30 – Bem-vindo à Família
⏳
O domingo chegou depressa de mais para Leo e devagar de mais para Rafael.
O caminho até casa dos pais fez-se num silêncio confortável, com os dedos entrelaçados em cima da alavanca das mudanças e o rádio baixinho. Rafael tinha o coração sossegado, o que nele era coisa rara, e Leo percebeu, porque lhe apertou a mão duas vezes sem dizer nada.
— Estás nervoso — disse Rafael.
— Não estou nada.
— Mudaste de camisa duas vezes.
— Mudei uma.
— Eu vi o saco.
Leo não respondeu. Rafael riu-se para a janela.
🍃 🍃 🍃
A mãe abriu a porta antes de eles baterem.
Abraçou o filho com força e, logo a seguir, abraçou o Leo da mesma maneira, sem aquela hesitação de quem ainda está a decidir.
— Entrem, entrem, que aquilo ainda está ao lume.
O pai veio atrás, com o jornal debaixo do braço, e apertou-lhe a mão.
— Bom ver-te outra vez, rapaz.
A casa cheirava a comida, a ervas e a café acabado de fazer.
Foi a Inês que apareceu primeiro, com um sorriso de quem já sabe tudo.
— Finalmente conheço o famoso Leo.
E abraçou-o como se o conhecesse há dez anos.
Leo corou, o que fez o Rafael rir-se alto.
— Amor, esta espalha-brasas é a minha futura cunhada, a Inês. — Meteu-se entre os dois. — Inês, este é o Leo. E tira-lhe as mãos de cima.
— Eu nunca fui espalha-brasas nenhuma, seu malandro.
Tentou bater-lhe. Rafael escondeu-se atrás de Leo, usou-o como escudo e ainda lhe mostrou a língua por cima do ombro dele.
O Jorge apareceu da cozinha a limpar as mãos a um pano.
Alto. Direito. Com aqueles olhos que medem as coisas antes de lhes tocar.
Parou. Olhou. E aquele olhar durou um segundo mais do que é educado.
— Então tu és o Leo.
— Sou. — Leo estendeu-lhe a mão. — Muito gosto.
A Inês deu-lhe uma palmada no braço.
— Não assustes o rapaz.
— Estou só a cumprimentar.
O pai apareceu com uma travessa nas mãos e resolveu aquilo à maneira dele.
— Jorge, deixa o homem respirar. Ele ainda nem se sentou e já lhe estás a fazer um interrogatório com os olhos.
O Jorge levantou uma sobrancelha.
— Só quero saber quem é que anda a pôr o meu irmão a sorrir assim.
Leo respondeu antes de Rafael abrir a boca.
— Espero que seja pelas razões certas.
O Sr. Wei soltou uma gargalhada e deu-lhe uma palmada no ombro.
— Este tem resposta pronta. Gosto disto.
🍃 🍃 🍃
A campainha tocou outra vez.
— Deve ser o Luís. — O pai foi à porta. — Pediu para pormos mais um prato. Disse que trazia visita e não disse quem era.
Rafael olhou para Leo. Leo olhou para Rafael. Os dois puseram a mesma cara de quem não sabe de nada.
A porta abriu-se.
O Luís entrou de mão dada com o Nuno.
A sala calou-se de uma vez, e não foi um silêncio mau. Foi aquele em que toda a gente está a processar a mesma coisa ao mesmo tempo.
O Nuno estava vermelho até às orelhas. Não por estar naquela casa, que era quase a casa dele desde os doze anos, mas por estar ali daquela maneira.
— Desculpem o atraso. — O Luís pôs-lhe as duas mãos nos ombros, por trás, e não as tirou. — Vocês já o conhecem todos. Mas hoje apresento-vos outra vez: além de ser o melhor amigo do Rafa, o Nuno é meu namorado.
Foi o Rafael o primeiro a mexer-se. Levantou-se da cadeira e abraçou o amigo com força.
— Porque é que não me disseste que vinhas?
— Porque queria ver-te essa cara.
— Tenho novidades para te contar.
