e não foi com dureza. — Eu tenho vinte anos mais do que tu e neste momento também me apetecia partir uma coisa. Só que nós não vamos lá para nos sentirmos melhor. Vamos lá buscar o que se puder aproveitar, e depois entregamos tudo a quem sabe.

O Luís respirou fundo.

— E se eles não nos derem nada?

— Então falamos com o segurança, e com a senhora do café da esquina, e com quem estava na paragem. — O Lorenzo mudou de mudança. — Com calma e com cabeça, Luís. Com raiva não se chega a lado nenhum, só se chega mais depressa.

O resto do caminho fez-se calado, e foi um silêncio que fez falta aos dois.

🍃 🍃 🍃

O campus estava diferente.

Havia menos gente do que devia haver àquela hora, e a que estava falava baixo e em grupos pequenos. Ao pé da passadeira, do lado de lá da rua, alguém tinha encostado um ramo de flores ao poste do sinal.

O Luís olhou para aquilo e teve de olhar para outro lado.

O segurança da porta endireitou-se assim que os viu, como quem já estava à espera de alguém.

— Boa tarde. Queríamos falar com a direção. Somos família do Rafael Cardoso Wei.

O homem olhou para eles um instante e pegou no telefone.

📞 — "Chegaram. São da família do aluno. Sim."

Desligou e apontou-lhes as escadas.

— Terceiro andar, porta à direita. Já estão à vossa espera. — E acrescentou, mais baixo, porque lhe apeteceu: — Nós vimos o rapaz passar aqui todos os dias. Dá-lhe uma palavra minha, se ele acordar.

Se.

O Luís subiu as escadas com aquela palavra colada aos sapatos.

🍃 🍃 🍃

A diretora abriu a porta antes de eles baterem.

Era uma mulher de sessenta e tal anos, com o cabelo curto e os olhos cansados, e tinha um ar de quem não dormiu e não pensa queixar-se disso.

— Sou a Guilhermina Antunes. Sentem-se, por favor.

— Lorenzo Mattos, pai do Nuno Mattos. Este é o Luís, irmão do Rafael.

Ela olhou para os dois sem pressa.

— Eu dava tudo para vos conhecer noutro dia. — Sentou-se. — Como é que ele está?

— Não sabemos. — O Lorenzo disse a verdade porque não tinha outra. — Bateu com a cabeça. Ainda não acordou.

— E o seu filho?

O Lorenzo demorou.

— O meu filho não tem um arranhão.

A diretora percebeu o que aquela frase queria dizer e não fez perguntas.

— Se ele precisar de ficar em casa uns dias, fica. Não vamos contar faltas a ninguém e eu não quero cá aquele rapaz enquanto ele não estiver bem. Isso está tratado e não se fala mais nisso.

— Obrigado.

O Luís, que até ali não tinha aberto a boca, abriu-a com a voz áspera de ter chorado.

— Senhora diretora, nós precisamos mesmo de saber o que aconteceu. O meu irmão ia na passadeira com o sinal verde. O melhor amigo dele diz que o carro estava parado e que arrancou.

Houve um silêncio.

A diretora olhou para ele.

— Eu sei — disse. — E é por isso que vos vou mostrar uma coisa.

Levantou-se, foi ao computador e virou o ecrã para eles.

A luz do monitor encheu o gabinete de uma claridade fria que não vinha da janela.

— As câmaras da entrada apanham a rua toda até à passadeira. Nós já vimos isto quatro vezes esta tarde.

E carregou.

🍃 🍃 🍃

A imagem estava parada.

Via-se a passadeira, o sinal, e duas figuras pequenas no passeio, uma com a mochila num ombro e outra com as mãos nos bolsos.

Depois começou a andar, e o Luís percebeu que estava a ver o irmão vivo.

Percebeu-o com uma clareza estúpida, como se o vídeo lhe estivesse a explicar uma coisa que ele ainda não tinha compreendido: que dezassete segundos antes o Rafael estava ali a rir-se de uma coisa qualquer, e que ele nunca ia saber de quê.

O sinal abriu.

O Nuno disparou à frente.

