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Capítulo 34 — Aperta a Minha Mão

        O amanhecer entrou devagar pelo quarto, filtrado pelas cortinas brancas. A luz suave desenhava sombras longas no chão, e o hospital começava a ganhar vida com sons distantes — passos apressados, carrinhos a rolar, vozes abafadas.

         Leo acordou devagar, com o pescoço dorido, a mão ainda entrelaçada na de Rafael, e por um segundo, não soube onde estava, até que viu o monitor, a máscara de oxigénio, o braço engessado… e lembrou-se de tudo.

        Endireitou-se na cadeira, piscando os olhos para afastar o cansaço.

         Rafael continuava a dormir, respirando de forma tranquila, o peito a subir e descer num ritmo constante, e Leo, num gesto de carinho, apertou-lhe a mão.

— Bom dia, meu amor… — murmurou, a voz ainda rouca do sono.

         E então aconteceu.

        Os dedos de Rafael mexeram-se outra vez, num movimento pequeno, mas mais firme do que na noite anterior.

         Leo prendeu a respiração, o coração a acelerar.

— Rafa… estás a ouvir-me, não estás? — sussurrou, inclinando-se para ele.

         Rafael não abriu os olhos, mas a mão reagiu — um aperto leve, quase instintivo.

         Leo deixou escapar um soluço emocionado, levando a mão livre ao rosto.

— Obrigado… continua assim… eu estou aqui.

        Nesse momento, a porta abriu-se devagar.

        Uma enfermeira entrou, sorrindo ao ver Leo acordado.

— Bom dia. Dormiu aqui? — perguntou com gentileza, aproximando-se da cama.

        Leo assentiu, limpando discretamente os olhos.

— Não consegui sair.

— É normal — disse ela, com um sorriso compreensivo. — Ele está estável. Vou só verificar o soro e dar a medicação da manhã.

        Ela trabalhou com movimentos suaves, experientes, mudou o saco do soro, verificou o acesso, ajustou a máscara de oxigénio e anotou valores no tablet.

— Ele reagiu à minha voz — disse Leo, baixinho, como se tivesse medo de quebrar o encanto.

       A enfermeira olhou para ele com ternura.

— A sedação é leve. Ele não está consciente, mas reconhece estímulos. Continua a falar com ele. Faz-lhe bem.

        Leo sorriu, emocionado.

— Eu não vou parar.

         A enfermeira saiu, deixando o quarto novamente em silêncio.

       Leo voltou a sentar-se, acariciando a mão do Rafael com o polegar.


🍃 🍃 🍃


          Por volta do meio-dia, a porta abriu-se outra vez., e por ela entrou Lucca, um sorriso cansado, mas sincero.

— Bom dia, Leo. Dormiste alguma coisa?

         Leo encolheu os ombros.

— Um pouco. Aqui ao lado dele.

          Lucca aproximou-se da cama, verificando o monitor e observando o Rafael com atenção profissional, mas também com carinho.

— Ele está melhor — disse, satisfeito. — A resposta aos estímulos é um ótimo sinal. O corpo está a recuperar bem.

         Leo deixou escapar um suspiro de alívio.

— Eu senti… ele apertou a minha mão.

— Acredito — respondeu Lucca. — E vai continuar a reagir. O pior já passou.

         Leo levou a mão ao peito, como se aquelas palavras lhe aliviassem um peso enorme.

        Lucca pousou uma mão no ombro dele.

— Leo… já comeste alguma coisa hoje?

         Leo hesitou.

— Não… não tive coragem de sair.

        Lucca sorriu.

— Leo, anda comer qualquer coisa comigo. O Rafael está seguro. Depois, quando regressarmos, eu fico aqui com ele um bocado. Estou de folga hoje.

        Leo olhou para Rafael, depois para Lucca, dividido.

— Mas…

— Leo — interrompeu Lucca, firme, mas gentil — tu não vais desmaiar aqui. E o Rafael não vai acordar nos próximos minutos. Ele está seguro. Vamos comer. Depois voltas.

