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Capítulo 25 — Eu Confio em Ti

        Sábado chegou finalmente, e com ele o aniversario de Nuno e Amélia.

        Como sempre seria em casa dos pais deles.

        Rafael estava nervoso, embora tentasse não deixar que isso o dominasse. Tinha traçado um plano na sua mente e esperava concretizá‑lo naquele dia. Já tinha falado com Luís sobre a melhor forma de se encontrarem e sugeriu que o irmão passasse o dia em casa deles. Assim, poderiam estar todos juntos antes do jantar.

        Os pais aceitaram de imediato. Sentiam falta dos filhos — de todos eles — mas sabiam que cada um tinha a sua vida e precisava de a seguir.

        Luís chegou a meio da manhã, com um sorriso genuíno e um brilho diferente no olhar. D. Clara reparou logo.

— Passarinho novo, filho? — brincou, lançando-lhe um olhar cúmplice.

        Luís corou, desviando o olhar.

— Quem sabe, mãe… quem sabe — murmurou, ajeitando a gola da camisa, meio embaraçado. Não desmentiu, porque nem ele próprio sabia ao certo. Sentia-se confiante, mas só teria certezas depois daquele jantar.

         Quando já estavam todos à mesa e a refeição ia avançada, Rafael sentiu o peso do momento e tomou a palavra:

— Mãe… pai… tenho uma coisa a dizer.

         Olhou para Luís, que franziu o sobrolho, inquieto. Rafael sabia que o irmão dificilmente teria coragem de o dizer sozinho.

— Outra coisa, Rafael? — brincou o Sr. Wei, com um sorriso trocista. — Sempre que começas assim, vem bomba.

         D. Clara pousou a colher de sobremesa, atenta.

        O silêncio instalou-se.

— O Luís também gosta de homens — disse Rafael, de uma vez só.

— Rafael! — exclamou Luís, aflito. Baixou a cabeça, incapaz de encarar os pais.

        O coração batia-lhe descontrolado, as mãos tremiam sob a mesa e a respiração prendia-se-lhe no peito. Ainda assim, o pai limitou-se a erguer uma sobrancelha.

— Era só isso? — perguntou, descontraído. — Meu filho, isso não é novidade nenhuma.

        Continuou a comer como se nada tivesse acontecido, enquanto Luís erguia o olhar, incrédulo. Ao perceber a tranquilidade dos pais, sentiu o corpo inteiro relaxar, como se um peso enorme lhe tivesse sido arrancado dos ombros.

— Vocês já sabiam? — perguntou, quase sem voz.

— Meu filho, somos teus pais — respondeu D. Clara, com ternura. — Criámos-te. Como não iríamos saber? E espero que esta noite te traga o que desejas há muito tempo.

        Luís levantou-se e abraçou primeiro o pai, depois a mãe, sentindo-se finalmente aceite, finalmente visto.

— Obrigado. Tinha tanto medo de vos desiludir…, mas depois de falar com o Rafael, percebi que estava a ser tolo. O medo falou mais alto durante demasiado tempo.

        D. Clara acariciou-lhe os cabelos, com aquele gesto que sempre o acalmara desde criança.

— Meus filhos — disse o Sr. Wei, com voz firme e carinhosa — como poderíamos ficar desiludidos convosco? São pessoas incríveis, de bom coração. O simples facto de amarem de forma diferente não muda nada. Só queremos a vossa felicidade.

        Luís sorriu, emocionado.

— Obrigado, mãe…pai. Obrigado, Rafael.

— Eu não fiz nada — respondeu Rafael. — Só tive coragem. Mas podes agradecer ao Leo… se não o tivesse conhecido, talvez eu também não tivesse tido força.

— Vou agradecer, sim — disse Luís, sentando-se de novo. Pela primeira vez em muito tempo, sentia-se em paz consigo próprio.

          O resto do dia passou tranquilo, cheio de conversas, risos e aquela leveza que há muito não se sentia naquela casa.

        Despediram-se da família, e o caminho até casa de Nuno foi feito em silencio.

       Quando chegaram à porta, Luís pousou a mão no ombro do irmão — um gesto de proteção, cumplicidade e silencioso apoio, como quem dizia: estamos juntos nisto.


