Capítulo 32 — Quando o Chão Desaparece
Henrique bateu à porta duas vezes, o som seco a ecoar mais alto do que devia naquele corredor silencioso.
— Entre — ouviu-se lá de dentro.
Leo não levantou logo o olhar. Continuava inclinado sobre o computador, concentrado num documento, a caneta presa entre os dedos. Só quando percebeu que não era ninguém da equipa é que ergueu os olhos.
— Henrique? — franziu o sobrolho. — O que estás aqui a fazer? Tu raramente vens cá acima. Que aconteceu?
Henrique fechou a porta atrás de si, devagar, como se naquele gesto procurasse a coragem necessária para enfrentar o que já se adivinhava difícil.
Leo endireitou-se na cadeira, atento.
— O que se passa?
Henrique aproximou-se, mas não se sentou, as mãos estavam tensas, entrelaçadas, o olhar fugia-lhe para o chão.
Leo levantou-se de imediato.
— Henrique… fala. — A aflição transparecia-lhe na voz e no olhar. Conhecia bem o seu amigo, e aquele olhar, o tremer das mãos, diziam-lhe que não vinham boas notícias. O coração acelerou, parecia que lhe ia saltar da boca. As palmas das mãos começaram a suar e sentiu um frio percorrer-lhe a espinha, como se o corpo pressentisse o peso daquilo que estava prestes a ouvir.
O amigo respirou fundo, uma, duas vezes, como quem tenta encontrar a forma menos cruel de partir um coração.
— Leo… houve um acidente.
O silêncio caiu como uma pedra.
Leo empalideceu.
— Quem? — a voz saiu-lhe baixa, quase um sussurro.
Henrique levantou finalmente os olhos.
— O Rafael.
Leo cambaleou um passo para trás, como se alguém lhe tivesse dado um murro no estômago.
— Não… — murmurou, apertando o rebordo da secretária com força. — Não… o Rafael… como? O que aconteceu…? — As perguntas atropelavam-se-lhe na boca, cada uma mais desesperada que a anterior, mas nenhuma encontrava resposta. Sentiu a mente esvaziar-se completamente, como se o mundo à sua volta deixasse de existir. O seu garotinho… o seu menino… ele não podia… — Ele não…
Não conseguiu terminar a frase. O rosto pálido e os olhos a encherem-se de lágrimas que ele tentou conter, numa luta silenciosa contra o desespero.
Henrique aproximou-se um pouco mais, a voz firme, mas embargada, a mão no ombro de Leo, como se quisesse transmitir segurança que ele mesmo não tinha.
— Não…foi atropelado à porta da faculdade. Já está no hospital. O Lucca está com ele. A família também. Ainda não sabemos o estado dele.
Leo levou a mão à boca e, quando as lágrimas contidas ganharam vida própria e começaram a cair, não as conteve diante do amigo.
— Eu… eu tenho de ir. Tenho de ir agora.
Henrique segurou-o pelos braços antes que ele se precipitasse para a porta.
— Leo, calma. Eu levo-te. Não vais conduzir assim.
Leo tentou afastar-se, mas a força falhou-lhe, o corpo tremia, presa na garganta.
— Henrique… se ele… — a voz quebrou. — Eu não consigo…
Henrique puxou-o para um abraço firme, quase desesperado.
— Eu sei. Eu sei. Mas vamos juntos. Ele não está sozinho. E tu também não.
Leo fechou os olhos, encostando a testa ao ombro do amigo, tentando recuperar o fôlego que parecia ter desaparecido.
— Vamos — murmurou, finalmente.
Henrique assentiu, mantendo-o seguro enquanto o guiava para fora do gabinete.
🍃 🍃 🍃
No hospital a porta automática abriu-se de novo.
Mário caminhava depressa, com o rosto tenso, o telemóvel ainda na mão, como se tivesse acabado de desligar. O coração batia-lhe no peito, mas o corpo movia-se por instinto: precisava de estar ali. Precisava de ver o primo. Precisava de saber.
O hospital estava cheio de murmúrios, passos apressados e olhares ansiosos. A família de Rafael — no fundo, também a sua família — ocupava uma das zonas de espera: a tia sentada, as mãos entrelaçadas com força; o tio de pé, a andar de um lado para o outro; os primos encostados à parede, pálidos, tentando processar o que tinha acontecido.
