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29 🔞 – Entrega e Confiança

O caminho atĂ© Ă  casa dos pais foi feito num silĂȘncio confortĂĄvel, entre olhares cĂșmplices e dedos entrelaçados. Rafael sentia o coração tranquilo, algo raro, e Leo parecia perceber isso, apertando-lhe a mĂŁo de vez em quando.


🔞 Este capĂ­tulo contĂ©m conteĂșdo para leitores adultos.

— EntĂŁo começamos devagar — disse Leo. — Eu vou explicando tudo, e a decisĂŁo de avançar Ă© sempre tua. Um nĂŁo, e eu paro. Percebes?

Rafael fez que sim com a cabeça.

Leo levantou-lhe o queixo com dois dedos.

— Anjo, eu preciso de te ouvir. Sempre.

— Percebo.

— Há uma coisa que as pessoas percebem ao contrário. — Leo pousou-lhe a mão na nuca, e aquilo foi mais carinho do que outra coisa qualquer. — Quem manda ali não sou eu. É quem está a receber. Eu só posso fazer aquilo que tu me deixares fazer, e no instante em que tu quiseres que pare, acabou. Nem que seja a meio. Nem que eu esteja a gostar.

Rafael ficou a olhar para ele.

— Ainda queres?

— Ainda quero.

Leo desligou a ĂĄgua.

Por um segundo, com a mão na torneira, teve um pensamento que não disse em voz alta. E se eu não for capaz de fazer isto a alguém que amo? E logo a seguir: e se ele depois olhar para mim de outra maneira?

Depois virou-se e viu a cara daquele rapaz Ă  espera dele, sem medo nenhum, e o pensamento nĂŁo desapareceu. SĂł ficou mais pequeno do que a vontade de nĂŁo lhe falhar.

Enrolou-o numa toalha e secou-o devagar, do cabelo aos pés, sem pressa nenhuma. Depois pegou-lhe na mão e levou-o para o quarto.

🍃 🍃 🍃

Sentou-se na beira da cama e puxou-o para entre os joelhos, com as mãos nas ancas dele, pousadas, sem fazer força.

— Antes de mais nada, quero que percebas uma coisa, porque isto nĂŁo Ă© o que se vĂȘ nos filmes. — Falava devagar, e a voz estava mais funda do que o costume. — NĂŁo se trata de força. Nem de mandar por mandar. Trata-se de eu guiar e de tu te deixares guiar, porque te sentes seguro comigo. É conversa, Ă© respeito e sĂŁo limites. Mais nada.

Rafael ouvia, com o coração aos saltos.

— Eu digo o que quero que faças. Tu fazes se te apetecer. Se alguma coisa te incomodar, dizes na hora, e nĂŁo tens de explicar porquĂȘ. Isto nĂŁo Ă© para te prender, anjo. É para te segurar enquanto experimentas uma coisa nova. E eu nĂŁo te largo em nenhum momento.

— Está bem.

— Precisamos de uma palavra de segurança. — Leo pensou um instante. — Ou não. Para nós, "não" chega.

— O que Ă© uma palavra de segurança?

— Uma palavra combinada entre os dois, que serve para parar tudo. Às vezes usa-se uma palavra estranha, que não apareça naturalmente. — Encolheu os ombros. — Mas eu não quero que tu tenhas de te lembrar de nada. Diz não e eu paro.

— EntĂŁo a nossa palavra Ă© nĂŁo.

— É.

Rafael respirou fundo.

— Podes começar.

🍃 🍃 🍃

Leo levantou-se e ficou à frente dele. A respiração eståvel. O olhar calmo. E, mesmo assim, qualquer coisa nos ombros dele tinha mudado, e Rafael sentiu essa mudança na pele antes de a perceber com a cabeça.

— Ajoelha-te.

Rafael ajoelhou-se devagar, sem desviar os olhos dele atĂ© ao Ășltimo instante.

