35 – Quando o Chão Desaparece
O Henrique fechou a porta atrás de si.
Fê-lo devagar, com as duas mãos, e foi esse gesto (e não a cara dele, que o Leo ainda nem tinha olhado direito) que fez o Leo pousar o telemóvel em cima da secretária ainda a chamar.
— Henrique.
— Senta-te.
— Tu nunca vens cá acima.
— Leo, senta-te.
O Leo não se sentou.
Ficou de pé atrás da secretária, com uma mão apoiada na madeira, e sentiu o corpo perceber antes da cabeça: as palmas das mãos ficaram molhadas, e passou-lhe pelas costas um frio de andar na rua sem casaco.
O Henrique respirou fundo duas vezes, à procura da maneira menos cruel de partir uma pessoa ao meio, e percebeu que não havia nenhuma.
— Houve um acidente.
O silêncio caiu em cima da secretária como uma pedra.
— Quem?
O Henrique levantou os olhos.
— O Rafael.
O Leo deu um passo atrás e a anca bateu-lhe no armário.
— Não.
— Leo…
— Não. — Disse-o outra vez, e não era uma resposta, era uma coisa que lhe estava a sair sozinha. — Não, não, ele está nas aulas. Ele sai à uma. Ele…
E parou a meio da frase, porque a mão dele ainda estava em cima do telemóvel, e porque o telemóvel dizia sem sinal desde as 13h0, e porque ele já sabia aquilo havia dez minutos sem saber que sabia.
Sentou-se. Não foi uma decisão. As pernas é que deixaram de servir.
— Foi atropelado à porta da faculdade, à hora de almoço — disse o Henrique, depressa, porque as pausas eram piores. — Está no São Bento. Está vivo. O Lucca está com ele e a família está toda lá. Mais do que isso ninguém sabe.
O Leo levou a mão à boca.
E ficou assim, com a mão na boca e os olhos abertos, a olhar para um ponto qualquer da secretária, durante o tempo que demorou a compreender aquilo, que foi pouco, e a aceitá-lo, que não chegou a acontecer.
Depois levantou-se de repente e foi buscar o casaco.
— Eu tenho de ir.
— Eu levo-te.
— Eu tenho o carro na cave.
— Leo. — O Henrique pôs-se à frente da porta, e não foi com força nenhuma, foi só pôr-se ali. — Eu levo-te. Ou vamos os dois de táxi. Escolhe tu, mas tu não pegas naquele volante.
O Leo abriu a boca para discutir.
E não conseguiu, porque naquele momento as lágrimas chegaram-lhe todas ao mesmo tempo, sem aviso nenhum, e ele ficou parado no meio do gabinete a chorar à frente do amigo como não chorava desde a segunda quimioterapia.
O Henrique atravessou o gabinete e abraçou-o.
— Ele não está sozinho — disse-lhe, contra a orelha. — E tu também não.
🍃 🍃 🍃
Foram de táxi, porque nenhum dos dois estava em condições de conduzir e porque o Henrique teve o bom senso de não fingir que estava.
O Leo fez o caminho todo de olhos na janela.
A Luísa tinha ficado à porta do gabinete com a mão na boca. Alguém do sétimo lhe tinha perguntado alguma coisa no elevador e ele não tinha ouvido. Na receção, a rapariga da entrada tinha dito "boa tarde, Sr. Leo" como dizia todos os dias.
Aquilo que ele estava a sentir não tinha nome nenhum. Não era medo, porque o medo tem forma. Era uma coisa aberta.
— Henrique.
— Diz.
— Diz-me que foi um acidente.
O Henrique virou-se para ele.
— Foi um atropelamento, Leo.
E foi só isso que ele disse, porque era um homem que não mentia ao Leo desde os seis anos e não ia começar naquele táxi.
O Leo voltou a olhar para a janela.
Tirou o telemóvel do bolso, abriu a conversa, e a mensagem continuava lá.
<Estás bom?>
Um risco.
🍃 🍃 🍃
Entraram pelas portas automáticas e a primeira coisa que o Leo viu não foi a família.
Foi o Mário.
Estava de pé no meio da sala de espera, com o casaco ainda no braço, e a D. Clara tinha-lhe a cara entre as mãos e estava a olhar para ele como quem olha para uma coisa que não pode estar ali.
