Capítulo 31 — O Segundo em que Tudo Parou
A hora de almoço sempre trazia o mesmo movimento à porta da faculdade: estudantes apressados, conversas soltas, risos que se misturavam com o barulho dos carros. Rafael e Nuno saíram juntos, como faziam quase todos os dias, empurrados pela leveza de quem tinha finalmente encontrado um ritmo confortável.
— Estás a ver? Eu disse que o professor ia adorar o teu trabalho — provocou Rafael, dando-lhe um toque no ombro.
— Adorar é exagero — respondeu Nuno, mas o sorriso denunciava-o.
Pararam no passeio, à espera que o sinal mudasse. O trânsito fluía devagar, típico daquela hora. À volta deles, grupos de alunos conversavam, alguns com mochilas às costas, outros com cafés na mão. Tudo normal. Tudo igual a qualquer outro dia.
O sinal abriu.
— Último a chegar paga o almoço! — gritou Nuno, disparando rua fora antes que Rafael pudesse reagir.
— És um idiota! — riu Rafael, correndo atrás dele.
Nuno avançou rápido, leve, atravessando a passadeira com a pressa despreocupada de quem não imagina perigo nenhum. Rafael vinha logo atrás, rindo, a chamar-lhe nomes que se perdiam no barulho da rua.
Foi então que o som rasgou o instante: um motor a acelerar além do permitido, seguido de um ruído seco, deslocado, brutal na banalidade daquele cenário.
Nuno virou-se instintivamente.
E viu…
Rafael a ser atingido com violência suficiente para o corpo perder o equilíbrio e cair no asfalto, o impacto, o som do corpo a bater no chão e o silêncio imediato que se seguiu, como se o mundo tivesse prendido a respiração.
O carro não parou, ao contrário, acelerou ainda mais, desaparecendo entre o trânsito.
Nuno ficou imóvel. O coração batia tão rápido que parecia não acompanhar o resto do corpo. As pernas tremiam. A garganta fechou-se. O mundo tornou-se um borrão de vozes, passos, sirenes ao longe.
As pessoas gritaram, correram os telemóveis começaram a surgir, as chamas a serem feitas.
Alguém gritou a matrícula.
O caos instalou-se em segundos.
Só quando alguém tocou no seu braço de Nuno é que ele voltou a respirar.
— Ele está a respirar! — gritou uma rapariga ajoelhada ao lado de Rafael.
Nuno caiu de joelhos ao lado do amigo, sem conseguir dizer nada. As mãos tremiam demasiado para tocar nele. O peito apertava-se num pânico que nunca tinha sentido.
Foi então que conseguiu mexer-se, pegou no telemóvel com dedos trémulos e ligou ao único nome que fazia sentido naquele momento.
— Luís… — a voz saiu-lhe partida. — O Rafael… foi atropelado.
Do outro lado, silêncio, , a respiração presa, a voz tremula pela ansiedade,
mas a promessa de que estava a caminho.
A ambulância chegou rápido, mas para Nuno tudo parecia lento, distante, como se estivesse a ver a cena de fora do próprio corpo. Os paramédicos falaram com ele, mas ele não ouviu. Só viu Rafael ser colocado na maca, o rosto pálido, os olhos fechados.
Quando a ambulância começou a fechar as portas, Luís apareceu a correr, o rosto em choque, o olhar preso no irmão.
— Rafael! — gritou, tentando aproximar-se.
Um dos paramédicos impediu-o de entrar.
— Vamos levá-lo para o hospital. Encontre-nos lá.
As portas fecharam-se.
A sirene ligou-se.
E, naquele instante, a vida deixou de ser o que era cinco minutos antes.
🍃 🍃 🍃
A ambulância chegou ao hospital com a sirene ainda a ecoar no ar. As portas abriram-se num movimento rápido, e os paramédicos puxaram a maca para fora. Rafael estava consciente apenas o suficiente para gemer, o rosto tenso, o corpo imóvel.
Lucca estava de plantão naquela manhã.
Tinha acabado de sair de uma sala de observação quando ouviu o aviso interno:
“Atropelamento. Masculino. Vinte e poucos anos. Chegada imediata.”
Não pensou muito, apenas correu.
Quando a maca entrou pelo corredor principal, Lucca aproximou-se com a eficiência automática de quem já viu demasiados cenários semelhantes. Mas, ao reconhecer o rosto pálido e dorido de Rafael, o chão pareceu fugir-lhe por um segundo.
— Rafael…? — murmurou, incrédulo.
O paramédico confirmou com um aceno rápido.
Lucca respirou fundo, recuperando o foco, era médico acima de tudo, e naquele momento o responsável.
E aquele era o namorado do irmão.
