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26 – Eu Confio em Ti

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Duas semanas depois, chegou o sábado.

Rafael acordou às sete e meia sem que ninguém o acordasse, o que naquela casa era um acontecimento digno de comentário ao pequeno-almoço.

— Ou está doente — disse o pai, por trás do jornal — ou anda a tramar alguma.

— Estou a tramar alguma.

— Ah. Então estamos bem.

O Luís chegou a meio da manhã, com uma camisa que ninguém lhe conhecia e um brilho na cara que a mãe apanhou antes de ele fechar a porta do carro.

— Passarinho novo, filho?

O Luís corou até à raiz do cabelo e ajeitou a gola.

— Quem sabe, mãe. Quem sabe.

Não desmentiu. Não podia desmentir uma coisa de que ainda não tinha a certeza nenhuma, e que só saberia ao fim daquele dia.

🍃 🍃 🍃

Almoçaram os quatro, coisa que já não acontecia havia meses.

Foi a meio da sobremesa que Rafael pousou a colher e disse, para a mesa em geral:

— Mãe. Pai. Tenho uma coisa para dizer.

O Luís levantou a cabeça do prato com uma cara de quem vê um carro a vir na sua direção.

— Outra coisa? — O Sr. Wei tirou os óculos com toda a calma do mundo. — De cada vez que começas assim, vem bomba.

A D. Clara pousou a colher e não disse nada. Ficou a olhar, que era o que fazia sempre antes de saber tudo.

Rafael olhou para o irmão. O irmão abanou a cabeça um bocadinho, devagar, a pedir que não.

Rafael disse na mesma.

— O Luís também gosta de homens.

— Rafael!

O Luís baixou a cabeça de uma vez, com as mãos a tremer debaixo da mesa. Ficou à espera do silêncio que se instala quando alguém diz uma coisa que não devia.

O silêncio não veio.

— Era só isso? — perguntou o pai, e voltou a pôr os óculos. — Filho, isso não é novidade nenhuma.

E continuou a comer.

O Luís levantou a cabeça devagar.

— Vocês já sabiam?

— Somos teus pais. — A mãe encolheu os ombros. — Criámos-te. Como é que não havíamos de saber?

— E nunca disseram nada?

— O que é que havíamos de dizer? — perguntou ela. — Não me competia a mim. Competia-te a ti. Eu só tinha de estar aqui quando calhasse.

O Luís levantou-se da cadeira com tanta força que ela quase caiu para trás. Abraçou primeiro o pai, que lhe deu duas palmadinhas nas costas, e depois a mãe, que lhe pôs a mão na nuca como fazia desde que ele era pequeno.

— Eu tinha tanto medo de vos desiludir.

— Desiludir. — O Sr. Wei abanou a cabeça devagar. — Eu tenho três filhos e nenhum deles é mau. Tudo o resto é conversa.

Rafael ficou a olhar para o prato, com a garganta a fechar-se. Pensou no Mário. Pensou num homem que tinha dito à família que o filho tinha morrido, e que era irmão daquela mulher que ali estava a segurar a nuca do seu filho.

Não disse nada.

Quando se sentou outra vez, o Luís virou-se para ele.

— Obrigado, Rafa.

— Eu não fiz nada.

— Fizeste. Eu ando com isto há oito anos.

— Então agradece ao Leo. — Rafael encolheu os ombros. — Se eu não o tivesse conhecido, se calhar também não tinha aberto a boca.

— Vou agradecer — disse o Luís. — Hoje mesmo.

🍃 🍃 🍃

Leo chegou a casa do irmão uma hora mais cedo do que era preciso.

Ficou parado no carro à porta durante cinco minutos, à espera de que o coração se portasse bem, e depois desistiu de esperar e saiu.

Ajeitou a gola da camisa pela quinta vez no reflexo do vidro.

Trinta e dois anos. Nunca na vida tinha apresentado ninguém à família. Nem a Beatriz, com quem tinha vivido dois anos e a quem tinha comprado um anel. A família dele conhecia-a como se conhece a mulher de alguém: de a ver de passagem, ao Natal.