— Mário.
— Sou eu, tia.
— Tu estás…
A D. Clara não acabou a frase. Fecharam-se-lhe os dedos na gola do casaco dele e puxaram-no para baixo, e ela abraçou-o de uma maneira que não era um abraço de sala de espera, era outra coisa, era um som.
O Sr. Wei levantou-se devagar da cadeira.
Ficou ali um segundo, com as mãos ao lado do corpo, a olhar para o sobrinho da mulher como quem confere um número. Depois pousou-lhe a mão no ombro, e deixou-a ficar.
— O teu pai disse-nos que tu tinhas morrido — disse o Jorge, da parede, com a voz áspera. — Fizeram-te uma missa. Eu fui àquela missa, Mário.
— Eu sei.
— Eu levei uma gravata preta.
— Eu sei, Jorge.
O Jorge afastou-se da parede, chegou-se a ele e abraçou-o com força, quase com raiva, da maneira como os homens daquela família faziam as coisas.
— O Rafael sabia? — perguntou a D. Clara.
O Mário demorou a responder.
— Sabe desde setembro. — Engoliu. — Ele pediu-me, tia. Pediu-me umas seis vezes para eu vir cá a casa. E eu disse-lhe sempre "para a semana".
A D. Clara fechou os olhos.
E foi nesse momento que ela viu o Leo parado à entrada.
🍃 🍃 🍃
O Leo atravessou a sala e as pernas levaram-no até meio.
Depois dobraram-se.
Ficou de joelhos à frente da cadeira da D. Clara, sem dar por isso e sem vergonha nenhuma, e encostou-lhe a testa aos joelhos como um homem que tinha andado o dia inteiro de pé a segurar uma coisa e que a acabava de pousar.
A D. Clara pôs-lhe a mão na cabeça.
Não disse "levanta-te". Não disse "as pessoas estão a ver". Ficou ali a passar-lhe a mão pelo cabelo, devagar, como fazia ao filho quando ele era pequeno e chegava a casa com um joelho ralado.
— Eu não o posso perder — disse o Leo, contra o tecido da saia dela. — Clara, eu não o posso perder.
— Eu sei, filho.
Foi a primeira vez que ela lhe chamou aquilo, e nenhum dos dois reparou.
— Ainda não sabemos nada — continuou ela, com uma calma que estava a custar-lhe a vida. — E enquanto não soubermos, não vamos enterrar ninguém nesta sala. Levanta-te e senta-te aqui ao meu lado.
Apontou para a cadeira vazia à sua direita.
O Leo levantou-se e sentou-se.
A D. Clara pegou-lhe na mão e não a largou mais.
Do outro lado da sala, o Henrique sentou-se ao lado do Mário, que se encostou a ele sem hesitar nem olhar para os lados, e ficou com a cara no ombro dele.
O Lorenzo viu aquilo.
Não disse nada durante um bom bocado. Depois chegou-se à frente, pousou a mão no ombro do Mário e olhou para o amigo do irmão.
— É por causa dele que tu nunca vens aos nossos jantares.
— É.
O Lorenzo assentiu uma vez.
Fosse qual fosse a conversa, não era ali, e ele sabia disso melhor do que ninguém.
🍃 🍃 🍃
O Lucca apareceu ao fim de uma hora e quarenta.
Vinha de bata, com as mangas dobradas e o cabelo desalinhado, e trazia na cara aquela coisa que os médicos trazem quando já decidiram por onde começar.
A sala inteira levantou-se ao mesmo tempo.
O Leo foi o primeiro a dar um passo e foi o primeiro a quase cair. O Henrique apanhou-lhe o braço.
— Doutor. — A voz da D. Clara tremia. — O meu menino.
O Lucca parou à frente dela.
— Ele está vivo.
A sala respirou.
— Está vivo e está estável, e eu vou dizer-vos tudo o resto de uma vez, porque isto ouve-se melhor de uma vez. — Respirou. — Tem um traumatismo craniano. Tem o braço esquerdo partido em dois sítios e tem o fémur direito partido, e a perna vai ter de ser operada assim que ele estiver em condições de ir para o bloco. Tem hematomas internos que estamos a vigiar de hora a hora.
Ninguém disse nada.