— Afasta um pouco as pernas. Só o suficiente para te sentires firme.

Ajustou-se. O chĂŁo frio debaixo dos joelhos era estranho e, ao mesmo tempo, mantinha-o acordado dentro do prĂłprio corpo.

— Costas direitas. E cruza as mãos atrás, na base das costas.

Rafael obedeceu, e foi ao juntar as mĂŁos que a coisa aconteceu. Uma onda de qualquer coisa que nĂŁo era medo nem vergonha subiu-lhe pelo peito e ficou-lhe na garganta. Estava exposto de uma maneira que nĂŁo tinha nada a ver com estar sem roupa.

Leo ficou parado a olhar para ele.

— Estás lindo assim.

NĂŁo o disse como um elogio de cama. Disse-o baixinho, quase com respeito, e foi isso que desarmou o rapaz.

Depois baixou-se, aproximou-se tanto que Rafael lhe sentiu a respiração no ouvido.

— EstĂĄ tudo bem? Como Ă© que te sentes? Queres parar?

— Sinto-me exposto. — A voz saiu-lhe rouca. — E quero que me mostres mais.

Leo endireitou-se e foi ao armĂĄrio.

Rafael ouviu a porta abrir e fechar, e o coração disparou-lhe sem que ele soubesse porquĂȘ.

O que voltou nas mĂŁos dele foi uma venda.

— Vou pîr-te isto. Só se disseres que sim.

Rafael olhou para a venda. Depois para ele.

— Sim.

Leo passou-lha pela cabeça e ajustou-lha com cuidado, para não lhe apertar o cabelo.

O mundo desapareceu.

— Se a quiseres tirar, dizes e eu tiro. A tua voz Ă© a tua segurança, anjo. Nunca deixa de ser.

Sem ver, tudo o resto ficou maior. O cheiro dele. A respiração. Os passos no soalho. O barulho de uma gaveta a abrir, do outro lado do quarto, e o silĂȘncio que veio a seguir, que foi o pior de todos, porque foi o mais comprido.

O que Rafael nĂŁo podia ver era um homem parado Ă  frente de um armĂĄrio aberto, com uma coisa em cada mĂŁo, a hesitar como nĂŁo hesitava havia anos.

Leo jå tinha feito aquilo com outras pessoas. Nunca com ninguém que amasse.

Escolheu o mais leve das duas.

🍃 🍃 🍃

Voltou e pousou-lhe a mĂŁo no ombro, para que ele soubesse onde estava.

— Repito: em qualquer momento, dizes e acabou. Entendido?

Rafael acenou.

E logo a seguir sentiu uma palmada, seca e certeira, que lhe ardeu na pele sem lhe doer nada.

— Eu preciso de te ouvir.

— Entendido — disse, e soltou uma risada nervosa. — Percebi. Eu confio em ti.

Leo guiou-o para se levantar e para apoiar as mĂŁos na cama, com gestos firmes e sem pressa, e entre cada um deles havia uma carĂ­cia, uma mĂŁo a passar-lhe pelas costas, um beijo no ombro, um estou aqui que nĂŁo precisava de ser dito.

Rafael ouviu o clique de um frasco, e estremeceu quando o frio lhe tocou a pele. Desta vez nĂŁo foi de medo. Foi de estar Ă  espera.

— Vou pîr-te um plug. — A voz veio de trás dele, calma, a explicar como quem indica um caminho. — É pequeno. Serve para te habituares a estar cheio e para ficares assim enquanto eu faço outra coisa. Não se mexe e não te magoa. Se quiseres que o tire, tiro na hora.

— Quero.

— Queres que tire, ou queres que ponha? — Não era brincadeira. — Eu preciso das palavras todas, anjo.

— Que ponhas.

Leo pousou a palma espalmada nas costas dele e deixou-a lĂĄ.

— Respira.

