31 – A Possibilidade
Leo foi a pé desde o parque de estacionamento até ao edifício, com o casaco no braço e a cabeça noutro sítio.
A meio do caminho, parou e tirou o telemóvel do bolso.
Nada.
📩 — <Chegaste bem? Diz qualquer coisa, que eu fico com aquilo na cabeça.>
A resposta veio antes de ele guardar o telemóvel.
📩 — <Desculpa. Fiquei na conversa com o Nuno e esqueci-me. Já estou na sala. Amo-te.>
📩 — <Também te amo. Come qualquer coisa às onze.>
📩 — <Sim, mãe.>
Leo riu-se sozinho no meio do passeio, como um parvo, e foi assim que entrou no edifício.
🍃 🍃 🍃
A Luísa já lá estava, como estava sempre, vinte minutos antes da hora.
Tinha a mesa arrumada por camadas, as chamadas do fim de semana escritas à mão num papel amarelo, e o casaco largo de sempre, um número acima do que precisava, pendurado nas costas da cadeira.
— Bom dia, senhor Leo.
— Bom dia, Luísa.
Ele parou antes de entrar no gabinete. Ficou com a mão no puxador e depois voltou atrás.
— Tem um minuto?
Ela endireitou-se logo na cadeira, e Leo percebeu, tarde de mais, que aquela frase, dita por um patrão, a uma segunda-feira de manhã, só podia querer dizer uma coisa.
— Não é nada de mau — disse depressa. — Pelo contrário.
— Ah.
— A senhora está aqui há três meses. — Leo encostou-se ao balcão. — Não se enganou numa única marcação. Falou espanhol ao telefone com a revista de Madrid sem me dizer que falava espanhol. E, no dia em que eu vim pior do que costumo vir, pôs-me um café à frente sem perguntar nada.
A Luísa não disse nada. Tinha as duas mãos em cima do papel amarelo.
— Eu não quero uma secretária temporária — disse Leo. — Quero-a a si. Se aceitar, falo hoje com a contabilidade e faz-se contrato sem prazo.
Ela demorou uns segundos.
E depois fez uma coisa que Leo não estava à espera: respirou fundo, endireitou os ombros e olhou-o de frente.
— Aceito.
— Ainda bem.
— Só uma pergunta. — A voz dela tremeu um bocadinho e ela não deixou. — Isto é porque ninguém quer o lugar, ou é porque eu presto?
Leo ficou a olhar para ela.
— Luísa, eu tenho oitenta currículos numa gaveta.
— Está bem.
— Está bem.
Entrou no gabinete e fechou a porta. E do outro lado da porta, a Luísa ficou muito quieta durante um bocado, com as duas mãos ainda em cima do papel amarelo, e depois pegou na caneta e continuou a trabalhar, porque não sabia fazer outra coisa quando estava feliz.
🍃 🍃 🍃
Perto do meio-dia, o elevador tocou.
Ela levantou os olhos sem grande expectativa.
Saiu de lá um homem alto, com o casaco no braço e o cabelo desalinhado de quem esteve doze horas acordado e ainda não deu por isso. Trazia uma bata amarrotada numa das mãos, dobrada como quem dobra a bata a correr.
Deu dois passos para dentro do átrio e viu-a.
E parou.
Não foi nada de especial. Foi só que os dois ficaram a olhar um para o outro um segundo mais do que as pessoas costumam olhar, e nenhum dos dois soube porquê.
Ele desviou os olhos primeiro, para se orientar. E, antes de seguir em frente, voltou a olhar.
— Bom dia. — Pousou a bata no balcão. — O Leo está?
A voz era firme e tinha uma gentileza por baixo que a apanhou desprevenida.
— Está. — Ela levantou-se. — Posso avisá-lo. Desculpe, o senhor é…?
Ele estendeu-lhe a mão e sorriu, e o sorriso chegou-lhe aos olhos apesar das olheiras.
— Lucca. Sou irmão do Leo.
A mão dela desapareceu dentro da dele.
— Muito prazer. Sou a Luísa, secretária do senhor Leo.
Disse-o assim, a direito, sem o "temporária" que dizia havia três meses, e ouviu-se a dizê-lo, e gostou.
— A Maria saiu?
— Saiu antes de eu entrar. — Ela encolheu os ombros. — Só sei isso.
O Lucca ficou quieto meio segundo. Não insistiu.
Reparou, em vez disso, no ruivo do cabelo dela, e que ela tinha sardas, e que as sardas se viam mais quando corava, e corou-lhe o rosto ali à frente dele, o que lhe pareceu a coisa mais honesta que tinha visto em toda a semana.
— Vou anunciá-lo — disse ela, e retirou a mão com cuidado.
Já ia a virar-se quando ouviu, atrás dela:
— Tem um sorriso bonito.
A Luísa parou. Respirou.
E voltou a sorrir, não por educação, mas porque lhe apeteceu.
— Obrigada.
🍃 🍃 🍃
Dentro do gabinete, Leo levantou os olhos.
— Senhor Leo, está aqui o seu irmão.
— O Lucca? A esta hora?
— Disse que vinha só ver o irmão.