— Ele ainda não acordou — continuou o Lucca. — E eu não vos vou dizer que isso é normal, porque não é. Há inchaço no cérebro. Nas próximas vinte e quatro horas nós vamos estar à espera de duas coisas: que o inchaço não aumente e que ele abra os olhos. Se o inchaço aumentar, há decisões a tomar. Falo-vos delas se chegarmos lá.
A D. Clara levou a mão ao peito.
O Sr. Wei não se mexeu, e foi a maneira dele de não cair.
— E o açúcar?
Foi o Leo que perguntou.
Perguntou-o baixo, do meio do grupo, e a sala toda se virou para ele, porque era a última pergunta que qualquer um deles estaria à espera de ouvir naquele momento.
O Lucca olhou para o irmão.
E, pela primeira vez desde que tinha entrado naquela sala, a cara dele mudou.
— Está controlado — disse. — Ele entrou com duzentos e quarenta, que é o que acontece a um corpo assim. Está com soro e com insulina em perfusão, e é medido de hora a hora. — Uma pausa. — O sensor do braço partiu-se no embate. Tivemos de o tirar.
O Leo assentiu com a cabeça.
Foi a única coisa que ele conseguiu fazer, porque se abrisse a boca saía outra coisa.
Sem sinal desde as 13h07.
Aquilo não tinha sido um problema de rede.
Aquilo tinha sido o corpo dele no chão.
🍃 🍃 🍃
— Podemos vê-lo? — perguntou o Jorge.
— Ainda não. Está nos cuidados intensivos e está a fazer exames. — O Lucca olhou para a D. Clara e escolheu as palavras a pensar nela. — Eu venho buscar-vos assim que houver alguma coisa para ver. Um de cada vez, e pouco tempo.
Depois virou-se para o Leo.
E a sala encolheu até só lá estarem os dois.
— Leo.
— Diz.
— Ele chamou por ti.
O Leo ficou a olhar para o irmão.
— O quê?
— Na rua, antes de a ambulância chegar, e outra vez no corredor, quando ainda estava comigo. — O Lucca disse aquilo sem lhe adoçar nada, porque era a única coisa daquele dia que se podia dar a alguém. — Disse o teu nome duas vezes.
E o Leo desfez-se ali, de pé, no meio de toda a gente.
Porque não havia ninguém naquela sala que soubesse o que ele sabia: que a última coisa que aquele rapaz lhe tinha dito ao telefone tinha sido sim, mãe, a rir-se, às oito e vinte da manhã, depois de uma noite inteira em que ele tinha dormido mal por culpa dele.
E que a seguir a isso tinha havido um amanhã que ele já não sabia se ia existir.
O Henrique segurou-o.
Foi só isso que ele fez, e foi o que era preciso.
🍃 🍃 🍃
O Luís esperou que o Lucca desaparecesse pelo corredor e que a sala voltasse a sentar-se.
Depois chegou-se ao pé do Leo.
Tinha a cara inchada e o cartão do trabalho ainda ao pescoço, e ficou ali um segundo à procura de um sítio por onde começar.
— Leo.
— Diz-me o que aconteceu.
— O Nuno viu tudo.
O Leo olhou para o sobrinho, encostado à parede do outro lado da sala, com os cotovelos nos joelhos e os olhos no chão.
— Eles iam atravessar na passadeira, à hora de almoço, com o sinal verde — disse o Luís. — O Nuno correu à frente, a brincar. O Rafael foi atrás dele.
— E?
O Luís respirou.
— E havia um carro parado. — Disse aquilo devagar, como quem põe uma coisa pesada em cima de uma mesa. — Estava parado, Leo. E arrancou. Não travou, não buzinou, não guinou. Acelerou, bateu-lhe, e acelerou outra vez para se ir embora.
O Lorenzo levantou a cabeça do outro lado da sala.
— Repete isso.
— O Nuno diz que o carro esperou.
E, naquele momento, toda a gente naquela sala percebeu a mesma coisa ao mesmo tempo.
O silêncio que se fez foi de outra qualidade.
A D. Clara apertou a mão do Leo com tanta força que lhe magoou os dedos.
— De propósito? — A voz dela saiu fininha. — Alguém fez aquilo ao meu filho de propósito?
