03 – O Primeiro Encontro
Às dez menos um quarto, Leo ainda não tinha conseguido ler um único e-mail até ao fim.
Abria um, lia a primeira linha e a cabeça fugia-lhe para o sofá da sala de espera, agora vazio. Fechava-o. Abria outro. Do outro lado do vidro, a caneca do gato continuava em cima da secretária da Maria, e o telefone fixo dela tocara já três vezes sem ninguém para atender.
O telemóvel vibrou em cima da mesa. Henrique.
📞 — "Diz."
📞 — [Bom dia para ti também. Estás lembrado de que hoje é o casting? Tenho aqui trinta miúdos à espera e um júri que só começa quando tu chegares.]
📞 — "Já vou. Fiquei sem secretária, isto está um caos."
📞 — [Sem secretária? E a Maria?]
Leo olhou para o casaco de malha nas costas da cadeira vazia.
📞 — "Foi-se embora. Motivos pessoais."
Do outro lado, um silêncio curto. O Henrique conhecia-o desde os seis anos. Sabia distinguir quando ele não queria falar de uma coisa e quando não conseguia.
📞 — [Está bem. Anda cá abaixo. Talvez o dia melhore.]
📞 — "Duvido."
📞 — [Eu também. Mas anda na mesma.]
🍃 🍃 🍃
O elevador desceu devagar, andar a andar, e Leo foi vendo passar o edifício pelo vidro da porta como quem folheia uma revista que conhece de cor.
Lá em cima, no sétimo, a redação: as secretárias em fila, as paredes forradas de provas de capa, o barulho de teclados que nunca parava antes das nove da noite. Do quinto ao terceiro, a gráfica e os estúdios de fotografia, onde se ouvia o disparar dos flashes mesmo com as portas fechadas. E cá em baixo, no primeiro andar e no rés-do-chão, a escola.
Tinha começado tudo muito mais pequeno. Depois do curso de Ciências da Comunicação, Leo fora escrever sobre moda para uma revista de outros. Entrevistou modelos que outros tinham descoberto, escreveu sobre desfiles que outros tinham organizado, e percebeu depressa que não queria passar a vida a contar o que os outros faziam. Queria ser ele a ver primeiro.
Por isso criou a L&L. Uma revista pequena, feita num escritório de duas salas, dedicada a caras novas que ninguém conhecia. O problema apareceu logo no primeiro ano: as caras que ele descobria eram lindas e não sabiam andar, não sabiam estar diante de uma câmara, não sabiam nada. Foi o Henrique quem disse, numa noite de copos, então ensinamo-las nós.
A revista era do Leo. A escola era do Henrique. Tinham crescido juntos, na mesma rua, desde os seis anos, e a escola nascera daquela frase dita meio a brincar: primeiro numa sala emprestada, depois num andar alugado, e agora ali, com o nome na porta, L&L, Escola de Modelos Prestígio, e alunos que chegavam de Espanha e do Brasil. O Leo encontrava os rostos. O Henrique ensinava-os a andar. Era assim desde o primeiro dia.
Toda a gente achava que L&L queria dizer Leo e mais alguém. Os jornalistas perguntavam-lhe nas entrevistas, e ele sorria e mudava de assunto. Só a família e o Henrique sabiam a resposta.
Antes de ir ter com o Henrique, parou no bar do rés-do-chão. Era um hábito antigo, quase uma superstição: um café forte, uma fatia de bolo, cinco minutos em que ninguém lhe pedia nada.
A rapariga do balcão sorriu-lhe mal o viu entrar.
— Bom dia, Sr. Leo. O costume?
— Bom dia. O costume, e uma fatia daquele bolo de laranja da sua mãe, se ainda houver.
— Para si, há sempre.
Encostou-se ao balcão enquanto esperava. A hora de ponta já tinha passado, o bar estava quase vazio, e a máquina do café fazia o único barulho da sala.
Foi então que o viu.
Na mesa do canto, de costas para a parede, um rapaz de olhos fechados e cabeça encostada aos azulejos. Tinha um copo de sumo vazio à frente e um croissant a meio. O cabelo louro caía-lhe para a testa. Era muito novo, isso via-se logo. E estava pálido, de uma palidez que não era de nascença.
Leo passava a vida a olhar para caras. Era o trabalho dele. Via centenas por mês, em fotografias, em desfiles, em castings como o daquela manhã, e há muito tempo que nenhuma o fazia parar a meio de um gesto.
Aquela fez.
Não soube dizer porquê. Não era só a beleza, embora houvesse beleza, uma beleza estranha, de quem parece pertencer a outro sítio. Era outra coisa. A forma como o rapaz segurava o telemóvel contra o peito, com as duas mãos, como quem segura uma coisa que lhe pode fugir. O lábio de baixo preso entre os dentes. O ar de quem está a juntar coragem para uma coisa muito grande e ainda não tem a certeza de ter coragem suficiente.
Que raio é isto?