E, no canto direito do ecrã, um carro escuro que estava parado desde o princípio da gravação, encostado ao passeio, com o motor a trabalhar, começou a andar.

Não hesitou.

Não travou.

O Luís levou a mão à boca.

— Pare.

A diretora parou.

Ficaram os três a olhar para uma imagem congelada no pior momento possível, e ninguém disse nada durante alguns segundos.

— Isto não é um acidente — disse o Luís.

— Não. Não é. — A voz dela era firme e estava a custar-lhe. — Nós íamos entregar isto à polícia amanhã de manhã. Íamos esperar por vocês hoje e, se não viessem, entregávamos na mesma.

O Lorenzo endireitou-se na cadeira. Tinha a cara de um homem que estava a fazer contas.

— Consegue-se ver a matrícula?

— Consegue-se. — A diretora voltou atrás no vídeo e ampliou um bocado. — Não é a câmara da entrada que a apanha, é a do parque. Apanha-a duas vezes, à chegada e na fuga.

— E o condutor?

Ela abanou a cabeça.

— Os vidros são escuros. Não se vê nada lá dentro, nem à frente nem atrás. Tentámos.

O Luís ficou a olhar para o ecrã.

— Nada mesmo? Nem um braço, nem uma mão no volante?

— Nada.

🍃 🍃 🍃

Saíram dali com o vídeo e a matrícula no e-mail do Luís, e com a diretora a apertar-lhes a mão à porta e a dizer façam justiça como quem entrega uma coisa às mãos de alguém.

Só no carro é que o Luís respirou.

Depois tirou o telemóvel do bolso, com as mãos a tremer, e procurou um nome.

— Vou mandar isto ao Rui.

— Quem é o Rui?

— Andou na escola comigo. É inspetor da Judiciária. — Já estava a escrever. — Conhece o Rafael desde miúdo. Comia lá em casa aos sábados.

O Lorenzo assentiu e não disse mais nada, porque não era preciso.

O Luís anexou o vídeo, escreveu quatro linhas e ficou com o polegar parado por cima do ecrã mais tempo do que devia.

Depois carregou em enviar.

O som da mensagem a sair pareceu-lhe alto demais para aquele carro.

— Já está.

— Fizeste o que tinhas a fazer. — O Lorenzo pôs o carro a trabalhar. — Agora vamos para o hospital.

🍃 🍃 🍃

Na sala de espera, o Leo levantou-se assim que os viu aparecer.

— Então?

— A diretora mostrou-nos as câmaras.

— E?

O Luís olhou para a mãe antes de responder, e depois percebeu que não havia maneira de dizer aquilo com jeito.

— O carro estava parado à espera, Leo. Está lá. Vê-se.

A D. Clara fez um som pequeno e levou a mão à boca.

O Sr. Wei não se mexeu.

— Temos a matrícula — continuou o Luís. — Já mandei tudo ao Rui.

O Leo ficou a olhar para ele.

— Viram quem ia a conduzir?

— Não. Os vidros são escuros.

— Nada?

— Nada, Leo. Nem uma mão.

O Leo assentiu devagar, com a cabeça, e voltou a sentar-se.

E, do outro lado da sala, o Henrique reparou numa coisa que mais ninguém ali tinha maneira de reparar: que aquele homem tinha acabado de ficar aliviado e desiludido exatamente ao mesmo tempo, e que nenhuma das duas coisas lhe ficava bem na cara.

Não disse nada.

🍃 🍃 🍃

O Lucca apareceu ao princípio da noite.

Trazia outra cara. Não era pior, era diferente, e a sala percebeu logo.

— Tenho novidades e não são más. Vou explicar devagar, porque a palavra que eu vou usar assusta e não devia.

Ninguém respirou.

— Nós pusemos o Rafael a dormir.

A D. Clara agarrou-se ao braço do marido.

— Chama-se coma induzido — continuou o Lucca. — Quer dizer que somos nós que o estamos a manter a dormir com medicação, de propósito, e que o podemos acordar quando quisermos. Não é o cérebro dele que se desligou. Fomos nós.

— Porquê? — perguntou o Jorge.