O Nuno desatou a chorar na parede, alto, sem se conseguir travar, e o Luís atravessou a sala em quatro passos e apanhou-o.
— Eu vi o carro a acelerar. Eu vi. E não fiz nada, tio, eu não fiz nada…
— Tu gritaste o nome dele — disse o Luís, contra o cabelo dele. — A senhora do café ouviu-te da esquina. Tu gritaste.
O Lorenzo pôs-se de pé.
— Isto muda tudo. — A voz dele estava outra vez firme, que era o que acontecia ao Lorenzo quando toda a gente à volta começava a desfazer-se. — Se alguém fez aquilo de propósito, há um carro, e há uma matrícula, e há câmaras naquela rua. E quanto mais horas passarem, menos há. — Olhou para o Luís. — Vamos à faculdade e depois à esquadra. Agora.
— Eu vou contigo.
O Luís virou-se para o Nuno, e o Nuno pôs-lhe um dedo nos lábios antes de ele ter de pedir licença para ir.
— Vai. Ele é meu amigo, mas é teu irmão. — Limpou a cara com a manga. — Descobre quem foi.
🍃 🍃 🍃
O Leo não disse uma palavra durante aquilo tudo.
Ficou sentado na cadeira ao lado da D. Clara, com a mão dela na dele, a olhar para o chão de linóleo.
E, enquanto a sala falava por cima da cabeça dele, foram-lhe chegando coisas.
Não chegaram por ordem nenhuma, nem chegaram como um pensamento. Chegaram como chegam as coisas que a gente tem arrumadas numa gaveta e que alguém abre de repente.
Um carro escuro parado à porta dos pais dele, com vidros escuros, que o Sr. Wei comentou à mesa entre a sopa e o resto.
Um carro escuro parado a trinta metros do portão do lar, à quinta-feira à noite, com o motor a trabalhar.
Ele é bonito. Mais novo do que eu pensava.
O Leo fechou os olhos.
E deu por si a fazer uma coisa que nunca tinha feito na vida, que era tentar convencer-se a si próprio.
Há carros escuros em todo o lado. Há mensagens de números errados todos os dias. A rua da faculdade tem trânsito e tem gente distraída e tem quem fuja por ter bebido ao almoço.
Podia ser tudo aquilo.
O mal era que também podia não ser, e foi essa a ideia que se lhe instalou no peito e que não havia maneira de tirar de lá.
E, por cima de tudo isso, a voz do rapaz na sala dele, dois dias antes, a dizer-lhe que o pior não era a mulher.
Que o pior era ele ter decidido sozinho.
O Leo levantou-se.
— Vou ali fora.
A D. Clara olhou para ele.
— Anda cá.
E o Leo baixou-se e deixou-se beijar na testa, como um filho, e saiu para o corredor com as pernas a tremerem.
🍃 🍃 🍃
O Henrique encontrou-o de pé ao pé da máquina do café, sem café nenhum na mão.
Ficou ao lado dele sem dizer nada durante um bom bocado.
Depois disse:
— Leo.
O Leo não se virou.
— Henrique, eu preciso que tu me digas uma coisa.
— Diz.
— Eu estou maluco?
O Henrique olhou para ele de lado.
— Estás a falar de quê?
— Tu sabes muito bem de que é que eu estou a falar. — E aí virou-se, e tinha os olhos vermelhos e a voz a tremer, e agarrou-se à máquina do café com uma mão para não ir abaixo. — Sexta-feira de manhã. No Refúgio, antes de abrir. Eu sentei-me àquela mesa contigo e contei-te tudo.
O Henrique não disse nada.
— Contei-te das mensagens e de quantos números. Contei-te do carro à porta dos pais dele. Contei-te do carro à porta do lar, na quinta à noite, com o motor a trabalhar. — Respirou uma vez, mal. — E hoje estava um carro parado à porta da faculdade que arrancou quando ele começou a atravessar.
— Leo…
— Foi há três dias, Henrique.
— Eu sei quando foi.
— Diz-me outra vez o que me disseste naquela manhã. — Estava quase a suplicar, e era isso o mais difícil de aguentar. — Tu disseste-me para bloquear os números, para a mandar barrar à porta e para não dar a uma mulher assim o gosto de me ver assustado. Disseste-me que isto passava. — Agarrou-lhe o braço. — Diz-me outra vez. Diz-me que são três carros escuros diferentes e que há mil carros escuros nesta cidade, e eu acredito em ti como acreditei na sexta-feira.