Rafael respirou. O ar saiu-lhe a tremer, e o corpo saiu com ele.

Leo esperou. SĂł avançou quando sentiu os mĂșsculos dele largarem a tensĂŁo, e mesmo aĂ­ foi devagar, a acertar cada milĂ­metro pela respiração do outro. Rafael fez um som pequeno, involuntĂĄrio, que nĂŁo era de dor, e fechou os punhos na colcha.

— Continua a respirar. Está.

E ficou assim, com o plug no sĂ­tio, cheio e quieto, com uma coisa dentro dele que nĂŁo doĂ­a e que nĂŁo o deixava esquecer-se um segundo de que existia.

Leo afastou-se um passo e ficou a olhar. A linha das costas dele. O tremor pequeno nos ombros. Os dedos, que estavam fechados na colcha e que foram abrindo devagar, um a um.

Estava bem. Estava entregue.

🍃 🍃 🍃

O que Leo trouxe do armĂĄrio tinha um nome, e ele disse-lho.

— Chama-se flogger. — Encostou-lho ao braço primeiro, e depois pĂŽs-lho na mĂŁo. — Tiras de camurça. SĂŁo finas e macias, e este Ă© dos mais leves que hĂĄ. É para acordar a pele, nĂŁo Ă© para magoar. Apalpa.

Rafael passou os dedos por aquilo, devagar, e ficou parvo com a maciez.

— Eu pensava que era outra coisa.

— Toda a gente pensa.

Leo tirou-lho da mĂŁo e ficou parado atrĂĄs dele, em silĂȘncio, a deixar a espera trabalhar.

— Vou tocar-te — avisou. — Só isso.

As tiras caĂ­ram nas costas dele com uma leveza quase cerimoniosa. O som foi abafado, e o efeito foi imediato: Rafael estremeceu de alto a baixo.

Leo repetiu, um pouco mais abaixo. E outra vez, mais abaixo ainda, a seguir a linha das costas com uma atenção que quem estivesse a ver de fora podia confundir com carinho, e não se enganava.

Entre cada passagem, pousava a mĂŁo livre na pele quente. Para contrastar. Para acalmar. Para lhe lembrar quem Ă© que estava ali.

Os ombros. As omoplatas. A curva da cintura. Os flancos, com mais cuidado, porque ali a pele Ă© mais fina. Rafael soltou um gemido baixinho, mais parecido com espanto do que com outra coisa, e Leo parou.

— Estás bem?

— Estou. — A voz presa na garganta. — Continua.

Nas coxas foi diferente. Mais perto de um limite que ele ainda estava a descobrir onde era. Arqueou as costas sem querer, e Leo reconheceu o gesto: nĂŁo era fuga. Era um corpo a aprender uma lĂ­ngua nova.

A pele foi ficando quente. NĂŁo ficaram marcas. Leo nĂŁo as queria, e sabia exatamente o que estava a fazer.

Quando parou, pousou as tiras em cima da cĂłmoda e chegou-se a ele. Encostou os lĂĄbios entre as omoplatas dele e ficou assim um segundo.

— Portaste-te muito bem.

Rafael não respondeu com palavras. Deixou cair a cabeça para a frente e soltou um suspiro tão fundo que parecia estar a segurå-lo desde o princípio da noite.

🍃 🍃 🍃

Leo pegou-lhe pelos ombros e ajudou-o a endireitar-se. As pernas dele não estavam muito de acordo, e Leo segurou-o até estarem, e depois deitou-o de costas na cama, devagar.

A venda continuava no sĂ­tio.

— Mãos acima da cabeça — disse. — E não as mexes. Aconteça o que acontecer.

Rafael esticou os braços e cruzou os pulsos por cima da almofada.

Ficou aberto. Completamente. E a consciĂȘncia disso atravessou-o como uma corrente elĂ©trica.

