Capítulo 27 — Sem Medo
Mais tarde, já vestidos e sentados à mesa da cozinha, Leo preparava café enquanto Rafael observava cada gesto dele com um sorriso que não conseguia esconder.
— Estás a olhar para mim porquê? — perguntou Leo, fingindo seriedade.
— Porque gosto — respondeu Rafael, simples.
Leo desviou o olhar, corando de leve — algo raro nele.
— Vais matar-me assim.
Rafael riu, aproximando-se para lhe roubar um beijo rápido.
— Não quero matar-te. Quero… — hesitou, procurando as palavras. — Quero estar contigo. Hoje. Amanhã. O tempo que vier.
Leo pousou a chávena e aproximou-se, segurando-lhe o rosto com ambas as mãos.
— Eu também quero isso, Rafael. Mais do que alguma vez quis algo na vida.
O momento foi interrompido pelo telemóvel de Leo a vibrar na bancada.
📞— “Bom dia, que se passa? Hoje é sábado. Não tens o que fazer?” — Leo atendeu de imediato, reconhecendo o número de ´Henrique.
📞— [Bom dia. Vejo que as coisas não correram assim tão bem] — respondeu o amigo, num tom trocista. — [Com essa cara de má disposição, logo de manhã…]
Leo soltou uma gargalhada, lançando um olhar divertido a Rafael, que franzia a testa, curioso. Aproximou-se dele, deixou-lhe um beijo leve nos lábios e murmurou, só para ele:
— É o Henrique.
Depois voltou ao telefone:
📞— “Nada disso, chato. Muito pelo contrário, estou ocupado. Tenho aqui alguém muito especial a exigir toda a minha atenção.”
📞— [Alguém especial?] — Henrique hesitou, mas depressa percebeu. — [Espera… estás com quem eu estou a pensar?] — O sorriso era quase audível do outro lado da linha
📞— “Sim“— respondeu Leo, sem rodeios.
📞— [E aconteceu?]
📞— “Sim” — admitiu Leo, e o sorriso abriu-se-lhe ainda mais no rosto.
Do outro lado, Leo ouviu Mário perguntar algo, mas não conseguiu perceber o quê.
📞— [Tu não o obrigaste, pois não?] — perguntou Henrique, a voz agora mais séria.
Leo suspirou, compreendendo a preocupação.
📞— “Diz ao teu namorado que nunca faria isso a ninguém, muito menos a quem amo” — respondeu, fingindo-se ofendido, mas com ternura.
Seguiu-se um breve silêncio.
📞— [Desculpa-me, Leo. Eu nem devia ter dito isso, mas o Mário ficou preocupado] — justificou, num tom mais baixo.
Rafael, que percebera o rumo da conversa, aproximou-se de Leo, pegou-lhe no telemóvel e disse, para que todos ouvissem:
📞— “Eu estou bem, e ninguém me obrigou a nada, ouviste, Mário?”
📞— [Ele ouviu] — respondeu Henrique, aliviado. — [E também pede desculpa.]
Leo puxou Rafael para si, envolvendo-o num abraço pela cintura.
📞— “Está tudo bem, não estou ofendido. Percebo o vosso lado. E sei que estão curiosos sobre o jantar. Posso dizer-vos que, ao início, o Lorenzo ficou relutante, mas acabou por ceder. Agora estamos oficialmente juntos, perante toda a família e amigos.”
📞— [Fico feliz por isso… e o Mário também. Tu mais do que ninguém mereces ser feliz, Leo.]
📞— “Obrigado, Henrique. Agora vou aproveitar o resto do fim de semana com o meu namorado.” — despediu-se Leo, sorrindo para Rafael, que lhe devolveu o sorriso, cúmplice.
Depois de desligar, Leo pousou o telemóvel na bancada e olhou para Rafael, que ainda sorria, cúmplice.
— Então, o que te apetece fazer agora? — perguntou Leo, aproximando-se e envolvendo Rafael pela cintura.
— Sinceramente? — Rafael encostou-se ao peito dele, sentindo o calor e o conforto daquele abraço. — Nada. Podemos ficar em casa, só nós os dois. A preguiçar. Vou ligar aos meus pais e dizer que vou ficar por aqui hoje. Posso?
