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24 🔞 – Crescer

🔞 Este capĂ­tulo contĂ©m conteĂșdo para leitores adultos.

O quarto era pequeno.

Leo parou à porta e deixou-se ficar ali um instante, a olhar. Uma cama encostada à parede, com uma colcha às riscas esticada sem uma ruga. Uma mesa de cabeceira com um candeeiro, um copo de ågua e um livro aberto ao contrårio, a meio. Uma secretåria com o portåtil, uma pilha de apontamentos alinhada pelo canto e um pote de canetas. Em cima, um placard de cortiça cheio de fotografias: o Nuno de boca aberta a meio de uma gargalhada, os pais numa praia qualquer, os irmãos, uma do próprio Rafael aos oito ou nove anos, de fato de treino e joelho ralado.

Nenhum luxo. Tudo arrumado.

Aquele quarto era exatamente ele.

Rafael entrou atrås, fechou a porta com cuidado para não fazer barulho e ficou de pé no meio do quarto, com os olhos no chão.

Leo sentou-se na beira da cama e estendeu-lhe a mĂŁo.

— Anda cá.

Rafael foi. Sentou-se-lhe ao colo de lado, com a cabeça encostada ao peito dele, e Leo sentiu-o encolher-se como quem se prepara para dizer uma coisa difícil.

— Eu portei-me como uma criança.

— Rafael.

— Deixa-me dizer. — A voz saiu-lhe abafada contra a camisa. — Gosto de ser o centro das atençÔes. Sobretudo das tuas. E passei o dia Ă  espera que fosses tu a falar primeiro, como se isso fosse uma prova de alguma coisa. O meu pai perguntou-me porque Ă© que tem de ser sempre tu, e eu nĂŁo tinha resposta nenhuma.

Leo passou-lhe a mão pelas costas, devagar, e deixou-lhe um beijo no alto da cabeça.

— Tens dezoito anos. Tens direito a portar-te como um.

— Não quero esse direito. — Rafael levantou a cara. — Quero que isto dure.

Foi a vez de Leo ficar sem resposta.

— EstĂĄ bem — disse, ao fim de um momento. — EntĂŁo fica assim: se te faltar alguma coisa, dizes. Se eu fizer merda, dizes. Eu nĂŁo adivinho, anjo. JĂĄ vivi o suficiente para saber que os casais nĂŁo se estragam pelas coisas grandes. Estragam-se pelas pequenas que ninguĂ©m disse.

— Prometo. — Rafael encostou outra vez a testa ao pescoço dele. — E tu tambĂ©m dizes.

— Eu tambĂ©m digo.

Ficaram assim algum tempo, sem falar. A casa estava silenciosa. LĂĄ em baixo ouviu-se a televisĂŁo a mudar de canal e depois a desligar-se.

— Foi mau, o teu dia? — perguntou Rafael.

— Foi comprido.

— Isso nĂŁo Ă© a mesma coisa.

Leo riu-se baixinho, apanhado.

— Nove horas, reuniĂŁo. Onze horas, reuniĂŁo. Almoço com o tipo do papel, que fala muito e nĂŁo diz nada. TrĂȘs horas na grĂĄfica, porque saĂ­ram duas mil capas com o azul errado e ninguĂ©m deu por isso. — Fez uma pausa. — E uma chamada de MilĂŁo Ă s sete da tarde, que era para ter sido Ă s cinco.

Rafael fez as contas na cabeça.

— E chegaste aqui às dez.

— Cheguei.

— Leo. — Endireitou-se para lhe ver a cara. — Da grĂĄfica atĂ© aqui nĂŁo sĂŁo trĂȘs horas.

Leo olhou para ele, e Rafael percebeu que tinha acertado sem saber em quĂȘ.

— Passei pelo lar — disse Leo. — É quinta-feira.

Rafael ficou muito quieto.

— Cheguei lĂĄ Ă s nove menos um quarto. JĂĄ a tinham deitado. — Leo falava sem drama nenhum, como quem lĂȘ uma lista. — A D. Graça deixou-me entrar na mesma. Estive vinte minutos sentado ao lado da cama, ela nem acordou, e depois vim.

— Porque Ă© que nĂŁo me disseste isso ao telefone?