🍃 🍃 🍃


       Leo chegou cedo a casa de Lorenzo, o seu irmão mais velho, onde seria realizado o aniversario dos gémeos

        O coração batia-lhe apressado, como se quisesse saltar-lhe do peito, e as mãos, entrelaçadas uma na outra, denunciavam um nervosismo difícil de disfarçar.

       Respirava fundo, mas o ar parecia pesado. Tentava manter o rosto sereno, forçando um sorriso sempre que cruzava o olhar curioso de Lorenzo, embora por dentro a ansiedade fervilhasse.

        “Será que vão gostar de nós juntos? Será que vão perceber o quanto estou nervoso?”

        Ajeitou a gola da camisa pela quinta vez. Aos 32 anos, nunca tinha sentido nada assim.

        Era a primeira vez que fazia questão de apresentar alguém à família, e isso bastava para lhe acelerar ainda mais os pensamentos.

        Leo respirou fundo, com as mãos a tremer, antes de tocar à campainha.

       Foi Nuno quem abriu a porta.

— Boa tarde, tio. Veio cedo? — perguntou, estranhando. — Está tudo bem?

        O olhar distante de Leo, a expressão cansada e o peso invisível nos ombros denunciavam de imediato que algo não estava certo.

— Boa tarde, Nuno. Parabéns. — Leo abraçou o sobrinho e deu-lhe dois beijos na face.

      Nuno ficou imóvel. O tio nunca era assim tão afetuoso.

Leo suspirou.

— Estou bem… ou melhor, não estou. Estou muito nervoso. Agora que sei que o teu pai e a Júlia já conhecem o Rafael, estou em parafuso. E se não gostarem? O Rafael está a tornar-se alguém muito importante para mim. Não quero…

         A voz falhou-lhe.

         Nuno pousou-lhe a mão no braço.

— Tio… porque é que eles não haveriam de gostar? O tio mudou. E essa mudança tem nome: Rafael.

          Leo respirou fundo. Um pouco da tensão dissipou-se.

         Seguiu o sobrinho até à cozinha, onde Lorenzo e Júlia terminavam os preparativos.

         Amélia sorriu-lhe com um ar traquinas.

— Boa tarde, tio. Então, como correu a casa sem ninguém?

          Leo sorriu, beijou-lhe a face e deu-lhe uma pancadinha leve na cabeça.

— Boa tarde, Furacão. Um tio não pode vir matar saudades da família?

         Mas uma sombra breve atravessou-lhe o olhar. Estar sozinho deixara-o ainda mais ansioso. Para se distrair, Leo começou a ajudar.

        Pouco antes do jantar, Lucca chegou com sacos e presentes. A mesa estava posta — e ninguém reparou no prato extra.


🍃 🍃 🍃


         A campainha tocou de novo. O coração de Leo parou por um instante — e depois disparou. O ar pareceu mais denso quando Nuno abriu a porta.

         Nuno empalideceu, corou e ficou imóvel. Leo aproximou-se, confuso.

— Nuno… — começou Leo.

        Mas Rafael estava ali. E não vinha sozinho.

— Luís… — murmurou Nuno, sem esconder o choque.

         Rafael sorriu.

— Vocês vão ficar aí feitos estátuas ou deixam-nos entrar? — brincou, puxando o irmão consigo para dentro.

— Leo, este é o meu irmão, Luís. Luís, este é o Leo.

         Luís sorriu ao estender a mão.

— Prazer, Leo. O Rafael falou tanto de si que já me sinto quase cunhado.

         Leo apertou-lhe a mão, aliviado.

— Prazer, “cunhado”. Espero que isso possa um dia ser verdade.

          Nuno, ainda trémulo, encontrou voz.

— Rafa… o que faz ele aqui?

— Ele é o meu presente para ti — respondeu Rafael, empurrando Luís para mais perto dele. — Agora vão falar.

          Nuno obedeceu, ainda sem palavras, enquanto Leo se voltava para Rafael, atónito.

— Anjo… o que é que se está a passar?

— Estou a ser Cupido — sorriu Rafael. — O Nuno gosta do Luís, e o Luís gosta do Nuno. Só precisam de um empurrão.