E se não gostarem?

Aquilo era parvo e ele sabia. O Lorenzo conhecia o Rafael desde os treze anos. A Júlia punha-lhe comida no prato sem perguntar. Metade da família já lhe chamava "o Rafa".

Só que até ali era o amigo do Nuno.

Tocou à campainha.

Foi o Nuno que abriu.

— Boa tarde, tio. Veio cedo. — Franziu o sobrolho. — Está tudo bem?

— Parabéns.

Leo abraçou-o e deu-lhe dois beijos na cara. O Nuno ficou hirto como um poste, porque aquele tio, o de sempre, cumprimentava as pessoas com um aperto de mão e uma palmada no ombro.

— Tio.

— Estou nervoso — disse Leo, muito depressa e muito baixo, ainda no corredor. — Estou nervoso como não estive na vida. O teu pai conhece-o. A tua mãe conhece-o. E eu vou entrar ali e dizer-lhes que…

Calou-se.

O Nuno pôs-lhe a mão no braço.

— Tio. Porque é que eles não haveriam de gostar?

— Porque ele tem dezoito anos.

— E o tio mudou. — O Nuno encolheu os ombros. — E a mudança tem nome. Eles vão perceber.

Leo respirou fundo. Não resolveu nada, mas ajudou.

Na cozinha, o Lorenzo e a Júlia acabavam de arranjar as travessas. A Amélia estava sentada em cima da bancada, onde não devia estar, com um pé a baloiçar.

— Boa tarde, tio. — Olhou-o de lado, com aquele ar de quem já sabe. — Então, como é que vai a casa sem ninguém?

— Boa tarde, Furacão.

Beijou-lhe a cara e deu-lhe uma pancadinha na cabeça. Depois arregaçou as mangas e começou a descascar batatas que ninguém lhe pediu, porque precisava de ter as mãos ocupadas.

A Júlia e o Lorenzo trocaram um olhar por cima da cabeça dele.

Pouco antes do jantar chegou o Lucca, com dois sacos de prendas e um ar de quem tinha dormido três horas.

— Boa noite a todos. Não me perguntem pelo hospital.

Pousou os sacos, beijou a mãe dos gémeos, despenteou a sobrinha, deu um murro no ombro do irmão mais velho e parou à entrada da sala de jantar.

Ficou a olhar para a mesa.

— Há um prato a mais.

— Não há nada — disse a Júlia.

— Há, sim. — O Lucca apontou com o queixo. — Um, dois, três… sete. Nós somos sete e estão oito.

— Conta outra vez.

— Já contei duas vezes. Sou médico, sei contar até oito.

Ninguém lhe respondeu. A Amélia tossiu para dentro do copo. O Nuno saiu da sala muito depressa.

O Lucca virou-se devagar e olhou para o tio Leo, que estava com uma batata na mão e cara de quem não estava ali.

Não perguntou mais nada. Mas ficou a olhar para ele mais um segundo do que era preciso.

🍃 🍃 🍃

A campainha tocou às oito menos um quarto.

O Nuno foi abrir, a falar por cima do ombro sobre quem tinha comido o último rebuçado, e a frase morreu-lhe a meio.

À porta estava o Rafael. E o Rafael não vinha sozinho.

— Luís… — disse o Nuno.

Ficou branco. Depois ficou vermelho. Depois ficou parado, com a mão na porta, sem se lembrar do que é que as pessoas costumam fazer com as portas.

— Vocês ficam aí feitos estátuas ou deixam-nos entrar? — perguntou Rafael, e puxou o irmão para dentro.

Leo apareceu no corredor, a limpar as mãos a um pano.

— Anjo?

— Leo, este é o meu irmão, o Luís. Luís, este é o Leo.

O Luís estendeu a mão com um sorriso nervoso.

— Muito prazer. O Rafael falou tanto de si que eu já me sinto quase cunhado.

