28 – Sem Medo
Já vestidos, na cozinha, Leo fazia café e Rafael estava sentado no banco alto do balcão a vê-lo fazer café.
— Estás a olhar para mim porquê?
— Porque gosto.
Leo desviou os olhos, e corou. Corou mesmo, o que não lhe acontecia desde que tinha vinte anos.
— Tu vais dar cabo de mim.
— Não quero dar cabo de ti. — Rafael roubou-lhe um beijo por cima do balcão. — Quero estar contigo. Hoje. Amanhã. E o tempo que vier a seguir.
Leo pousou a chávena, deu a volta ao balcão e pegou-lhe na cara com as duas mãos.
— Eu também quero isso — disse. — Mais do que alguma vez quis alguma coisa.
O telemóvel vibrou em cima da bancada e estragou o momento, como fazem sempre os telemóveis.
Leo olhou para o ecrã e revirou os olhos.
📞 — "Bom dia. O que é que se passa? É domingo. Não tens mais nada para fazer?"
📞 — [Bom dia para ti também.] — O Henrique estava a rir-se. — [Com essa boa disposição toda, já vi que a noite não correu bem.]
Leo riu-se e olhou para Rafael, que tinha franzido a testa, curioso. Chegou-se a ele, deu-lhe um beijo leve e disse baixinho, só para ele:
— É o Henrique.
📞 — "Correu muito bem, chato. Por acaso estou ocupado. Tenho aqui alguém a precisar de toda a minha atenção."
Houve um silêncio do outro lado. E depois:
📞 — [Espera. Estás com quem eu estou a pensar?]
📞 — "Estou."
📞 — [E aconteceu.]
📞 — "Aconteceu."
Do outro lado ouviu-se o Mário a perguntar qualquer coisa ao fundo, e depois passos, e o som de uma porta.
📞 — [Leo.] — A voz do Henrique mudou. — [Tu não o forçaste a nada, pois não?]
Leo ficou um segundo sem responder. Não por ofensa. Por perceber de onde é que aquela pergunta vinha, e por saber quem é que a tinha feito primeiro.
📞 — "Diz ao teu namorado que eu nunca faria isso a ninguém. Muito menos a quem amo."
📞 — [Desculpa. Eu nem devia ter perguntado, mas ele ficou com aquilo na cabeça desde ontem à noite e não dormiu.]
Rafael, que já tinha percebido o rumo da conversa, estendeu a mão e tirou-lhe o telemóvel.
📞 — "Mário. Sou eu. Estou bem, e ninguém me obrigou a nada. Estás a ouvir?"
📞 — [Ele está a ouvir.] — O Henrique parecia aliviado. — [E pede desculpa.]
📞 — "Não tem de pedir nada. Diz-lhe que eu percebi."
Devolveu o telemóvel e deixou-se ficar encostado ao peito de Leo, que lhe passou o braço à volta da cintura.
📞 — "Pronto. Já sabem tudo. E sim, o jantar correu bem. O Lorenzo levantou a voz, como era de esperar, e depois acabou a fazer perguntas de sogro. Agora é oficial, perante a família toda."
📞 — [Ainda bem, Leo. A sério. Tu mais do que ninguém merecias isto.]
📞 — "Obrigado."
Leo já estava a sorrir para o rapaz à frente dele quando ouviu o tom do amigo mudar outra vez.
📞 — [Ouve. Antes de desligares, há outra coisa.]
📞 — "Diz."
📞 — [A Vera apareceu cá ontem à noite.]
Leo ficou muito quieto.
📞 — [Não entrou. O Afonso barrou-a logo à porta, como tu mandaste. Ela não fez cena nenhuma, foi o que me deu mais impressão. Ficou ali a falar com ele, muito calma, a perguntar se tu continuavas a vir. E depois perguntou pelo rapaz.]
📞 — "Pelo rapaz."
📞 — [Perguntou se ele era teu. Foi a palavra que usou.]
Rafael levantou a cabeça do peito dele.