Leo sorriu, satisfeito com a simplicidade do desejo de Rafael, e beijou-lhe a bochecha corada.
— Gosto dessa ideia. Pede-lhes, diz que ficas este fim de semana comigo.
— Hum. O fim de semana todo? — O rosto de Rafael iluminou-se. — Parece-me fantástico.
— Mas não prometo ficar quieto. — Leo abraçou-o, encostando-o bem contra si. As mãos deslizaram-lhe pelas costas até às ancas, pressionando-o de modo que sentisse o calor do seu corpo e a sua intimidade. — Por isso, se te queres ver livre de mim, ainda vais a tempo.
Rafael ficou em silêncio, fixando-lhe o rosto, agora já sem medo, sem pudor, antes de pegar no telemóvel.
📞— “Olá, mãe, bom dia. Tudo bem?”
📞— [Sim, meu filho, como correram as coisas ontem, no jantar?]
📞— “Tudo ótimo, o Nuno e a Amélia estavam muito felizes. Mas queria dizer-vos que vou ficar por aqui este fim de semana, tudo bem para vocês?”
📞— [Claro, meu filho. Passem cá amanhã, o teu irmão quer conhecer o Leo.]
Rafael olhou para Leo à espera de uma resposta; não precisou perguntar, porque sabia que ele tinha ouvido, de tão perto que estavam. Leo apenas acenou com a cabeça.
📞— “Nós vamos, mãe. Até amanhã. Beijinhos ao pai.”
E desligou o telemóvel, sorrindo ao pensar que ia passar o fim de semana com o namorado.
— Pensei que te ias escapar de mim, fugir para os teus pais — provocou Leo, com um sorriso malandro.
— Porque faria isso? Se fosse para fugir, já tinha sido ontem. Agora já é tarde — respondeu Rafael, ainda agarrado a Leo, com um brilho feliz no olhar. — Já não tenho medo.
— Humm… e se eu te disser que te quero de novo? Agora — Leo aproximou-se, deixando claro o desejo no olhar e no toque.
— Diria que ainda não sei se estou pronto…, mas estou disposto a tentar. Confio em ti — murmurou Rafael, sem se afastar, sentindo o corpo responder ao calor do outro.
— Tudo bem, vamos com calma. Por agora, vamos sair um pouco, precisamos de comprar algumas coisas se queremos jantar. — Leo inclinou-se e sussurrou-lhe ao ouvido, com um tom cúmplice: — Mas logo à noite… não me escapas.
Um arrepio percorreu o corpo de Rafael, não só pelas palavras sussurradas, mas também pela leve mordida que Leo lhe deixou na orelha, misturando desejo e ternura.
Após um momento de proximidade, Leo e Rafael foram juntos, de mãos dadas, tomar banho, como se já tivessem esse hábito.
Depois Leo pegou nas chaves do carro e na mão de Rafael, e juntos saíram para a rua.
— Anda, vamos apanhar ar e aproveitar para fazer compras.
🍃 🍃 🍃
O caminho até ao centro comercial onde ficava o supermercado foi feito de mãos dadas, entre conversas soltas e pequenas provocações. Pelo caminho, discutiram o que cozinhar: Rafael sugeriu massa com molho de tomate e manjericão, Leo insistiu em acrescentar queijo e um pouco de vinho branco.
No supermercado, perderam-se nos corredores, a escolher ingredientes e a brincar com as opções mais improváveis. Rafael insistiu em comprar gelado para a sobremesa, Leo não resistiu a meter um pacote de pipocas no cesto.
— Isto é para o filme depois do jantar — justificou, com um sorriso maroto.
À medida que o tempo passava, decidiram almoçar ali mesmo. Comeram um pouco de pizza, apenas para enganar a fome e cuidar da diabetes de Rafael.
Rafael lembrou-se então da conversa com os pais e da decisão que tinha tomado.
— Leo… há uma coisa que quero fazer hoje. Passar numa farmácia.
— Aconteceu alguma coisa? — Leo ficou logo atento.
— Não — sorriu Rafael. — Quero comprar o dispositivo de monitorização contínua. Já devia ter feito isto há mais tempo.
