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33 – O Que Não Te Contei

Foi a um domingo à noite, e começou pela coisa mais inocente do mundo.

Tinham jantado em casa do Leo. Sobras de sábado, pão, um fim de garrafa de vinho que só o Leo bebeu. O Rafael estava sentado no chão da sala, encostado ao sofá, com um caderno em cima dos joelhos e uma caneta na boca, a tentar acabar um trabalho que era para entregar na terça.

Leo estava atrás dele, no sofá, com os pés dele por baixo de uma almofada.

— Carinho.

— Hum.

— Posso dizer-te uma coisa sem levares a mal?

— Podes dizer-me tudo.

O Rafael tirou a caneta da boca e ficou a olhar para a folha.

— Eu ando com uma parvoíce na cabeça há umas semanas.

— Diz.

— Ando com a sensação de que alguém anda a olhar para mim. — Disse aquilo depressa, e riu-se logo a seguir, como tinha feito com o Nuno. — Já sei que parece de maluco.

Leo não se riu.

— À saída das aulas — continuou o Rafael, encorajado pelo silêncio —, e uma vez à porta do café, e outra vez na paragem. Nunca vejo ninguém. E na quinta-feira, ao fim da tarde, estava uma mulher parada do outro lado da rua, à frente da faculdade. Estava lá quando eu entrei e ainda lá estava quando eu saí.

A caneta do Rafael parou a meio de uma palavra, porque a voz que veio de trás dele não era a que ele estava à espera.

— Morena?

O Rafael não se virou logo.

Ficou a olhar para o caderno, com a caneta pousada no papel, e sentiu uma coisa esquisita a acontecer-lhe no peito, uma espécie de desarrumação, como quando se sobe um degrau que não existe.

— O quê?

— Nada.

— Tu perguntaste se ela era morena.

— Perguntei por perguntar.

O Rafael fechou o caderno.

Levantou-se do chão devagar, virou-se, e sentou-se na mesa baixa à frente do sofá, de maneira a ficar com a cara dele à mesma altura.

— Leo.

— Anjo…

— Como é que tu sabes que ela é morena?

E o Leo não teve resposta.

Teve três, todas prontas e todas más, e ficou a olhar para aquele rapaz de dezoito anos que tinha acabado de se sentar à frente dele com a coluna direita e uma calma que não lhe conhecia, e percebeu que estava a um segundo de dizer a primeira e que, se a dissesse, nunca mais ia conseguir desdizê-la.

Por isso não disse nada, que foi a pior coisa que podia ter feito.

O Rafael viu-lhe aquilo tudo na cara.

— Há quanto tempo?

— Rafael.

— Há quanto tempo, Leo?

Leo pousou o copo em cima da mesa, ao lado da perna dele.

— Desde outubro.

🍃 🍃 🍃

Contou tudo.

Contou o telefonema do Henrique, naquele domingo de manhã, enquanto o Rafael estava encostado a ele de camisa emprestada. Contou que ela tinha ido ao Refúgio e perguntado se o rapaz era dele. Contou as rosas brancas, que tinham chegado sem cartão e que ele tinha metido no lixo com papel e tudo. Contou as mensagens, e quantas, e de quantos números. Contou o carro à porta dos pais dele, aquele que o Sr. Wei tinha comentado à mesa entre a sopa e o resto, e o mesmo carro à porta do lar, à quinta-feira à noite.

O Rafael ouviu até ao fim sem o interromper uma única vez.

Quando o Leo acabou, houve um silêncio na sala que nenhum dos dois soube o que fazer.

— Disseste-me que eram contas e fornecedores.

— Eu sei.

— Naquela manhã. Eu perguntei-te se estava tudo bem e tu puseste-me a mão na nuca e disseste que eram contas e fornecedores.

— Eu sei o que eu disse.

O Rafael assentiu devagar, várias vezes, a olhar para o chão, como quem está a arrumar coisas por ordem dentro da cabeça.

— E na noite em que me chamaste e depois disseste "nada".

Leo fechou os olhos.

— Também.

— Eu lembro-me dessa. — A voz dele ainda estava calma, e era isso que estava a assustar o Leo. — Eu estava a ler e tu chamaste-me e depois disseste que era só para ver se eu ainda estava acordado.