— Está tudo bem?
Leo pôs-lhe a mão na nuca e fez que sim com a cabeça.
📞 — "Ela não volta a pôr os pés lá dentro. Diz isso ao Afonso, e diz ao Mário para não a deixar chegar perto de ninguém."
📞 — [Já está dito. Leo…]
📞 — "Depois falamos."
📞 — [Está bem.]
Desligou e pousou o telemóvel na bancada, com o ecrã para baixo.
— Era o quê? — perguntou Rafael.
Leo olhou para ele.
Estava ali, descalço, de camisa dele, com o cabelo ainda molhado e uma marca no pescoço que ia dar trabalho a esconder, a olhar para cima com aquela cara de quem não tem medo de nada.
Não lhe estragues o domingo.
— Coisas do Refúgio — disse. — Contas, fornecedores. O costume.
E aquilo não era bem mentira, porque a conversa tinha sido mesmo no Refúgio.
Rafael acreditou, e foi buscar a chávena dele.
🍃 🍃 🍃
— Vais ligar aos teus pais?
— Já vou. — Rafael pegou no telemóvel e ficou a olhar para ele. — Posso ficar hoje? O dia todo, quero dizer.
— Podes ficar hoje. — Leo encostou-se ao balcão. — E podes ficar esta noite, e ir para as aulas daqui de manhã, se te apetecer. Fica-te mais perto do que a tua casa.
Rafael olhou para ele.
— A sério?
— A sério. Leva a mochila e acaba o que tiveres para acabar à mesa da cozinha. Eu prometo não te chatear. — Fez uma pausa. — Muito.
Rafael ligou à mãe com um sorriso parvo na cara.
📞 — "Bom dia, mãe."
📞 — [Bom dia, filho. Então, como é que foi o jantar de anos?]
📞 — "Foi ótimo. O Nuno e a Amélia ficaram felizes." — Respirou fundo. — "Mãe, eu queria ficar hoje cá. E dormir cá, e ir daqui para as aulas amanhã."
Houve uma pausa do outro lado. Uma pausa daquelas.
📞 — [Está o teu pai a ouvir.]
📞 — "Eu sei que está."
📞 — [Diz que sim.] — A mãe estava a rir-se. — [Diz que sim e que levas roupa lavada, porque eu conheço-te.]
📞 — "Levo."
📞 — [Ah, e filho. No próximo domingo vêm cá almoçar os dois. O teu irmão quer conhecer o Leo.]
📞 — "O Luís já o conheceu."
📞 — [O Jorge.] — Uma pausa curtíssima. — [O Jorge quer conhecê-lo.]
Rafael olhou para Leo, que tinha ouvido tudo, de tão perto que estava, e que fez que sim com a cabeça sem hesitar um segundo.
📞 — "Nós vamos, mãe. Beijinhos ao pai."
Desligou.
— O Jorge — disse Leo.
— O Jorge.
— É o arquiteto.
— É o que casa para o ano e mede as pessoas com os olhos. — Rafael encolheu os ombros. — É o mais velho. Ele é assim com toda a gente.
— Eu tenho trinta e dois anos, anjo. Já fui medido por gente pior.
— Não foste nada.
— Não fui. — Leo esfregou a cara com as duas mãos. — Vou passar a semana a pensar nisto, não vou?
— Vais.
🍃 🍃 🍃
Foram às compras a meio da manhã, de mãos dadas, a discutir o jantar o caminho todo.
Rafael queria massa com tomate e manjericão. Leo queria acrescentar queijo e um pouco de vinho branco. Rafael disse que isso já não era massa com tomate, era outra coisa. Leo disse que era massa com tomate melhorada. Discutiram aquilo durante seis quilómetros.
No supermercado, perderam-se nos corredores como se tivessem os dois quinze anos. Rafael pôs gelado no cesto. Leo pôs pipocas.
— Isso é para quê?
— Para o filme depois do jantar.
— Já decidiste que há filme depois do jantar.
