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23 – O Plano de Rafael

O Nuno estava sentado numa mesa de fora, com um copo de sumo já a meio e os óculos de sol em cima da cabeça.

Viu-o chegar, levantou a mão para acenar, e a mão ficou a meio do caminho.

— Espera.

— Bom dia para ti também.

— Espera. — O Nuno apontou-lhe para o peito. — Essa t-shirt é minha.

Rafael sentou-se com toda a calma do mundo e puxou uma cadeira para o lado.

— É.

— E as calças?

— Também.

— E as…

— Nuno.

O Nuno atirou-se para trás na cadeira e tapou a cara com as duas mãos.

— Eu sabia. Eu sabia. Dormiste em casa dele.

— Dormi.

— Com a minha roupa.

— Depois. — Rafael puxou o menu. — A roupa foi depois.

O Nuno fez um som que não era uma palavra.

🍃 🍃 🍃

Àquela hora, do outro lado da cidade, Leo estava sentado no sofá da sala com o telemóvel encostado à orelha.

📞 — [Desculpa ligar-te a um sábado.] — A voz do Henrique estava rouca. — [O Mário não dormiu nada. Nem cinco minutos. Chorou como eu nunca o vi chorar. Nem quando era por causa do pai.]

📞 — "Como é que ele está agora?"

📞 — [Deitado. De olhos abertos. Está convencido de que estragou a vida ao rapaz. Que o Rafael vai a casa contar tudo, que a família dele vai saber, que vai ser um problema para toda a gente.] — Uma pausa. — [Leo, eu não sei o que lhe hei de dizer. Já disse tudo o que sabia dizer.]

📞 — "Passa-lhe o telemóvel."

📞 — [O quê?]

📞 — "Passa-lhe o telemóvel, Henrique."

Houve um restolhar do outro lado, e passos, e uma porta.

📞 — [Leo?] — A voz do Mário era um fio. — [O Rafael está bem? Ele está mesmo bem?]

📞 — "Bom dia, Mário. Está ótimo. Está neste momento sentado num café a comer uma tosta com o meu sobrinho, com a roupa dele vestida, e não sabe que eu te estou a ligar."

Do outro lado, um som que podia ser um riso ou o princípio de um choro.

📞 — "Ficou em choque, claro. Ainda está a digerir o que o teu pai fez, e acho que vai levar tempo. Mas ficou feliz, Mário. Eu vi-o. Passou a noite a falar de ti."

📞 — [Ele não está zangado comigo?]

📞 — "Ele pediu-te o número, não pediu?"

Silêncio.

📞 — "Pediu-te o número à frente de toda a gente, depois de tudo o que aconteceu naquele corredor. Não te parece uma resposta?"

📞 — [Pois.] — A voz do Mário partiu-se. — [Pois parece.]

📞 — "Liga-lhe. Ele disse que te ligava hoje, mas liga-lhe tu primeiro. Vai fazer-te bem aos dois." — Leo hesitou, e depois acrescentou, mais baixo: — "E, Mário. Trata bem do Henrique. Ele não dorme há dois dias por tua causa e não te diz nada."

📞 — [Eu sei.] — Uma pausa. — [Obrigado por teres ligado.]

Quando Leo desligou, ficou um bocado com o telemóvel na mão, a olhar para a casa vazia.

Era a primeira vez em três anos que aquela sala lhe parecia grande de manhã.

🍃 🍃 🍃

No café, o telemóvel de Rafael vibrou em cima da mesa.

Número desconhecido.

Ele ficou a olhar para o ecrã um segundo a mais. E depois percebeu, e atendeu tão depressa que quase derrubou o sumo do Nuno.

📞 — "Estou?"

📞 — [Piolho? És tu?]

📞 — "Mário." — Rafael pôs-se de pé sem dar por isso. — "Quem é que te deu o meu número? Fui eu que to pedi, não foi ao contrário."

📞 — [Foi o Leo. Ligou-me há bocado.] — O Mário riu-se, e foi um riso desfeito. — [Eu estava… pronto. Estava mal. E ele ligou.]

Rafael afastou-se dois passos da mesa, com o Nuno a segui-lo com os olhos.

📞 — "Eu ia ligar-te às onze. Estava a contar os minutos, para não te acordar."

📞 — [Não dormi nada, portanto podias ter ligado às quatro.]