Leo olhou para ele com um brilho diferente no olhar.
— Vamos agora.
Não foi uma pergunta. Foi uma certeza.
Entraram numa farmácia. Rafael explicou o que queria e o farmacêutico trouxe o dispositivo. Leo ficou ali, ao lado dele, atento a cada explicação, fazendo perguntas, querendo perceber.
🍃 🍃 🍃
Já em casa, Rafael colocou o sensor no braço — um gesto simples, mas agora tinha uma leveza diferente. Leo observava em silêncio.
— Posso ver? — perguntou, aproximando-se.
Rafael estendeu o braço. Leo passou o dedo pela beirinha do sensor com cuidado, como se fosse algo precioso.
— Obrigado — murmurou Rafael.
— Eu é que agradeço — respondeu Leo. — Por me deixares fazer parte disto.
Rafael ajudou a guardar as compras.
Depois, os dois acomodaram-se no sofá e, entre carinhos e conversas, passaram o dia assistindo a alguns filmes na TV.
Leo pôs uma música a tocar na coluna da cozinha e, entre gargalhadas e danças improvisadas, começaram juntos a preparar o jantar. Rafael cortava os legumes enquanto Leo cuidava do molho; de vez em quando trocavam beijos rápidos ou pequenas provocações.
— Está a cheirar bem, amor — disse Rafael, aproximando-se de Leo para sentir o aroma. — Não sabia que cozinhavas assim tão bem.
— Meu doce, há muito sobre mim que ainda tens por descobrir — respondeu Leo com um sorriso provocador.
— Já aprendi algumas coisas... e espero aprender ainda mais — murmurou Rafael, dando uma leve palmada no traseiro de Leo.
— Estamos a ficar mesmo atrevidos.
Em resposta, Rafael mostrou-lhe a língua e fugiu para começar a pôr a mesa, procurando onde estavam as coisas, abrindo gavetas e armários como se estivesse em sua casa.
Leo observava-o, sorrindo de felicidade.
Quando a massa ficou pronta, sentaram-se à mesa, serviram-se e brindaram com sumo de laranja.
— Ao nosso fim de semana — disse Leo, erguendo o copo.
— Ao nosso — repetiu Rafael, sorrindo.
O jantar foi tranquilo, cheio de conversas sobre sonhos, viagens e pequenas memórias de infância. Depois, arrumaram a cozinha juntos e foram aninhar-se no sofá, prontos para escolher o filme e partilhar a sobremesa.
Quando o filme terminou, o silêncio instalou-se no sofá, mas não era um silêncio vazio — era denso, quente, cheio de tudo o que ainda não tinham dito. Leo passou o braço por trás de Rafael e puxou-o para si, deixando um beijo lento na curva do pescoço dele. Rafael suspirou, inclinando-se instintivamente para o toque.
— Estás bem? — murmurou Leo, a voz baixa, quase rouca, enquanto os dedos lhe percorriam o braço num gesto suave, mas carregado de intenção.
Rafael ergueu o olhar, encontrando o dele.
— Estou — respondeu, com um sorriso tímido. — E tu?
Leo aproximou-se mais, roçando os lábios nos de Rafael antes de o bei-jar devagar, como se lhe pedisse permissão a cada segundo. A mão dele pousou na cintura de Rafael, subindo apenas o suficiente para o puxar mais para si, sem pressa, sem exigência.
— Eu quero-te… — confessou Leo, encostando a testa à dele. — Mas só se tu quiseres. Só se te sentires capaz. Não quero ultrapassar nada. Não quero magoar-te.
Rafael pousou a mão no rosto dele, acariciando-lhe o maxilar com o polegar.
— Eu quero, Leo. Se fores cuidadoso… eu quero. Confio em ti.
O sorriso que Leo lhe deu foi metade ternura, metade provocação.
— Sempre cuidadoso, meu amor. Mas não prometo ser inocente.
Rafael riu baixinho, sentindo o corpo aquecer com a promessa escondida naquelas palavras. Leo voltou a beijá-lo, desta vez com mais firmeza, deixando a mão deslizar-lhe pelas costas num toque que dizia tudo sem precisar de mostrar nada.