— O prazer é meu, cunhado. — Leo apertou-lha. — E oxalá isso um dia seja verdade.

O Nuno continuava encostado à parede, a olhar para o Luís como quem olha para uma coisa que não pode estar ali.

— Rafa. O que é que ele está aqui a fazer?

— É a tua prenda — disse Rafael. — Agora vão falar.

E empurrou-os os dois para a marquise.

Leo ficou a olhar para a porta que se fechou atrás deles.

— Anjo. O que é que se está a passar?

— Estou a ser Cupido.

— Estás a ser o quê?

— O Nuno gosta do Luís desde os catorze anos e o Luís gosta do Nuno desde antes disso. — Rafael alisou-lhe a camisa com as duas mãos, satisfeitíssimo consigo próprio. — Só precisavam de estar na mesma sala sem ninguém a fingir que não reparava.

Leo pestanejou duas vezes.

— E tu combinaste isto com quem?

— Com a mãe dele. Há mais de um mês.

— Meu Deus.

— Achas mal?

Leo olhou para ele. Para aquele rapaz que no verão não conseguia dizer uma frase inteira à frente dele sem corar, e que agora lhe aparecia à porta da casa do irmão a distribuir gente pelas marquises.

— Acho que vou passar o resto da vida a ser apanhado desprevenido por ti — disse. — Anda.

Entraram na sala de mãos dadas.

Toda a gente se calou ao mesmo tempo, o que nunca acontece por acaso.

Leo puxou a cadeira para Rafael se sentar. Passou-lhe a mão pelo cabelo antes de se sentar ao lado dele. Serviu-lhe o prato, encheu-lhe o copo, e inclinou-se para lhe dizer qualquer coisa ao ouvido que o fez rir baixinho.

A Júlia pousou a travessa na mesa sem fazer barulho nenhum.

O Lorenzo pousou-a com barulho.

— Leo. — A voz saiu-lhe apertada. — O que é que tu pensas que estás a fazer?

— Lorenzo…

— Deixa o rapaz em paz. — Estava de pé. — O Rafael anda nesta casa desde os treze anos. Come à minha mesa. Ajudou o meu filho a passar de ano. Não é alguém com quem tu brinques.

Rafael encolheu-se na cadeira sem dar por isso.

Leo sentiu-o encolher-se. E levantou-se também.

— Preciso que me ouças. — Não gritou. Falou mais devagar do que era costume, e isso fez mais silêncio do que se tivesse gritado. — Ele é a pessoa mais importante da minha vida. É com ele que eu quero estar. É com ele que eu vejo o que me falta viver. E eu não brinco com ele há muito tempo, se é que alguma vez brinquei.

Pôs a mão no ombro de Rafael.

— E, Lorenzo. Não o assustes. Ele já teve medo que chegue para uma vida inteira.

O Nuno levantou-se.

— Pai.

— Tu senta-te.

— Não me sento nada, hoje faço anos. — Respirou fundo. — O tio contou-lhe tudo. O cancro. A Beatriz. Tudo. E contou-lhe antes de haver seja o que for entre os dois. O Rafa não está a ser enganado, pai. O Rafa gosta dele desde muito antes de o conhecer.

— Eu vi — disse a Amélia, sem levantar os olhos do prato. — Naquele almoço, no escritório. Nunca tinha visto o tio agarrado ao telemóvel, nem a sorrir daquela maneira para um ecrã. Achei que ele tinha ficado maluco.

O Lucca, que não tinha dito uma palavra, pousou o garfo.

— Lorenzo.

— O que é?

— Há quantos anos é que tu não vês o Leo assim?

O Lorenzo abriu a boca.

E não respondeu.

O Lucca encolheu os ombros e voltou ao prato.

— Pronto. Era só isso.

O Lorenzo ficou um momento com as duas mãos apoiadas na mesa. Depois contornou-a, parou ao lado de Rafael e esperou que ele levantasse a cabeça.

— Rafa. Olha para mim.

Rafael olhou.

— Tens a certeza?

— Tenho.