📞 — "Mário."

📞 — [Diz.]

📞 — "Eu estou bem." — Rafael falou devagar, para não se enganar em nenhuma palavra. — "A sério. Fiquei em choque, isso fiquei. E estou furioso com o teu pai, e isso vai demorar a passar. Mas estou feliz. É a única coisa que eu preciso que tu percebas hoje. Estou feliz por te ter outra vez."

Do outro lado houve um silêncio comprido.

📞 — [Está bem.]

📞 — "E olha. Posso contar ao Nuno? Ele está aqui à minha frente a deitar fumo pelas orelhas."

📞 — [Podes contar.] — Uma pausa, e a voz do Mário ficou mais firme do que estava desde a véspera. — [Podes contar a quem quiseres, piolho. Já chega. Estou pronto para ressuscitar.]

🍃 🍃 🍃

Rafael voltou para a mesa, sentou-se e bebeu metade do sumo do Nuno de uma vez.

— Ok — disse. — Senta-te bem. Isto vai demorar.

— Eu estou sentado.

— Senta-te melhor.

Contou-lhe tudo. O Refúgio, as pulseiras, a mulher no corredor, os pulsos, o soco. E depois a porta do escritório, e o homem de pé ao lado do Henrique, e o chão a desaparecer.

Quando disse o nome, o Nuno pousou o copo.

— O teu primo que morreu.

— Que não morreu.

— O teu primo que não morreu é namorado do melhor amigo do meu tio.

— É.

O Nuno ficou a olhar para a mesa durante um bocado. Depois passou as mãos pela cara.

— E o teu tio disse que ele tinha morrido. Disse isso à família toda. — Abanou a cabeça. — Rafa, eu conheci esse teu tio. Ele deu-me gelados. Estava lá nos teus anos.

— Eu sei.

— Como é que uma pessoa faz isso a um filho?

— Não sei. — Rafael mexeu no guardanapo. — Ainda não sei.

O Nuno ficou calado. E depois, muito baixo:

— E os teus pais?

— É isso que me está a dar a volta ao estômago. — Rafael pousou o guardanapo. — A minha mãe adora aquele irmão. É a única família que lhe resta do lado dela. E eu vou ter de lhe dizer que ele deu o filho por morto porque era gay. — Engoliu em seco. — E ela vai olhar para mim e vai lembrar-se de mim a contar-lhe o que eu contei na cozinha, há três semanas.

O Nuno pôs-lhe a mão no braço.

— Não tens de ser tu a contar já.

— Vou falar primeiro com o Mário. Isto é a história dele, não é minha. — Rafael respirou fundo. — Mas vai ter de ser contada.

🍃 🍃 🍃

Comeram. E, a certa altura, o Nuno voltou a ser o Nuno.

— Posso perguntar uma coisa? — Já estava a sorrir. — Uma coisa má.

— Não.

— Tu e o meu tio já…?

— Nuno.

— É uma pergunta técnica!

— Ainda não. — Rafael ficou cor de tomate e defendeu-se com o copo. — Não até ao fim. Pronto. Satisfeito?

— Mas ele toca-te? Porque se ele não te toca, eu tenho de ter uma conversa com ele, e vai ser muito constrangedor para toda a gente.

— Toca. — Rafael olhou-o por cima do copo, e o sorriso fugiu-lhe pelos cantos da boca. — E o teu tio tem umas mãos ótimas.

O Nuno tapou os ouvidos.

— Eu não ouvi isso.

— Ouviste, sim.

— Rafa, ele é meu ti.

— Foste tu que perguntaste.

— E arrependi-me outra vez!

Riram-se os dois como dois parvos, no meio da esplanada, até um senhor da mesa ao lado olhar para eles por cima do jornal.

Depois o Nuno ficou sério outra vez.

— Uma coisa a sério, agora. — Mexeu no guardanapo. — Porque é que ainda não quiseste ir até ao fim?

— Tenho medo.

— De quê?

— De não ser suficiente. De doer. De fazer tudo mal e ele se cansar de mim.

O Nuno revirou os olhos com tanta força que quase caiu da cadeira.

— Se não fosses meu amigo, dava-te um estalo. Ninguém nasce ensinado. — Apontou-lhe o garfo. — E, já agora: o meu tio podia estar com quem quisesse. Escolheu-te a ti. Alguma razão há de ter.

