Capítulo 3 — O Primeiro Encontro
Leo estava no escritório, absorto em papéis e e-mails, mas a cabeça longe dali. O peso do dia fazia-se sentir nos ombros, e a ausência da secretária deixava-o vulnerável ao caos da rotina. O telefone tocou, interrompendo o breve silêncio, e Leo suspirou antes de atender.
— Sim?
— Leo, já devias estar aqui para ajudar com o recrutamento dos novos alunos. Vem, faz-nos falta.
A voz de Henrique, o seu melhor amigo e responsável pela escola, trazia um cuidado disfarçado. Apesar do tom leve, Leo reconheceu a ansiedade escondida — Henrique raramente deixava transparecer fragilidade.
— Já vou, Henrique. Estou sem secretária, isto está tudo um caos.
— Que se passou com a Maria?
— Foi embora, por motivos pessoais. Espero que encontre o apoio de que precisa.
— Entendo. Vem cá, pode ser que o dia melhore um pouco.
Leo desligou, sentindo a preocupação do amigo. A amizade entre eles era feita de cumplicidade e de feridas antigas que ambos aprenderam a carregar.
Antes de subir à escola, Leo decidiu passar pelo pequeno bar — um ritual que o ajudava a recompor o ânimo. O aroma de café e bolo fresco, o murmúrio discreto do espaço, ofereciam-lhe um breve refúgio antes das responsabilidades. Ana aproximou-se do balcão, sorrindo com a naturalidade de quem conhece bem os clientes.
— Bom dia, Sr. Leo. O que vai ser hoje?
— Bom dia, Ana. Um café e uma fatia daquele bolo maravilhoso da tua mãe, por favor.
Enquanto aguardava, Leo recostou-se ao balcão, observando o ambiente acolhedor do bar. A maior parte do movimento já tinha passado; o espaço parecia suspenso, como se aguardasse algo.
Foi então que o viu.
Sentado discretamente numa das mesas, estava o rapaz que Leo notara mal entrou. Havia algo nele — uma luz, uma inquietação, uma beleza que não pedia licença — que capturou a atenção de Leo de imediato. Não era só estético. Era físico. Era o tipo de impacto que ele raramente sentia e nunca admitia. O olhar do homem ficou preso naquele jovem de forma involuntária, quase instintiva. Por um instante, Leo sentiu o tempo abrandar.
O rapaz tinha um ar frágil e, ao mesmo tempo, luminoso, como se carregasse dentro de si uma mistura de nervosismo e esperança. E Leo, que raramente se deixava afetar por alguém, sentiu um impacto inesperado — um calor discreto no peito, uma atenção que se fixou e não quis largar.
“Que raio foi isto?”, pensou, desconcertado.
Endireitou-se no balcão, fingindo normalidade, mas a verdade é que já não estava inteiro ali.
Do outro lado da sala, Rafael tentava controlar o nervosismo. O simples facto de ter visto Leo entrar — o seu ídolo, o homem que admirava desde sempre — deixara-o completamente desorientado. O coração batia-lhe tão depressa que parecia querer saltar-lhe do peito. Sentia o rosto quente, as mãos trémulas, e a vergonha de não conseguir agir com naturalidade. Era como se o mundo tivesse encolhido até caber naquela mesa, naquela chávena, naquele instante.
Nunca alguém o fizera sentir assim.
Havia um desconforto novo no corpo, uma inquietação difícil de explicar, como se a presença de Leo o deixasse demasiado consciente de si mesmo. E isso assustava-o.
O pedido de Leo foi colocado no balcão, criando um breve intervalo na intensidade daquele momento. Leo, por instantes, deixou-se ficar ali, observando discretamente o rapaz — o rubor no rosto, a forma como mexia na colher, a timidez evidente. Havia algo de profundamente tocante naquela vulnerabilidade.
E, sem perceber bem porquê, Leo sentiu um impulso súbito.
Aproximou-se.
Com o café e o bolo na mão, dirigiu-se à mesa de Rafael. O momento carregava uma tensão silenciosa, mas palpável.
— Posso sentar-me?— perguntou Leo, a voz baixa, firme.
Rafael engoliu em seco.
— S-sim… claro.— A voz saiu trémula, quase um sussurro.
Leo sentou-se. O rapaz mantinha o olhar preso à chávena, como se temesse que qualquer movimento o denunciasse. A timidez dele tinha algo de desarmante, algo que mexia com Leo de uma forma que ele não sabia explicar.
— Sou Leo Mattos. Nunca te vi por aqui.
— Estou à espera para o recrutamento de novos modelos. Sou Rafael Cardoso… prazer, Sr. Leo.
— Então queres ser modelo. Que idade tens?
Rafael hesitou um instante.
— Tenho 18, senhor.
Leo sentiu um alívio subtil — e ao mesmo tempo, um aperto. Era adulto, sim. Mas tão jovem. Tão novo para o mundo. Tão… puro. E isso mexeu com ele de uma forma que não queria admitir.
Era adulto, sim. Mas tão jovem. Tão novo para o mundo. Tão… tentador. 'Controla-te', pensou. 'Ele é adulto, mas é um miúdo à mesma.
Leo levantou-se devagar.
— Garoto, se já comeste, está na hora de irmos. O resto do pessoal está à espera.
Rafael levantou-se também, ainda corado, ainda nervoso. O movimento fez-lhe perceber o quanto a proximidade o tinha deixado descomposto. Endireitou a camisa num gesto rápido, mais para ganhar tempo do que por necessidade.
Leo pousou-lhe a mão no ombro — um gesto simples, quase automático — mas que fez o rapaz estremecer de imediato. O toque, quente e firme, percorreu-lhe a espinha como um choque suave, deixando-o ainda mais consciente de si próprio.
Leo percebeu. E retirou a mão com cuidado, suavizando o gesto.
— Estás bem?— perguntou, num tom mais brando.
Rafael engoliu em seco, tentando recuperar o controlo da respiração.
— Estou, sim, senhor.— respondeu, embora a voz traísse a confusão que lhe corria no peito.
Leo guiou-o até ao salão, mantendo agora uma distância respeitosa. Só quando entraram no espaço principal percebeu que todos os olhares estavam virados para eles. Culpou-se de imediato — não queria expor o rapaz a comentários ou mal-entendidos.
Rafael caminhava ao lado de Leo com o coração acelerado, sem imaginar que aquele encontro — breve, confuso, inevitável — seria o início de uma mudança profunda na sua vida.
Quando Leo se afastou, sentiu a pele ainda quente, como se o olhar de Rafael lhe tivesse ficado marcado. Tentou convencer-se de que era só instinto — mas, ao entrar no salão e ver o rapaz entre os outros candidatos, percebeu que fugir seria impossível.
O que quer que tivesse começado no bar… seguira-o até ali.
Leo afastou-se o suficiente para recuperar o controlo, mas não para esquecer. No corredor, passou a mão pelo rosto, irritado consigo mesmo. Aquilo não podia estar a acontecer.
No salão, Rafael sentiu o peso dos olhares sobre si. Quis desaparecer — mas ficou. Não podia desistir no primeiro choque.