— Rafael…

— Tinhas recebido uma mensagem nessa noite?

Leo demorou.

— Tinha.

— O que é que ela dizia?

— Não interessa.

— O que é que ela dizia, Leo?

E foi ali que a voz do Rafael quebrou pela primeira vez, e não foi de tristeza. Foi de outra coisa.

Leo passou a mão pela cara.

— Dizia que tu eras bonito. E que eras mais novo do que ela pensava.

🍃 🍃 🍃

O Rafael levantou-se da mesa baixa.

Deu três passos para o meio da sala e ficou ali, de costas, com as mãos na cabeça. Depois virou-se.

— Tu leste isso e ficaste comigo ao colo no sofá a dizer que não era nada.

— Eu ia resolver aquilo.

— Sozinho.

— Sim.

— Pois. — O Rafael riu-se, e o riso saiu-lhe torto. — Pois, claro que sim.

— Anjo, ouve-me.

— Não me chames anjo agora.

Leo calou-se.

— Sabes o que é o pior? — O Rafael tinha os olhos a brilhar e a voz cada vez mais firme, que era o contrário do que devia acontecer. — O pior não é a mulher. Eu nem sei quem ela é. A mim ela não me fez nada, a não ser olhar para mim de longe.

— Foi por isso que eu…

— O pior é que tu decidiste. — Apontou-lhe o dedo, e não era um gesto dele. — Tu sentaste-te sozinho e decidiste o que é que eu aguentava saber e o que é que eu não aguentava. Durante dois meses. E eu andei a achar que era maluco.

— Eu não queria que tu tivesses medo.

— Eu tive medo à mesma! — E gritou, finalmente, e o grito ficou-lhe a doer na garganta. — Tive medo sozinho, que é pior. Eu virava-me para trás na rua como um parvo e dizia a mim próprio que estava a inventar. Contei ao Nuno e ele achou que eu tinha um ego do tamanho de um autocarro. — Respirou. — Tu podias ter-me dito uma frase. Uma. E eu não ia partir-me ao meio.

Leo levantou-se do sofá.

— Eu sei.

— Sabes?

— Sei. — E a voz dele estava rouca. — Eu sei disso desde a primeira semana. Abri a boca para te dizer umas seis vezes.

— E porque é que não disseste?

— Porque tu tinhas começado a dormir a noite toda.

O Rafael ficou parado.

— O quê?

— Tinhas começado a dormir a noite toda — repetiu Leo. — E a levantar o dedo nas aulas. E a discutir com a professora do sotaque. E eu olhei para ti no sofá, uma terça-feira à noite, com o pé debaixo da minha perna, e pensei que uma frase minha ia tirar-te isso tudo.

O Rafael abriu a boca e voltou a fechá-la.

Porque aquilo era verdade, e porque o amor que ali estava era verdadeiro, e porque isso não mudava absolutamente nada.

— O meu pai disse-te uma coisa no quintal — disse, muito baixo. — Em julho. Lembras-te?

Leo fechou os olhos.

— Lembro-me.

— Diz.

— Rafael.

—Diz.

— Disse-me que não era eu quem devia tomar as decisões por ti.

— Pois disse. — O Rafael tinha os olhos cheios de água e a cara seca. — E tu, na noite do primeiro beijo, dentro do carro, parados ao pé daquele pinhal, disseste-me o quê?

Leo não respondeu.

— Nada de esconder coisas um do outro. — O Rafael assentiu uma vez. — Foste tu que disseste. Eu nem sabia que isso se dizia.

🍃 🍃 🍃

Ficaram os dois de pé na sala, a três metros de distância, com o caderno dele aberto no chão e a televisão desligada a refletir os dois.

— Eu tive medo de te perder — disse Leo.

E era a coisa mais honesta que ele tinha dito a noite inteira.

O Rafael olhou para ele durante muito tempo.

— E agora?

Leo não teve resposta para essa.

O Rafael foi buscar o caderno ao chão, meteu-o na mochila, foi ao quarto buscar o carregador e a camisola que tinha lá deixado na sexta.