Leo ficou parado ao lado da cama, a olhar, e nĂŁo havia ali nada de triunfo. Havia uma coisa quieta, quase religiosa, que ele nĂŁo sabia explicar e que nunca tinha sentido antes.

Quando as tiras lhe tocaram no peito pela primeira vez, Rafael inspirou de repente. Ali a pele era outra, mais Ă­ntima, menos preparada. Leo trabalhou devagar, a deixar o calor acumular-se camada sobre camada, e de cada vez que ele arqueava, parava.

— Muito bem — murmurava. — Muito bem, anjo.

Desceu. E, quando chegou onde nĂŁo havia defesa nenhuma, o som que saiu da boca de Rafael foi o mais honesto que Leo lhe tinha ouvido na vida. NĂŁo era dor. Era outra coisa, uma coisa que ele estava a aprender naquele instante a reconhecer como sua.

Rafael apertou os punhos por cima da cabeça.

E nĂŁo os mexeu.

🍃 🍃 🍃

Leo pousou as tiras e percorreu-lhe com as mĂŁos tudo aquilo que elas tinham aquecido, devagar, como quem lĂȘ uma coisa pela primeira vez.

Depois debruçou-se e tirou-lhe a venda.

Rafael pestanejou, desorientado com a luz do candeeiro, e demorou um segundo a encontrar a cara dele. Quando encontrou, qualquer coisa dentro dele cedeu por inteiro.

— Vou tirar-te o plug. — Leo pĂŽs-lhe a mĂŁo na coxa. — Respira comigo. A sair Ă© mais estranho do que a entrar.

E era.

Rafael prendeu o ar na mesma, e teve de o largar devagar, e ficou-lhe no corpo uma falta esquisita, um vazio de repente que ninguém o tinha avisado que ia sentir e que ele não soube onde arrumar.

Leo pousou-lhe a mĂŁo aberta na barriga.

— Eu sei. Passa.

E ficou quieto, Ă  espera de que passasse.

— Continuo?

Não era protocolo. Era uma pergunta a sério, feita por um homem que estava a tremer.

Rafael olhou para ele.

— Continua.

Leo entrou devagar, como quem quer que o outro sinta cada instante sem perder nenhum. Rafael manteve os braços onde lhe tinham sido postos, com os pulsos juntos, e agarrou-se à almofada quando o corpo se ajustou àquilo.

Houve uma dor curta, honesta, que ele nĂŁo escondeu.

Leo viu-a e parou.

— Respira.

Rafael respirou. E a dor desfez-se como se desfaz o nevoeiro, e ficou no lugar dela uma coisa que ele ainda nĂŁo sabia como se chamava, e que nĂŁo era sĂł do corpo.

Leo moveu-se com uma lentidĂŁo de propĂłsito, sem tirar os olhos dele, a lĂȘ-lo ao segundo. NĂŁo havia pressa. Havia os dois, o calor, e duas respiraçÔes que foram encontrando o mesmo compasso.

Rafael nĂŁo tirou as mĂŁos dali.

Nem quando o corpo lho pediu. Nem quando tudo nele queria agarrĂĄ-lo, puxĂĄ-lo, tĂȘ-lo mais perto. Manteve os pulsos cruzados por cima da cabeça, e aquele esforço passou a ser a maneira dele de dizer sou teu.

Leo percebeu. Inclinou-se e beijou-lhe a testa, e naquele beijo nĂŁo havia nada do homem que estava a comandar. Havia sĂł o outro.

— Estou aqui — disse, contra a pele dele. — Não vou a lado nenhum.

E Rafael, de olhos fechados e mĂŁos quietas, acreditou.

🍃 🍃 🍃

Leo nĂŁo se afastou logo.

Ficou por cima dele um bocado, com a testa encostada à dele, a respirar, como se precisasse daquele ponto de contacto para voltar a ser ele próprio. Depois deitou-se ao lado e puxou-o para os braços.