— Ele diz-me isso.

— Então acredita nele, Rafa.

— Estou a tentar. — Rafael encolheu os ombros. — E estou bem assim. Estamos só a começar. Isto está tão bom que às vezes tenho medo de estragar.

🍃 🍃 🍃

Nessa tarde, já em casa, Rafael fechou a porta do quarto e ligou para a mãe do Nuno.

📞 — [Rafael! Olá, meu querido.] — A voz dela abriu-se de surpresa. — [Está tudo bem? É raro ligares-me.]

📞 — "Está tudo bem, tia. É por causa dos anos deles."

📞 — [Ainda falta mais de um mês.]

📞 — "Eu sei. É por isso que estou a ligar agora." — Rafael respirou fundo. — "Tenho uma prenda para o Nuno. Uma prenda especial. Mas não a dou sem a vossa aprovação."

Houve um silêncio do outro lado.

📞 — [Agora deixaste-me preocupada. Fala.]

📞 — "Tia… eu sei que vocês não são preconceituosos. Mas uma coisa é a gente dizer isso dos outros, e outra é ser com um filho."

📞 — [Meu querido.] — A voz dela ficou macia. — [Nós sabemos do Nuno há muito tempo. Antes de ele saber, acho eu. E estamos bem com isso. Ninguém nesta casa quer saber de quem ele gosta, desde que gostem bem dele.]

Rafael fechou os olhos e sorriu para o teto.

📞 — "Então posso levar alguém aos anos dele. Alguém de quem ele gosta há muito tempo."

📞 — [E posso saber quem é?]

📞 — "É o meu irmão. O Luís."

Do outro lado ouviu-se um suspiro tão fundo que Rafael teve de afastar o telemóvel da boca para se rir sem ela ouvir.

📞 — [O Luís.] — Ela estava a rir-se também. — [O Luís que passou o Natal dos dezasseis anos do Nuno sentado à mesa a olhar para o prato?]

📞 — "Esse. Ele gosta dele há anos, tia. Nunca fez nada porque o Nuno era novo e porque achava que ele nem sequer… pronto. E o Nuno fica vermelho de cada vez que ele entra numa sala."

📞 — [Eu sei que fica.] — Uma pausa. — [Filho, eu ia estar bem com qualquer pessoa. Mas confesso que fico muito mais descansada por ser o teu irmão.]

📞 — "Então conte com mais uma boca para comer. E não diga nada ao Nuno, por favor. Ele não desconfia de nada."

📞 — [Não digo uma palavra.] — Ela riu-se. — [E, Rafael… obrigada. Por pensares nele.]

Rafael desligou e ficou sentado na cama com o telemóvel no colo.

Faltava a prenda da Amélia. Não fazia a mínima ideia do que lhe havia de comprar.

E depois lembrou-se de quem é que conhecia a Amélia desde o dia em que ela nasceu, e sorriu.

🍃 🍃 🍃

⏳

As aulas começaram três semanas depois.

Setembro chegou com uma mochila nova, um horário impresso que ele dobrou mal e um edifício cheio de gente que não conhecia. O Nuno estava na mesma turma, o que resolveu metade dos problemas. A outra metade resolveu-se sozinha ao fim de dois dias.

Rafael gostou. Gostou mais do que estava à espera.

As tardes passaram a ser de aulas, os fins de tarde de Leo, e as noites de apontamentos que ele fingia passar a limpo enquanto esperava por uma mensagem.

Na quinta-feira dessa primeira semana, a mensagem não veio.

Nem à hora de almoço, nem à tarde, nem ao lanche. Rafael olhou para o telemóvel mais vezes do que queria admitir. Voltou a casa, tomou banho, desceu para o jantar, e ainda nada.

Não era nada. Ele sabia que não era nada.

Doeu na mesma.

🍃 🍃 🍃

Leo só deu por isso às oito e meia da noite, quando fechou o portátil e olhou para o telemóvel.

Nada. O dia inteiro.

Tinha tido uma reunião às nove, outra às onze, um almoço com um fornecedor, três horas com a gráfica por causa de um erro na capa, e uma chamada de Milão às sete da tarde. Não tinha parado para respirar.

E não tinha mandado uma única mensagem.

Merda.