— Não é o meu irmão que me preocupa — disse o Lorenzo, e a voz dele já era outra. — És tu. Tens dezoito anos, o mundo inteiro à frente, e vais ter gente a dizer-te que estás a estragar a vida.

— Já me disseram.

— E?

— E eu sei o que quero. — Rafael endireitou-se na cadeira. — Desculpe, mas eu sei.

O Lorenzo ficou a olhar para ele. Depois endireitou-se, olhou para o irmão do outro lado da mesa, e o canto da boca traiu-o.

— Irmão. Se alguma vez lhe fizeres mal…

— Junta-te ao clube — disse Leo. — Já lá está o Henrique, o pai dele, a mãe dele, o teu filho e, pelos vistos, tu. Está a ficar cheio.

A Amélia bateu palmas. A Júlia disse que a comida estava a arrefecer e que os dramas que esperassem pela sobremesa.

E o jantar seguiu, com barulho, com riso, com o Lorenzo a fazer perguntas de pai a Leo e o Leo a responder como um rapaz de dezassete anos.

A meio, a marquise abriu-se e o Nuno e o Luís entraram e sentaram-se, um à frente do outro, com uma cara que não enganava ninguém.

Ninguém fingiu não reparar.

Foi a Amélia que disse, com a boca cheia:

— Pai, o teu filho fez dezoito anos e arranjou namorado no mesmo dia. Isto é que é render.

— Amélia!

— Que foi? Eu também quero uma prenda assim para o ano.

🍃 🍃 🍃

Foi buscar o bolo à cozinha com o Lucca, porque o Lucca disse que precisava de ajuda e só precisava de mãos para acender velas.

— Então tu és o Rafa.

— Sou.

— Eu sou o Lucca. Sou o mais novo dos três. — Pôs as velas na caixa e olhou para ele. — Diabético desde quando?

Rafael pestanejou.

— Desde os doze. Como é que…

— Vi-te o estojo na mochila quando entraste. — O Lucca encolheu os ombros, a acender o isqueiro. — Deformação profissional. Andas com sensor?

— Está encomendado. Devia ter chegado esta semana.

— A que horas foi a última vez que te desceu?

— Há duas semanas. Quarenta e sete, num centro comercial.

O Lucca olhou para ele por cima da chama.

— E quem é que tratou disso?

— O teu irmão.

O Lucca ficou um segundo calado. Depois acendeu a última vela e abanou a cabeça devagar.

— Está bem — disse. — Agora já percebi.

Pegou no bolo.

— Rafa. Guarda o meu número.

— Desculpa?

— O meu número. Guarda-o. — Falava sem drama nenhum, como quem diz uma coisa prática. — Eu estou de urgência três noites por semana e atendo sempre. Se alguma vez te acontecer alguma coisa a ti, ou a ele, ou a qualquer um de vocês, ligas-me primeiro e falas com a enfermeira da triagem depois. Poupa-se tempo. E o tempo é a única coisa que conta.

Rafael tirou o telemóvel do bolso.

— Diz.

🍃 🍃 🍃

Saíram pouco depois da meia-noite.

A noite estava fria e o ar já cheirava a fim de setembro. O Nuno e o Luís tinham ficado à porta a falar de nada, muito devagar, e Rafael fez questão de não olhar para trás.

Leo abriu-lhe a porta do carro, como sempre fazia. Desta vez o gesto demorou mais tempo do que era preciso, e os dedos dos dois tocaram-se.

Entraram. Leo pôs as mãos no volante e não arrancou logo.

— Estás bem?

— Estou. — Rafael virou-se para ele. — E tu?

Leo riu-se baixinho, com os olhos fechados.

— Eu estive uma hora à porta daquela casa a descascar batatas que ninguém me pediu.

— Eu sei. A Amélia contou-me.

— Essa rapariga vai ser jornalista ou espia.

— Carinho.

— Diz.

— Correu bem.

Leo abriu os olhos e ficou a olhar para a estrada vazia à frente deles.

