top of page

25 – Escolha

Deitado de costas, no escuro, com os braços atrás da cabeça, Rafael ouvia o pai.

Ninguém nasce ensinado, filho. A experiência não cai do céu.

E quando é que vais estar pronto? Quando ele se cansar de esperar?

Não escolhas fugir de uma coisa que é natural entre duas pessoas que se amam.

Fechou os olhos.

Tinha de crescer.

🍃 🍃 🍃

Acordou antes do despertador, o que não lhe acontecia desde os tempos dos exames.

Ficou um bocado a olhar para o teto, com a luz cinzenta da manhã a entrar pela frincha da persiana, e depois esticou o braço para a mesa de cabeceira e pegou no telemóvel.

Oito e quarenta.

📩 — <Bom dia, carinho. São oito e quarenta. Contei.>

A resposta demorou vinte segundos.

📩 — <Estou a olhar para a hora. Estou mesmo a olhar para a hora.>

📩 — <Eu sei. Foi de propósito.>

O telemóvel tocou antes de ele poder pousá-lo.

📞 — "Bom dia, velhote."

📞 — [Um dia ainda te mostro quem é o velhote aqui.]

📞 — "Quero ver isso."

Do outro lado ouviu-se um som que podia ser um riso ou um aviso.

📞 — [Atrevido. Está tudo bem?]

📞 — "Está. Não posso ligar só para te dar os bons dias?"

📞 — [Podes. Podes ligar sempre. Só me apanhaste a beber café em pé na cozinha, com um sapato calçado.]

Rafael riu-se para o teto.

📞 — "Ainda estás chateado comigo por causa de ontem?"

📞 — [Eu nunca estive chateado contigo.]

📞 — "Carinho." — Rafael pôs-se sentado na cama. — "Não faças isso. Não sejas condescendente comigo. Se eu fizer alguma coisa errada, tu dizes. Prometeste ontem, mas eu quero ouvir outra vez."

Houve um silêncio do outro lado, e depois um suspiro.

📞 — [Prometo. Se alguma coisa não estiver bem, eu digo.]

📞 — "Ótimo."

📞 — [Agora deixa-me acabar o café antes que arrefeça, anjo. Até logo.]

📞 — "Até logo, carinho."

🍃 🍃 🍃

Na cozinha, os pais estavam sentados como estavam todas as manhãs: a mãe com a chávena nas duas mãos, o pai com o jornal dobrado ao meio e os pauzinhos ao lado do garfo.

Rafael beijou a mãe. Depois foi ao pai, beijou-lhe o alto da cabeça e ficou ali um segundo a mais.

— Obrigado, pai. Por ontem.

O Sr. Wei não levantou os olhos do jornal. Só lhe pôs a mão no braço e lhe deu duas palmadinhas.

— Não tens de agradecer nada. Foi só um aviso de que tudo se aprende nesta vida. — Virou a página. — As escolhas são tuas. Só não escolhas fugir.

A mãe pousou a chávena.

— Sabes que eu também tive dúvidas quando conheci o teu pai?

— Mãe…

— Deixa-me falar, que hoje é dia disso. — Ela estava a sorrir. — Eu tinha vinte e um anos e não sabia nada de nada. Ele não me apressou uma única vez. Eu confiei nele porque gostava dele, e por nenhuma outra razão. — Encolheu os ombros. — Confia no Leo, meu menino. Ele não te vai desiludir.

Rafael olhou para os dois, para a chávena, para o jornal, para os pauzinhos ao lado do garfo, e sentiu uma coisa quente subir-lhe pelo peito.

— Obrigado por serem assim.

— Assim como? — perguntou a mãe.

— Assim. — E pensou no Mário, e a voz falhou-lhe um bocadinho. — Era bom que fosse assim em todas as casas.

Os pais entreolharam-se por cima da mesa, sem perceber. Rafael baixou os olhos para o pão e comeu, muito concentrado, como se aquilo não tivesse acontecido.