— O seu café, Sr. Leo.
Pegou na chávena e no pratinho do bolo. E, em vez de ir para a mesa do costume, junto à janela, deu por si a atravessar a sala.
🍃 🍃 🍃
Rafael abriu os olhos quando ouviu a cadeira do outro lado da mesa arrastar-se no chão.
E ficou sem ar.
Conhecia aquela cara. Conhecia-a de capas, de entrevistas, de um recorte de revista preso atrás de um cartaz no quarto. Mas as fotografias não diziam que ele era tão alto. Nem que os olhos eram tão claros ao vivo, e que olhavam para uma pessoa como se ela fosse a única coisa na sala.
— Posso sentar-me? — perguntou Leo Mattos.
— S-sim. Claro.
A voz saiu-lhe esganiçada. Rafael sentiu o calor subir-lhe pelo pescoço até às orelhas e desejou, com todas as forças, que o chão do bar se abrisse e o engolisse ali mesmo.
Leo sentou-se e pousou o café. Não disse nada durante um momento. Olhou para o copo vazio, para o croissant a meio, para as mãos de Rafael, que ainda não tinham deixado de tremer por completo.
— Nunca te vi por aqui.
— Vim para o casting. — Pigarreou. — Para modelo. Sou o Rafael. Rafael Cardoso Wei.
— Leo.
Eu sei, quase disse. Mordeu a língua a tempo.
— Que idade tens, Rafael?
— Dezoito.
Leo acenou devagar, como quem arruma uma informação num sítio de onde não a vai tirar. Depois, sem dizer nada, empurrou o pratinho do bolo de laranja pela mesa até ficar à frente dele.
Rafael olhou para o bolo e depois para Leo.
— Não é preciso, eu já comi…
— Metade de um croissant. — Leo apontou-o com o queixo. — E estás branco como a parede. Come.
Não era um pedido. Mas também não era uma ordem, não exatamente. Era outra coisa, que Rafael não sabia nomear, e que lhe apertou o peito de uma maneira nova. Pegou no garfo. O bolo estava ainda morno e sabia a laranja e a açúcar, e ele comeu-o todo, devagar, com os olhos no prato para não ter de olhar para o homem sentado à frente dele. Sentia o olhar de Leo na cara como se fosse calor.
Quando acabou, a tremura das mãos tinha desaparecido.
— Melhor? — perguntou Leo.
— Melhor. Obrigado, Sr. Mattos.
— Leo.
— Obrigado… Leo.
Pela primeira vez, alguma coisa mudou no rosto de Leo. Não chegou a ser um sorriso. Foi mais o sítio onde um sorriso começa.
🍃 🍃 🍃
Leo levantou-se primeiro e olhou para o relógio.
Dezoito anos, pensou. Dezoito. Tu tens trinta e dois, e acabaste de despedir uma mulher que está grávida. Levanta-te, vai trabalhar e esquece esta mesa.
— Anda. — Fez-lhe sinal com a cabeça. — O casting é lá em cima e já começaram sem mim, de certeza.
Rafael pôs a mochila ao ombro. Quando se levantou, vacilou meio segundo, e Leo, sem pensar, pousou-lhe a mão no ombro para o firmar.
O rapaz estremeceu debaixo da mão dele.
Não foi um estremecimento de susto. Leo conhecia a diferença. E foi por conhecer a diferença que retirou a mão logo a seguir, devagar, como quem pousa uma coisa frágil.
— Estás bem?
— Estou. — Rafael não olhou para ele. — Estou, sim.
Subiram juntos a escada até ao primeiro andar, lado a lado, com um palmo de ar entre os dois que nenhum deles se atreveu a atravessar.
Ao fundo do corredor, as portas duplas do salão estavam abertas. Lá dentro, trinta cabeças voltaram-se ao mesmo tempo. Leo viu os olhares a passarem dele para o rapaz, e do rapaz outra vez para ele, e percebeu tarde demais o que parecia: o dono da L&L a entrar no casting ao lado de um dos candidatos.
Idiota.
Afastou-se de Rafael com um aceno seco, profissional, e foi ter com o Henrique à mesa do júri sem olhar para trás.
Rafael ficou sozinho à entrada, com as orelhas a arder e trinta pares de olhos em cima dele. Encontrou a Sara lá ao fundo, a acenar-lhe com as duas mãos. Guardara-lhe o lugar, como prometera.
Atravessou a sala até ela. Não fugiu.
À mesa do júri, Leo abriu a pasta dos candidatos e fingiu ler. O Henrique inclinou-se para ele, com uma sobrancelha levantada até ao cabelo.
— Então? — murmurou. — Quem é o rapaz?
— Cala-te, Henrique.
Mas não conseguiu impedir-se de levantar os olhos da pasta. Uma vez só. Lá ao fundo, o rapaz louro sentava-se ao lado de uma rapariga de tranças e, nesse mesmo instante, olhava também para ele.
Mais nada. E podes sair da lista quando quiseres.