— Correu — disse. — Correu melhor do que eu alguma vez imaginei. E eu passei três semanas a preparar-me para o contrário.

Arrancou.

Fizeram o caminho quase todo em silêncio, mas não era o silêncio de quem não tem nada para dizer. Era o outro. Aquele em que as duas pessoas estão exatamente a pensar na mesma coisa e nenhuma a diz.

🍃 🍃 🍃

Leo parou o carro à porta de casa e desligou o motor.

Não saiu.

Ficou ali, com as mãos ainda no volante, a olhar em frente.

— Hoje, quando o Lorenzo levantou a voz — disse —, tu encolheste-te. Eu senti-te encolher.

— Não foi nada.

— Foi. — Virou-se para ele. — E eu só queria pegar em ti e levar-te dali para fora.

Rafael não disse nada.

— Eu sei que às vezes sou demais — continuou Leo, e desviou os olhos por um instante. — Falo alto, decido depressa, e passei a vida a resolver as coisas à minha maneira sem perguntar a ninguém. Contigo não quero ser assim. Contigo quero fazer as coisas bem.

— Tu já fazes.

— Nem sempre.

Ficaram a olhar um para o outro no escuro do carro, com a luz do candeeiro da rua a entrar de lado.

— Queres entrar? — perguntou Leo. E logo a seguir, depressa: — Só acontece o que tu quiseres. Só te quero por perto, anjo. Mais nada.

Rafael sentiu o coração a bater-lhe na garganta.

Pensou no pai, no escritório, com os cotovelos nos joelhos. Pensou no Nuno com o garfo apontado à cara dele numa esplanada. Pensou num corredor de centro comercial e num pacote de sumo tirado de um bolso.

Respirou fundo.

— Sim — disse, com a voz rouca. — Eu estou pronto para ti, amor.

E desviou os olhos logo a seguir, porque não teve coragem de lhe ver a cara.

Houve um silêncio.

— Diz isso outra vez.

Rafael engoliu em seco. Por um instante pensou em rir, em dizer que era a brincar, em esconder-se onde se tinha escondido a vida toda.

Desta vez não.

Levantou a cabeça, encontrou os olhos dele e não os largou.

— Eu disse que estou pronto para ti, amor.

Leo saiu do carro. Deu a volta sem desviar os olhos dele e abriu-lhe a porta, mas não se afastou para o deixar sair. Ficou ali, de pé, à frente dele.

— Tens a certeza? — A voz estava séria agora. — Eu preciso que tenhas. Não quero que isto seja por causa de hoje, nem por causa do teu pai, nem para provares alguma coisa a ninguém.

Rafael levantou a mão e desenhou-lhe o contorno da cara com os nós dos dedos.

— É a sério. — Respirou fundo. — Tenho medo. Mas não é daquele medo que me faz querer fugir. É um que me faz querer ficar.

Leo fechou os olhos um segundo.

Quando os abriu, estendeu-lhe a mão.

— Então anda comigo.

Rafael hesitou o tempo de um batimento e pegou nela.

Entraram sem acender as luzes todas. A porta fechou-se atrás deles devagar, e a casa, que Rafael já conhecia, pareceu-lhe de repente um sítio onde nunca tinha estado.

Leo largou-lhe a mão só para tirar o casaco, e voltou logo para perto.

— Ainda podes mudar de ideias — murmurou. — A qualquer momento. Mesmo a meio.

— Não quero.

Ficaram os dois frente a frente, a um palmo um do outro, sem se tocarem.

Foi Rafael quem deu o primeiro passo.

Levantou a mão devagar até à cara dele e pousou-lha na face, com a ponta dos dedos primeiro, e depois com a mão toda. Sentiu-lhe o calor da pele e o maxilar apertado.

— Eu confio em ti — disse baixinho.

Leo respirou fundo, como quem recebe uma coisa pesada nos braços e não a quer deixar cair.

— Então deixa-me cuidar de ti.

Quando sair o próximo livro, queres saber?

Mais nada. E podes sair da lista quando quiseres.

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