Nuno estava ali também, sentado ao lado de Luís, ainda trémulo, o olhar perdido no chão.
A família levantou os olhos ao mesmo tempo.
E congelou.
A tia levou a mão à boca, o rosto a empalidecer de imediato.
— Meu Deus… — sussurrou ela, a voz a falhar. — Mário…?
Mas ninguém ouviu Nuno.
A tia levantou-se de um salto, as lágrimas já a correrem pelo rosto, o corpo a tremer de emoção e incredulidade. Mal conseguiu articular as palavras, engasgada pela mistura de medo e alegria:
— Mário… — chamou, num tom baixo, preocupado.
Mas ninguém ouviu Nuno.
A tia levantou-se de um salto, as lágrimas já a correrem pelo rosto, o corpo a tremer de emoção e incredulidade. Mal conseguiu articular as palavras, engasgada pela mistura de medo e alegria:
— Mário… és mesmo tu, meu querido. Pensávamos… o teu pai… — balbuciou, com a voz entrecortada, sem conseguir concluir a frase.
No olhar de D. Clara, havia uma dor antiga que se misturava com a esperança renascida; os braços abertos eram um refúgio que Mário procurou sem hesitar, abraçando-a com força, como se ambos temessem que o momento se desfizesse num sonho.
— Sou eu, tia. Sinto tanto… Não queria ter desaparecido, só que… o pai… — murmurou, a voz embargada, sem conseguir terminar, o peito apertado pelas memórias.
O tio aproximou-se devagar, hesitante, os olhos brilhando de lágrimas contidas. O toque no ombro de Mário foi tímido, quase temeroso, mas a sensação viva dissipou a dúvida que carregava há anos.
— Não digas mais nada agora. Estamos juntos, é o que importa — disse o sr. Wei, a voz suave e acolhedora, procurando apaziguar feridas abertas pelo tempo.
Mário olhou para eles, sentindo o peso das escolhas e das consequências, mas também a urgência do reencontro.
— Tios, desculpem-me. O meu pai obrigou-me a escolher e acabei por perder quase tudo… Mas, quando soube do Rafael, não consegui ficar longe. Escolho-vos, escolho o amor. — A voz de Mário vacilou, mas havia uma firmeza sincera no olhar, enquanto procurava o afeto que julgara perdido.
Nuno aproximou-se, pousando uma mão no braço dele, num gesto de apoio silencioso.
O tio respirou fundo, como se estivesse a tentar recuperar anos de distância num único segundo.
— Mário, sentimos tanto a tua falta… Quando soubemos, ficámos de rastos. O teu pai nem nos deixou ir ao teu funeral. — Jorge fez uma pausa, respirando fundo, antes de continuar, o olhar cheio de ternura. — Agora percebo porquê. — Jorge, o primo mais velho, abraçou-o, envolvendo-o num gesto demorado e reconfortante.
Luís apertou ainda mais o abraço em Nuno, os olhos marejados.
— Ainda és família — murmurou, num tom que Mário nunca esperara ouvir, sincero e carregado de emoção. — Nunca devias ter deixado de ser.
D. Clara, com as mãos trémulas, sentou-se e levou consigo um Mário choroso, agarrado ao seu afeto. Ele sentia a tristeza pelo primo misturada com a felicidade de ser acolhido novamente, como se os anos de distância tivessem desaparecido naquele instante.
— Temos muito que conversar, mas não é altura para isso agora. — disse D. Clara, acariciando o braço de Mário, como quem promete que haverá tempo para curar feridas e partilhar histórias.
O silêncio que se seguiu foi pesado, cheio de tudo o que nunca foi dito. Era confortável.
Foi nesse momento que a porta automática voltou a abrir.
Henrique entrou, com o Leo ao lado — pálido, trémulo, quase a cair, viu Mário agarrado a família, que ele pensava o ia rejeitar, como o pai fez, mas vê-lo ali, nos braços da tia, encheu-lhe o coração de felicidade.
Leo largou o amigo e cambaleou até se ajoelhar aos pés de D. Clara, e colocar a cabeça no colo desta. Chorando convulsivamente.
D Clara afagou-lhe a cabeça, num gesto de conforto, como se lhe pudesse tirar o peso das costas.