— Porque tu estavas magoado comigo e tinhas razão para estar. — Leo encolheu um ombro. — Se te contasse aquilo, deixavas de estar magoado num segundo. E não era justo. Eu não me esqueci de ti por causa da minha mãe. Esqueci-me de ti porque estive o dia inteiro a correr e não parei para pensar em nada.

Rafael abriu a boca e voltou a fechĂĄ-la.

AtĂ© ali, sem dar por isso, tinha passado trĂȘs semanas a achar que o dia difĂ­cil era sempre o dele.

— Tu tambĂ©m precisas de mensagens — disse, baixinho.

— Eu tambĂ©m preciso de mensagens.

— Amanhã mando-te uma antes das nove.

— Vou ficar à espera. — Leo apertou-o contra si. — E agora fala-me de outra coisa, antes que eu adormeça aqui sentado com um rapaz ao colo e o teu pai apareça à porta.

Rafael riu-se, e o peso saiu-lhe do peito de uma vez.

🍃 🍃 🍃

— Velhote, ficas muito chateado se eu acabar uma coisa? — perguntou, já a levantar-se. — É meia hora. Tenho de mandar a minha parte ao Nuno, senão ele não consegue juntar as duas e entregar amanhã.

— Vai.

— A sĂ©rio?

— Anjo, eu passei o dia a ouvir gente. — Leo descalçou os sapatos e recostou-se contra a parede, com as pernas em cima da colcha. — Estar aqui calado enquanto tu trabalhas Ă© a melhor coisa que me aconteceu desde ontem.

Rafael sentou-se Ă  secretĂĄria e acendeu o candeeiro pequeno.

NĂŁo foi meia hora. Foi uma hora e dez.

Leo ficou a vĂȘ-lo. Mexeu no telemĂłvel, respondeu a dois e-mails que podiam esperar, jogou uma coisa parva com bolinhas coloridas e perdeu sempre, e de vez em quando levantava os olhos. Rafael escrevia com a cabeça inclinada para a esquerda. Quando alguma coisa nĂŁo lhe saĂ­a, mordia o interior da bochecha. Quando saĂ­a, endireitava-se na cadeira e dava dois toques na mesa com o lĂĄpis, sem dar por isso.

Leo não sabia que era possível gostar tanto de ver alguém trabalhar.

— Pronto. — Rafael carregou no rato, esticou os braços por cima da cabeça e a coluna estalou-lhe. — Enviado. Que o Nuno se governe.

Levantou-se, apagou o candeeiro e voltou para a cama. Leo largou o telemĂłvel ao lado, Ă  espera que ele se aninhasse no mesmo sĂ­tio.

NĂŁo foi o que aconteceu.

Rafael pĂŽs um joelho de cada lado das pernas dele e sentou-se-lhe em cima, de frente, muito mais perto do que a casa dos pais permitia.

— Desculpa ter-te deixado à espera — disse, com a cara mais inocente do mundo.

As mãos de Leo foram à cintura dele por håbito, e só depois o cérebro percebeu a posição em que estavam. E percebeu também, tarde de mais, que Rafael jå tinha percebido antes dele.

— Rafael.

— Sim?

Rafael mexeu-se. Devagar, uma vez sĂł, a olhar para ele.

— Amor, para.

— PorquĂȘ?

— Porque estamos em casa dos teus pais e eu nĂŁo queria ficar assim aqui. — Leo apertou-lhe a cintura para o segurar, e a voz jĂĄ nĂŁo lhe estava a obedecer muito bem. — A sĂ©rio.

Rafael sorriu. Aquele sorriso, o torto, o que não tinha nada de anjo nenhum. Baixou-se até lhe chegar ao ouvido.

— Então geme baixinho.

E saiu-lhe do colo.

Leo abriu a boca para dizer que nĂŁo, e ficou com ela aberta sem dizer nada, porque Rafael se ajoelhou entre as pernas dele, no chĂŁo, e começou a desapertar-lhe o cinto com uma calma que nĂŁo devia ser possĂ­vel em alguĂ©m que hĂĄ trĂȘs semanas corava ao falar do assunto.

— Anjo, aqui não. Por favor.

— Está bem. — As mãos dele pararam. — Se quiseres mesmo que eu pare, eu paro.

Ficaram os dois assim, parados, a olhar um para o outro.

Foi Leo quem fechou os olhos e desistiu.

— Não quero que pares.