         Leo respirou fundo e assentiu.

— Está bem.

         Levantou-se devagar, deu um último beijo na testa do Rafael e murmurou:

— Eu volto já, meu amor.

        Lucca sorriu ao vê-lo.

— Ele está em boas mãos. Prometo.

         E juntos, saíram do quarto, deixando Rafael a descansar sob a luz suave do início da tarde.

         Lucca caminhava ao lado de Leo, atento, como se estivesse a avaliar cada respiração dele.

— Dormiste mesmo aqui a noite toda? — perguntou, num tom leve.

         Leo encolheu os ombros.

— Não conseguia sair. Tinha medo de… sei lá. De não estar aqui se ele precisasse.

        Lucca sorriu de lado.

— Isso chama-se amor. E também te vai deixar exausto se não comeres nada.

       Leo soltou um riso fraco.

— Estás a falar como médico ou como irmão?

— Como os dois — respondeu Lucca, empurrando a porta da cafetaria. — E como alguém que sabe que o Rafael vai querer ver-te inteiro quando acordar.

         Sentaram-se numa mesa perto da janela. Leo mexia na comida sem grande apetite, mas Lucca mantinha a conversa leve, quase terapêutica.

— Sabes… — começou Lucca, apoiando os cotovelos na mesa — o Rafael é teimoso. Daqueles que só acordam quando querem. Mas também é daqueles que voltam sempre. Ele não desiste.

         Leo sorriu, com os olhos ainda brilhantes.

— Eu sei. Ele é mais forte do que parece.

— E tu também — acrescentou Lucca. — Mais do que achas.

         O resto do almoço passou com pequenas histórias, memórias de momentos engraçados do Rafael na faculdade, e até uma ou outra piada que conseguiu arrancar um sorriso verdadeiro ao Leo.

         Quando terminaram, Leo respirou fundo.

— Vamos voltar.

— Claro — disse Lucca, levantando-se. — Ele deve estar a dormir profundamente agora. Mas… nunca se sabe.


🍃 🍃 🍃


         Voltaram ao quarto num silêncio confortável.

         Quando Leo abriu a porta, o coração deu-lhe um salto.

        Rafael tinha mexido a cabeça, muito pouco, quase impercetível — mas diferente do que antes.

         Leo aproximou-se de imediato, sentando-se na cadeira.

— Anjo… estou aqui — murmurou, tocando-lhe na mão.

         Os dedos mexeram-se outra vez, mas desta vez, mais claramente.

        Lucca aproximou-se, observando o monitor.

— Isto é ótimo — disse, satisfeito. — Ele está a reagir cada vez mais. O corpo está a acordar devagarinho.

       Leo inclinou-se e pousou um beijo na mão do Rafael.

— Continua, meu amor… estou aqui.

        A porta abriu-se devagar, com um ranger quase impercetível.

        Era a mãe do Rafael.

         O rosto dela estava marcado por horas de choro, mas havia uma força estranha nos olhos — aquela força que só uma mãe desesperada consegue ter. Trazia uma mala pequena ao ombro e um casaco que parecia ter sido vestido à pressa.

— Posso… posso entrar? — perguntou, num fio de voz que parecia prestes a quebrar.

          Leo levantou-se de imediato e foi até ela, abraçando-a com cuidado.

— Mãe… claro que sim.

          Ela aproximou-se da cama devagar, como se tivesse medo de que o chão desaparecesse debaixo dos pés. Quando viu o Rafael ali, tão quieto, tão pálido, tão frágil… levou a mão à boca e deixou escapar um soluço.

— O meu bebé… — murmurou, com a voz partida. — O meu menino…

         Leo segurou-lhe a mão, tentando transmitir-lhe alguma estabilidade.

— Ele está a reagir, mãe. O Lucca disse que é bom sinal. Ele mexeu a mão quando falei com ele.

