Capítulo 24 — Escolha
Deitado na cama, as palavras do pai ecoavam-lhe na cabeça.
"Os telefones têm dois sentidos, meu filho."
“Quando vais estar? Quando fores velho? Quando ele se cansar de esperar? Quando arranjar outra pessoa?”
“Ninguém nasce ensinado. A experiência não cai do céu."
Fechou os olhos.
Tinha de crescer.
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Rafael acordou pouco antes do despertador, com a conversa com o pai ainda viva na memória. As palavras voltaram-lhe como um apelo silencioso, lembrando-o de que precisava de mudar — por si, por Leo e pelo que existia entre ambos.
Levantou-se de um salto, com a determinação já acesa no rosto e no peito. Tomou banho, vestiu-se e arranjou-se com a calma habitual. Depois passou pela cozinha, onde os pais tomavam o pequeno-almoço. Beijou-os aos dois e, ao aproximar-se do pai, murmurou baixinho:
— Obrigado, pai… por ontem.
O Sr. Wei apenas lhe acariciou a cabeça, com um sorriso discreto, mas cheio de orgulho.
— Tudo bem — reforçou o Sr. Wei. — Foi apenas um aviso de que tudo se aprende nesta vida. És livre de fazer as tuas escolhas; só não escolhas fugir de algo que é natural entre duas pessoas que se amam.
D. Clara sorriu. O marido já lhe tinha contado as incertezas do filho.
— Meu amor, quando conheci o teu pai, também tive dúvidas. Tudo era novo para mim, mas ele foi maravilhoso e guiou-me. Confiei nele porque o amava. Confia no Leo, meu filho. Ele ama-te e eu sei que não te vai desiludir.
— Obrigado aos dois por serem como são. Por me aceitarem como sou. — O rosto de Rafael entristeceu-se, e uma lágrima teimou em cair ao lembrar-se de Mário. — Era tão bom que fosse assim com todas as famílias.
Ao ver a expressão confusa dos pais, Rafael percebeu que tinha dito mais do que devia. Por isso, começou a comer devagar, como se nada tivesse acontecido.
Pouco depois, ergueu os olhos e sorriu.
— Vou comprar a máquina de monitorização contínua da glicose. Acho que está na altura. A médica já anda cansada de me falar nisso. E sei que o Leo também se preocupa com isso, sobretudo depois do susto que apanhou no dia em que me conheceu.
— Fazes bem, meu filho — disse D. Clara. — Finalmente alguém está a começar a pôr juízo nessa cabeça.
— Coisa que nós não conseguimos — acrescentou o Sr. Wei.
— Bendito seja o Leo por ter aparecido — brincou D. Clara.
Rafael baixou os olhos para o prato e continuou a comer, fingindo-se zangado. Por dentro, porém, o coração transbordava de felicidade.
🍃 🍃 🍃
Rafael assim que saiu para a rua, pegou no telemóvel e ligou à pessoa que lhe ocupava os pensamentos nos últimos dias.
Leo atendeu ao segundo toque.
📞 — “Bom dia, velhote” — provocou Rafael, assim que ouviu a voz dele do outro lado da linha.
Leo sorriu, feliz por receber a chamada e divertido com a provocação.
📞 — [Um dia ainda te mostro quem é o velhote aqui.]
📞 — “Quero ver isso” — respondeu Rafael, corado, mas atrevido.
📞 — [Atrevido] — murmurou Leo. — [Está tudo bem?]
📞 — “Porque não haveria de estar? Não posso simplesmente ligar para te desejar um bom dia?”
📞 — [Claro que sim, anjo. Fico muito feliz por ouvir a tua voz.]
Leo fez uma breve pausa antes de perguntar:
📞 — [Ainda estás chateado comigo, meu anjo?]
📞 — “Não estou chateado contigo. Estou chateado comigo. O meu pai deu-me um puxão de orelhas… e mereci. Não devia ter cobrado nada. Somos dois. Eu também tenho de dar, não só receber.”
📞 — [Rafael, por mim está tudo bem…]
📞 — “Não faças isso” — interrompeu Rafael. — “Não sejas condescendente. Ajuda-me a crescer. Se eu fizer algo errado, diz-me. Fala comigo. O meu pai diz sempre que, numa relação, tem de haver diálogo. Prometes?”
Do outro lado da linha, ouviu-se um suspiro.
📞 — [Eu adoro-te. E por ti faço tudo. Só quero ver-te feliz.]
📞 — “Promete” — insistiu Rafael.
📞 — [Prometo] — cedeu Leo. — [Se algo não estiver bem, eu digo.]
Rafael sorriu, satisfeito.