Leo levantou-se a sorrir.
— Ele faz isso quando lhe sobra meia hora no hospital. Luísa, vou almoçar mais cedo. Se ligarem, digo que volto daqui a uma hora.
Passou por ela e abriu a porta.
— Mano.
— Lucca.
Abraçaram-se com força, e Leo notou que o irmão tinha o abraço mais pesado do que o costume, e que os olhos dele iam parar ao balcão antes de voltarem para ele.
Não disse nada. Por enquanto.
🍃 🍃 🍃
No restaurante do costume, o Lucca deixou-se cair na cadeira com um suspiro daqueles que só se dão à frente de família.
Esteve calado o tempo de ler a ementa inteira sem ver uma linha.
— Estás muito calado hoje — disse Leo.
— Estou cansado. A manhã foi má.
— Certo. — Leo desdobrou o guardanapo. — Vou fingir que acredito, e que a minha secretária não tem nada a ver com isso.
O Lucca mexeu no copo.
— Não faças filmes.
— Eu? — Leo inclinou-se para a frente. — Tu ficaste a olhar para a porta por onde ela saiu durante o tempo que eu levei a vestir o casaco. E eu sou lento a vestir o casaco.
— Estás a exagerar.
— Estou. — Leo encolheu os ombros. — Também exagerei em julho, quando um rapaz me caiu no chão de um salão e eu passei três dias a achar que aquilo tinha sido só um susto.
O Lucca abriu a boca e não disse nada.
Depois passou a mão pelo cabelo e riu-se, contra vontade.
— Não ando à procura de nada, Leo.
— Ninguém anda.
— Ela é simpática. É só isso.
— Foi só um olhar — disse Leo, e não estava a gozar com ele. — Eu sei. Às vezes é assim que começa.
O Lucca ficou a mexer no garfo.
— Ela é muito nova para mim.
— Tem vinte e dois anos.
— E tu tens trinta e dois e andas com um de dezoito, por isso não és pessoa para me dar conselhos.
— Não estou a dar conselhos nenhuns. — Leo estendeu a mão para o pão. — Estou só a dizer que, se um dia lhe quiseres perguntar se ela quer tomar um café, não precisas de arranjar uma desculpa para aparecer no meu escritório. Podes aparecer à mesma. Mas não precisas.
O Lucca atirou-lhe um bocado de pão à cara.
E, durante o resto do almoço, falaram do Rafael, do hospital, da mãe, e de mais nada.
🍃 🍃 🍃
⏳
As semanas seguintes passaram-se com uma normalidade quase suspeita.
O Rafael e o Leo entraram num ritmo que nenhum dos dois combinou e que os dois cumpriram: mensagem de bom dia, uma chamada a meio da tarde só por causa de uma parvoíce, jantares em casa, noites em que ele ficava e manhãs em que ia para as aulas dali, com o cabelo molhado e uma tosta na mão.
O Rafael andava mais leve. Punha o dedo no ar nas aulas. Discutia com o Nuno em voz alta nos corredores. Uma vez disse a uma professora que discordava dela, e não morreu ninguém.
E o Leo andava com uma cara que os funcionários do bar do rés-do-chão comentavam entre eles.
O Nuno e o Luís foram-se encontrando devagar, à maneira deles, com mensagens a horas impossíveis e visitas que duravam mais do que deviam.
E a Luísa…
A Luísa deu por si a olhar para as horas por volta do meio-dia. Deu por si a sorrir ao telefone. Deu por si a reparar que, nos dias em que o elevador tocava àquela hora, o dia parecia mais curto.
O Lucca passava sempre que podia. Às vezes ficava vinte minutos, às vezes cinco, às vezes só o tempo de deixar um café no balcão dela e dizer que já estava pago.
A certa altura, Leo deu por si a fazer contas. O irmão, que em três anos tinha aparecido no escritório meia dúzia de vezes, tinha ido lá quatro vezes em quinze dias.
Não disse nada. Limitou-se a passar o almoço para mais tarde.
E havia sempre aquele instante.
Um olhar. Um quase-sorriso. Uma pergunta feita a mais, só para ficar ali mais um bocado.
Nada dito. Nada assumido.
Só possibilidade.
🍃 🍃 🍃
Houve um dia em que ele subiu sem sorrir.
A Luísa reparou logo, porque já tinha aprendido a reconhecer a cara com que ele entrava, e aquela não era. Não trouxe café nenhum. Foi direito ao gabinete e bateu à porta com dois nós dos dedos.
— Leo.
— Entra.
O Lucca fechou a porta atrás dele e não se sentou.
— Está uma pessoa à porta do edifício que eu conheço.
Leo levantou os olhos do portátil.
— Quem?
— A Maria.
Ficou tudo muito quieto no gabinete.
— Está do outro lado da rua, debaixo do toldo da papelaria — continuou o Lucca. — Não está bem abrigada, está só ali parada. Cumprimentou-me. Perguntou-me se tu estavas cá em cima.
— E tu?
— Disse-lhe que não sabia. — O Lucca encolheu os ombros. — Não sei mentir melhor do que isso.
