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34 – O Segundo em que Tudo Parou

Às onze da manhã, o Rafael foi ao bar da faculdade e comprou uma sandes de queijo.

Não tinha fome nenhuma. Tinha dormido mal, tinha a cabeça cheia da noite de domingo e um peso no estômago que não era do estômago. Mas comprou a sandes, sentou-se no muro do pátio ao lado do Nuno e começou a comê-la, porque lhe tinham dito para comer qualquer coisa às onze.

— Desde quando é que tu comes a meio da manhã?

— Desde hoje.

— Ordens de quem?

Rafael não respondeu logo. Arrancou um bocado de pão e ficou a olhar para o chão.

— Do meu tio.

O Nuno virou-se para ele.

— Vocês estão zangados?

— Não estamos zangados.

— Rafa.

— Não estamos zangados — repetiu. — Está uma coisa por arrumar. Vai arrumar-se.

— Isso é a coisa mais velha que eu já te ouvi dizer.

Rafael riu-se, meio de lado, e acabou a sandes.

Às onze e meia tirou o telemóvel do bolso, abriu a conversa e escreveu três palavras. Leu-as. Apagou-as. Escreveu outras.

<Comi às onze.>

Ficou a olhar para aquilo com o polegar parado por cima do botão, e não enviou, porque lhe pareceu pouco, e porque naquele momento lhe apeteceu guardar aquilo para o dia seguinte, quando o visse, para lho dizer de boca e ver a cara dele.

Meteu o telemóvel no bolso do casaco.

Depois teve aulas até à uma.

🍃 🍃 🍃

À uma da tarde, a rua à porta da faculdade era a mesma de sempre: gente a sair toda ao mesmo tempo, mochilas, conversas, o barulho dos carros e o cheiro a fritos que vinha da esquina.

Rafael e o Nuno saíram juntos, como faziam quase todos os dias.

— Eu disse-te que o professor ia gostar do teu trabalho.

— Gostar é muito dizer.

— Ele leu-te uma frase em voz alta, Nuno.

— Leu-me uma frase porque estava mal escrita.

— Pois, pois.

Pararam no passeio, à espera que o sinal mudasse. O trânsito andava devagar, como andava sempre àquela hora. Ao lado deles, um grupo de raparigas discutia um horário. Atrás, alguém chamava por alguém. Tudo normal. Tudo igual a qualquer outro dia.

O sinal abriu.

— Último a chegar paga o almoço! — gritou o Nuno, e disparou rua fora antes de o Rafael perceber o que estava a acontecer.

— És mesmo um idiota!

Rafael riu-se e foi atrás dele, com a mochila a bater-lhe nas costas e o casaco meio aberto, e naqueles quatro passos, com o Nuno a rir-se à frente e o sol de novembro na cara, não havia mulher nenhuma, nem carro nenhum, nem domingo nenhum por arrumar.

Foi então que o som rasgou o instante.

Um motor a acelerar onde não havia razão nenhuma para acelerar.

O Nuno virou-se por instinto, ainda a rir, e a coisa aconteceu-lhe à frente dos olhos num tempo que não era tempo: o carro escuro a ganhar velocidade em vez de a perder, o corpo do Rafael a ser atirado como se não pesasse nada, o som (que ele nunca mais conseguiu descrever a ninguém e que ouviu durante anos) do corpo a bater no asfalto.

E depois um silêncio de um segundo inteiro, como se a rua toda tivesse ficado sem ar.

O carro não parou.

Acelerou mais, virou na primeira e desapareceu no trânsito.

Nuno ficou imóvel no meio da estrada, com as pernas a tremerem e a garganta fechada, e a única coisa que o cérebro dele conseguia fazer era repetir que aquilo não tinha acontecido.

À volta dele o mundo voltou de repente e voltou todo ao mesmo tempo. Gritos. Gente a correr. Telemóveis no ar. Um homem de bata branca a sair da farmácia da esquina. Alguém a gritar uma matrícula em voz alta, letra a letra, para quem quisesse apontar.

— Não lhe mexam! Não lhe mexam na cabeça!

— Ele está a respirar! — gritou uma rapariga ajoelhada ao lado dele. — Está a respirar, está a respirar.

Foi essa frase que pôs o Nuno a andar.

Caiu de joelhos ao lado do amigo. Tinha as mãos a tremer demasiado para lhe tocar, por isso não lhe tocou. Ficou ali, com o Rafael no chão à frente dele, o casaco sujo, uma mão aberta com a palma para cima e um risco de sangue a nascer-lhe na testa e a descer para a orelha.

— Rafa. — A voz saiu-lhe num sítio esquisito. — Rafa, olha para mim. Olha para mim.