— E eu para ti — disse o Nuno, contra o ombro dele.
Depois a sala voltou a funcionar toda ao mesmo tempo. A Inês deu um guincho. O Jorge abraçou os dois de uma vez, com um braço em cada um.
— Vocês não estão nada surpreendidos — disse o Luís, meio incrédulo.
— Achavas que nos enganavas? — O Jorge abanou a cabeça. — Só queremos que sejas feliz, mano. E estou contente por teres conseguido aquilo que querias há tanto tempo.
O Nuno olhou para o outro lado da sala.
— Tio? Não sabia que vinha.
E a palavra "tio" caiu no meio da sala e virou todas as cabeças ao mesmo tempo.
— Fui convidado, tal como tu. — Leo despenteou-lhe o cabelo ao passar.
— Então o Nuno é sobrinho do Leo — disse o Sr. Wei, devagar, a arrumar aquilo na cabeça. — Nós sabíamos que ele tinha um tio. Nunca fizemos a ligação.
— Ninguém faz — disse o Nuno.
A D. Clara saiu da cozinha a limpar as mãos ao avental, foi direita ao Nuno, deu-lhe dois beijos e um abraço, e felicitou os dois como quem já estava à espera.
O Luís olhou para ela de lado.
— Mãe.
— Uma mãe sabe estas coisas. — Encolheu os ombros. — Agora vão-se sentar, que a comida arrefece.
🍃 🍃 🍃
Sentaram-se os oito à mesa.
A D. Clara serviu com aquele orgulho mal disfarçado de quem cozinhou desde as nove da manhã, e Leo elogiou tudo o que lhe puseram à frente, prato a prato.
— Está uma maravilha, D. Clara.
— Nós já tínhamos combinado que era Clara.
— Eu sei. — Leo sorriu. — Estou a habituar-me devagar.
O Sr. Wei falou de vinhos. A Inês quis saber tudo sobre a revista e ficou com a boca aberta quando percebeu quantas pessoas trabalhavam lá dentro. O Luís e o Nuno trocavam olhares como se ninguém desse por eles, e davam todos por eles.
O Jorge falou pouco. Mas, quando falou, foi a direito.
— E tu fazes exatamente o quê?
Leo explicou com calma, sem se armar em nada, e Rafael, por baixo da mesa, encontrou-lhe a mão e ficou com ela.
A certa altura, o pai pousou o garfo e disse, para ninguém em especial:
— O Rafael hoje está luminoso.
Rafael ficou cor de tomate.
Leo apertou-lhe a mão por baixo da mesa e não disse nada.
— Ele faz-me bem — disse Rafael.
Foi só isso. Foi dito sem drama nenhum, entre a travessa da carne e a cesta do pão.
A mesa ficou um segundo em silêncio, e depois a mãe levou o guardanapo aos olhos e fingiu que era uma coisa que lhe tinha entrado.
— É tudo o que uma mãe quer ouvir — disse. — Come, que arrefece.
🍃 🍃 🍃
Depois do almoço, enquanto levantavam a mesa, o Jorge encostou-se ao balcão e disse, sem levantar a voz:
— Leo. Vens cá fora um minuto?
A Inês olhou para ele.
— Jorge.
— É um minuto.
Leo pousou o pano e foi. Rafael fez menção de ir atrás, e a mãe segurou-lhe no braço.
— Deixa-os.
🍃 🍃 🍃
No quintal estava fresco, e cheirava à terra molhada do canteiro que a mãe tinha regado de manhã.
O Jorge cruzou os braços e foi direito ao assunto, porque não sabia ser de outra maneira.
— Não preciso de te dizer que o meu irmão é muito novo.
— Não precisas.
— Ele tem tudo por viver. Tudo. Ainda não sabe quem é, ainda vai mudar de ideias sobre metade das coisas em que acredita hoje, e ainda vai querer fazer disparates que tu já fizeste há dez anos.
— Eu sei.
— Sabes mesmo?
Leo olhou para o canteiro.