— Levem-no para a sala três — ordenou, a voz firme apesar do nó no estômago. — Quero exames imediatos. Vamos avaliar tudo.
Enquanto a equipa o levava, Lucca caminhou ao lado da maca, observando sinais vitais, avaliando reflexos, tentando manter a mente fria. Mas por dentro, o pânico batia à porta.
Leo.
Como é que ia dizer isto ao Leo?
Nuno e Luís chegaram minutos depois, com Nuno agarrado a Luís, ainda trémulo, incapaz de articular uma palavra. Luís, apesar do pânico e do medo pelo que podia acontecer ao irmão, esforçava-se por se manter forte para proteger Nuno. Reparou na palidez do namorado, no olhar vazio, e sentiu o próprio coração apertar.
— Amor, ele vai ficar bem. Fala comigo, por favor. Não me deixes mais assustado. Ver o meu irmão entrar naquela ambulância foi horrível, está a acabar comigo. Também preciso de ti ao meu lado. Por favor, diz qualquer coisa.
As palavras trémulas de Luís, ditas com tanto amor, fizeram Nuno finalmente reagir. Ergueu o rosto, encontrou o olhar de Luís e, ao ver as lágrimas que lhe escorriam pelo rosto, deixou-se desabar. Encostou-se ao peito do namorado e chorou, sentindo que também Luís chorava.
— Desculpa, desculpa… — murmurou Nuno, a voz entrecortada pelo choro. — O carro não devia estar ali… o sinal estava verde para nós… a culpa foi minha… o carro acelerou e fugiu…
As palavras saíam desconexas, presas entre soluços.
— Nuno, respira fundo. Fala comigo — pediu Luís, tentando controlar-se para dar força ao namorado. — O que estás a dizer?
Nuno inspirou, tentando acalmar-se, e olhou Luís nos olhos.
— Amor, acho que não foi por acaso… — sussurrou, antes de, com um novo fôlego, começar a contar tudo o que vira e sentira.
Nuno respirou fundo, tentando organizar os pensamentos, ainda com a voz trémula.
— Eu… eu vi o carro a aproximar-se. Estávamos a atravessar na passadeira, o sinal estava verde para nós. O Rafael vinha atrás de mim, estava os alegres, eu disse, provoquei-o e corri, ele ficou para trás. De repente, ouvi o motor a acelerar. Olhei para o lado e vi o carro a vir na nossa direção, rápido demais para aquela rua. Nem tive tempo de avisar o Rafael. Só… só vi o carro a bater-lhe, a atirá-lo ao chão. O condutor nem sequer travou, acelerou ainda mais e fugiu. — Nuno fez uma pausa, engolindo em seco, as lágrimas a correrem-lhe pelo rosto. — Não foi um acidente, Luís. Eu senti. O carro esperou pelo momento certo. Foi de propósito. Eu sei que foi.
Luís apertou-o com mais força, sentindo o desespero do namorado.
— Não foi tua culpa, amor. Ouviste? Não foi tua culpa. — A voz de Luís era firme, mas o medo e a raiva misturavam-se-lhe no peito. — O importante agora é o Rafael ficar bem. E vamos descobrir quem fez isto.
Nuno assentiu, ainda a tremer, mas sentindo-se um pouco mais seguro nos braços de Luís. O ambiente à volta deles era de tensão e expectativa, com familiares e amigos a chegarem ao hospital, todos à espera de notícias.
Luís limpou as lágrimas do rosto de Nuno e, com um último abraço apertado, sussurrou:
— Estou aqui, não te vou deixar. Vamos passar por isto juntos.
Lucca aproximou-se pelo corredor, de bata, o rosto cansado, mas determinado. Parou junto dos dois, pousando uma mão reconfortante no ombro de Nuno.
— Estive agora com o Rafael. Ele está a ser avaliado, mas está a ser bem acompanhado. — A voz de Lucca era calma, transmitindo alguma segurança naquele caos.
Nuno olhou-o, ainda com os olhos vermelhos do choro.
— Tio… o que fazemos agora? Os meus pais… os pais do Rafael… ninguém sabe ainda.
Lucca assentiu, prático.
— O melhor é avisar a família. Eu trato de falar com o Leo, está bem? Ele precisa de saber, mas não deve vir sozinho para cá. — Olhou para Luís, firme. — Liga aos teus pais e aos meus. Explica que ele está no hospital, mas que está a ser assistido. Não entres em pormenores até termos mais informações. O importante é que venham para cá com calma.
Luís respirou fundo e assentiu, já a procurar o telemóvel. Nuno, ainda trémulo, encostou-se ao tio, que lhe apertou o ombro num gesto silencioso de apoio.
A primeira chamada foi para os seus próprios pai.