🍃 🍃 🍃

O Nuno estava encostado ao pilar à entrada da faculdade, com a mochila num ombro só e um pacote de bolachas na mão.

— Bom dia. — Enfiou-lhe uma bolacha na cara. — Então, tu e o meu tio?

— Estamos bem. Porquê?

— Porque ele me ligou ontem e estava esquisito. — O Nuno abanou a cabeça. — Pensei que se tivessem zangado.

— A culpa foi minha.

Rafael contou-lhe tudo enquanto subiam as escadas. O dia inteiro à espera de uma mensagem. O jantar. O pai.

O Nuno ouviu até ao fim, muito sério, e depois disse:

— És mesmo burro.

— Obrigado.

— De nada. — Pôs-lhe a mão no ombro. — Adoro o teu pai. Se algum dia eu fizer uma coisa assim, dás-me o número dele.

— Dou-te uma bofetada, é o que eu te dou.

— Isso também serve.

A professora entrou, e a conversa acabou ali.

🍃 🍃 🍃

Às cinco da tarde estavam os dois na biblioteca, à espera.

O Nuno passava um trabalho a limpo com a língua entre os dentes. Rafael sublinhava coisas num manual e, de vez em quando, lia a mesma linha três vezes seguidas sem dar por nada.

Não estava aflito. Era essa a novidade. Podia estar ali até às sete que estava tudo bem.

O telemóvel vibrou em cima da mesa.

📩 — <Anjo, estou aí em dez minutos.>

📩 — <Vamos esperar à porta.>

— Era o meu tio?

— Era. Anda.

O Mercedes preto parou junto ao passeio poucos minutos depois, e Leo saiu com um sorriso que o Nuno nunca lhe tinha visto na vida.

Rafael ficou parado, de repente sem saber o que fazer das mãos à frente do amigo.

Leo resolveu-lhe o problema. Chegou-se a ele, pegou-lhe na cara com as duas mãos, beijou-lhe a testa e puxou-o para um abraço, ali mesmo, à porta da faculdade, com gente a passar.

Depois virou-se para o sobrinho.

O Nuno estava de boca aberta.

— Quem é o senhor e o que é que fez ao meu tio?

— Boa tarde, Nuno.

— Boa tarde. — O Nuno deixou-se abraçar e levou um beijo na cara. — Isto é um clone melhorado. Não devolvam o outro, por favor.

— Este é o Leo que eu sempre conheci — disse Rafael.

— Agora acredito.

Leo pôs-lhe a mão no ombro, abriu-lhe a porta do carro, como sempre fazia, e esperou que o sobrinho entrasse atrás.

Foram os três para o centro comercial a discutir, com muita seriedade, se um gelado antes do jantar estraga o jantar.

🍃 🍃 🍃

O centro comercial estava cheio.

Deram três voltas ao estacionamento antes de arranjar lugar. Assim que chegaram ao piso zero, Leo entrelaçou os dedos nos de Rafael e pôs a outra mão no ombro do sobrinho.

Rafael corou. Não tirou a mão.

— Então, o que é que a tua irmã quer? — perguntou.

— A minha mãe diz que ela anda a namorar uma mala da Gucci. — O Nuno encolheu os ombros. — Ou joias. Um conjunto, se possível, porque a modéstia não é o forte dela.

— Vamos ver as duas coisas.

Passaram primeiro pelo multibanco, onde Rafael espreitou o saldo com medo e respirou fundo, aliviado.

A mala estava na montra: creme, discreta, sem nada escrito a berrar de longe. Ele gostou logo, o que o preocupou, porque nunca tinha gostado de nada que estivesse dentro do que podia pagar.

— Vamos ver as joias antes.

Viram as joias. Viram três lojas de joias. Ao fim da terceira, Rafael tinha os olhos a arder de tanto somar números na cabeça.