Quando Leo se levantou e lhe estendeu a mão, Rafael aceitou-a sem hesitar.
A forma como os dedos se entrelaçaram dizia mais do que qualquer frase.
A porta do quarto fechou-se atrás deles com suavidade — e o resto da noite ficou entregue ao ritmo que só os dois conheciam, feito de calma, cuidado e um desejo que finalmente podia respirar.
O quarto recebeu-os com uma luz suave, como se o mundo lá fora tivesse ficado suspenso. Leo fechou a porta devagar, e por um instante ficaram apenas a olhar um para o outro, como se cada gesto dissesse mais do que qualquer palavra.
Leo puxou Rafael contra si, deixando transparecer a intensidade do que sentia. Uma das mãos pousou-lhe nas costas, a outra subiu até à nuca, onde entrelaçou os dedos nos cabelos do mais novo, guiando-lhe o olhar para si. O beijo que se seguiu foi urgente, carregado de tudo o que Leo vinha a guardar, e Rafael respondeu com a mesma entrega silenciosa, deixando que o outro percebesse o efeito que aquela proximidade tinha nele.
Rapidamente, como se o tempo tivesse acelerado, as roupas foram desaparecendo entre toques apressados e olhares que falavam por si. Leo entrelaçou os dedos nos de Rafael e puxou-o suavemente, guiando-o para fora do quarto. O corredor parecia mais estreito, mais quente, como se a própria casa sentisse a mudança de energia entre eles.
Quando entraram na casa de banho, o som do chuveiro a correr encheu o espaço com uma calma inesperada. O vapor começava a subir, desfazendo contornos e tornando tudo mais íntimo. Leo ajustou a água e depois voltou-se para Rafael, aproximando-se devagar, pousando-lhe as mãos nos ombros num gesto firme, mas cheio de cuidado.
— Vem — murmurou, guiando-o para debaixo da água quente.
O primeiro toque da água fez Rafael fechar os olhos, como se aquilo o ajudasse a respirar melhor. Leo ficou atrás dele, presente, atento, sem pressa. Ali, envoltos pelo vapor, pelo som constante da água, pelo toque quente das mãos grandes no seu corpo, que lhe despertavam os sentidos, Rafael, sentiu que podia finalmente dizer o que lhe pesava no peito.
Algo sobre o qual vinha a pensar há algum tempo, algo que temia, mas ao mesmo tempo o deixava curioso.
Algo sobre aquele outro lado de Leo que o intrigava e assustava ao mesmo tempo.
— Leo… — chamou, num tom baixo, quase engolido pelo chuveiro.
Leo inclinou-se ligeiramente, atento.
— Diz, Anjo.
Rafael hesitou. Os dedos tremiam-lhe um pouco quando passaram pelo próprio braço.
— Eu… queria pedir-te uma coisa. Mas tenho vergonha.
Leo aproximou-se devagar e envolveu Rafael num abraço caloroso, transmitindo-lhe segurança e abrigo.
— Não precisas de ter vergonha comigo. Diz-me, o que queres pedir?
Rafael respirou fundo, o peito a subir e descer num ritmo acelerado.
— Aquele teu lado… quero que mo mostres. Quero muito conhecer esse Leo. Acho que é a única parte de ti que ainda não conheço, e também faz parte de quem és. Mostra-mo.
Corado, com o coração a bater depressa demais, Rafael, encostado ao peito de Leo, sentia não só a respiração acelerada, mas também o bater do coração dele.
Leo levantou-lhe o queixo com a ponta dos dedos, num gesto suave.
— Tens a certeza do que estás a pedir?
O mais novo acenou, nervoso, mas Leo reconheceu nos seus olhos entrega e sinceridade.
— Tenho. Confio em ti. Quero conhecer esse teu lado… saber como és. Assusta-me um pouco, mas confio em ti.
Leo sorriu, um sorriso que misturava ternura e promessa.
— Anjo, não quero que te sintas pressionado só porque sabes que eu gosto. Sou feliz contigo… tu chegas-me.
Leo procurou sinais de desconforto ou hesitação em Rafael, mas só encontrou vontade e confiança.
Rafael, firme, pediu:
— Mostra-me.