O Rafael tinha os olhos fechados.

Tinha dezoito anos e tinha acabado de dizer a alguém que era um idiota.

🍃 🍃 🍃

O Nuno tirou o telemóvel do bolso com dedos que não lhe obedeciam, tentou duas vezes até acertar no nome, e ligou à única pessoa que lhe fazia sentido no mundo naquele momento.

O Luís atendeu ao segundo toque, com aquela voz de quem está a trabalhar e vai dizer que já liga.

📞 — [Diz.]

📞 — "Luís…"

📞 — [Nuno?]

📞 — "O Rafael foi atropelado."

Do outro lado não houve nada.

Houve uma cadeira a arrastar, um som de coisas a caírem, uma respiração presa a meio.

📞 — [Onde?]

📞 — "À porta da faculdade. Na passadeira. Luís, ele está no chão, ele está a respirar, eles dizem que ele está a respirar…"

📞 — [Não saias daí. Não saias daí, ouviste? Vou já.]

A ambulância chegou em sete minutos, que ao Nuno pareceram uma tarde inteira.

Fizeram-lhe perguntas e ele respondeu a todas com uma clareza que depois não percebeu de onde tinha vindo. O nome. A idade, dezoito. O nome dos pais. E uma coisa que só ele naquela rua sabia e que disse à terceira pergunta, quase a gritar, agarrado ao braço de um paramédico:

— Ele é diabético. Ele tem um sensor no braço. No braço esquerdo, por baixo da manga.

O paramédico olhou-o com outra cara e agradeceu-lhe com dois dedos no ombro.

Puseram-no na maca com um colar à volta do pescoço. O Nuno viu o casaco dele a ser cortado e teve de olhar para outro lado.

Quando as portas estavam a fechar-se, o Luís apareceu a correr pelo passeio, sem casaco, com o cartão do trabalho ainda ao pescoço.

— Rafael! — gritou, e foi contra o braço de um paramédico.

— Levamo-lo para o Hospital de São Bento. Vão ter lá connosco.

As portas fecharam-se.

A sirene ligou-se.

E a vida deixou de ser aquilo que tinha sido cinco minutos antes.

🍃 🍃 🍃

O Lucca estava de serviço nesse dia.

Tinha acabado de sair de uma sala de observação, com um copo de café frio na mão, quando ouviu o aviso interno e o largou em cima do balcão sem beber.

Atropelamento. Masculino, dezoito anos. Chegada imediata.

Não pensou. Naquele hospital havia todos os dias um masculino de dezoito anos.

Quando a maca entrou pelo corredor e ele deu dois passos para o lado dela, com a mão já estendida para o processo, viu a cara.

E o chão fugiu-lhe por baixo dos pés durante exatamente um segundo.

— Rafael…?

O paramédico confirmou com a cabeça, sem parar de andar, e começou a passagem: hora, mecanismo, tensão, o que tinha sido feito no local.

O Lucca voltou a ser médico entre uma palavra e a seguinte, porque era isso que ele sabia fazer e porque naquele corredor não havia mais ninguém para o fazer.

— Sala três. Quero-o monitorizado e quero uma TAC assim que estabilizar. — E, sem levantar a voz: — Ele é diabético. Tem sensor no braço esquerdo. Quero uma glicemia capilar agora, não me interessa o sensor.

Foi a andar ao lado da maca, com os olhos nos monitores e a cabeça noutro sítio.

Leo.

Meu Deus. O Leo.

🍃 🍃 🍃

O Luís e o Nuno chegaram doze minutos depois, num táxi que o Luís pagou sem saber quanto.

O Nuno entrou pelas urgências agarrado ao braço dele, branco como a parede, e sentou-se na primeira cadeira que apanhou porque as pernas não lhe deram para mais.

O Luís ajoelhou-se à frente dele.

— Amor. Olha para mim.

Nada.

— Nuno, fala comigo. Por favor. — E foi ali que a voz dele se partiu, e ele deixou. — Eu vi o meu irmão a entrar naquela ambulância. Eu preciso de ti aqui, está bem? Preciso mesmo.

O Nuno levantou a cabeça.

Viu a cara do Luís molhada e a boca dele a tremer, e foi isso que o trouxe de volta, e não as vozes, nem o barulho, nem a enfermeira que lhe tinha perguntado duas vezes se ele estava bem.

Encostou a testa ao ombro dele e chorou, e sentiu o Luís a chorar também.

— Desculpa — disse, entre soluços. — Desculpa, desculpa…

— Tu não fizeste nada.

