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32 – Sinais

Novembro entrou com chuva e com aquela luz curta que faz a gente acender as luzes às cinco da tarde.

Nada de importante aconteceu nesse mês.

Foi isso que o Leo pensou, depois, quando teve tempo para pensar. Que nada de importante tinha acontecido. Que tinham sido coisas pequenas, cada uma delas explicável por si própria, e que ele tinha arrumado uma a uma como quem arruma papéis numa gaveta e depois já não se lembra de lá ter posto nada.

🍃 🍃 🍃

A primeira foi uma mensagem.

Chegou a um sábado de manhã, de um número que ele não conhecia, enquanto ele fazia o pequeno-almoço e o Rafael dormia lá em cima.

📩 — <Bom dia. Espero que estejas bem.>

Leo olhou para aquilo com o pão na outra mão.

📩 — <Quem fala?>

Não houve resposta.

Apagou a mensagem e esqueceu-se dela ao fim de meia hora, porque o Rafael desceu com a marca da almofada na cara e um humor de cão, e porque as manhãs de sábado naquela casa eram sagradas.

A segunda chegou dez dias depois, a uma quarta-feira à noite.

📩 — <Vi-te hoje. Estavas de cinzento.>

Ele tinha estado de cinzento.

Ficou sentado no carro, na garagem do prédio da revista, com o motor desligado e o telemóvel na mão, durante mais tempo do que queria admitir.

Depois bloqueou o número.

Na semana seguinte chegou outra, de outro número.

📩 — <Porque é que me bloqueaste?>

Bloqueou esse também.

E, à terceira, deixou de bloquear, porque percebeu uma coisa que não lhe agradou nada: enquanto elas chegavam, ele pelo menos sabia que existiam.

🍃 🍃 🍃

A segunda coisa foi dita à mesa de jantar, em casa dos pais do Rafael, a um domingo, entre a sopa e o resto.

— Há ali um carro estacionado do outro lado da rua desde ontem — disse o Sr. Wei, sem levantar os olhos do prato. — Vidros escuros. Nunca vi aquilo aqui.

— É de alguém que veio visitar os vizinhos — disse a D. Clara.

— Os vizinhos estão em Espanha.

— Então é de alguém que veio ver a casa. Aquela do fundo está à venda.

— Pois será.

E foi isso. O assunto durou catorze segundos e passou para a conversa sobre o casamento do Jorge, que era em maio e que já estava a dar mais trabalho do que uma obra.

Leo, que estava sentado à mesa com a mão em cima da mão do Rafael, sentiu qualquer coisa fria a passar-lhe pelas costas e não disse nada.

Mais tarde, à porta, quando se despediram, olhou para o outro lado da rua com cuidado, como quem não está a olhar.

O carro já não estava lá.

🍃 🍃 🍃

E a terceira não foi coisa nenhuma. Foi uma sensação, e por isso é que ninguém lhe ligou.

Começou numa tarde de chuva, à saída de uma aula.

O Rafael estava debaixo do alpendre à espera de que abrandasse, com o capuz na cabeça e a mochila entre os pés, e teve aquela sensação que toda a gente tem uma vez ou outra, a de estar a ser olhado.

Levantou a cabeça e olhou em volta.

Havia duzentas pessoas debaixo daquele alpendre.

Encolheu os ombros e não pensou mais nisso.

Aconteceu outra vez três dias depois, à porta do café onde ele e o Nuno iam ao pequeno-almoço. E outra vez na paragem. E outra vez à saída da biblioteca, já de noite, e dessa vez ele virou-se de repente e não viu ninguém, o que era exatamente o que devia ter acontecido, e ainda assim ficou com o coração a bater no pescoço.

— Rafa.

— Que foi?

— Estás outra vez a olhar para trás.

— Não estou nada.

— Estás, sim. — O Nuno olhou por cima do ombro dele, para a rua vazia. — Estás à espera de quem?

— De ninguém. — Rafael puxou a mochila para cima. — Eu ando com uma parvoíce na cabeça.

— Diz lá.