— Já.
A meio da manhã comeram uma fatia de piza em pé, no corredor da praça de alimentação, porque Leo olhou para as horas e disse que não, senhor, que hoje comia-se de duas em duas horas e não se discutia.
E foi ali, com o guardanapo na mão, que Rafael se lembrou.
— Leo. Quero passar numa farmácia.
Leo ficou logo com outra cara.
— Aconteceu alguma coisa?
— Não. — Rafael riu-se. — O sensor. Chegou na quinta-feira e está lá à minha espera. Já devia ter ido buscá-lo.
Leo pousou o guardanapo.
— Vamos agora.
Não foi uma pergunta.
Na farmácia, Rafael explicou o que queria e a farmacêutica foi buscar a caixa. Leo ficou ao lado dele o tempo todo, a ouvir, a fazer perguntas que ninguém lhe pediu. De quanto em quanto tempo se troca. O que acontece se ele fizer força em cima. Se dá para ver os valores à distância.
A farmacêutica olhou para os dois por cima dos óculos.
— O senhor é o quê dele?
— Sou o namorado — disse Leo.
Ela não pestanejou.
— Então preste atenção a isto, que é para si também.
🍃 🍃 🍃
Já em casa, Rafael sentou-se à mesa da cozinha, tirou a camisola e pôs o sensor no braço, com o aplicador, num gesto rápido e sem aparato nenhum.
Fez um estalido pequeno. E pronto.
Leo tinha ficado de pé, a ver, sem dizer nada.
— Posso ver?
Rafael estendeu o braço. Leo passou o dedo pela beirinha do sensor, com cuidado, como quem toca numa coisa que se pode partir.
— Não se parte, carinho.
— Eu sei.
Ficou mais um segundo com os dedos ali.
— Anjo, posso pedir-te uma coisa?
— Podes.
— Queria ter a aplicação no meu telemóvel também. — Disse-o depressa, e logo a seguir levantou a mão. — E, antes de responderes: se não quiseres, está tudo bem e eu não volto a falar nisto. Isso é o teu corpo e são os teus números. Não é meu.
Rafael ficou a olhar para ele.
Pensou no pai, no escritório, a dizer que ninguém decide por ninguém. Pensou num corredor de centro comercial. Pensou em quantas pessoas na vida dele lhe tinham pedido licença para uma coisa destas, em vez de simplesmente a tomarem.
— Dá cá o telemóvel.
— Rafael…
— Dá cá o telemóvel, carinho. — Já estava a estender a mão. — E não te habitues a olhar para aquilo de cinco em cinco minutos, senão tiro-ta.
Leo entregou-lho.
Instalaram a aplicação ali mesmo, à mesa da cozinha, com Rafael a ditar os códigos e Leo a escrever com dois dedos como um homem de setenta anos. Quando o número apareceu no ecrã dele pela primeira vez, Leo ficou a olhar para aquilo em silêncio mais tempo do que era preciso.
Cento e um. Uma setinha a direito.
— Não é nada de especial — disse Rafael.
— Para ti não.
🍃 🍃 🍃
A tarde foi preguiçosa, e foi a melhor parte.
Ficaram no sofá a ver um filme que nenhum dos dois acompanhou. Rafael adormeceu vinte minutos com a cara na perna dele. Leo não se mexeu durante esses vinte minutos, e depois teve cãibras e mereceu.
Ao fim da tarde, Leo pôs música na coluna da cozinha e começaram a fazer o jantar.
Rafael cortava os legumes devagar de mais. Leo tratava do molho e ia provando com o dedo. A certa altura, entre o tomate e o manjericão, houve uma dança improvisada que não se pode chamar dança, e houve risos que se ouviram na rua.
— Cheira bem, amor. — Rafael encostou-se-lhe às costas para espreitar o tacho. — Não sabia que cozinhavas assim.
— Há muita coisa minha que tu ainda não sabes.
— Já fui aprendendo algumas.
E deu-lhe uma palmada no traseiro.