— Fui eu que corri. Eu disse "último a chegar paga o almoço" e corri, e ele veio atrás de mim, e se eu não tivesse corrido ele estava…

— Nuno.

O Nuno afastou-se um bocadinho e limpou a cara com a manga.

E disse aquilo que lhe andava aos círculos na cabeça desde a passadeira, em voz tão baixa que o Luís teve de se chegar à frente para o ouvir.

— Amor, aquilo não foi um acidente.

O Luís ficou quieto.

— O quê?

— O sinal estava verde para nós. Estava verde, Luís, eu vi-o abrir. — Respirou fundo, como quem sobe uma escada. — O carro estava parado. Estava parado e depois arrancou. Não travou, não buzinou, não guinou. Acelerou. — Engoliu em seco. — E quando ele caiu, o carro acelerou outra vez e foi-se embora.

— Nuno, tu estás em choque, isso…

— Eu senti, Luís. — E olhou-o nos olhos. — O carro esperou. Eu sei o que eu vi.

O Luís abriu a boca e não lhe saiu nada.

Ficou a olhar para o namorado, com o coração a bater-lhe nos ouvidos, e sentiu uma coisa fria a instalar-se-lhe no peito ao lado do medo, que era de outra qualidade e que ia ficar lá muito tempo.

Apertou-o contra si.

— A culpa não foi tua. Ouviste bem? Não foi tua. — E, contra o cabelo dele: — E nós vamos descobrir quem fez isto.

🍃 🍃 🍃

O Lucca apareceu no corredor vinte minutos depois, de bata, com as mãos nos bolsos e a cara de quem já escolheu as palavras antes de chegar.

Pousou a mão no ombro do sobrinho.

— Estive agora com ele. Está a ser avaliado, está a ser bem acompanhado, e está nas melhores mãos que há nesta cidade a esta hora. — Deixou a mão ali mais um segundo. — Não vos vou dizer que está tudo bem, porque ainda não sei. Digo-vos o que souber assim que souber.

O Nuno olhou para cima, com os olhos vermelhos.

— Tio… e agora?

— Agora avisa-se a família, com calma e por ordem. — O Lucca virou-se para o Luís. — Ligas aos teus pais. Dizes que ele está no hospital, que está acordado e a ser assistido, e não dizes mais nada, porque mais nada é o que nós sabemos. Depois ligas ao teu irmão Jorge e pedes-lhe que vá buscar os teus pais, que ninguém desta família vai conduzir hoje com esta notícia na cabeça.

O Luís assentiu, já com o telemóvel na mão.

— E o Leo? — perguntou o Nuno.

O Lucca demorou um segundo a responder.

— Do Leo trato eu.

A primeira chamada do Luís foi para casa.

Atendeu a mãe. Ele ouviu o telefone cair ao chão antes de conseguir acabar a frase, e depois a voz do pai, que ficou calado durante tanto tempo que o Luís perguntou se ele ainda estava ali. Estava. Disse só "vamos já" e desligou.

A segunda foi para o Jorge, que estava numa reunião e saiu dela a meio.

A terceira foi para os pais do Nuno, e essa fê-la o Nuno, e não conseguiu dizer quase nada, e foi o Lucca que lhe tirou o telemóvel da mão e falou com o irmão.

🍃 🍃 🍃

O Lorenzo ouviu tudo de pé, no escritório, com uma mão apoiada na secretária.

— Está estável?

— Está a ser avaliado. Tem trauma craniano, Lorenzo. Não sei mais do que isso e não te vou inventar nada.

— A Júlia vai comigo. Vamos já.

— Lorenzo.

— Diz.

— O Leo não sabe.

Houve um silêncio do outro lado da linha.

— Eu trato disso.

— Eu ia ligar-lhe.

— Não. — O Lorenzo disse aquilo com uma firmeza que o Lucca não lhe conhecia. — Não se dá uma notícia destas a um homem que está sozinho num gabinete no sétimo andar. E não se dá pelo telefone.

O Lucca fechou os olhos um segundo.

— Tens razão.

— Tu volta para ao pé dele. É para isso que lá estás.

O Lorenzo desligou.

Ficou de pé, no meio do escritório, com o telemóvel na mão e o queixo a tremer, e depois deu uma palmada na secretária com a mão aberta, uma só, que fez saltar tudo o que lá estava em cima.

Respirou.

E procurou na agenda o número da única pessoa que estava naquele edifício e que o irmão dele ouviria.

🍃 🍃 🍃

Quando viu o nome no ecrã, o Henrique soube logo.

O Lorenzo não lhe ligava por nada. O Lorenzo mandava mensagens pelos anos e aparecia nos Natais.

📞 — "Lorenzo."