— Ando com a sensação de que alguém anda a olhar para mim. — Disse-o depressa, e riu-se logo a seguir, para não ficar sozinho com aquilo. — Já sei o que vais dizer.

— Nem sabes.

— Vais dizer que eu tenho um ego do tamanho de um autocarro.

— Ia dizer isso — admitiu o Nuno. — Mas afinal não vou.

Andaram uns metros.

— Contaste ao meu tio?

— Não.

— Porquê?

Rafael encolheu os ombros dentro do casaco.

— Porque eu ia dizer "sinto que alguém olha para mim" e ele ia levar aquilo a sério. — Fez uma careta. — E depois ia levar-me e trazer-me à faculdade todos os dias, e eu ia deixar de ser um tipo de dezoito anos e ia passar a ser uma encomenda.

O Nuno riu-se.

E depois deixou de se rir.

— Rafa. Se isso voltar a acontecer, dizes-me a mim, pelo menos.

— Digo.

— Prometes?

— Prometo, mãe.

🍃 🍃 🍃

Houve uma noite em que quase se desfez tudo, e foi a noite de uma terça-feira sem nada de especial.

Estavam os dois no sofá. O Rafael tinha um livro no colo e o pé do Leo debaixo da perna, e estava a ler a mesma página havia dez minutos. Leo tinha o telemóvel na mão, virado para baixo em cima do peito.

Tinha chegado outra mensagem havia uma hora.

📩 — <Ele é bonito. Mais novo do que eu pensava.>

Leo tinha lido aquilo em pé, na cozinha, com a porta do frigorífico aberta, e tinha ficado com frio de uma maneira que não vinha do frigorífico.

Agora estava ali, com aquele rapaz encostado a ele, e a frase certa era pequena e fácil.

Anjo, tenho uma coisa para te contar.

Nove palavras.

Abriu a boca.

— Anjo.

— Hum.

Rafael não levantou os olhos do livro. Tinha os pés descalços e uma camisola dele, e estava a mexer com o polegar no canto da página, distraído, daquela maneira que fazia sem dar por isso.

E o Leo pensou, com uma nitidez que depois nunca conseguiu perdoar a si próprio, que aquele rapaz tinha finalmente deixado de olhar para trás, que tinha começado a levantar o dedo nas aulas, que tinha dormido a noite toda seguida as últimas semanas.

E que uma frase bastava para lhe tirar tudo isso.

— Nada. — Passou-lhe a mão pelo cabelo. — Estava só a ver se ainda estavas acordado.

— Estou a ler.

— Estás a olhar para a mesma página desde as dez.

— Estou a ler devagar.

Leo riu-se, e beijou-lhe o alto da cabeça, e ficou a olhar para o teto durante muito tempo depois de ele adormecer.

Eu resolvo isto, pensou. Não vale a pena assustá-lo com uma coisa que eu resolvo.

E era exatamente isso que o pai dele lhe tinha dito para não fazer, numa noite de verão, sentado num banco de pedra debaixo de uma laranjeira.

Leo lembrou-se disso.

E ficou calado na mesma.

🍃 🍃 🍃

Nas semanas seguintes, as coisas pequenas continuaram a acontecer e a ser arrumadas na gaveta.

Um ramo de flores devolvido à florista sem que ninguém percebesse de onde tinha vindo. Uma chamada não atendida às três da manhã.

E, a uma sexta-feira de manhã, a Luísa esbarrou com uma mulher à porta do edifício.

Foi culpa dela, que ia a sair a correr com uma pasta debaixo do braço e o telemóvel na mão, a caminho do banco. A mulher vinha a entrar, ou estava parada na entrada, ela depois não soube dizer qual das duas.

A pasta caiu e os papéis espalharam-se pelo chão de pedra.

— Ai, desculpe. Desculpe, a culpa foi minha.

— Não faz mal nenhum.

A mulher baixou-se e ajudou-a a juntar os papéis, sem pressa nenhuma, e devolveu-lhos com as duas mãos.