Rafael veio sem resistĂȘncia nenhuma, mole, de olhos meio fechados.

— Estás bem?

— Estou. — A palavra saiu pequena, e veio de muito longe.

Leo não insistiu. Ficou a passar-lhe a mão pelas costas, devagar, sempre no mesmo sítio, sem outra intenção a não ser aquela. Sentia-lhe a respiração a assentar, a ficar mais funda.

Mas havia qualquer coisa.

Conhecia-o o suficiente para a sentir.

— Rafael.

O rapaz levantou os olhos, e o que estava neles nĂŁo era tristeza, mas pesava o mesmo. Uma coisa sem forma, presa entre o peito e a garganta, sem saber por onde sair.

— O que Ă© isso? — perguntou Leo, sem alarme nenhum.

Rafael abanou a cabeça.

— NĂŁo sei. — Procurou as palavras e nĂŁo as achou. — NĂŁo Ă© mau. É só
 muito.

— É normal. — Leo apertou-o contra si e encostou-lhe os lĂĄbios ao alto da cabeça. — O corpo larga muita coisa de uma vez. NĂŁo tens de perceber jĂĄ o que Ă©.

A lĂĄgrima veio, e Rafael nĂŁo a escondeu.

Leo sentiu-a antes de a ver, quente e curta contra o peito, e nĂŁo disse nada. Continuou sĂł a mover a mĂŁo pelas costas dele, devagar, como se o tempo fosse dos dois.

Passados uns minutos, levantou-se com cuidado, tapou-o primeiro, e foi buscar um copo de ågua e uma toalha quente. Limpou-o com uma atenção quase sem barulho, gesto a gesto, nenhum deles apressado. Deu-lhe a ågua à mão e esperou que ele bebesse tudo.

E, antes de voltar para a cama, pegou no telemóvel e espreitou a aplicação.

Noventa e quatro.

Pousou o telemĂłvel com o ecrĂŁ para baixo e deitou-se.

— Obrigado — disse Rafael.

— PorquĂȘ?

Rafael demorou, a escolher as palavras.

— Por me teres mostrado esse lado teu. Eu sei que nĂŁo era fĂĄcil. MostrĂĄ-lo a mim Ă© que nĂŁo era fĂĄcil.

Leo ficou a olhar para ele com uma cara que Rafael raramente lhe via, aberta, sem nada Ă  frente.

— Como Ă© que te sentiste? — perguntou. — A sĂ©rio.

— Assustado, ao princípio. — Rafael pensou bem antes de continuar. — Mas não daquele mau. Era mais não saber o que vinha a seguir. E depois isso foi-se embora, e eu fiquei só
 presente. Mais presente do que alguma vez estive em toda a minha vida.

Leo ouviu sem interromper.

— Gostaste? — E na voz dele havia uma coisa frágil que Rafael reconheceu logo, porque era rara.

— Gostei. Muito mais do que estava Ă  espera. — Levantou a cabeça para o olhar de frente, para nĂŁo haver dĂșvidas. — E quero aprender mais. Contigo. Ao teu ritmo. Quero conhecer tudo o que tu Ă©s.

Leo demorou a responder.

— Contigo Ă© diferente.

— Diferente como?

— JĂĄ fiz isto antes. Com outras pessoas. — Uma pausa. — Nunca com alguĂ©m que eu amasse. E isso assustava-me mais do que eu alguma vez admiti a ninguĂ©m.

Rafael esperou.

— Tinha medo de te magoar. Não o corpo, isso eu sei fazer. A outra coisa. — Leo estava a olhar para o teto. — Medo de que tu misturasses o que acontece ali com o que eu sinto por ti. Ou de que fosse eu a misturar.

— E misturaste?

Leo virou a cara para ele.

— NĂŁo. — E havia alĂ­vio a sĂ©rio naquela palavra. — Foi ao contrĂĄrio. Nunca estive tĂŁo perto de ti como esta noite.