Leo virou-se com a colher de pau na mão.
— Estamos atrevidos.
Rafael mostrou-lhe a língua e fugiu para pôr a mesa, a abrir gavetas e armários à procura das coisas como se aquela casa fosse dele há anos.
Leo ficou a vê-lo andar de um lado para o outro na cozinha dele, e teve de se virar para o tacho outra vez, porque havia coisas que um homem de trinta e dois anos não devia sentir com tanta força por causa de um rapaz a procurar os garfos.
Jantaram à mesa, os dois, com a música baixinho.
Brindaram com sumo de laranja.
— Ao nosso fim de semana — disse Leo.
— Ao nosso.
Falaram de viagens que não tinham feito, de sítios onde queriam ir, de uma professora com sotaque, do dia em que o Nuno partiu um braço a fazer uma coisa parva. Arrumaram a cozinha os dois. Comeram o gelado a meio do segundo filme, e as pipocas ficaram por abrir.
🍃 🍃 🍃
Quando o filme acabou, ficou aquele silêncio que não é vazio.
Leo passou o braço por trás dele e puxou-o, e deixou-lhe um beijo devagar na curva do pescoço. Rafael suspirou e inclinou a cabeça para o lado sem pensar.
— Estás bem? — A voz de Leo estava mais baixa.
— Estou. — Rafael virou a cara para ele. — E tu?
Leo beijou-o. Devagar ao princípio, a pedir licença a cada segundo, e depois com mais firmeza.
— Eu quero-te — disse, com a testa encostada à dele. — Mas só se tu quiseres. E só se o teu corpo aguentar, que não foi há assim tanto tempo.
— O meu corpo aguenta.
— Rafael.
— Doem-me sítios, já te disse. — Rafael sorriu. — E quero na mesma. Se fores com cuidado.
— Sempre com cuidado. — Leo levantou-se e estendeu-lhe a mão. — Mas não prometo ser inocente.
Rafael pegou-lhe na mão sem hesitar.
🍃 🍃 🍃
Foram para o quarto, e do quarto foram para a casa de banho, com as roupas a ficar pelo caminho e a casa a parecer mais pequena e mais quente do que costumava ser.
Leo abriu a água e ficou a ajustá-la com a mão por baixo do chuveiro, até estar boa. Depois virou-se para ele.
— Vem.
A água quente bateu-lhe nos ombros e Rafael fechou os olhos. Leo ficou atrás dele, com as mãos nos braços dele, sem pressa nenhuma, e por uns minutos não se disse nada.
Foi ali, com o barulho da água e o vapor a tapar tudo, que Rafael encontrou a coragem para a pergunta que andava a adiar havia semanas.
— Leo.
— Diz, anjo.
— Eu queria pedir-te uma coisa. — Sentiu a cara a arder e agradeceu ao vapor. — E tenho vergonha.
Leo virou-o para si e abraçou-o, ali debaixo da água.
— Não tens de ter vergonha nenhuma comigo. Diz.
Rafael respirou fundo. Encostou a testa ao peito dele e falou para ali.
— Aquele teu lado. O do Refúgio. — Engoliu em seco. — Quero conhecê-lo.
Leo não respondeu logo. Rafael sentiu-lhe o coração acelerar debaixo da testa.
— Tens a certeza do que estás a pedir?
— Tenho. — Levantou a cara. — É a única parte de ti que eu ainda não conheço. E faz parte de quem tu és. Assusta-me um bocado. Mas eu confio em ti.
Leo levantou-lhe o queixo com dois dedos e ficou a olhar para ele, à procura de qualquer coisa. Hesitação. Vontade de agradar. Medo do lado errado.
Não encontrou nada disso.
— Anjo, eu não quero que faças isto por saberes que eu gosto. Eu sou feliz contigo. Tu chegas-me.
— Eu sei que chego.
— Então?
Rafael não desviou os olhos.
— Mostra-me.
Mais nada. E podes sair da lista quando quiseres.