— É a mala — decidiu. — É a mala e acabou.

— Finalmente — disse o Nuno. — Já andamos aqui há uma hora e meia.

Voltaram para trás pelo corredor principal, no meio da gente.

E foi aí que Leo parou.

🍃 🍃 🍃

Não foi nada de especial. Foi só que Rafael deixou de falar.

Tinha estado a discutir com o Nuno se a mala era creme ou bege, com aquela teimosia parva de que os dois gostavam, e a meio de uma frase calou-se.

Leo virou-se para ele.

Estava pálido. Não branco: acinzentado, à volta da boca. Tinha o cabelo colado à testa e o corredor estava fresco. E olhava em frente, para o fundo do corredor, como se não estivesse a ver bem onde acabava.

Leo conhecia aquela cara. Tinha-a visto uma vez, num salão cheio de espelhos, e não a tinha percebido a tempo.

Desta vez percebeu.

— Rafael. Olha para mim.

— Estou bem — disse ele. E a voz saiu-lhe lenta, arrastada nos sítios errados. — Estou só com calor.

— Nuno, o banco. Aquele ali. Vai à frente e tira as pessoas.

O Nuno não fez uma única pergunta. Foi.

Leo passou-lhe o braço pela cintura, apertou-o contra si e levou-o os vinte metros até ao banco de madeira do corredor, a falar-lhe ao ouvido o caminho todo, coisas que não queriam dizer nada, só para o ter a ouvir alguma coisa.

Sentou-o. Ajoelhou-se à frente dele.

— Chão está inclinado? — perguntou.

Rafael pestanejou.

— Como é que tu sabes?

— Porque tu me contaste. — Leo já tinha a mão no bolso interior do casaco. — Em julho, num banco ao pé do rio.

Tirou do bolso um pacote pequeno de sumo de laranja, daqueles de palhinha, e espetou-lhe a palhinha com um golpe seco.

— Bebe. Todo.

Rafael pegou no pacote com as duas mãos, porque uma não chegava, e bebeu. As mãos dele tremiam tanto que o pacote fazia barulho.

— Tu andas com isto no bolso — disse, entre goles.

— Ando.

— Desde quando?

— Desde julho.

O Nuno voltou com um pacote de bolachas de manteiga da loja do lado e ajoelhou-se ao lado do tio, com uma cara que Rafael nunca lhe tinha visto.

— Rafa. Rafa, olha para mim, ó palerma.

— Estou a olhar.

— Não estás nada, estás a olhar para o meu ouvido.

Leo já tinha o estojo preto na mão. Tinha-o tirado da mochila de Rafael sem pedir licença, porque sabia exatamente em que bolso é que ele andava. Abriu-o, montou a agulha, pegou na mão dele, escolheu o dedo do meio e picou.

Não lhe tremeu nada.

Contaram os três os cinco segundos do aparelho em silêncio.

47.

Leo fechou os olhos por um instante muito curto, só um, e depois voltou a abri-los e estava calmo outra vez.

— Come as bolachas.

— Já estou melhor.

— Come as bolachas, Rafael.

Rafael comeu as bolachas. Comeu-as com a cabeça encostada ao ombro do namorado, no meio de um centro comercial, com centenas de pessoas a passar e nenhuma a olhar, e foi sentindo o chão voltar ao sítio, devagar, como se alguém estivesse a endireitá-lo à mão.

Dez minutos depois, Leo picou-lhe outra vez o dedo.

92.

— Pronto — disse.

E só nessa altura, com o aparelho ainda na mão, é que Rafael reparou que ele estava a tremer.

— Carinho.

— Estou bem.

— Não estás nada.

Leo pousou o aparelho ao lado, no banco, e ficou um momento a olhar para as próprias mãos.

— Da outra vez eu não sabia o que fazer — disse, sem levantar os olhos. — Estava ali um rapaz no chão do meu salão e eu não sabia o que fazer. Gritei por um enfermeiro como um idiota qualquer e fiquei à espera que fosse outra pessoa a tratar de ti.