O cinto abriu-se. Depois o botĂŁo. Depois o fecho. E depois a mĂŁo pequena de Rafael foi procurĂĄ-lo, e Leo teve de morder o lĂĄbio Ă  primeira, porque a casa estava em silĂȘncio e ele nĂŁo era nada silencioso.

— Levanta — murmurou Rafael.

Leo levantou a anca e deixou-o tirar-lhe as calças até meio das coxas, e mandou ao diabo o juízo todo que tinha trazido de casa.

A boca de Rafael chegou devagar. Primeiro um beijo, quase tímido, como se ainda estivesse a pedir licença. Depois a língua. Depois mais.

— Ah
 — Leo levou a mão à própria boca. — Rafael


Rafael levantou os olhos sem parar. Era isso que o deixava mais atrevido do que tudo: ver a cara dele. Ver aquele homem, que mandava em duzentas pessoas e nĂŁo perdia a linha por nada, desfeito em cima de uma cama de solteiro com uma colcha Ă s riscas.

Leo levou-lhe a mĂŁo ao cabelo, sem puxar, sĂł para o ter.

— Mais fundo, se conseguires — pediu, com a voz partida. — Mas só se conseguires.

Rafael tentou. Conseguiu mais do que esperava e menos do que queria, engasgou-se, os olhos encheram-se-lhe de ĂĄgua, e nĂŁo parou.

— Assim
 anjo, assim
 — Leo respirava pela boca, com os olhos apertados. — Espera. Espera, eu estou


NĂŁo houve tempo.

Rafael recuou de repente, a tossir, apanhado de surpresa, com as lĂĄgrimas a saĂ­rem-lhe pelos cantos dos olhos.

Leo sentou-se de um salto.

— Meu Deus. Desculpa. Desculpa, amor, desculpa. — Puxou-o para cima, para o colo, a limpar-lhe a cara com a mão, com a manga, com o que tinha. — Olha para mim. Estás bem? Diz-me que estás bem.

Rafael tossiu mais uma vez, fungou, e encostou a testa ao ombro dele.

— Eu avisei-te — disse Leo, aflito. — Tentei avisar, juro que tentei


— Carinho.

Leo parou.

Rafael tinha os olhos vermelhos e a respiração ainda descompassada, mas estava a sorrir. Levantou a cara e disse, com uma cara de santo:

— Só te perdoo se me ajudares.

Leo ficou dois segundos a processar aquilo. Depois riu-se, com a testa encostada Ă  dele, aliviado.

— Ajudar onde, anjo?

Rafael pegou-lhe na mĂŁo e levou-a onde queria.

— Aqui.

— Aqui? — Leo tocou-o por cima do tecido, de leve, só o suficiente para o ouvir prender a respiração. — E queres a mão?

— Não.

— Então diz.

— A tua boca. — Rafael corou atĂ© Ă s orelhas e disse na mesma. — DĂĄ-me a tua boca.

Leo pegou nele ao colo, como quem pega numa coisa que lhe pertence, deitou-o de costas na cama estreita e deitou-se por cima. Despiu-o com calma, apesar de nĂŁo ter calma nenhuma, e desceu.

Rafael arqueou-se logo ao primeiro toque e levou as duas mãos à boca para se calar. Não resultou muito bem. Leo levantou os olhos uma vez, viu-o assim, com os dedos entre os dentes e a cabeça atirada para trås, e teve de se segurar a si próprio para não fazer barulho nenhum.

Não foi preciso Rafael avisar. Leo sentiu-o antes, pelo tremor das pernas dele, e ficou até ao fim.

Depois subiu, deitou-se ao lado dele, na beira da cama que mal chegava para os dois, e puxou-o para cima do peito.

Ficaram muito tempo calados, a ouvir a casa.

🍃 🍃 🍃

— Anjo. — Leo tinha a mão dele debaixo da sua, aberta sobre o peito. — Estás bem? Não ficaste chateado comigo?

— Estou bem. A sĂ©rio que estou bem.

— O que Ă© que tu me chamaste hĂĄ bocado?

Rafael levantou a cabeça, sem perceber.

— Quando?

— Quando te assustaste. Chamaste-me uma coisa.

A cara de Rafael mudou toda. Corou, desviou os olhos e enterrou outra vez a testa no peito dele.

— Carinho. — Um sussurro. — Desculpa. Saiu. Se não gostaste


— Diz outra vez.