         Ela olhou para Leo com lágrimas nos olhos, como se aquela informação fosse uma tábua de salvação.

— Ele ouviu-te…? Então ele está aqui. Ele está a lutar.

        Aproximou-se mais, pousando a mão no cabelo do Rafael com uma delicadeza infinita, como se estivesse a tocar nele pela primeira vez.

Estou aqui, meu amor… a mãe está aqui — sussurrou, inclinando-se para beijar-lhe a testa.

         A mãe ficou ali, em silêncio, a acariciar-lhe o rosto, enquanto o quarto se enchia de uma paz estranha — uma paz feita de amor, dor e esperança.

        Quando Leo e Lucca saíram do quarto, deixaram a mãe a sós com Rafael.

— Lucca, como está o Nuno? — Leo perguntou, agora com o tom mais controlado, mas deixando transparecer uma inquietação genuína nos olhos. — Ontem estava tão perturbado que mal consegui falar com ele. Eles são mesmo próximos… imagino o quanto isto o deve estar a afetar.

         Lucca assentiu, transmitindo uma tranquilidade confiante, e respondeu com voz baixa, mas firme, revelando o cuidado com o amigo:

— O Nuno vai aguentar. Tive de lhe dar alguma coisa para descansar; precisava mesmo de dormir um pouco. A escola compreendeu e sugeriu que ficasse em casa. E não está sozinho — acrescentou Lucca, com um sorriso orgulhoso. — A mãe e a irmã estão sempre por perto. A Amélia, então, faz de tudo para animar o irmão. Ontem, preparou-lhe chá e ficou a ler ao lado dele até adormecer.

— Achas que lhe devo ligar? — perguntou Leo, o olhar meio perdido, tentando decidir. — Sinto que ele também vai querer ver o Rafael... Eu gosto tanto daquele miúdo, mas sei que há mais gente que o ama e que quer estar com ele. — Leo desviou os olhos, à espera de alguma orientação do irmão.

— Ele deve estar a descansar ainda. Fala com a Amélia, com a nossa cunhada, ou manda só uma mensagem para ele aparecer quando puder — respondeu Lucca, direto, sem rodeios.

         Leo suspirou, segurou o telefone com mãos um pouco trémulas, e escreveu:

📩 — Nuno, desculpa se estou a ser egoísta. Nem pensei direito. Vem cá, por favor. O Rafael vai adorar ver-te quando acordar.

         Assim que a mensagem foi enviada, a resposta veio quase de imediato.

📩— Vou a caminho!

         Leo e Lucca estavam a voltar para o quarto quando o telemóvel de Leo vibrou no bolso, quebrando o silêncio tenso do corredor.

— É o Luís!

         Leo falou a olhar para irmão, como se tivesse medo do que vinha do outro lado do telefone.

— Que esperas para atender?

📞 — “Sim?”

📞 — [Leo, o Rui acabou de me ligar.] — Disse, a voz tensa, mas carregada de urgência

— Ele encontrou o dono do carro.

         Leo sentiu o coração apertar-se quando ouviu a voz do Luís do outro lado da linha.

         O silêncio caiu pesado no corredor.

📞 — [Leo, preciso que venhas à esquadra. O Rui quer falar convosco pessoalmente.]

        Leo engoliu em seco.

📞 — “Eu… eu vou já. Onde estás?”

📞 —[À porta da esquadra. Venham os dois. É importante.]

         Depois que a chamada terminou, Leo ficou imóvel por um segundo, tentando processar. Lucca aproximou-se, pousando uma mão firme no ombro dele.

— Vamos. Não estás sozinho.

     Entraram novamente no quarto.

       A mãe do Rafael levantou o olhar, ainda com a mão pousada no rosto do filho.

Aconteceu alguma coisa? — perguntou, com a voz trémula.

         Leo aproximou-se devagar.

— Mãe… o Luís ligou. Temos de ir à esquadra. O Rui encontrou o dono do carro.

         Ela levou a mão ao peito, respirando fundo.