— Tiveste-me ao colo.

— Isso não é tratar de ti.

Rafael pegou-lhe nas duas mãos.

— Hoje foste tu — disse. — Viste antes do Nuno. Viste antes de mim.

Leo respirou fundo uma vez, e depois outra.

— Almoçaste?

— Uma sandes às onze e meia.

— E são seis e meia.

— Eu sei.

— E andámos uma hora e meia às voltas neste circo.

— Eu sei. — Rafael baixou a cabeça. — Não estava com fome e não quis estragar a tarde.

Leo abriu a boca. Voltou a fechá-la. Ficou os segundos que precisou.

— Disseste-me ontem para eu falar contigo quando alguma coisa não estivesse bem.

— Disse.

— Então é isto. — Levantou-lhe o queixo. — Não voltes a fazer isto por minha causa, nem pelo Nuno, nem por uma mala. Se precisares de comer, paramos. Não me interessa o que estivermos a fazer nem quem esteja à espera. Paramos.

Rafael assentiu com a cabeça, sem confiar muito na voz.

— Diz.

— Paramos.

— Ótimo. — Leo endireitou-se e estendeu-lhe a mão. — Agora vamos comprar a mala à tua amiga Furacão, antes que fechem.

O Nuno, que tinha estado calado todo aquele tempo, com uma expressão que ninguém lhe conhecia, levantou-se e disse, muito baixo:

— Tio.

— Diz.

— Nada. — Fungou uma vez, com força, e voltou a ser quem era. — Nada, nada. Vamos.

🍃 🍃 🍃

Na Gucci, uma funcionária de cabelo apanhado veio ter com eles antes de eles darem três passos.

O sorriso dela era profissional. Os olhos não. Fixaram-se em Leo e ficaram lá, sem disfarce nenhum, enquanto ela falava.

— Boa tarde. Em que posso ajudar?

Rafael sentiu um aperto no estômago que já não tinha nada a ver com o açúcar.

Leo demorou dois segundos a responder. Quando respondeu, foi num tom tão calmo que a rapariga do balcão do fundo levantou a cabeça.

— Entrámos três pessoas — disse. — E quem vai comprar é o meu namorado.

Levantou a mão entrelaçada na de Rafael, sem a agitar, sem a mostrar a ninguém em especial. Só a levantou.

A funcionária corou até ao pescoço.

— Com certeza. Em que posso ajudar? — repetiu, e a voz saiu-lhe outra.

— Queria a mala creme da montra, por favor — disse Rafael.

Ela foi buscá-la e embrulhou-a com um cuidado exagerado. Rafael foi pagar à caixa. Leo ficou para trás só o tempo de dizer, sem levantar a voz:

— Ser profissional não custa nada. E, mesmo que eu estivesse sozinho, não me interessaria por quem se oferece assim.

Não esperou pela resposta. Foi ter com Rafael à caixa, pegou-lhe na mão e no saco, e saíram.

O Nuno, atrás dos dois, ia com uma cara de quem tinha ganho o dia.

🍃 🍃 🍃

Ainda iam a meio do corredor principal quando uma voz os alcançou.

— Leo? És mesmo tu?

Leo virou-se devagar.

A mulher já vinha a chegar. Bonita, bem vestida, com aquela segurança de quem está habituada a ser olhada e a saber exatamente quando.

— Há quanto tempo. — Pousou-lhe a mão no braço com uma familiaridade a que ninguém lhe tinha dado licença.

Leo afastou o braço sem brusquidão nenhuma.

— Olá, Marta.

— Estás igual. Ou melhor. — Ela riu-se. — Os teus gostos continuam os mesmos?

Rafael sentiu a cara a arder. O Nuno levantou uma sobrancelha e preparou-se para assistir.