— Porque o inchaço na cabeça dele aumentou um bocadinho desde o meio-dia. Um cérebro a dormir gasta menos e incha menos. Estamos a dar-lhe descanso e a controlar a pressão. — Olhou um a um. — E há uma segunda razão prática: assim conseguimos operar-lhe a perna amanhã de manhã sem o pôr a passar por mais nada.

— Quanto tempo? — A voz do Leo saiu de um sítio qualquer.

— Não sei. Dois dias, três. Talvez mais um bocado. — O Lucca não adoçou nada. — O que eu vos posso dizer é o seguinte: até agora não há sinais de lesão que não se resolva, o corpo dele está a responder, e nós estamos a fazer isto para o proteger e não porque o estejamos a perder.

Fez uma pausa.

— Ele vai acordar. Só não sou eu que mando na hora.

A sala inteira desfez-se ao mesmo tempo, cada um à sua maneira, e foi a primeira vez naquele dia que o choro ali dentro não foi de medo.

🍃 🍃 🍃

Deixou-os entrar um de cada vez, cinco minutos, e deixou o Leo ir primeiro sem dizer a ninguém porquê.

O quarto estava em silêncio, com uma luz baixa e o som certinho do monitor.

E o Rafael estava ali.

Tinha o braço esquerdo engessado e apoiado numa almofada, a perna direita imobilizada e presa por cima do lençol, um acesso nas costas da mão e um tubo fino por baixo do nariz. Tinha um corte com pontos no lado da testa, a subir para o cabelo.

Fora isso, estava a dormir.

Era isso o pior. Estava a dormir como estava a dormir em casa dele, ao domingo de manhã, com a marca da almofada na cara.

O Leo encostou-se à ombreira da porta durante um segundo.

Depois foi até à cadeira e sentou-se, e pegou-lhe na mão com as duas dele, com cuidado por causa do acesso.

Estava quente.

Foi essa a coisa que o partiu ao meio, e não o resto: a mão dele estava quente.

— Olá, anjo.

Não lhe saiu mais nada durante um bocado.

— Eu estou aqui. — Pousou a testa nos dedos dele. — Eu não me vou embora. Não me interessa quanto tempo tu demorares, eu fico.

Ficou assim, e a certa altura passou-lhe o polegar pelos nós dos dedos, devagar, como quem confirma que uma coisa é verdadeira.

E foi então que reparou no braço esquerdo.

A manga da bata estava subida, e a pele por baixo do gesso estava lisa e vazia.

Não havia nada ali.

O Leo ficou a olhar para aquele bocado de braço durante muito tempo.

🍃 🍃 🍃

Os dedos do Rafael mexeram-se.

Foi pouco, foi um bocadinho, mas mexeram-se dentro da mão dele.

O Leo levantou a cabeça de repente.

— Rafa?

O Lucca, que estava à porta, chegou-se ao monitor e olhou para os números antes de olhar para o irmão.

— Leo.

— Ele mexeu-se.

— Mexeu. — O Lucca não lhe mentiu, porque nunca lhe tinha mentido em trinta e dois anos. — E o mais provável é que tenha sido um reflexo. Não te vou dizer que ele te ouviu, porque eu não sei se ele te ouviu.

O Leo assentiu, e ficou com a mão dele na dele.

— Mas digo-te outra coisa — acrescentou o Lucca, da porta, sem entrar. — Se fosse eu naquela cama, eu preferia que tu continuasses a falar.

E saiu, para o irmão poder chorar à vontade.

🍃 🍃 🍃

Foi no corredor, cinco minutos depois, que o Leo perguntou.

Tinha de sair para os outros poderem entrar, e tinha acabado de perceber que não havia nada, mas mesmo nada, que ele pudesse fazer por aquele rapaz naquela noite.

— Lucca.

— Diz.

— Põem-lhe outro sensor?

O Lucca parou.

— Um sensor de glicemia?

— Sim.

— Leo, nós estamos a medir-lhe o açúcar de hora a hora com uma picada no dedo, que é mais fiável do que qualquer sensor. Não faz falta nenhuma.

— Eu sei.

— Então…

— Eu sei que não faz falta nenhuma. — O Leo tinha os olhos vermelhos e a voz muito calma. — Faz-me falta a mim.

O Lucca olhou para o irmão.