         Leo piscou os olhos, ainda a processar.

— Tens mesmo a certeza?

— Tenho toda a certeza do mundo.

          Leo sorriu.

— Então vamos.

          Entraram de mãos dadas na sala, e todos os olhares se voltaram para eles. Nuno e Luís trocaram um sorriso cúmplice.

          Leo puxou a cadeira para Rafael, afagou-lhe o cabelo antes de se sentar e, já à mesa, serviu-lhe o prato, encheu-lhe o copo e murmurou-lhe algo ao ouvido.

         Rafael sorriu, com a certeza serena de que era exatamente ali que queria estar.

         Lorenzo interrompeu o que estava a fazer, com o olhar preso ao que se desenrolava mesmo à sua frente. Conhecia bem o irmão e conhecia bem Rafael, a quem via quase como um filho. E não permitiria que Leo magoasse o menino.

— Leo, o que pensas que estás a fazer? Deixa-o em paz! O Rafael não é alguém para brincares!

         Leo ergueu a voz, firme.

— Lorenzo, preciso que me ouças. Ele é a pessoa mais importante da minha vida. É com ele que quero estar. É com ele que vejo o meu futuro.

         Rafael estremeceu, e Leo puxou-o para os braços, afagando-lhe as costas.

— Não o assustem, por favor — pediu Leo.

        Nuno aproximou-se do pai.

— Pai, o tio mudou. Tudo por causa do Rafael.

        Amélia acrescentou:

— Eu vi. Naquele almoço, nunca o tinha visto tão preso ao telemóvel, nem a sorrir daquela maneira para um simples ecrã.

         Nuno respirou fundo antes de continuar:

— Pai… o tio contou-lhe tudo. O cancro. A Ana. Tudo. O Rafael não está a ser enganado. Ele gosta do tio há muito tempo.

         Lorenzo aproximou-se de Rafael, pousou-lhe a mão no ombro e esperou que ele levantasse o olhar.

— Meu amor… tens a certeza?

        Rafael acenou, emocionado.

       Lorenzo olhou para o irmão e, por fim, sorriu.

— Irmão, se alguma vez…

— Junta-te ao clube — interrompeu Leo, descontraído. — Ao clube das pessoas que me matam se eu magoar o meu Anjo.

        O ambiente desanuviou, e o jantar seguiu com leveza, risos e cumplicidade.

        Do outro lado da mesa, Nuno e Luís trocavam olhares tímidos — e ninguém fingiu não reparar.


🍃 🍃 🍃


         A noite estava fria, mas o ar parecia leve quando Rafael e Leo saíram da casa de Lorenzo.

        O jantar tinha sido intenso — cheio de emoções, revelações, medos e, no fim, aceitação. Ainda assim, enquanto caminhavam até ao carro, o silêncio entre eles era diferente.

         Leo abriu a porta para Rafael, como sempre fazia, mas desta vez o gesto pareceu mais lento, mais consciente. Os dedos roçaram-se — um toque breve, mas suficiente para fazer Rafael prender a respiração.

         Entraram no carro e, durante alguns segundos, nenhum dos dois disse nada. Ouviam-se apenas o som do motor e o coração acelerado de Rafael, a ecoar-lhe no peito.

— Estás bem, anjo?

          A voz de Leo era baixa, quase rouca. Rafael virou o rosto na direção dele. Os olhos de Leo estavam diferentes — mais suaves, mais quentes, mais vulneráveis.

— Estou — respondeu Rafael, num sussurro. — Muito bem mesmo.

         Leo respirou fundo, como se escolhesse cuidadosamente cada palavra.

— Estou feliz por estares aqui comigo… e por a minha família nos ter aceitado.

        Havia alívio na sua voz. O medo da rejeição pesara-lhe mais do que alguma vez admitira.

        Rafael sorriu, tímido.


🍃 🍃 🍃


          Quando chegaram à casa de Leo, o silêncio tornou-se quase palpável.

         Leo desligou o carro, mas permaneceu imóvel por alguns instantes. Não fez menção de sair.     Limitou-se a olhar para Rafael, como se tentasse compreender o que nele o atraía de forma tão profunda.