Ele ouviu a mãe a deixar cair o telefone antes de conseguir articular uma palavra, o pai ficou em silêncio durante longos segundos, tentando processar a notícia.
A segunda, para os pais de Nuno, que ao saberem do acidente, apressaram-se a sair de casa, a voz da mãe de Nuno embargada pelo medo.
A terceira chamada foi para o irmão Jorge.
Lucca permaneceu próximo, observando atentamente as reações e preparado para agir caso fosse necessário. Em seguida, utilizou o telefone para contatar Lorenzo, informando-o sobre os acontecimentos recentes. Relatou que toda a família já estava ciente da situação e se dirigia ao hospital, exceto por Leo.
Lorenzo compreendeu o dilema enfrentado por Lucca, reconhecendo que Leo poderia reagir de forma impulsiva diante da notícia. Por isso, afirmou que ele próprio trataria do assunto quanto à situação.
— Preciso voltar ao trabalho. Assim que possuir informações mais precisas, comunico imediatamente — declarou Lucca antes de sair.
Luís e Nuno sentaram-se, permanecendo juntos em silêncio.
Após desligar o telefone, Lorenzo refletiu sobre o que tinha acontecido. Levantou-se, bateu a mão na mesa e expressou sua frustração de forma breve.
Lorenzo concluiu que Henrique era a pessoa mais indicado para comunicar a notícia. Pegou o telemóvel e fez a chamada.
Ao ver quem ligava, Henrique percebeu imediatamente a gravidade da situação, pois Lorenzo só contactava em momentos delicados.
📞 — “Lorenzo, o que aconteceu?” – perguntou, demonstrando preocupação.
📞 — [Henrique, infelizmente não há forma branda de dizer isto. Rafael foi atropelado à porta da faculdade.] – Por instantes, Henrique pensou rapidamente em Mário e Leo antes de expressar um gemido silencioso de apreensão.
📞 — “Qual o estado dele?”
📞 — [Ainda não temos informações concretas. A família está reunida no local. É necessário avisar Leo.] – Seguiu-se um momento de silêncio. – [Preciso do teu apoio, Henrique. Estou receoso quanto à reação do meu irmão. O Leo de antigamente não me preocupava, mas o Leo de hoje, que ama profundamente Rafael, preocupa-me bastante.]
📞 — “Compreendo a tua posição. Podes contar comigo. Vou falar com ele pessoalmente.”
📞 — [Por favor, não permitas que ele conduza.]
📞 — “Não te preocupes, ele não irá pegar no carro. Em breve estaremos aí.”
Assim que desligou, Henrique pensou imediatamente em Mário, seu parceiro, e então realizou a ligação.
Mário atendeu após algum tempo.
📞— “Henrique, existe alguma razão específica para me ligares tão cedo? Eu ainda estava a descansar.”
📞 — [Preciso conversar contigo sobre o Rafael] — iniciou Henrique de forma cautelosa.
📞 — “O que aconteceu com o meu primo?”
Ao ouvir o tom de voz de Henrique, Mário demonstrou preocupação e apreensão.
📞 — [Rafael sofreu um acidente e está i ternado. Lucca está ao lado dele e ainda não temos informações detalhadas.]
📞 — “E quanto ao Leo?”
📞 — [Solicitaram que eu comunicasse a ele. Há receio quanto à sua reação e partilho dessa preocupação. Se acontecer algo, não sei como ele irá lidar.]
📞 — “Conversa pessoalmente com ele e não o deixe sozinho. Encontramo-nos no hospital.”
Mário falou com firmeza.
📞 — [Bebé, mas …]
Henrique começou, mas Mário interrompeu:
📞 — “Entendo os teus pensamentos, mas por favor, cuida do Leo. Estou bem e aceito a situação. Não fiques preocupado comigo. Não te vou julgar por não me vires buscar. E a minha família. Este é o momento de enfrentá-los. Apenas faz o que for preciso.”
Assim que desligou, Henrique ficou alguns segundos imóvel, sentindo o peso da responsabilidade a assentar-lhe no peito. Respirou fundo, passou a mão pelo rosto e levantou-se.
E, de repente, essa curta distância pareceu-lhe enorme.
Saiu do gabinete num passo rápido, quase automático, mas o coração batia-lhe com força demais para o ritmo que tentava manter. O elevador que o levava ao andar, parecia mais lento do que alguma vez tinha sido.
Quando chegou ao andar do Leo, parou por um instante no corredor, tentando recuperar o fôlego — não físico, mas emocional.
Sabia que aquela conversa ia partir o amigo ao meio, mas não havia forma suave de dizer o que tinha de ser dito, e que a partir daquele momento, nada seria igual.
Endireitou os ombros., inspirou devagar, como quem inspira coragem,
E avançou.
Era hora de enfrentar o que vinha a seguir.