27 🔞 – A Entrega
🔞 Este capítulo contém conteúdo para leitores adultos.
E quando finalmente o beijou, não houve pressa.
Foi lento. Foi cuidadoso. Foi quase um pedido de licença.
Rafael deixou-se ir naquele beijo com uma confiança que o espantou a ele próprio, e Leo avançou devagar, a segurar-se, como quem tem uma coisa nas mãos que não pode deixar cair.
A mão dele desceu-lhe pelas costas e parou onde as costas deixam de ser costas. Rafael sentiu o corpo todo responder àquilo antes de a cabeça perceber o que se estava a passar.
E quando a mão quente lhe entrou por baixo da camisa e lhe tocou a pele, estremeceu.
— Estás a tremer — murmurou Leo, contra o ouvido dele.
— Não consigo parar. — Rafael riu-se, nervoso. — Já reparei que não consigo.
— Não tens de ter medo. — Leo afastou-se só o suficiente para lhe ver a cara. — De mim, nunca.
Rafael encostou a testa ao peito dele.
— Não é medo — disse. — É tudo o que me estás a fazer sentir ao mesmo tempo. Não sei onde é que hei de pôr isto.
Leo beijou-lhe o alto da cabeça. Depois pegou-lhe ao colo, sem esforço nenhum e sem aviso nenhum, e Rafael soltou um som de surpresa que acabou em riso contra o pescoço dele.
Não foram precisas palavras. Encostou a cabeça ao peito de Leo e ouviu, contra a orelha, o coração dele a bater depressa.
Aquilo, mais do que tudo o resto, deu-lhe coragem.
E quando Leo começou a subir as escadas, Rafael fechou os olhos e deixou-se levar.
🍃 🍃 🍃
No quarto estava quase escuro. Só o candeeiro da mesa de cabeceira, que Leo tinha deixado aceso de manhã sem dar por isso.
Leo pô-lo de pé ao lado da cama, com cuidado, e ficou à frente dele.
— Olha para mim.
Rafael levantou a cara.
Leo pegou-lhe nas duas mãos.
— Isto é importante para mim — disse. — Mais do que eu alguma vez pensei que uma coisa destas podia ser. Não é só quererem-se um ao outro. És tu. És sempre tu. — Respirou fundo. — Mas só se tiveres a certeza.
Rafael sentiu os olhos a arder.
— Eu quero — disse. — Contigo. Aqui. Hoje.
Leo levou-lhe as mãos ao próprio peito e segurou-as ali.
— Estás a sentir?
Rafael sentiu. Sentiu o coração daquele homem a bater debaixo da palma da mão, descontrolado, como o dele.
— És tu que me deixas assim — disse Leo. — Não sou eu que estou a ter paciência contigo, anjo. Sou eu que estou a tentar não te assustar.
— Também estou assim — sussurrou Rafael.
— Eu sei.
Despiu-o devagar, um botão de cada vez, com os dedos a roçarem a pele a cada bocado que ficava à vista. Rafael tremia, e não recuou.
Quando a camisa caiu ao chão, Leo ficou parado a olhar para ele.
— És tão bonito — disse, quase sem voz.
Rafael corou até às orelhas, e não desviou os olhos.
Leo beijou-lhe o pescoço, demoradamente, e o beijo desceu pela clavícula, pelo ombro, pelo peito. Rafael descobriu, com alguma vergonha e muito espanto, que havia sítios no corpo dele que nunca tinham servido para nada e que de repente serviam para tudo.
A boca de Leo fechou-se sobre um mamilo, e Rafael ouviu-se a si próprio fazer um som que não reconheceu.
Tapou a boca com a mão.
— Aqui não tens de te calar — disse Leo, e riu-se contra a pele dele. — Aqui não há ninguém.
As mãos dele percorreram-lhe as costas devagar, com firmeza, como se estivessem a decorar aquilo.
— Leo…
A resposta foi puxá-lo para si e ficar assim, abraçado a ele, durante um bocado, sem fazer nada.
Nunca tinha havido pressa entre eles. Também não houve ali.
🍃 🍃 🍃
Quando deu por si, estava deitado, e Leo estava de joelhos na cama, a olhar para ele, à espera.
Não de uma resposta. De uma certeza.
Rafael acenou com a cabeça. Um aceno pequeno, e firme.
Leo voltou a tocá-lo com a mesma paciência de antes, atento a tudo, pronto a parar a qualquer sinal. Rafael sentia-se exposto, e a novidade foi perceber que estar exposto não era a mesma coisa que estar em perigo.
Depois sentiu uma coisa fria contra a pele.
O corpo encolheu-se todo sozinho, num reflexo que ele não teve tempo de controlar, e o medo voltou de uma vez, como uma porta a bater.
Leo percebeu no mesmo instante.
Não avançou. Não insistiu. Não disse calma.