— Rafael.

— Eu vou dormir a minha casa.

— Não vás assim.

— Não vou zangado. — Parou à porta e ficou ali, com a mochila num ombro, e por um segundo o Leo pensou que ele ia voltar atrás. — Estou só… — Procurou a palavra e não a encontrou. — Não sei o que é isto que eu estou. Preciso de dormir.

— Eu levo-te.

— Eu vou de autocarro.

— São nove e meia da noite e está uma mulher a seguir-te há dois meses.

Aquilo saiu da boca do Leo antes de ele o pensar.

E foi a frase mais estúpida que ele podia ter dito, porque era verdadeira, e porque era exatamente aquilo que ele lhe tinha escondido para o proteger.

O Rafael ficou a olhar para ele.

— Ah — disse. — Agora já posso saber.

E saiu.

🍃 🍃 🍃

Leo levou-o na mesma.

Fez o caminho todo atrás do autocarro, três carros para trás, com as mãos a doerem de tanto apertar o volante, e ficou parado ao fundo da rua até ver a luz do quarto dele acender-se.

Depois foi para casa e não dormiu.

Às duas da manhã escreveu uma mensagem comprida, leu-a duas vezes e apagou-a.

Às três escreveu outra, mais curta, e apagou-a também.

Às quatro adormeceu no sofá, com o telemóvel em cima do peito, e acordou às sete com o pescoço torto e a certeza de que tinha estragado a melhor coisa que lhe tinha acontecido na vida.

🍃 🍃 🍃

Ligou-lhe às oito e vinte.

Sabia que ele estava a caminho das aulas, e que ia atender, porque o Rafael atendia sempre.

📞 — [Estou.]

📞 — "Bom dia."

📞 — [Bom dia.]

Uma pausa. Ouvia-se o trânsito do lado dele.

📞 — "Dormiste?"

📞 — [Pouco. E tu?]

📞 — "Nada."

📞 — [Pois.]

Leo mudou o telemóvel de mão.

📞 — "Anjo, eu queria pedir-te desculpa a sério, e não quero fazer isso ao telefone."

📞 — [Então não faças.]

📞 — "Posso ir buscar-te ao fim do dia?"

Houve um silêncio do outro lado, mais comprido do que era preciso.

📞 — [Hoje não.]

Leo fechou os olhos.

📞 — "Está bem."

📞 — [Não é castigo, Leo.] — A voz dele estava cansada, e isso era pior do que se estivesse zangada. — [Eu preciso de arrumar isto na cabeça. Se eu te vir hoje à tarde, eu vou dizer que está tudo bem porque me apetece que esteja tudo bem, e depois daqui a três semanas isto sai todo outra vez de uma vez.]

📞 — "Tu tens dezoito anos. Quem é que te ensinou a falar assim?"

📞 — [O meu pai] — Uma pausa muito curta. — [E tu.]

Leo riu-se, e o riso doeu-lhe.

📞 — "Amanhã?"

📞 — [Amanhã.]

📞 — "Rafael."

📞 — [Diz.]

E ele quis dizer amo-te.

Ficou com aquilo na boca, à espera, e não o disse, porque naquele momento lhe pareceu que dizer aquilo era usar uma coisa boa para arranjar uma coisa má, e ele não queria fazer isso.

📞 — "Come qualquer coisa às onze."

Do outro lado houve um som pequeno, que podia ser um riso.

📞 — [Sim, mãe.]

E desligou.

🍃 🍃 🍃

Leo ficou com o telemóvel na mão.

Depois pousou-o na secretária, virado para baixo, e puxou para a frente a pilha de coisas que tinha para fazer naquele dia, porque era segunda-feira e porque havia duzentas pessoas naquele edifício que não tinham nada a ver com aquilo.

Trabalhou a manhã inteira.

Às onze e meia, a Luísa bateu à porta para lhe lembrar da reunião das doze e encontrou-o a olhar para a janela.

— Senhor Leo?

— Diga.

— Está tudo bem?

Ele demorou um segundo a responder.

— Vai estar.

Quando sair o próximo livro, queres saber?

Mais nada. E podes sair da lista quando quiseres.

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