— Não gostaste.

— Rafael. — Leo pegou-lhe no queixo e levantou-lho. Tinha os olhos a brilhar. — Diz outra vez.

— Carinho.

— Outra vez.

— Carinho. — Rafael estava a rir-se agora. — Carinho, carinho, carinho.

Leo fechou os olhos, como quem guarda uma coisa.

Tinha trinta e dois anos. JĂĄ lhe tinham chamado muita coisa e nunca aquilo.

— Mediste hoje à noite? — perguntou, ao fim de um bocado.

— Antes do jantar.

— E depois disto?

Rafael revirou os olhos, mas levantou-se, foi buscar a mĂĄquina Ă  gaveta da mesa de cabeceira e picou o dedo ali mesmo, sentado na beira da cama, de costas nuas, com a mesma naturalidade com que se lavam os dentes.

— Cento e dois.

— Bom.

— Estava melhor ainda se tivesses trazido chocolate.

— Amanhã trago.

🍃 🍃 🍃

Vestiram-se devagar, os dois, sem pressa nenhuma de acabar a noite.

— Carinho, amanhĂŁ Ă  tarde estĂĄs livre? — Rafael estava a abotoar a camisa dele, em vez de abotoar a sua. — Queria ir comprar a prenda da AmĂ©lia. Sozinho nĂŁo sou capaz.

— A que horas sais?

— Quatro e meia.

— Tenho reunião às quatro e não sei quanto tempo demora. — Leo pensou. — Espera por mim na biblioteca. Depois vamos os dois e jantamos fora.

— Posso levar o Nuno?

— Podes levar o Nuno. — Leo apontou-lhe o dedo. — E ele que se cale acerca das minhas mãos.

Rafael abriu a boca, escandalizado.

— Ele contou-te?

— Ele Ă© meu sobrinho. Ele conta-me tudo. — Leo estava a divertir-se Ă  custa dele. — JĂĄ agora, e a prenda dele?

— Essa já está tratada.

— Tratada como?

— Tratada. — Rafael alisou-lhe o colarinho com as duas mãos, todo satisfeito consigo. — Vais ver no dia.

— Anjo.

— Nem que me tortures.

— Isso Ă© um convite.

Riram-se os dois, baixinho, como dois ladrÔes.

Depois Rafael ficou sério, de repente, com as mãos ainda no colarinho dele.

— A minha mĂŁe disse-me ontem que tu jĂĄ Ă©s mais um filho que eles adotaram.

— Isso Ă© o maior elogio que eu podia receber.

— Eu sei. — Rafael baixou os olhos. — E depois lembrei-me do MĂĄrio, e fiquei com um nĂł na garganta. Como Ă© que um pai prefere um filho morto a um filho feliz? Como Ă© que se faz uma coisa dessas?

— Não sei — disse Leo. — E já pensei nisso muitas vezes esta semana.

— Os teus pais sempre souberam de ti?

— Sempre. Nunca precisei de contar nada, nem eu nem o Lorenzo. — Leo sorriu de lado. — A minha mãe dizia que não tinha filhos difíceis, tinha era filhos teimosos. Tu conheceste-a.

— Conheci. — Rafael sorriu tambĂ©m. — Ela chamou-me pelo nome do teu pai e deu-me a mĂŁo.

— Deu. — Leo demorou um segundo a continuar. — E por isso Ă© que eu nĂŁo percebo o irmĂŁo da tua mĂŁe. NĂłs tivemos a sorte toda, anjo. NĂŁo fizemos nada para a merecer. SĂł calhou.

— Ainda não falei com os meus pais sobre o Mário.

— Não tens de falar já.

— Tenho de falar primeiro com ele. — Rafael respirou fundo. — Ele disse que eu podia contar ao Nuno. NĂŁo disse que podia contar Ă  famĂ­lia toda. A histĂłria Ă© dele, nĂŁo Ă© minha.

Leo pegou-lhe na cara com as duas mĂŁos e beijou-lhe a testa.

— Isso — disse. — Isso Ă© que Ă© ser crescido.

🍃 🍃 🍃

Desceram de mãos dadas, a pisar os degraus pelo lado de fora, onde não rangiam, muito convencidos de que ninguém dava por nada.

O Sr. Wei estava no sofĂĄ, com o jornal de ontem e os Ăłculos na ponta do nariz.