— Rafael… — começou, em voz baixa. — Hoje, quando te vi ali… quando te vi a tremer… eu só queria pegar em ti e levar-te embora. Proteger-te de tudo.

         Rafael sentiu o coração apertar.

— Leo…

— Eu sei que às vezes posso ser bruto, ou demasiado intenso — continuou Leo, desviando o olhar por um instante. — Mas contigo… eu só quero ser melhor. Fazer as coisas certas.

         Rafael aproximou-se um pouco, quase sem se aperceber.

— Tu já fazes.

         Leo voltou a olhar para ele. Os olhares encontraram-se — e, dessa vez, nenhum desviou.

— Vamos entrar — perguntou Leo, num tom que não era convite, nem pedido. Era… esperança. — Só vai acontecer o que tu quiseres. Eu só te quero por perto, meu anjo.

          As palavras sinceras fizeram o coração de Rafael acelerar ainda mais, o corpo inteiro a aquecer.    Respirou fundo, como se reunisse toda a coragem que tinha.

— Sim… — disse, a voz rouca e baixa. — Eu estou pronto para ti, amor.

         Depois de falar, Rafael desviou o olhar. Não teve coragem de encarar Leo de imediato.

— Diz isso outra vez… — pediu, quase num sussurro, a voz carregada de algo entre incredulidade e emoção.

         Rafael engoliu em seco. O peito subia e descia demasiado depressa, e por um instante pensou em recuar, esconder-se, fingir que não tinha dito nada. Mas não desta vez.

         Desta vez não.

         Ergueu o olhar, encontrou o de Leo e, apesar do nervosismo que lhe tremia nas mãos, manteve-se firme.

— Eu disse… que estou pronto para ti, amor.

         Houve um silêncio — não vazio, mas cheio de tudo o que nunca tinham dito com tanta clareza antes.

         Leo saiu finalmente do carro, contornou-o sem desviar os olhos de Rafael e abriu-lhe a porta, mas não para que ele saísse de imediato. Ficou ali, parado, à sua frente.

— Tens a certeza? — perguntou, num tom mais sério agora. — Eu preciso que tenhas. Não quero que isto seja pressão, nem um momento… eu quero que seja… real.

         Rafael sorriu de leve — um sorriso pequeno, mas seguro — ao mesmo tempo que erguia a mão e desenhava, com os nós dos dedos, o contorno do rosto de Leo.

— É real. — fez uma pausa, respirando fundo. — Tenho medo…, mas não daquele medo que me faz querer fugir. É diferente. É um medo que me faz querer ficar.

         Leo fechou os olhos por um segundo, como se aquelas palavras lhe tivessem atingido algo profundo.      Quando os voltou a abrir, já não havia dúvida — só intensidade, só cuidado.

          Com um gesto lento, estendeu a mão.

— Então vem comigo.

        Rafael hesitou apenas o tempo de um batimento cardíaco antes de aceitar. Os dedos entrelaçaram-se com naturalidade, mas a eletricidade que passou entre eles foi tudo menos calma.

         Entraram em casa em silêncio. A porta fechou-se atrás deles com suavidade, quase como se o mundo lá fora deixasse de existir naquele instante.

        A luz era baixa, acolhedora. Familiar.

        Mas, de repente, parecia tudo novo.

        Leo largou a mão de Rafael apenas para tirar o casaco, mas voltou a aproximar-se logo a seguir, como se não conseguisse manter distância por muito tempo.

— Ainda podes mudar de ideias — murmurou, mais perto agora. — Em qualquer momento.

        Rafael abanou a cabeça, aproximando-se também.

— Não quero.

        A resposta veio mais firme do que ele próprio esperava.

        Durante alguns segundos, ficaram apenas ali, frente a frente, a poucos centímetros. Os olhares diziam demasiado — desejo, cuidado, receio, vontade.

         Foi Rafael quem deu o primeiro passo.

         Subiu a mão lentamente até ao rosto de Leo, tocando-lhe na face com uma suavidade quase tímida, mas cheia de intenção. Sentiu o calor da pele dele, a tensão contida.

— Eu confio em ti — disse baixo.

         Leo respirou fundo, como se aquela frase tivesse um peso enorme.

— Então deixa-me cuidar de ti — respondeu, a voz mais baixa ainda.

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