O Henrique abriu a boca.
E não conseguiu.
Porque aquilo tinha-lhe saído da boca a ele, três dias antes, com uma chávena de café na mão e a certeza tranquila de quem está a dizer uma coisa razoável a um amigo nervoso. E porque, entre aquela manhã e aquele corredor, o rapaz tinha ido parar aos cuidados intensivos.
Ficou ali, à frente do amigo, com a resposta fácil na ponta da língua e sem se conseguir ouvir a dizê-la outra vez.
O Leo viu-lhe aquilo na cara e teve de se encostar à parede.
— Pois — disse.
— Eu não sei, Leo. — O Henrique disse-o devagar, a escolher cada palavra, porque naquele corredor as palavras pesavam todas o dobro. — E tu também não. Ninguém sabe nada há três horas.
— Eu sei que ela apareceu em outubro. Eu sei que perguntou se ele era meu. — A voz partiu-se-lhe. — Eu sei que tive dois meses e não fiz nada.
— Tu bloqueaste números. Tu mandaste-a barrar à porta.
— Porque tu me disseste para fazer isso.
— Pois disse — respondeu o Henrique. — E disse porque me pareceu a coisa certa. Se queres bater em alguém esta noite, bate-me a mim, que eu aguento melhor do que tu.
O Leo fechou os olhos.
— Eu não te estou a culpar.
— Estás a culpar-te a ti, que é pior e dá o mesmo trabalho.
Ficaram os dois calados um bocado.
— E se for? — perguntou o Leo, e perguntou-o baixinho, como quem tem medo de que a pergunta se realize por ser dita. — Henrique. Se for ela, eu pus aquele rapaz naquela cama.
— Ou não é, e tu estás a dar cabo de ti por causa de uma coisa que não existe.
— Então digo, ou não digo?
E foi ali que o Henrique percebeu o que se estava mesmo a passar, e o que se estava a passar não era um homem a esconder uma coisa. Era um homem com medo de duas coisas ao mesmo tempo, e as duas do mesmo tamanho.
— Se eu descer àquela sala e disser o nome de uma mulher — continuou o Leo —, o Lorenzo e o Luís saem daqui esta noite e vão bater à porta dela. Sem provas. Com o Nuno em choque e com o miúdo naqueles cuidados intensivos. — Passou a mão pela cara. — E se depois se descobrir que foi um bêbado qualquer numa carrinha, eu estraguei a vida de uma pessoa e eles deram-lhe cabo da casa.
— E se não disseres?
O Leo ficou calado.
— E se não disseres, Leo?
— Se não disser, faço outra vez o mesmo.
Disse-o a olhar para o chão.
O Henrique não lhe disse que sim nem que não.
Pôs-lhe a mão na nuca, como fazia desde os seis anos, e deixou-a ficar ali.
— Vamos esperar pela noite — disse. — Se o Lorenzo trouxer alguma coisa da faculdade, tu falas. Nem que seja só comigo e com ele.
O Leo assentiu.
E ficou com aquilo no peito a noite inteira, sem nome nenhum dito em voz alta, que é a maneira mais pesada de se carregar uma coisa.
🍃 🍃 🍃
Às oito e meia da noite ainda ninguém tinha entrado nos cuidados intensivos.
A D. Clara adormeceu vinte minutos na cadeira, sentada e direita, e acordou de repente a perguntar se já havia notícias.
O Sr. Wei foi buscar cafés e trouxe sete, e depois ficou a olhar para eles em cima da mesa a arrefecer.
O Mário ficou, e não voltou a falar do pai.
O Leo tirou o telemóvel do bolso pela quinta vez naquela hora.
Não havia notificações. Não havia gráfico nenhum a atualizar-se, porque não havia sensor nenhum a transmitir.
Abriu a conversa deles e ficou a olhar para a última coisa que lá estava escrita, às treze e cinquenta e duas daquele dia.
<Estás bom?>
Um risco.
Continuava a ter um risco só.
Mais nada. E podes sair da lista quando quiseres.