Os dois pararam ao mesmo tempo.

— Pai! Ainda a pĂ©?

— Ainda. — O Sr. Wei virou uma página sem levantar os olhos. — Pareceu-me ouvir ratos lá em cima. Sobretudo no teu quarto. Mas enganei-me, devia ser o aquecimento.

Rafael ficou da cor da colcha. Apertou a mão de Leo com tanta força que lhe magoou os dedos.

Leo, esse, olhou bem para a cara do homem e viu o canto da boca dele a tremer.

— Sr. Wei, desculpe — disse, com toda a seriedade do mundo. — A carne Ă© fraca. NĂŁo volta a acontecer. Aqui em casa.

— Leo!

— Que foi? — Leo puxou-o pela cintura e deu-lhe um beijo leve nos lábios, à frente do pai dele, só para o ver morrer de vergonha. — Estou a ser sincero com o teu pai.

O Sr. Wei pousou finalmente o jornal, e estava a rir-se.

— Filho, o teu pai estĂĄ bem com isto. Estava a provocar-te. — Tirou os Ăłculos e limpou-os na camisola. — Gosto da maneira como vocĂȘs se tratam. Sobretudo da maneira como ele olha para ti quando tu estĂĄs distraĂ­do.

— Sr. Wei
 — Leo pigarreou. — Eu amo o seu filho. Como nunca amei ninguĂ©m. Mas o senhor tem de me ajudar, porque ele Ă© uma tentação.

— Leo!

— TambĂ©m jĂĄ fui novo, meu filho. — O Sr. Wei levantou-se e foi apertar-lhe a mĂŁo, e acabou a dar-lhe uma palmada no ombro. — Ver o Rafael como ele tem andado nestes Ășltimos tempos chega-me. Sei que nunca o magoarias. Pelo menos nĂŁo de propĂłsito.

— Nunca. Mais depressa me magoava a mim. — Leo pegou no casaco. — AmanhĂŁ fico com ele depois das aulas, ajudo-o na prenda da AmĂ©lia, jantamos e trago-o a casa. Com a sua licença.

— Tem a minha licença. — Uma pausa. — E conduza devagar, que jĂĄ Ă© tarde.

Leo despediu-se, beijou a testa de Rafael Ă  porta e saiu.

Rafael ficou a olhar para a porta fechada, com um sorriso parvo, até ouvir a voz do pai atrås dele.

— Rafael. Anda cá ao escritório um bocadinho.

🍃 🍃 🍃

Meia hora depois, saiu de lĂĄ com os olhos vermelhos.

O pai nĂŁo tinha levantado a voz, como nunca levantava. Tinha-lhe perguntado, sem rodeios, o que era aquilo que ele andava a adiar, e Rafael, que tinha passado a vida a achar que o pai nĂŁo reparava em nada, descobriu que o pai reparava em tudo.

Tinha dito tudo. Quase tudo. Com a cara nas mãos, a falar para o tapete, vermelho como um tomate, e o pai tinha ouvido até ao fim sem dizer uma palavra.

Depois tinha dito sĂł isto:

— NinguĂ©m nasce ensinado, filho. A experiĂȘncia nĂŁo cai do cĂ©u.

Rafael tinha-se rido, sem querer, com os olhos cheios de ĂĄgua. Era a segunda vez que ouvia aquela frase. A primeira tinha sido numa esplanada, com um garfo apontado Ă  cara e o Nuno do outro lado da mesa.

— E quando Ă© que vais estar pronto? — tinha perguntado o pai. — Quando fores velho? Quando ele se cansar de esperar? Quando arranjar outra pessoa?

— Ele não ia fazer isso.

— Eu sei que nĂŁo ia. — O Sr. Wei tinha-se inclinado para a frente. — Por isso Ă© que a pergunta Ă© para ti e nĂŁo para ele.

Rafael ficou parado no corredor, com a mão na maçaneta do quarto.

LĂĄ dentro, a colcha Ă s riscas continuava por esticar e o quarto ainda cheirava a ele.

NĂŁo escolhas fugir de uma coisa que Ă© natural entre duas pessoas que se amam, tinha dito o pai Ă  saĂ­da.

O pai tinha razĂŁo.

Em tudo.

Quando sair o prĂłximo livro, queres saber?

Mais nada. E podes sair da lista quando quiseres.

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