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Capítulo 35 — A Face da Loucura

        Luís estava à porta, de braços cruzados, o rosto tenso. Lorenzo estava ao lado dele, inquieto, a bater o pé no chão como se tentasse expulsar a ansiedade do corpo.

        Quando viram Leo e Lucca aproximarem-se, endireitaram-se imediatamente.

— Finalmente — murmurou Luís, a voz baixa, carregada de urgência. — O Rui está à vossa espera lá dentro. Ele disse que… isto não vai ser fácil.

        Leo sentiu o estômago apertar-se.

       Lucca pousou-lhe uma mão nas costas, firme, silenciosa, como um pilar.

— Vamos — disse ele.

        Entraram juntos.

        Cada passo ecoava, cada respiração parecia alta demais. Leo sentia o coração bater-lhe nos ouvidos.

        Rui estava numa sala pequena, sentado à mesa com um dossier aberto à frente. Quando levantou o olhar, Leo percebeu imediatamente: havia algo ali que o inspetor não queria dizer. Algo que pesava.

Obrigado por terem vindo tão depressa — começou Rui, levantando-se. — Sente-se, Leo.

       Leo sentou-se devagar, como se o chão pudesse desaparecer a qualquer momento. Lucca ficou ao lado dele, Luís e Lorenzo atrás, formando uma espécie de muralha humana.

       Rui abriu o dossier.

— Encontrámos o dono do carro — disse, num tom controlado, quase clínico. — E confirmámos que foi ele quem o conduziu no momento do atropelamento.

        Leo prendeu a respiração.

— Quem é? — perguntou, a voz rouca.

        Rui hesitou, e esse segundo de silêncio pareceu uma eternidade.

— Antes de vos dizer o nome… quero que entendam que isto não é um acidente comum. Não foi um acaso. — E voltando-se para Leo, continuou. — Não foi um desconhecido. E… não foi alguém de fora.

        Luís deu um passo à frente.

— Rui… diz.

         O inspetor fechou o dossier com um estalar seco que fez Leo estremecer.

        Leo sentiu o sangue gelar.

— Quem? — repetiu, quase sem voz.

        Rui inspirou fundo.

— O nome é…

        E a porta da sala abriu-se de repente, interrompendo a frase, todos se viraram ao mesmo tempo.

        O agente à porta parecia pálido.

— Inspetor… a pessoa está aqui.

        Rui fechou os olhos por um instante, como se confirmasse mentalmente o inevitável.

        Os passos no corredor aproximavam-se, lentos, firmes, quase calculados

        Rui endireitou-se, o rosto tenso.

— Podem entrar — disse ele.

        A porta abriu-se devagar.

       E quando a figura feminina entrou na sala, o ar pareceu desaparecer.

       Leo sentiu o coração parar, o corpo ficou rígido., o sangue gelou-se-lhe nas veias

        Lucca franziu o sobrolho, sem perceber.

        Lorenzo olhou de um para o outro, confuso.

        Luís levou a mão à boca, mas não por reconhecimento — por instinto.

       Só Leo sabia quem ela era, reconhecia aquele rosto, e sentia sob ele o peso daquela presença.

       Rui fechou o dossier com um estalar seco.

— É ela.

       Leo não conseguiu mover-se.

      Nem falar.

       Nem respirar.

        A mulher levantou o olhar.

       E quando os olhos dela encontraram os de Leo…

— Vera.

       O olhar de Vera tinha uma intensidade estranha, uma profundidade quase demoníaca, que gelava Leo por dentro.

         Vera aproximou-se de Leo com um sorriso estranho nos lábios, os olhos brilhando de uma intensidade quase insana. Com um gesto repentino, envolveu Leo num abraço, como se esse fosse o gesto mais natural do mundo, mergulhando-o num turbilhão de confusão e desconforto.

          Vera abriu um sorriso quebrado.

— David, meu amor, eu sabia que vinhas buscar-me. Estavas apenas à espera de que aquele rapaz desaparecesse, não era? Fiz bem em acabar com ele, não fiz? Vieste por mim e pelo nosso filho — as palavras saíam apressadas, atropelando-se na sua boca, enquanto o olhar alucinado deixava todos à volta inquietos.

         Leo sentiu um frio percorrer-lhe a espinha ao ouvir as palavras de Vera. O seu coração batia descompassado, a respiração tornava-se mais pesada. Procurou afastar-se do abraço, tentando impor um limite invisível entre eles.

— Vera, eu não sou o David, sou o Leo — disse, a voz tensa, esforçando-se por fazê-la regressar à realidade, mas os olhos dela atravessavam-no sem o ver.

        O silêncio instalou-se na sala.

        Os restantes mantinham-se calados, tentando absorver o absurdo da situação, as expressões tensas e descrentes.

       Rui deixou escapar um sorriso breve — não de alegria, mas de confirmação amarga.