Olhou para aquele homem de fato amarrotado que tinha passado o dia inteiro sentado numa cadeira a não servir para nada, e percebeu exatamente o que ele lhe estava a pedir, que era ter no telemóvel um número que se mexesse.

Uma prova, de meia em meia hora, de que o corpo daquele rapaz continuava a fazer coisas.

— Amanhã, depois da operação — disse. — Ponho-lho eu.

O Leo agarrou-se ao irmão e não conseguiu dizer obrigado.

🍃 🍃 🍃

A família foi entrando e saindo, e a certa altura o Leo deu por si sentado sozinho num banco encostado à parede do corredor, com as mãos entre os joelhos, a olhar para o chão.

O Sr. Wei sentou-se ao lado dele.

Não disse nada. Não lhe pôs a mão nas costas, nem lhe perguntou como estava, nem lhe disse que ia correr tudo bem.

Ficou ali sentado, com as mãos em cima dos joelhos e as costas direitas, a olhar para a porta dos cuidados intensivos.

Ficaram assim muito tempo.

E o Leo, que tinha passado o dia a aguentar-se, começou a ir abaixo ao lado daquele homem, sem barulho nenhum, só com os ombros.

— Eu zanguei-me com ele no domingo — disse, sem levantar a cabeça. — O senhor sabia?

— Sabia.

— Ele contou?

— Ele não conta nada. A mãe é que viu, quando ele chegou. — O Sr. Wei continuou a olhar para a porta. — E eu vi ao pequeno-almoço, porque ele não comeu.

O Leo fechou os olhos.

— A última coisa que eu lhe disse foi para ele comer qualquer coisa às onze.

— E ele comeu?

— Eu não sei.

— Comeu.

O Leo levantou a cabeça.

— Como é que o senhor sabe?

— Porque ele foi criado nesta casa e faz o que lhe pedem quando gosta de quem pede. — O Sr. Wei disse aquilo com uma simplicidade que não admitia discussão. — Comeu.

E depois, ao fim de um bocado, ainda a olhar para a porta, disse uma coisa em chinês.

Foram cinco palavras, ditas baixo, sem virar a cara.

O Leo levantou a cabeça devagar.

Já tinha ouvido aquilo.

Tinha ouvido aquilo numa noite de julho, sentado à mesa daquela casa pela primeira vez, com um rapaz de dezoito anos ao lado dele a olhar para o prato e a fazer de conta que não tinha ouvido nada. Tinha perguntado o que queria dizer e tinham-lhe respondido um dia digo-te*.

— O senhor já disse isso uma vez.

— Já.

— Naquele jantar.

— No primeiro jantar. — O Sr. Wei virou-se finalmente para ele. — Perguntaste ao meu filho o que queria dizer e ele não te disse.

— Ele disse que dizia um dia.

— Pois. E hoje é um dia.

O Leo esperou.

O Sr. Wei voltou a olhar para a porta.

— Ele é o nosso tesouro — disse. — Foi isso que eu disse naquela noite, à tua frente, para toda a gente ouvir e ninguém perceber.

O Leo abriu a boca e não lhe saiu nada.

— Eu não disse aquilo ao meu filho — continuou o Sr. Wei. — Nós já lho tínhamos dito a vida toda. Eu disse aquilo à mesa porque estava um homem sentado ali que ainda não sabia onde é que se estava a meter.

Passou a mão pelas calças, uma vez, a alisá-las.

— E disse-o em chinês, para tu não perceberes. Nessa noite eu ainda não sabia se gostava de ti.

— E agora?

O Sr. Wei olhou para as próprias mãos.

— Agora estás aqui sentado a chorar no corredor de um hospital às onze da noite, quando podias ter ido para casa como qualquer pessoa. — Levantou os olhos. — Agora nosso já é mais gente do que era.

E foi tudo o que ele disse.

Ficaram os dois sentados naquele banco, um ao lado do outro, sem falar, e ao fim de algum tempo o Sr. Wei tirou do bolso um lenço de pano dobrado e estendeu-lho sem olhar.

🍃 🍃 🍃

Perto das onze e meia, a enfermeira trouxe um saco de plástico com o nome dele escrito à mão.