📞 — “Ótimo. Mudando de assunto… encontramo-nos logo, certo?” — perguntou Rafael.
📞 — [Sim. Falei com o Nuno ontem e pedi-lhe para sondar a minha irmã sobre aquilo de que a Amélia pudesse gostar.]
📞 — “Ainda bem. Eu não tenho ideia nenhuma.”
Continuaram a conversar até Rafael chegar à faculdade.
📞 — [Até logo, meu anjo.]
📞 — “Até logo, carinho.”
🍃 🍃 🍃
Ao entrar na escola, Rafael encontrou Nuno à porta.
— Bom dia, Nuno.
— Bom dia. Como vão as coisas entre ti e o meu tio?
— Que pergunta é essa? Vão bem.
— Ainda bem. Ele ligou-me ontem… estava estranho. Pensei que se tivessem zangado.
— A culpa foi minha. Fiz asneira.
— O que fizeste? — perguntou Nuno, curioso.
Rafael contou-lhe tudo enquanto caminhavam para a sala.
— Tu és mesmo uma besta — disse Nuno, sem rodeios. — O meu tio deve amar-te muito para não te dar um raspanete. O teu pai fez bem. Adoro o teu pai.
— Eu sei. E já falei com o Leo. Não volta a acontecer. A minha insegurança pode estragar tudo. E eu não quero isso.
— Ainda bem que percebeste. Agora avança.
A conversa terminou quando a professora entrou.
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17h
As aulas tinham acabado e os dois estavam na biblioteca, à espera de Leo.
Estudaram, organizaram trabalhos, conversaram pouco — mas Rafael es-tava tranquilo. Esperaria o tempo que fosse.
O telemóvel vibrou.
📩 Leo: “Anjo, estou aí em 10m.”
📩 Rafael: “Vamos esperar à porta.”
— Era o meu tio? — perguntou Nuno.
— Era. Vamos.
Saíram e, poucos minutos depois, o Mercedes preto parou.
Leo saiu do carro com um sorriso tão aberto que deixou Nuno boquiaberto.
Rafael ficou imóvel por um instante, sem saber como reagir diante do amigo.
Ainda assim, o sorriso que lhe iluminava o rosto dizia tudo.
Leo aproximou-se, acariciou-lhe as faces coradas, beijou-lhe a testa e, em seguida, puxou-o para um abraço.
Depois, voltou-se para o sobrinho, que o observava com uma expressão de puro espanto, como se estivesse a ver um extraterrestre.
— Quem és tu? Onde está o meu tio? — provocou Nuno. — Este é um clone melhorado!
Leo riu e abraçou o sobrinho, dando-lhe um beijo na face.
— Boa tarde, Nuno.
— Boa tarde, tio. Eu adoro este tio novo. Não devolvam o outro.
Rafael riu.
— Este é o Leo que eu sempre conheci.
— Agora acredito — disse Nuno.
Leo pousou a mão no ombro de Rafael e guiou-o até ao carro.
Como sempre, Leo abriu a porta a Rafael, e Nuno entrou logo a seguir.
Depois, entre risos e pequenas provocações, os três seguiram para o centro comercial mais movimentado da cidade.
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O centro comercial fervilhava de gente.
Depois de algumas voltas no estacionamento quase lotado, Leo conseguiu finalmente um lugar. Saíram do carro e seguiram para os pisos interiores.
Nuno já tinha sondado a mãe sobre o que Amélia gostaria de receber, por isso a visita não se prolongaria muito. Nem Rafael nem Leo eram fãs de multidões.
Assim que chegaram ao piso zero, Leo entrelaçou os dedos nos de Rafael e pousou a outra mão no ombro do sobrinho. Rafael corou, mas não retirou a mão. Nuno observava a cena com um sorriso divertido — o tio estava irreconhecível, no melhor dos sentidos.
— Então, Nuno, afinal o que é que a tua irmã quer? — perguntou Rafael.
— A mãe disse que ela anda a namorar uma mala da Gucci. Ou então uma joia.
— Vamos ver os preços das duas coisas — respondeu Rafael. — Não sei quanto dinheiro o meu pai me deu.
Leo manteve-se em silêncio, guiando-os por entre a multidão.
A primeira paragem foi no multibanco, onde Rafael verificou o saldo e respirou de alívio.
Depois seguiram para a Gucci, onde a mala os esperava logo na montra: creme, elegante, discreta e, para surpresa de Rafael, dentro do orçamento.
— Vamos ver as joias antes de decidir — disse ele. — A tua mãe falou em alguma peça específica?
— Ela disse que a Amélia adorava um conjunto completo: brincos, pulseira, anel e colar.