Pousou a mão quente na coxa dele, aberta, e deixou-a ali.
E depois inclinou-se e começou a beijar-lhe a pele, devagar, um beijo a seguir ao outro, como quem aquece uma coisa com a boca, até sentir o corpo dele largar a tensão outra vez.
— Só continuamos se te sentires seguro — murmurou. — E eu não me importo nada de ficar aqui a noite toda a fazer só isto.
Rafael riu-se. A sério, com a garganta apertada, mas riu-se.
— Continua.
Leo continuou. Devagar, a perguntar com os olhos antes de cada coisa, a parar de cada vez que ele prendia a respiração e a esperar que voltasse a respirar.
O primeiro dedo entrou devagar.
Rafael agarrou-se ao lençol e ficou à espera de uma dor que não veio. Não doía. Era só estranho, um aperto, o corpo dele a defender-se de uma coisa que nunca lhe tinha acontecido.
— Respira.
— Estou a respirar.
— Estás a prender. — Leo beijou-lhe o interior do joelho. — Respira a sério.
Ao segundo, fechou os olhos e procurou o ar. Ardeu, no princípio. Depois deixou de arder.
Ao terceiro, deixou de contar.
Porque Leo virou a mão um bocadinho, e tocou-lhe nalguma coisa lá dentro, e o corpo de Rafael levantou-se da cama sem lhe pedir licença.
O som que lhe saiu não foi de dor.
Agarrou-se ao pulso dele.
— Leo.
— Estou aqui.
— O que é que… — Não conseguiu acabar a pergunta.
— Eu sei. — Leo estava a sorrir contra a coxa dele. — Agora já sabes.
🍃 🍃 🍃
Leo subiu, pôs-se por cima dele, com o peso nos braços para não o esmagar, e ficou ali, parado, a olhar para ele.
Não pediu. Perguntou só com a cara.
Posso?
Rafael acenou. E aquele sim vinha do peito, não da cabeça.
Leo avançou tão devagar que era quase não se mexer. Tinha a respiração pesada e controlada, e os olhos não saíram dos dele um segundo.
E depois veio a dor.
Rafael prendeu o ar e o corpo fechou-se-lhe todo, sem lhe pedir licença.
Leo parou de imediato.
— Anjo. Diz-me se é demais.
Rafael fechou os olhos e tentou perceber o que ali era dor e o que era só o corpo dele a não saber o que fazer com uma coisa que nunca lhe tinha acontecido. Tremia. Não era medo. Era estar a passar uma porta que sempre tinha achado que ia ficar fechada.
Leo não se mexeu. Não recuou nem avançou. Ficou ali, e a mão dele subiu até à cara de Rafael e ficou a fazer-lhe festas na bochecha com o polegar, devagar, como quem diz não tens de ser forte sozinho.
Rafael respirou fundo. Uma vez. Duas.
Abriu os olhos e encontrou os dele.
— Continua — disse. — Por favor.
Leo continuou, com a mesma lentidão de antes, a ler-lhe a cara a cada milímetro. E o corpo de Rafael, pouco a pouco, foi cedendo, foi aprendendo, foi deixando de se defender de uma coisa que afinal não o queria magoar.
E quando finalmente ficaram assim, os dois, não houve pressa nem triunfo nem nada parecido.
Houve um silêncio.
Um silêncio diferente de todos os outros silêncios daquela casa.
Leo baixou a testa até à dele e ficaram a respirar ao mesmo tempo, porque nenhum dos dois conseguia fazer outra coisa.
— Estás comigo? — murmurou Leo.
— Estou.
🍃 🍃 🍃
Depois foi devagar. Foi tudo devagar, do princípio ao fim.
Ao início era quase tímido, como uma conversa que nenhum dos dois sabe começar e que os dois precisam de ter. A respiração de Rafael foi ficando mais curta, e os sons que lhe fugiam, baixos e por vontade própria, faziam Leo chegar-se mais a ele, como se quisesse guardar tudo aquilo.
As mãos de Rafael agarraram-se às costas dele com uma força de que ele não deu conta até ao dia seguinte, quando viu as marcas.
E a certa altura veio uma coisa de dentro, funda, que não era do corpo.
Era ele. Inteiro, à vista, sem nada a tapá-lo, a ser visto por alguém pela primeira vez na vida.
Quando chegou ao fim, não conseguiu conter-se. Agarrou-se a Leo, escondeu a cara no pescoço dele e ficou ali, a tremer, com os olhos a arder.
— Leo…
Foi só isso. Só o nome.
Leo apertou-o contra si e não disse nada, porque não havia nada para dizer.
🍃 🍃 🍃
Ficaram muito tempo assim, abraçados, a respirar um no ritmo do outro.