— Eu não o quero ao pé de mim como um troféu — disse. — Quero que ele viva tudo. Os amigos. As saídas. As primeiras bebedeiras, as viagens baratas, as noites em que não me vai apetecer nada que ele esteja fora e em que eu me vou calar na mesma. Não o vou prender a coisa nenhuma.
— Então o que é que queres?
— Quero estar lá. — Leo virou-se para ele. — Quero ser o porto seguro dele, para quando ele precisar. É só isso. É tudo o que eu quero.
O Jorge ficou a olhar para ele durante um tempo desconfortável.
E depois, para espanto de Leo, fez uma pergunta que ninguém lhe tinha feito.
— E tu?
— Eu o quê?
— Quem é que te segura a ti?
Leo abriu a boca. Voltou a fechá-la.
Passou-lhe pela cabeça, muito depressa, uma coisa que ele não disse: o telefonema do domingo anterior, e uma mulher parada à porta de uma casa com uma porta sem letreiro a perguntar por ele.
— Estou habituado a segurar-me sozinho.
— Pois. — O Jorge descruzou os braços. — Foi o que eu pensei.
Ficaram os dois calados a olhar para o canteiro.
— Acredito em ti — disse o Jorge, por fim. — E bem-vindo à família.
— Obrigado.
— Não me agradeças já. — Deu-lhe uma palmada nas costas ao passar, a caminho da porta. — Agradece-me daqui a uns anos, se ainda estiveres cá.
🍃 🍃 🍃
No carro, a caminho de casa, Rafael encostou a cabeça ao ombro dele.
— Correu bem.
— Correu.
— O que é que o Jorge te disse?
— Disse que tu és novo, que tens tudo por viver, e que se eu te limitar ele vem atrás de mim. — Leo encolheu um ombro. — Por outras palavras.
— E tu?
— Eu disse-lhe a verdade.
Rafael endireitou-se para lhe ver a cara.
— Que é qual?
— Que eu quero ser o teu porto seguro. — Leo continuou a olhar para a estrada. — E mais nada.
Rafael ficou a olhar para ele um bocado. Depois voltou a encostar a cabeça ao ombro dele e não disse mais nada durante uns bons quilómetros.
🍃 🍃 🍃
Na manhã seguinte, Rafael acordou sozinho na cama grande.
Sentiu um vazio curto, daqueles parvos, que passou no instante em que a porta se abriu e o Leo entrou com um tabuleiro nas mãos.
— Bom dia, amor.
Pousou-lhe o tabuleiro no colo, ajudou-o a endireitar-se contra a cabeceira e sentou-se ao lado dele. Café, sumo, croissants ainda quentes.
— Tu foste à pastelaria.
— Fui.
— A que horas?
— Cedo. — Leo partiu um croissant ao meio e deu-lhe a metade maior. — Achei que acordavas com fome.
— Tu estás a estragar-me com mimos.
— Estou a cuidar de ti. É diferente.
Ficaram a falar do dia anterior a comer migalhas para cima do lençol. Do almoço, da cara do Sr. Wei quando percebeu a história do tio, do guincho da Inês.
— O Jorge até foi simpático — disse Rafael, ainda espantado.
— Simpático não sei se é a palavra.
— Ele aceitou-te. E isso é raro. O Jorge não confia em ninguém. — Rafael lambeu o polegar. — Nem no padre que o casa para o ano.
Leo riu-se e beijou-lhe a têmpora.
Não lhe contou a pergunta que o irmão lhe tinha feito no quintal, nem que ainda não tinha arranjado resposta para ela.
🍃 🍃 🍃
Depois de comer, Rafael levantou-se para se vestir.
— Tenho de passar por casa antes da faculdade. Preciso de roupa lavada e dos apontamentos.
— Eu levo-te.
— Fica. — Rafael calçou os ténis. — Vai trabalhar, que já estás atrasado por minha causa.
Leo chegou-se a ele e ajeitou-lhe a gola da camisola, um gesto pequeno que não servia para nada.
— Manda mensagem quando chegares.
— Mando.