Leo não respondeu logo. Passou o braço pela cintura de Rafael e puxou-o para si, com a naturalidade de quem faz aquilo dez vezes por dia.

— Mudaram — disse. — E ainda bem.

Ela pestanejou. E só nesse instante, Rafael percebeu, é que ela reparou verdadeiramente nele.

— Ah. — O tom esforçou-se por ser leve e não chegou lá. — Não fazia ideia.

— Pois não. — Leo sorriu, e não era o sorriso com que costumava resolver estas coisas. Era um sorriso descansado. — A vida muda. As pessoas também.

— Bem… fico contente por ti. A sério. Espero que estejas bem.

— Estou. — Apertou a mão de Rafael. — Muito bem.

Ela assentiu, disse qualquer coisa sobre um dia destes e foi-se embora depressa de mais para quem não tinha pressa nenhuma.

O Nuno soltou um assobio baixinho.

— Tio. Isso foi lindo.

— Não foi nada de especial.

— Foi — disse Rafael, muito baixo, ainda corado. — Obrigado.

Leo inclinou-se e falou-lhe ao ouvido, só para ele.

— Não tens de agradecer nada. És tu que eu quero. Mais ninguém.

— Pronto, pronto! — O Nuno bateu palmas. — Já chega de romance. Eu estou a morrer de fome e o Rafa comeu uma sandes às onze e meia.

— Isso é verdade — disse Leo. — Vamos comer.

🍃 🍃 🍃

Jantaram os três num sítio pequeno com toalhas de papel, longe do barulho, onde ninguém os conhecia.

O Nuno falou pelos cotovelos, como era hábito. Rafael comeu tudo o que lhe puseram à frente, como era hábito. E Leo, de vez em quando, sem dar por isso, olhava para ele de lado, a ver se estava bem.

Foi a meio do prato que Rafael pousou o garfo.

— Carinho.

— Diz.

— Vou comprar o sensor.

Leo ficou muito quieto.

— A médica anda há um ano a falar-me nisso e eu sempre disse que um dia destes. — Rafael olhava para o prato. — Hoje o chão inclinou-se num corredor cheio de gente e eu nem dei por ele a descer. Se tu não estivesses lá…

— Eu estava lá.

— Podias não estar. — Levantou os olhos. — Está na altura. Não é por ti, nem pelos meus pais, nem pela médica. É por mim.

O Nuno pousou o copo.

— Finalmente.

— Tu cala-te.

— Não me calo nada. Eu ando a dizer-te isso desde o décimo ano. — Voltou-se para o tio. — Tio, obrigado. Eu já não sabia o que lhe havia de dizer.

Leo estendeu o braço por cima da mesa e pôs a mão sobre a de Rafael.

— Vamos ver isso amanhã.

— Eu pago o meu.

— Eu sei que pagas. — Leo apertou-lhe a mão. — Eu disse vamos, não disse pago eu.

Rafael riu-se, e o riso soube-lhe a alívio.

🍃 🍃 🍃

Nessa noite, já deitado, com a mala da Amélia embrulhada em cima da secretária e o quarto às escuras, Rafael pegou no telemóvel.

📩 — <Carinho. Hoje aprendi uma coisa.>

📩 — <Diz.>

📩 — <Que não vale a pena adiar as coisas à espera de estar pronto. Nunca se está.>

Demorou mais do que o costume a chegar resposta.

📩 — <E quem é que te disse isso?>

📩 — <O meu pai. Mas hoje fui eu que percebi.>

Rafael ficou com o telemóvel no peito, a olhar para o escuro.

O pai tinha razão. O Nuno tinha razão. Toda a gente tinha razão, e tinha sido preciso um corredor inclinado e um pacote de sumo tirado de um bolso para ele finalmente perceber.

Havia coisas que não se escolhiam.

O resto, escolhia-se.

Quando sair o próximo livro, queres saber?

Mais nada. E podes sair da lista quando quiseres.

bottom of page