— Vão. — disse, sem hesitar. — Eu fico com ele. Não se preocupem comigo.

         Leo inclinou-se e beijou a testa dela.

— Qualquer coisa, ligue-me.

— Vai, Leo.insistiu ela, com uma força que só uma mãe desesperada consegue ter. — Descubram quem fez isto ao meu filho.

        Leo assentiu, com os olhos brilhantes.

        Ele e Lucca saíram do quarto, caminhando pelo corredor com passos rápidos, quase sincronizados.


🍃 🍃 🍃


        Poucos minutos depois, a porta do quarto abriu-se novamente.

        Era o Nuno.

        Trazia o cabelo despenteado, a mochila pendurada num ombro e os olhos vermelhos — claramente tinha chorado, mas tentava manter-se firme.

— Dona Clara… — chamou, num fio de voz.

        Ela virou-se e abriu os braços sem pensar, Nuno correu para ela e abraçou-a com força, escondendo o rosto no ombro dela.

— Ele vai ficar bem, não vai? — perguntou, a voz embargada.

         Ela acariciou-lhe o cabelo, como se fosse mais um dos seus filhos.

— Vai, meu amor. Ele está a lutar. E nós estamos aqui com ele.

         Nuno aproximou-se da cama, puxou uma cadeira e sentou-se ao lado do Rafael.

— Oi, mano… — murmurou, segurando-lhe a mão. — Vim assim que o Leo mandou mensagem. Não te atrevas a deixar-me sozinho na escola, ouviste? Aliás, não quero que me deixes sozinho nesta vida, ouviste bem?

        A mãe de Rafael sorriu, triste, mas com ternura nos olhos.

— Ele vai gostar de te ouvir — disse baixinho.

         Nuno assentiu com a cabeça, tentando controlar as lágrimas enquanto, discretamente, as limpava com a manga. Sentou-se mais perto da cama, pousou a cabeça junto à mão de Rafael e sentiu o coração acelerar no peito. Num instante, a respiração ficou presa. Uma pressão suave apertou-lhe os dedos.

— D. Clara… ele... ele apertou a minha mão! — exclamou Nuno, a voz trémula, repleta de esperança e emoção. — Rafa, estás a ouvir-me, não estás? Se estiveres aí, aperta a minha mão outra vez, por favor.

        Mais uma vez, um aperto delicado na mão de Nuno, que não conseguiu conter o choro. Lágrimas corriam-lhe pelo rosto, e o peito parecia explodir de alegria e alívio.

         A mãe aproximou-se, emocionada, e pegou na outra mão de Rafael.

— Meu menino, sou eu, a mãe. Se me ouves, aperta a minha mão para eu saber que estás aí — pediu, com a voz trémula e o olhar fixo no filho, aguardando ansiosamente por qualquer resposta.

          A resposta não se fez esperar, o aperto surgiu logo depois, firme e reconfortante.

— O meu menino, assustaste-nos tanto... Mas agora sinto que vais ficar bem. Estamos todos aqui contigo, não te esqueças disso. Todos estão muito preocupados, especialmente o Leo.

         No instante em que ouviu o nome de Leo, a mão de Rafael apertou ainda mais a da mãe. Nuno, ao presenciar aquele gesto, sentia o coração disparado e as lágrimas escorriam-lhe sem controlo, enquanto agarrava a mão do Rafael com desespero, procurando apoio e esperança.

Ele esteve aqui a noite toda, não te largou nem por um minuto, mas precisou de sair só um bocadinho. Já descobriram quem te fez mal. Ele foi até à polícia, sempre a pensar em ti — explicou a mãe, passando carinhosamente a mão pelo cabelo de Rafael, numa tentativa de lhe transmitir calma.

— Descansa agora, estamos aqui contigo — acrescentou Nuno, baixinho, encostando a testa à mão de Rafael. — Eu e a tua mãe ficamos aqui até o Leo voltar, não te preocupes.

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