— Não, tu és o meu David, o pai do meu filho, a pessoa que amo — insistiu Vera, aproximando-se de novo, as mãos tremendo levemente enquanto tentava tocar-lhe o rosto. — Tenho-te procurado há tanto tempo, meu amor. Porque me dizes isto? Sei que me amas.

— Foste tu que tentaste matar o Rafael? — perguntou Leo, incapaz de conter a urgência que lhe brotava da voz.

        Vera hesitou apenas um instante antes de responder, os lábios contorcendo-se num sorriso perturbador.

— Tinha de o fazer. Ele estava a meter-se no nosso caminho… ia afastar-nos. Sei que era isso que querias, que eu me livrasse dele para podermos estar juntos de novo e criar o nosso bebé.

— Vera, eu amo o Rafael. Não és tu. — O tom de Leo era firme, mas a angústia vibrava-lhe na garganta.

— Meu amor, ele obrigava-te a dizer isso, a estar com ele. Eu só te dei uma ajudinha — continuava Vera, cada vez mais agarrada à sua fantasia.

— Vera, entre nós não existe nada — afirmou Leo, afastando-se ainda mais, o corpo tenso, os olhos buscando apoio nos outros presentes enquanto Vera tentava tocá-lo, os gestos cada vez mais desesperados.

— Nós éramos felizes! Procuravas-me sempre, sei que ainda me amas — sussurrou Vera, a voz trémula e insistente, avançando na tentativa de beijá-lo, mas Leo recuou, repelindo o contacto.

— Tu estás doente, Vera. Por favor, larga-me — implorou, sentindo a raiva a crescer-lhe por dentro, enquanto lutava para se controlar.

         Lucca, atento aos sinais, percebeu o desequilíbrio de Vera e a crescente tensão do irmão, que estava a ponto de perder o controlo.

— Rui, peço-te, tira-a daqui antes que aconteça uma desgraça — pediu Lucca, a voz carregada de preocupação.

         Rui acenou discretamente, e dois homens avançaram, agarrando Vera pelos braços e afastando-a de Leo, apesar da sua resistência.

— David, não deixes que me levem! Sei que me amas, sei que amas o nosso filho! Não vos posso perder de novo, voltaste para mim! — gritava Vera, a voz ecoando pelo corredor enquanto era levada, os olhos ainda presos em Leo, entre desespero e alucinação.

         Ela esticou o braço na direção de Leo, como se pudesse alcançá-lo, mesmo quando já estava longe.


🍃 🍃 🍃


         A porta fechou-se atrás de Vera com um estrondo seco que ecoou pela sala.

        O silêncio que se seguiu era pesado, quase sufocante.

        Leo continuava imóvel, como se o corpo tivesse ficado preso no instante em que ela o chamou de “David”.

        Lucca aproximou-se devagar, pousando uma mão firme no ombro dele.

— Leo… respira.

        Leo piscou, regressando lentamente ao presente, o ar voltou-lhe aos pulmões num suspiro trémulo.

       Rui levantou-se da cadeira, fechando o dossier com cuidado desta vez. O rosto dele estava sério, mas havia uma sombra de compaixão nos olhos.

— Precisamos de falar sobre ela — disse, num tom calmo, quase clínico. — Sobre quem ela é. E sobre o que descobrimos.

        Luís e Lorenzo aproximaram-se, ainda atordoados.

— Rui… o que é que acabámos de ver? — perguntou Luís, a voz baixa, incrédula.

        O inspetor respirou fundo.

— O nome dela é Vera Monteiro. Trinta e quatro anos. Professora de artes visuais. Casada… ou melhor, foi casada. — Abriu o dossier e virou algumas páginas. — Há dois anos, ela provocou um acidente de carro. Um acidente grave.

        Leo fechou os olhos, sentindo o estômago apertar.

— O marido morreu no local — continuou Rui. — E ela estava grávida de sete meses. O bebé não resistiu.

        Lorenzo levou a mão à boca.

        Lucca murmurou um “meu Deus”.

— A investigação concluiu que ela acelerou de propósito — prosseguiu Rui. — Foi internada num hospital psiquiátrico logo depois. Fugiu três vezes. Na última, desapareceu completamente.

        Leo sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha.

— E então… encontrou-te — disse Rui, olhando diretamente para ele.

        Leo abriu os olhos, fixando o inspetor.

— Porquê eu?

       Rui virou o dossier para ele, e deslizou uma fotografia sobre a mesa.

       Leo empalideceu. Era o marido de Vera, o verdadeiro David, naquele fotografia, mas quase podia ser ele, tais eram as semelhanças entre os dois.

— Ela projetou em ti o que perdeu — explicou Rui. — O marido. O bebé. A vida que destruiu. E quando te conheceu no clube… agarrou-se à ideia de que eras ele. De que tinhas voltado para ela.

        Lucca cerrou os punhos.

— E o Rafael? — perguntou, a voz tensa. — Porquê ele?

        Rui folheou mais uma página.

— Porque, na mente dela, o Rafael era o obstáculo. A pessoa que te afastava dela. A ameaça ao “reencontro” que ela imaginou.