Saíram juntos, desceram os degraus da entrada e separaram-se no passeio, cada um para o seu carro, como se fizessem aquilo há anos.
🍃 🍃 🍃
Em casa, os pais estavam à mesa da cozinha a falar, e a conversa parou quando ele entrou.
— Já de volta tão cedo? — perguntou o pai, com as sobrancelhas levantadas.
— Venho buscar roupa e os apontamentos. — Rafael beijou os dois. — E não, não houve problema nenhum.
Viu o alívio a passar pela cara da mãe e o sorriso discreto do pai por trás da chávena.
— Eu não disse nada — disse ela.
— A mãe estava a pensar muito alto.
Subiu, trocou de roupa, meteu tudo na mochila e desceu a correr.
— Vens dormir cá logo? — perguntou o pai, da cozinha.
— Depois digo.
E saiu, com a sensação estranha e boa de ter duas casas.
🍃 🍃 🍃
Ao chegar à faculdade, viu o Nuno de longe, encostado ao mesmo pilar de sempre, com a mochila num ombro e a acenar-lhe como um náufrago.
— Rafa! Estava mesmo a pensar em ti.
— Pensa em coisas boas.
Abraçaram-se com uma palmada nas costas, e começaram a subir as escadas.
— Então? — perguntou Rafael. — Ficou tudo bem depois de ontem?
O Nuno corou, e sorriu ao mesmo tempo, o que lhe deu um ar parvo que ele não podia ver.
— O Luís não estava à espera daquilo. — Abanou a cabeça. — Passou a vida a preparar-se para uma batalha, e ontem entrou ali e a tua mãe deu-lhe dois beijos ao meu. Ele veio a chorar no carro. Não digas que eu disse.
— Não digo.
— Ele achava que os teus pais iam pelo menos fingir surpresa.
— Os meus pais podem não parecer, mas são atentos. — Rafael encolheu os ombros. — Se até eu reparava na maneira como ele olhava para ti lá em casa, imagina eles. E tu já és da casa, Nuno. Já te tratam como a um filho.
O Nuno ficou calado meio segundo, que era o máximo que ele conseguia.
E depois voltou a ser o Nuno.
— Agora tu. — Encostou-lhe o ombro ao ombro. — Tu e o meu tio já…
— Já.
O Nuno parou no meio das escadas.
— Como assim "já"? Assim sem mais nada? Eu preparei-me uma semana para te sacar isso.
— Já. — Rafael continuou a subir, muito digno. — E foi bom. E é tudo o que te vou dizer.
— Isso não é nada.
— É tudo o que há para dizer a um amigo. — Parou no patamar e virou-se para ele, e desta vez não estava a brincar. — Só te digo uma coisa. Passei semanas com medo de uma coisa que não existia. E ele esperou o tempo todo sem me pôr pressa nenhuma.
O Nuno olhou para ele.
— Estou feliz por ti, Rafa. A sério.
— Eu sei.
Deram dois passos.
— Mas ele é mesmo tão bom como as pessoas dizem?
— Nuno.
— É uma pergunta técnica!
— Tu vais dizer-me como é que foi com o meu irmão?
O Nuno ficou cor de tijolo até ao pescoço.
— Não.
— Pronto. Está respondido.
— Mas… — O Nuno baixou a voz, sem conseguir travar-se. — Como é que tu sabes que fui eu?
Rafael parou.
— Eu não sabia. — Começou a rir-se. — Acabaste tu de me dizer.
— Rafael!
— Nuno, isso é entre vocês os dois e não me diz respeito nenhum. — Pôs-lhe a mão no ombro, e disse a sério: — E está tudo bem. Está mesmo.
O Nuno respirou fundo, e alguma coisa nos ombros dele descontraiu.
— Nós nem falámos sobre isso. Aconteceu.
— Foi bom?
— Foi.
— Então está bom.
Entraram na sala em cima da hora, como sempre, e sentaram-se nos lugares do costume.
E, durante mais umas semanas, a vida dos dois foi exatamente isto.
Mais nada. E podes sair da lista quando quiseres.