Leo pousou a caneta em cima dos papéis, com cuidado, como se ela pudesse fazer barulho.
— Leo.
— Diz.
— Está grávida. — A voz do Lucca não mudou de tom. — De uns cinco meses, para aí. Se calhar menos, ela é miúda de corpo.
— Como é que tu sabes isso de uma pessoa parada do outro lado da rua?
— Porque sou médico e porque não é preciso ser médico. — Uma pausa. — Vê-se, Leo.
Leo levantou-se e foi à janela.
Do sétimo andar, a rua era uma coisa pequena e cinzenta, com guarda-chuvas a mexerem-se de um lado para o outro. Debaixo do toldo da papelaria havia uma figura parada que não se mexia com os outros.
Ficou ali cinco segundos. Não foram mais.
— Não a recebo.
O Lucca não discutiu. Nunca discutia.
— Está bem.
Mas também não saiu.
— Ela disse-me, em julho, que estava grávida de mim — disse Leo, ainda de costas.
— Eu sei que não é teu.
Foi assim que ele o disse. Sem perguntar nada, sem lhe dar tempo de explicar, como quem tira um peso das mãos de alguém antes de a pessoa pedir. Era o irmão dele. Tinha dezoito anos quando o outro esteve doente, e lembrava-se do corredor daquele hospital melhor do que queria.
Leo fechou os olhos um instante.
— Há uma coisa que eu nunca te disse — continuou o Lucca. — E agora já não faz mal nenhum dizer. Durante o tempo em que ela trabalhou aqui, eu deixei de cá vir ao meio-dia. Mudei para depois das três.
Leo virou-se.
— Porquê?
— Porque ela tinha modos comigo que eu não pedi. — O Lucca disse aquilo sem dramatismo nenhum, como quem lê um resultado. — Não foi nada de grave e eu resolvi à minha maneira, que foi deixando de aparecer. Não te disse porque tu tinhas uma empresa para gerir e eu não queria que aquilo virasse um assunto.
— Lucca.
— Não comeces.
— Tu devias ter-me dito.
— Se calhar. — Encolheu os ombros outra vez. — Também há coisas que tu não me dizes, e eu não ando a bater-te à porta por causa disso.
Aquilo saiu sem maldade nenhuma, quase distraído, e atingiu o Leo em cheio.
— O que é que queres dizer com isso?
O Lucca olhou para ele.
Olhou o tempo exato que tinha olhado, semanas antes, para um prato a mais em cima de uma mesa posta.
— Nada — disse. — Tenho de ir. Entro às três.
Já estava com a mão no puxador quando o Leo falou.
— Lucca. Não digas nada disto ao Rafael.
O irmão parou.
— Porque é que eu haveria de falar disto com o Rafael?
— Não haverias.
— Pois não.
E saiu.
Leo ficou sozinho no gabinete, de pé, com a rua sete andares abaixo e a sensação muito nítida de ter acabado de dizer uma frase a mais.
Quando voltou à janela, uma hora depois, o toldo da papelaria estava vazio.
🍃 🍃 🍃
Foi numa quarta-feira à tarde que chegaram as flores.
A Luísa bateu à porta do gabinete com o ramo nos braços, e era um ramo grande, daqueles caros, com o papel dobrado à mão e um laço de fita de tecido.
— Senhor Leo. Deixaram isto na receção para si.
Leo levantou os olhos do portátil.
— Para mim?
— Para si.
Pousou-o em cima da mesa das reuniões. Rosas brancas. Muitas.
— De quem?
— Não sei. — Ela procurou entre os caules. — Não tem cartão. O segurança disse que foi entregue por um estafeta e que não trazia nome.
Leo ficou a olhar para as flores.
— Quer que ligue à florista? Deve haver um número na fatura.
— Não é preciso.
— É rápido.
— Luísa. — A voz dele não mudou de tom, e foi isso que a fez levantar a cabeça. — Não é preciso. Obrigado.
Ela saiu e fechou a porta.
Leo ficou sentado durante um bocado, sem escrever nada.
Depois levantou-se, pegou no ramo com as duas mãos, levou-o até ao balde do lixo grande que estava ao pé da janela, e meteu-o lá dentro com papel e tudo. Teve de o empurrar para caber.
Voltou para a secretária. Abriu o portátil. Fechou-o outra vez.
Pegou no telemóvel e escreveu uma mensagem ao Henrique.
📩 — <Ela voltou a aparecer no Refúgio?>
A resposta demorou dez minutos.
📩 — <Não. Nem uma vez desde aquela noite. Porquê?>
Leo ficou a olhar para o ecrã.
📩 — <Por nada.>
Guardou o telemóvel no bolso.
Nessa noite jantou com o Rafael, riu-se de uma história do Nuno com um projetor avariado, viu-lhe o número do açúcar no telemóvel antes de adormecer, e não disse uma palavra sobre rosas brancas.
Havia de ser uma marca qualquer. Uma agência. Alguém que queria uma capa.
Era o mais provável.
E, se não fosse, ele resolvia. Como sempre tinha resolvido tudo.
Mais nada. E podes sair da lista quando quiseres.