Era morena, com o cabelo escuro apanhado atrás, e bonita de uma maneira arrumada, daquelas que dão trabalho de manhã. Casaco bom. Perfume forte, daqueles que ficam no sítio depois de a pessoa sair. Devia ter uns trinta e tal anos, ou quarenta bem levados, a Luísa nunca soube calcular aquilo.

Tinha uma aliança na mão esquerda.

E, enquanto esperava que a Luísa acabasse de arrumar a pasta, pousou a outra mão na barriga, aberta, por cima do casaco. Um gesto quieto, de quem faz aquilo sem dar por isso.

— Obrigada — disse a Luísa. — E outra vez desculpe.

A mulher sorriu.

Não perguntou nada. Não pediu para falar com ninguém. Não disse o nome.

Ficou só a olhar para ela mais um segundo do que era preciso, com um sorriso muito educado, e a Luísa saiu para a rua com aquele sorriso atrás das costas e uma sensação estranha que não soube onde arrumar.

Uma hora depois, já cá em cima, foi à janela do sétimo andar fechar o estore por causa do sol.

A mulher estava do outro lado da rua.

Não estava à espera de ninguém. Não estava ao telemóvel. Estava de pé, com as mãos nos bolsos do casaco, a olhar para cima.

E a Luísa teve a impressão, que depois achou parva, de que ela estava a contar os andares.

🍃 🍃 🍃

Só lhe falou naquilo ao fim da tarde, e falou a rir-se de si própria.

— Senhor Leo, isto é uma parvoíce, mas conto na mesma. Esta manhã esbarrei com uma senhora à entrada e depois vi-a outra vez do outro lado da rua, parada, a olhar para cima. Estive um bocado com aquilo na cabeça.

Leo levantou os olhos do portátil.

— Como era ela?

— Morena. Cabelo apanhado. Bem vestida, casaco escuro. — A Luísa encolheu os ombros. — Trinta e muitos, para aí. Muito educada. Ajudou-me a apanhar os papéis do chão.

— Disse alguma coisa?

— Nada. Nem o nome. — Riu-se. — Se calhar estava só à espera de alguém e eu ando a ver mal-assombros.

Leo ficou calado.

— Luísa.

— Diga.

— Tinha uma aliança?

A Luísa levantou a cabeça.

Não era a pergunta que ela estava à espera de ouvir. Não era sequer uma pergunta que fizesse sentido nenhum.

— Tinha — disse devagar. — Na mão esquerda. Reparei porque ela me devolveu os papéis com as duas mãos.

Leo assentiu uma vez com a cabeça.

— Obrigado.

E voltou para o ecrã.

A Luísa ficou parada à porta mais uns segundos, porque havia qualquer coisa naquele obrigado que não era um obrigado.

Depois fechou a porta e foi trabalhar.

E, na última quinta-feira de novembro, o Leo saiu do lar às oito e um quarto, com a escova da mãe na mão para a guardar no porta-luvas, e reparou num carro parado a uns trinta metros do portão, com os vidros escuros e o motor a trabalhar.

Ficou parado no passeio, com a chave na mão.

O carro arrancou devagar, sem pressa nenhuma, e virou na primeira à direita.

Leo não conseguiu ver a matrícula, porque estava escuro, e porque nunca na vida tinha precisado de decorar a matrícula de ninguém.

Entrou no carro. Pôs a escova no porta-luvas. Fechou-o.

E ficou ali dentro, com as mãos no volante, a perceber uma coisa que já sabia havia três semanas e que tinha andado a adiar como quem adia uma ida ao médico.

Aquilo não ia parar sozinho.

📩 — <Preciso de falar contigo. É sobre a Vera. Amanhã, no Refúgio, antes de abrir.>

O Henrique respondeu em vinte segundos.

📩 — <Às nove. Traz o Mário contigo? Ele vai querer saber.>

📩 — <Traz tu. Eu vou sozinho.>

Arrancou.

No banco do lado, o telemóvel acendeu-se outra vez, e ele não olhou.

Quando sair o próximo livro, queres saber?

Mais nada. E podes sair da lista quando quiseres.

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