        Leo sentiu o peito apertar.

— Ela disse… que fez aquilo por mim — murmurou, a voz embargada.

— Ela acreditava nisso — confirmou Rui. — E isso torna tudo ainda mais perigoso.

          Luís passou a mão pelo rosto, incrédulo.

— Então… ela atropelou o Rafael por ciúmes?

— Por delírio — corrigiu Rui. — Por uma fantasia construída sobre trauma, culpa e doença. Para ela, tu és o David. E o Rafael… era o intruso.

          Leo levou as mãos ao rosto, respirando fundo, tentando manter o controlo.

          Lucca ajoelhou-se ao lado dele.

— Leo… isto não é culpa tua.

         Leo abanou a cabeça, lágrimas silenciosas a escorrerem-lhe pelo rosto.

— Mas ele está ali… por minha causa.

— Não — disse Rui, firme. — Ele está ali por causa dela. Só dela.

          O silêncio voltou a cair, desta vez mais pesado, mais íntimo.

         Rui fechou o dossier.

— Ela vai ser internada novamente. Desta vez, sem possibilidade de fuga. O caso está encerrado. Mas… tens de saber que ela pode continuar a fixar-se em ti durante algum tempo. A equipa psiquiátrica vai tratar disso. Mas não estás sozinho nisto.

         Lucca apertou o ombro do irmão, Lorenzo aproximou-se, assim como Luís.

        Uma muralha humana.

         Uma família.

         Leo respirou fundo, limpou o rosto e levantou-se devagar.

— Eu quero voltar para o Rafael.

          Rui assentiu.

— Vão. Ele precisa de ti. E tu precisas dele.

         Leo olhou para a porta por onde Vera tinha sido levada.

        E, pela primeira vez desde que ela entrara, conseguiu afastar o peso do olhar dela.

— Acabou — murmurou.

        E saiu da sala, com os outros atrás dele.


🍃 🍃 🍃


        À porta da esquadra, Lorenzo passou a mão pelo cabelo, ainda em choque.

— Leo… eu… não sei o que dizer. Isto é surreal.

          Leo tentou sorrir, mas o sorriso morreu-lhe nos lábios.

— Eu sei. Eu também ainda não acredito.

         Lorenzo puxou-o para um abraço rápido, apertado.

— Vai para o Rafael. Ele precisa de ti. E tu precisas dele.

         Luís aproximou-se logo depois.

— Eu vou convosco até ao hospital. O Nuno está lá. Quero ver como ele está.

       Lucca assentiu.

— Fazes bem.

        Lorenzo respirou fundo.

— Eu vou avisar o Henrique. E… se precisares de mim, liga. A qualquer hora.

         Leo abraçou-o de novo.

— Obrigado, Lorenzo.

— Vai — disse ele, afastando-se devagar. — Vai para o teu amor.


🍃 🍃 🍃


        Leo caminhava em silêncio, com o olhar perdido.

       Lucca e Luís seguiam ao lado dele, atentos, mas sem forçar conversa.

       Quando entraram no hospital, o cheiro a desinfetante atingiu Leo como um murro no estômago.

        A mãe do Rafael levantou-se ao vê-los aproximar-se, o olhar dela pousou no Leo — e percebeu tudo.

— Leo… — disse, com uma suavidade que quase o fez desabar. — O que aconteceu?

         Leo tentou falar, mas a voz falhou.

        Lucca respondeu por ele:

— Já sabem quem foi.

        A mãe aproximou-se e abraçou o Leo com força.

O importante é que estás aqui. E que ele está a lutar.

        Nuno levantou-se da cadeira ao lado da cama, com os olhos inchados, mas um sorriso tímido.

        Luís foi diretamente para ele, envolvendo-o num abraço sem dizer nada — porque não havia palavras para aquele momento.

— Ele mexeu outra vez, Leo. Quando eu lhe falei. Acho que ele está a tentar voltar.

         Leo aproximou-se devagar, sentou-se ao lado da cama e pegou na mão do Rafael.

— Anjo… voltei — sussurrou.

          E então aconteceu. Muito leve. Muito suave. Mas real. Os dedos do Rafael apertaram os dele.

         Leo levou a outra mão à boca, sufocando um soluço.

Meu Deus… Rafa… amor… estou aqui.

         A mãe aproximou-se, emocionada.

— Ele sente-te, Leo.

        Nuno sorriu, com lágrimas a escorrerem-lhe pelo rosto.

— Eu disse que ele estava a voltar.

         Leo inclinou-se sobre a cama, pousando a testa na mão do Rafael, deixando finalmente que o corpo tremesse, que o peito se abrisse, que o peso saísse.

          Chorou em silêncio.

         Chorou tudo o que tinha guardado desde a esquadra.

        Chorou pelo medo, pela culpa, pela dor — e pela esperança que renascia ali, naquele aperto de mão.

         Lucca ficou à porta, observando a cena com os olhos brilhantes.

         Sabia que aquele era um momento só deles.

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