Lá dentro estavam a mochila, a carteira, o molho de chaves, e o telemóvel com o ecrã estalado num canto.

A D. Clara olhou para o saco e não foi capaz.

— Leva tu.

O Leo pegou no telemóvel e carregou no botão.

Não acendeu.

Ficou a olhar para o ecrã apagado, com o estalo a atravessá-lo, e não sentiu curiosidade nenhuma, porque ainda não lhe tinha passado pela cabeça que pudesse haver ali alguma coisa à espera dele.

— Eu levo o carregador amanhã.

Meteu-o no bolso do casaco.

🍃 🍃 🍃

O telemóvel do Luís vibrou quando a família já se estava a despedir.

Rui — PJ.

Saiu para o corredor e atendeu ao segundo toque.

📞 — "Rui."

📞 — [Luís. Recebi o teu e-mail.] — A voz do outro lado não tinha nada de conversa. — [Vi o vídeo três vezes. Aquilo não foi um susto nem foi uma distração. O carro estava parado com o motor a trabalhar e arrancou quando eles entraram na passadeira.]

📞 — "Eu sei."

📞 — [Quem é o rapaz?]

O Luís teve de encostar o ombro à parede.

📞 — "É o meu irmão, Rui."

Houve um silêncio do outro lado.

📞 — [É o Rafael?]

📞 — "É."

📞 — [Ele está…?]

📞 — "Está vivo. Puseram-no a dormir. Bateu com a cabeça e partiu uma perna e um braço. Operam-no amanhã."

📞 — [Está bem.] — E a voz do inspetor mudou, e passou a ser outra coisa. — [Luís, ouve-me com atenção. A partir de agora não fazem nada sozinhos. Não vão à procura de carro nenhum, não perguntam a vizinhos, não põem isto nas redes. Nada.]

📞 — "Rui…"

📞 — [Nada, Luís. Se vocês forem à frente, estragam-me o processo e ainda ficam vocês com um problema em cima.]

📞 — "Está bem."

📞 — [A matrícula está boa e o vídeo também. Dá-me um dia ou dois. Isto não é um profissional: um profissional não faz aquilo à porta de uma faculdade às uma da tarde, com câmaras e com duzentas testemunhas.] — Uma pausa curta. — [Quem fez isto estava com pressa ou estava fora de si. E as pessoas dessas deixam rasto.]

O Luís fechou os olhos.

📞 — "Obrigado."

📞 — [Não me agradeças. Diz-me só uma coisa.]

📞 — "Diz."

📞 — [O teu irmão tem inimigos?]

E o Luís, encostado à parede daquele corredor, ouviu-se a dizer a coisa mais óbvia do mundo.

📞 — "O meu irmão tem dezoito anos, Rui."

Do outro lado houve um silêncio de dois segundos.

📞 — [Pois.] — E depois, mais baixo: — [Então é a alguém de perto que a gente tem de perguntar isso.]

🍃 🍃 🍃

A família foi-se embora aos poucos, com abraços calados e promessas de voltar cedo.

O Lorenzo levou o Nuno, que não tinha falado desde as seis. O Jorge levou os pais. O Mário demorou-se e ficou a olhar para o corredor como quem tem uma coisa para dizer e não encontra o dia.

O Henrique foi o último.

— Vais ficar.

— Vou.

— Eu sabia. — Deu-lhe um abraço curto e forte. — Come qualquer coisa a meio da noite, nem que seja uma sandes da máquina.

O Leo teve de fechar os olhos, porque era exatamente aquilo que ele tinha dito de manhã a outra pessoa.

Ficaram a afastar-se pelo corredor, o Henrique e o Mário, um ao lado do outro, e o Leo viu-os desaparecer na curva.

Depois voltou-se para a porta.

🍃 🍃 🍃

O quarto estava igual.

A luz baixa, o monitor certinho, e ele ali a dormir com a marca da almofada que não tinha.

O Leo puxou a cadeira para junto da cama e sentou-se.

Pegou-lhe na mão.

— Boa noite, carinho.

E ficou.

Quando sair o próximo livro, queres saber?

Mais nada. E podes sair da lista quando quiseres.

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