— Mãe, o nosso menino… já sabem alguma coisa? Não o quero perder, não o posso perder.
— Meu querido, ainda não sabemos de nada. Mas temos de ter fé, de que ele vai ficar bem. Agora levanta-te e senta-te a meu lado.
D Clara apontou para a cadeira livre ao seu lado.
Henrique, tinha-se sentado ao lado de Mário, que se aninhou no seu colo, sem qualquer vergonha, que o aconchegou contra si, com carinho.
Lorenzo estava calado, observando tudo e todos. Viu Henrique com Mário e percebeu.
— Ele é o motivo de tu não ires aos nossos jantares, estou certo? — Lorenzo aproximou-se, colocando um mão no ombro de Mário.
— Sim, é. — Foi a resposta curta de Henrique.
Lorenzo não precisou de ouvir mais nada. Fosse qual fosse a conversa aquele não era o momento.
Lorenzo não precisou de ouvir mais nada. Fosse qual fosse a conversa aquele não era o momento.ou antes mesmo de alguém aparecer.
Lucca surgiu finalmente.
O rosto estava cansado, tenso, marcado por horas de adrenalina e medo. A bata branca tinha vincos de pressa, e o cabelo, normalmente impecável, estava desalinhado. Mas o que mais chamava atenção era o olhar — um olhar que carregava tudo o que ele tinha visto e tudo o que ainda não podia dizer.
A sala inteira levantou-se ao mesmo tempo.
Leo foi o primeiro a dar um passo, mas as pernas fraquejaram-lhe, e Henrique segurou-o pelo braço antes que caísse.
Lucca aproximou-se devagar, como se cada palavra que trazia pesasse toneladas.
— Doutor… — murmurou D. Clara, com a voz trémula. — O nosso menino… como é que ele está?
Lucca respirou fundo, passando a mão pelo rosto antes de falar.
— O Rafael está vivo — começou, e só isso fez Leo soltar um soluço abafado, levando a mão ao peito. — Está estável… dentro do possível.
A sala inteira pareceu respirar ao mesmo tempo.
Mas Lucca não terminou.
— Ele sofreu um traumatismo craniano leve, alguns hematomas internos e uma fratura no braço esquerdo. Está a ser monitorizado. — A voz dele era firme, mas havia um tremor subtil, o de quem está a segurar a própria emoção. — Ainda não acordou, mas não há sinais de hemorragia ativa. Isso é… muito bom.
Leo levou as mãos ao rosto, as lágrimas a caírem sem resistência.
Henrique apertou-lhe o ombro, firme.
— Ele vai acordar? — perguntou o tio, a voz rouca.
Lucca assentiu devagar.
— Acreditamos que sim. Mas precisamos de tempo. As próximas horas são importantes.
Mário, ainda sentado ao lado da tia, apertou-lhe a mão com força.
Nuno deixou escapar um suspiro trémulo, como se tivesse estado a prender a respiração desde o acidente.
Lucca olhou então diretamente para Leo.
E o mundo pareceu encolher até só existirem os dois.
— Leo… — disse, num tom mais suave. — Ele chamou o teu nome antes de perder os sentidos.
Leo desabou num choro silencioso, o corpo a tremer de forma descontrolada.
Henrique puxou-o para si, segurando-o com firmeza.
— Posso vê-lo? — Leo conseguiu perguntar, entre soluços.
Lucca hesitou por um segundo.
— Ainda não. Ele está a fazer mais exames. Mas assim que for possível, eu venho buscar-te. Prometo.
Leo assentiu, mesmo que a dor lhe rasgasse o peito.
Lucca pousou uma mão no ombro dele, num gesto breve, mas cheio de significado.
— Ele é forte. E não está sozinho.
Depois virou-se para a família.
— Vou voltar para junto dele. Qualquer alteração, eu aviso imediatamente.
E desapareceu novamente pelo corredor, deixando para trás uma sala cheia de esperança frágil, medo, amor e um silêncio que dizia mais do que qualquer palavra.
Luís aproximou-se lentamente do grupo, tentando reunir forças para falar, enquanto Leo parecia à beira de desmoronar, chorando sem qualquer vergonha.