Depois de passarem por várias lojas e se depararem com preços assustadores, Rafael decidiu ficar com a mala. Em seguida, voltaram à Gucci.
Assim que entraram, uma funcionária aproximou-se com um sorriso demasiado estudado. O olhar demorou-se em Leo de forma descarada e provocadora. Rafael sentiu o estômago apertar, enquanto Leo, ao perceber a intenção por detrás daquele olhar, conteve a irritação.
— Bem-vindos! Em que posso ajudar? — perguntou ela, sem desviar os olhos de Leo.
Leo respirou fundo, mas a paciência durou pouco.
— Não me olhe como se estivesse à procura de companhia para a noite — disse, num tom firme que fez a loja inteira silenciar. — Isto é uma loja da Gucci, não uma casa de alterne. E, caso não tenha reparado, entrámos três pessoas. Quem vai comprar é o meu namorado.
Ergueu a mão entrelaçada na de Rafael, num gesto inequívoco que fez a funcionária corar de imediato, visivelmente atrapalhada.
Rafael conteve o sorriso, intimamente satisfeito com a reação.
— Em que posso ajudar? — perguntou ela, agora com a voz baixa e envergonhada.
— Quero aquela mala creme da montra, por favor — disse Rafael, apontando.
A funcionária trouxe a mala, embalou-a com cuidado e entregou-lha.
— Pode pagar na caixa. Obrigada e voltem sempre.
Rafael dirigiu-se à caixa, enquanto Leo ficou para trás apenas o tempo suficiente para dizer, num tom calmo, mas cortante:
— Ser profissional não custa. E mesmo que eu fosse solteiro, não me interessaria por alguém que se oferece assim. Fique bem.
Nuno arregalou os olhos, impressionado, enquanto a funcionária se afastava apressada para o fundo da loja. Leo regressou então para junto dos dois.
Rafael acabava de pagar quando sentiu a mão grande de Leo procurar a sua e entrelaçar-lhe os dedos com naturalidade, enquanto, com a outra, pegava no saco da prenda.
Saíram dali.
🍃 🍃 🍃
Ainda caminhavam pelo corredor principal quando uma voz feminina ecoou atrás deles:
— Leo? És mesmo tu?
Leo virou-se devagar. Rafael fez o mesmo, enquanto Nuno observava tudo com curiosidade.
A mulher aproximou-se com um sorriso confiante, daqueles que revelavam uma história antiga. Era bonita, elegante, segura de si — e tinha a postura de quem estava habituada a ser desejada.
— Há quanto tempo — disse ela, pousando a mão no braço de Leo com demasiada familiaridade.
Leo afastou o braço com educação, mas sem hesitar.
— Olá, Marta. Sim, há muito tempo.
Ela riu, inclinando ligeiramente a cabeça.
— Continuas igual… ou talvez até melhor. Os teus gostos continuam os mesmos?
Rafael sentiu o rosto aquecer, enquanto Nuno erguia uma sobrancelha, claramente pronto para assistir ao espetáculo.
Leo respirou fundo e, sem desviar o olhar, puxou Rafael pela cintura, aproximando-o de si num gesto natural, firme e sem exagero.
— Não, Marta — respondeu ele, com serenidade. — Os meus gostos mudaram. E ainda bem.
A mulher piscou os olhos, como se só naquele instante tivesse reparado no rapaz ao lado dele.
— Ah… percebo — disse, num tom que tentava ser neutro, mas não escondia o choque. — Não fazia ideia.
Leo sorriu, mas não era o sorriso sedutor de antigamente.
Era um sorriso tranquilo, maduro, cheio de certeza.
— Pois. A vida muda. E eu também.
Marta esforçou-se por recuperar a compostura.
— Bem… fico feliz por ti. A sério. Espero que estejas bem.
— Estou — respondeu Leo, apertando de leve a mão de Rafael. — Muito bem.
Ela assentiu, forçando um sorriso.
— Então… até qualquer dia.
— Até qualquer dia — respondeu Leo, educado, mas sem convite.
Quando ela se afastou, Nuno soltou um assobio baixo.
— Uau. Tio… isso foi lindo.
Leo revirou os olhos.
— Não foi nada de especial.
— Foi sim — disse Rafael, baixinho, ainda corado. — Obrigado.
Leo inclinou-se e murmurou-lhe ao ouvido:
— Não tens de agradecer. És tu que eu quero. E mais ninguém.
Rafael sorriu, tímido, mas cheio de luz, e Nuno respondeu com uma salva de palmas teatrais.
— Pronto, pronto, chega de romance. Vamos jantar antes que eu morra de fome.
Leo riu e puxou os dois para o elevador.