Leo não se mexia. Tinha a mão nas costas dele, a subir e a descer devagar, sempre no mesmo sítio, sempre à mesma velocidade.
Rafael encostou a cara ao pescoço dele. O corpo ainda tremia, e não era da dor. Era de uma coisa grande de mais que não lhe cabia toda dentro.
— Estás bem? — perguntou Leo, baixinho, sem afastar a cara.
Rafael acenou. Demorou a encontrar a voz.
— Nunca me senti tão seguro — disse, e saiu-lhe fraco. — Em toda a minha vida.
Leo fechou os olhos um instante. A mão subiu-lhe até ao cabelo.
— Obrigado por confiares em mim.
Afastou-se só o suficiente para lhe ver a cara, e passou o polegar pela bochecha dele a limpar uma lágrima que Rafael nem tinha dado por ter caído.
— Não tens de ser forte agora.
Rafael respirou fundo e deixou-se ir contra a mão dele.
Ficaram assim sem saber quanto tempo.
A certa altura, Leo levantou-se.
Rafael esticou o braço atrás dele, meio a dormir.
— Onde é que vais?
— Já venho.
Voltou com um copo de sumo numa mão e com o estojo preto na outra.
— Estás a falar a sério.
— Estou sempre a falar a sério com isto.
— Eu nem me mexi.
— Não te mexeste. — Leo sentou-se na beira da cama e estendeu-lhe o estojo, sem discutir. — Pica.
Rafael picou o dedo com os olhos revirados e muito pouca convicção.
Setenta e nove.
— Bebe o sumo.
— Eu estou bem.
— Bebe o sumo, Rafael.
Bebeu o sumo. E depois, quando Leo se voltou a deitar, encaixou-se contra ele e disse, contra o peito dele:
— Sabes que isso é a coisa mais romântica que tu fazes?
— Dar-te sumo.
— Dares-me sumo.
Leo riu-se baixinho no escuro e puxou o lençol por cima dos dois. Ajeitou-lhe a almofada, passou-lhe a mão pelo cabelo até sentir o corpo dele largar tudo, e ficou a ouvi-lo adormecer.
Rafael adormeceu com o coração leve, com a certeza, pela primeira vez, de que estava exatamente onde devia estar.
Leo ficou acordado mais um bocado, só a olhar para ele. Para a cara descansada, para a respiração certa, para a paz que ali estava e que ele não sabia que aquele rapaz não tinha.
Passou-lhe os dedos pelo cabelo, devagar, como quem arruma uma coisa boa no sítio certo.
E só adormeceu quando teve a certeza de que ele dormia.
🍃 🍃 🍃
A luz da manhã entrou pelas frestas da cortina e desenhou riscas douradas no chão do quarto.
Rafael acordou devagar. Sentiu primeiro o calor, depois o peso do braço de Leo em cima da cintura.
Ficou parado, de olhos abertos, a deixar aquilo assentar.
A noite voltou-lhe aos bocados, devagar, sem pressa nenhuma.
Não havia arrependimento. Não havia medo. Havia uma coisa nova, funda e calma, que lhe aquecia o peito e que ele não sabia como se chamava.
Leo mexeu-se, ainda meio a dormir, e a mão dele foi à procura do corpo dele e puxou-o para mais perto.
— Bom dia, anjo. — A voz saiu-lhe rouca.
Rafael escondeu a cara no pescoço dele, vermelho só de se lembrar.
— Bom dia.
Leo abriu um olho.
— Estás bem?
— Estou. — Fungou. — Estou muito bem. Doem-me sítios que eu não sabia que tinha, mas estou muito bem.
Leo riu-se com o peito todo, e Rafael sentiu a risada por dentro antes de a ouvir.
— Obrigado por ontem — disse Leo, e beijou-lhe a testa.
— Eu é que agradeço.
— Acabaram-se os medos?
Rafael voltou a esconder-se um instante. Quando respondeu, foi baixo, mas seguro.
— Acabaram. — Levantou o queixo e apoiou-o na mão que tinha em cima do peito dele. — Sabes qual era o medo, a sério?
— Diz.
— Não era a dor. — Encolheu um ombro. — Era fazer tudo mal. Era não ser suficiente para ti e tu perceberes isso a meio e não me dizeres nada.
Leo ficou um momento calado.
— E então?
— E então percebi ontem que estive este tempo todo com medo de uma coisa que não existe.
Leo pôs-lhe a mão na nuca.
— Eu amo-te — disse. — E não é por causa de ontem. Já te amava na quarta-feira, quando tu estavas a comer uma sandes de queijo em cima do capô do meu carro e a falar de uma professora com sotaque.
— Eu também te amo.
Ficaram ali longos minutos, abraçados, a respirar juntos, como se o mundo tivesse parado à porta daquele quarto.
Mas o mundo não tinha parado.
Mais nada. E podes sair da lista quando quiseres.