— Luís, explica-me… Como é que isto aconteceu? Ele estava na passadeira, sempre tão cuidadoso... Não percebo. Por que tinha de ser ele? — a voz de Leo saía trémula, entrecortada por pausas e soluços. — E o meu sobrinho... Como ele está?
O tempo parecia não passar, e a espera era como uma tortura constante, cada segundo pesando mais no peito de Leo.
Luís lançou um olhar preocupado a Nuno, que permanecia sem encontrar palavras, ainda preso ao choque do momento.
— O Nuno viu tudo, Leo. Ele ainda não conseguiu dizer grande coisa, só me telefonou... Os nervos estão a deixá-lo sem fala. Sei que este não é o lugar nem o momento para falar sobre isso, mas guardar silêncio está a matar-me.
Luís desabafou, tentava ser forte, mas era o seu irmão mais novo que tinha sido atropelado e não fazer nada sobre o que sabia estava a acabar com ele.
— Luís, diz-me o que aconteceu.
Lorenzo manifestou-se pela primeira vez, e na voz havia uma desconfiança de que algo ali não batia certo.
— O Nuno estava no sinal, à espera de poder avançar. Ele foi à frente, e diz que o carro veio em direção ao Rafael, parecia de propósito. Depois de bater no Rafael, desapareceu — repetiu Luís, agora com a voz mais firme, como se dizer aquilo em voz alta tornasse tudo ainda mais real
E naquele instante, todos perceberam que aquilo não tinha sido um acidente.
O silêncio que se seguiu foi brutal.
Leo levou a mão à boca, o corpo inteiro a tremer.
— De propósito…? — murmurou, a voz quase inaudível, como se tivesse acabado de levar outro murro no peito. — Estás a dizer que alguém… o quis magoar?
Henrique aproximou-se um passo, instintivamente, como se quisesse proteger Leo do próprio ar que respirava.
Nuno, encostado à parede, deixou escapar um soluço alto, finalmente quebrando.
— Eu vi… — chorou, a voz falhada. — Eu vi o carro acelerar… eu vi… eu não consegui fazer nada…
Luís foi imediatamente até ele, puxando-o para um abraço apertado.
— Não tens culpa, Nuno. Não tens culpa nenhuma. — Mas a voz dele tremia, porque a raiva e o medo já lhe ferviam no peito.
Lorenzo passou a mão pelo rosto, respirando fundo, tentando manter a calma que todos estavam a perder.
— Isto muda tudo — disse, num tom grave. — Se foi intencional, não podemos ficar aqui sentados à espera. Temos de agir.
Mário ergueu o olhar, ainda com os olhos vermelhos, mas agora com uma expressão que misturava choque e indignação.
— Quem faria uma coisa destas ao Rafael…? — perguntou, a voz baixa, mas carregada de incredulidade.
Leo fechou os olhos com força, como se tentasse afastar a imagem do acidente que nem sequer tinha visto.
— Ele não merece isto… — sussurrou. — O meu menino não merece isto…
Henrique pousou uma mão firme nas costas dele.
— Vamos descobrir quem fez isto. Prometo-te.
Lorenzo endireitou-se, assumindo naturalmente o papel de quem toma decisões quando todos os outros estão a desmoronar.
— Luís, precisamos de ir à faculdade. Agora. Falar com a direção. Quanto mais tempo passar, mais difícil será.
Quando Luís assentiu e se virou para Nuno, o coração parecia-lhe preso na garganta.
— Eu vou contigo — disse ao Lorenzo. Depois voltou-se para o namorado, a voz trémula, mas determinada. — Amor, tu ficas bem? Eu preciso mesmo de fazer isto. Amo-te, mas…
Nuno colocou-lhe um dedo nos lábios, silenciando-o com um gesto suave. Os olhos dele brilhavam com compreensão e tristeza.
— Eu compreendo… acredita que compreendo muito bem. Ele é meu amigo, mas é teu irmão. Faz o que tens a fazer, e descobre quem fez isto. Por favor.
Luís puxou-o para um abraço rápido, intenso, como se quisesse guardar a força dele antes de sair. Depois endireitou-se, limpou o rosto com a manga e assentiu para Lorenzo.
— Vamos.
Os dois afastaram-se da sala de espera, e caminharam em silêncio até ao carro, cada um preso aos seus próprios pensamentos.