Rafael encostou a cabeça ao peito dele e acomodou-se ali com um cuidado que dizia tudo.

— Eu sabia que me ias tratar bem — murmurou. — Foi por isso que pedi. Precisava que tu soubesses que eu confio em ti. Em tudo o que tu Ă©s.

Leo fechou os olhos.

Havia anos que guardava aquela parte dele num compartimento fechado, longe de tudo o que lhe era importante, porque tinha a certeza de que as duas coisas nĂŁo podiam viver na mesma casa. E aquele rapaz, com a calma dele e com aquela teimosia mansa, tinha simplesmente aberto a porta e entrado.

Sem medo. Sem juĂ­zos.

— Obrigado — disse Leo.

Rafael levantou a cabeça, surpreendido.

— Eu Ă© que agradeci.

— Não. — Leo olhou para ele com uma seriedade quieta. — Obrigado por não teres desistido de me conhecer todo.

Rafael não respondeu. Voltou a encostar a cabeça ao peito dele, e desta vez ficou ali, quieto, a ouvir um coração num ritmo que jå lhe era familiar.

A mão de Leo recomeçou aquele movimento lento nas costas dele, que Rafael jå tinha aprendido a associar a estar seguro.

E adormeceu assim.

Leo ficou acordado mais um bocado, com ele nos braços. Havia qualquer coisa dentro do peito dele que também tinha cedido naquela noite. Uma parede antiga, que ele nem sabia que ainda estava de pé.

🍃 🍃 🍃

O despertador tocou Ă s sete e um quarto, o que foi uma brutalidade.

Rafael acordou primeiro, ainda encostado ao peito dele, e ficou uns segundos a olhar para aquela cara adormecida, descansada, sem nada da dureza que ela tinha Ă  frente das outras pessoas.

Leo abriu os olhos pouco depois e deixou-lhe um beijo na testa.

— Bom dia, anjo. — E logo a seguir, com uma preocupação que nĂŁo conseguiu esconder: — Como Ă© que estĂĄs? Foi demais?

— Bom dia, amor. — Rafael enfiou-se-lhe mais nos braços. — Estou bem. Dorido, mas bem.

— Rafael.

— A sĂ©rio. — Levantou a cabeça. — Aquele tambĂ©m eras tu. E eu gostei daquele Leo. NĂŁo me importo nada de o voltar a ver, se ele me quiser ensinar mais.

Leo largou o ar que nĂŁo sabia que estava a segurar desde a noite anterior.

— Amo-te.

— TambĂ©m te amo. — Rafael espreitou por cima do ombro dele. — E tenho aulas Ă s nove.

— Tens nada.

— Tenho.

— Tens. — Leo sentou-se na cama e esfregou a cara. — Vai tomar banho, que eu faço o pequeno-almoço.

Tomaram banho juntos, o que foi um erro de cålculo de ambas as partes, porque o banho demorou vinte minutos mais do que devia e ninguém se arrependeu de nada.

Rafael saiu de casa Ă s oito e meia, com o cabelo molhado, uma tosta na mĂŁo e a camisola do Nuno que ainda nĂŁo tinha devolvido.

À porta, com a mochila já num ombro, virou-se.

— Carinho.

— Diz.

— No domingo Ă© o almoço.

Leo encostou a testa ao caixilho da porta.

— Eu sei que Ă©.

— O Jorge Ă© boa pessoa.

— O Jorge Ă© arquiteto e mede as pessoas com os olhos, foste tu que disseste.

— Foi, e eu mantenho. — Rafael pĂŽs-se em bicos de pĂ©s para lhe dar um beijo. — Mas ele vai gostar de ti.

— Achas?

— Toda a gente gosta de ti, carinho. — Já ia a descer os degraus. — É um problema que eu tenho.

Quando sair o prĂłximo livro, queres saber?

Mais nada. E podes sair da lista quando quiseres.

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