📞 — [Henrique. Não há maneira boa de dizer isto, por isso vou dizê-lo. O Rafael foi atropelado à porta da faculdade, há uma hora. Está no São Bento. O Lucca está com ele.]

O Henrique levantou-se da cadeira sem dar por isso.

📞 — "Como é que ele está?"

📞 — [Vivo. Trauma na cabeça. Mais do que isso ninguém sabe ainda.] — Uma pausa. — [A família vai toda a caminho. Falta o Leo.]

📞 — "Eu vou lá acima."

E a voz do Lorenzo mudou.

📞 — [Eu preciso mesmo de ti nisto, Henrique. O Leo de há três anos não me preocupava nada. Este preocupa-me.]

📞 — "Eu sei."

📞 — [Não o deixes conduzir.]

📞 — "Ele não pega no carro. Dou-te a minha palavra."

Desligou e ficou dois segundos parado.

Depois ligou ao Mário.

📞 — [Estou?]

📞 — "Bebé, senta-te."

O Mário sentou-se. Percebeu-se pelo som.

📞 — [O que é que foi?]

📞 — "O teu primo teve um acidente. Foi atropelado à porta da faculdade, está no São Bento e o Lucca está lá com ele. Está vivo. Bateu com a cabeça e ainda não há informação nenhuma a sério."

📞 — [A tia Clara sabe?]

📞 — "Sabem todos. Vão todos para lá agora."

📞 — [E o Leo?]

O Henrique fechou os olhos.

📞 — "Pediram-me a mim."

Do outro lado houve um silêncio curto, e quando o Mário voltou a falar tinha a voz firme, que era a coisa mais rara do mundo e a que o Henrique mais amava nele.

📞 — [Então vai. Fala com ele cara a cara e não o deixes sozinho um minuto.]

📞 — "Eu ia buscar-te."

📞 — [Não vais nada.]

📞 — "Bebé, tu vais entrar naquele hospital sozinho e vais dar de caras com a tua família toda…"

📞 — [Eu sei muito bem com quem vou dar de caras.] — E a voz dele nem tremeu. — [Se calhar era este o dia. Eu vou de táxi e encontramo-nos lá. O Leo é o teu amigo desde miúdos, Henrique. Vai tratar do teu amigo.]

O Henrique ficou com o telemóvel na mão muito depois de a chamada acabar.

Depois passou a mão pela cara, endireitou os ombros e saiu do gabinete.

🍃 🍃 🍃

Ao mesmo tempo, dois andares acima, o Leo saía da reunião das doze.

Tinha corrido bem. Tinha durado mais do que era preciso, como todas, e ele tinha estado ali dentro a fazer o que sabia fazer: ouvir, cortar o que não interessava, decidir depressa. Toda a gente saiu daquela sala a achar que ele estava ótimo.

Atravessou o open space, cumprimentou duas pessoas e entrou no gabinete.

Pousou a pasta.

Sentou-se.

E, antes de abrir o portátil, fez a coisa que tinha passado a fazer umas quinze vezes por dia desde que aquele rapaz lhe tinha dado acesso à aplicação: pegou no telemóvel e abriu-a, por hábito, como quem espreita pela janela para ver se está a chover.

O gráfico estava direitinho a manhã inteira.

Noventa e oito às onze e um quarto.

E depois nada.

Uma linha que acabava.

Sem sinal desde as 13h07.

Leo ficou a olhar para aquilo.

Aquilo acontecia. Já tinha acontecido duas vezes: o telemóvel ficava na mochila e o sensor perdia o alcance, e a linha voltava sozinha uma hora depois. Ele sabia disso. Ele sabia perfeitamente disso.

Abriu a conversa deles.

<Estás bom?>

Escreveu, enviou, e ficou a olhar para o ecrã à espera dos dois riscos azuis.

Não vieram.

Eram treze e cinquenta e dois.

O Rafael saía da última aula à uma.

Leo pôs-se de pé, com o telemóvel encostado à orelha, e ouviu a chamada tocar cinco vezes e cair na voz gravada. Ligou outra vez. Cinco vezes e a voz gravada.

E foi ali, de pé atrás da secretária, com a mão livre apoiada na madeira, que ele sentiu uma coisa a subir-lhe do estômago que não tinha nada a ver com razão nenhuma.

Bateram à porta.

Ele nem chegou a dizer que entrasse.

A porta abriu-se, e era o Henrique.

O Leo olhou para a cara do amigo, e o telemóvel ficou-lhe a tocar na mão, a chamar pela terceira vez um rapaz que não podia atender.

Quando sair o próximo livro, queres saber?

Mais nada. E podes sair da lista quando quiseres.

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