Ligou-lhe do carro, ainda na garagem.

📞 — [Olá.]

Uma palavra. Uma palavra só, e Leo percebeu tudo.

📞 — "Boa noite, anjo. Como é que foi o dia?"

📞 — [Foi bom. Ainda te lembras de que eu existo?]

Saiu-lhe com uma ponta de troça, mas por baixo estava outra coisa, e Leo ouviu-a.

📞 — "Desculpa. Não te mandei uma mensagem em todo o dia e não há desculpa nenhuma para isso."

📞 — [Tudo bem.]

📞 — "Não está tudo bem. Eu jurei a mim próprio que nunca te ia magoar, e afinal fui eu o primeiro, e nem sequer precisei de fazer nada de mal. Bastou não fazer nada." — Uma pausa. — "Posso passar aí depois do jantar? Nem que seja meia hora."

Do outro lado, Rafael demorou um bocado a responder.

📞 — [Podes.]

📞 — "Estou aí às dez."

🍃 🍃 🍃

Ao jantar, Rafael estava mais falador do que tinha estado a tarde toda.

— Daqui a duas semanas, no sábado, são os anos do Nuno e da Amélia — disse, entre garfadas. — Vou passar lá o dia e dormir lá, como sempre. Já tenho a prenda do Nuno. Falta a da Amélia, e para isso preciso de dinheiro.

— Transfiro-te amanhã — disse o pai. — Se precisares de mais, dizes.

— Não vou gastar muito.

— Eu sei que não. — O pai serviu-se de arroz. — E já sabes o que lhe vais comprar?

— Ainda não. Vou pedir ajuda ao Leo. Ele conhece-a desde que ela nasceu.

A mãe levantou os olhos do prato.

— A propósito. O Leo vem cá hoje?

— Vem. Às dez.

— A esta hora? — O pai olhou para o relógio.

— Ele não me ligou o dia todo — disse Rafael, e a frase saiu-lhe mais azeda do que queria.

O Sr. Wei pousou o garfo.

— Não me ligou nem uma vez, pai. Nem uma mensagem.

O pai olhou para ele por cima dos óculos. E, quando falou, não foi com a voz com que costumava falar ao filho.

— Rafael. Eu não te eduquei para seres assim.

Rafael levantou a cabeça, espantado.

— Assim como?

— Egoísta. — O pai não levantou a voz. Nunca levantava. — Aquele homem trabalha. Tem uma empresa com duzentas pessoas lá dentro. E tu passaste o dia à espera de uma mensagem que só podia vir de um lado. — Fez uma pausa. — Porque é que tem de ser sempre ele a escrever primeiro? Já te ocorreu que ele também gosta de receber uma mensagem tua? Que passou o dia a correr e que, se calhar, precisava mais dela do que tu?

Rafael baixou a cabeça.

— Vocês são dois — continuou o pai. — Isto é a dois. Se for sempre um a puxar o carro, mesmo que te ame muito, um dia cansa-se.

— Eu sei.

— Sabes?

— Sei, pai. — Rafael mexeu na comida sem a comer. — Sei agora.

A mãe pôs-lhe a mão no braço, sem dizer nada, e a conversa passou para outra coisa.

Mas Rafael ficou com aquilo na cabeça o resto do jantar.

🍃 🍃 🍃

Às dez em ponto tocou a campainha.

O pai chegou primeiro à porta, porque Rafael se levantou tão depressa da cadeira que ela quase tombou e ainda assim chegou tarde.

— Boa noite, Sr. Wei. D. Clara. — Leo entrou com o casaco no braço. — Desculpem a hora.

— Não digas isso — disse a mãe. — Entra.

Leo procurou-o com os olhos. Pôs-lhe a mão na cabeça e deu-lhe um beijo na testa, à frente dos pais, como já fazia sem pensar.

— Estou perdoado?

Rafael abriu a boca para dizer que não estava. Olhou para o pai. Olhou outra vez para Leo, para a cara cansada dele, para a camisa amarrotada de um dia inteiro.

E disse a verdade.

— O perdão é a dobrar. Eu também não te mandei nada.

Leo pestanejou.

— Como assim?

— O meu pai já me explicou como assim.

O Sr. Wei, do sofá, não levantou os olhos do jornal.

— Vão lá para cima — disse. — Falem à vontade.

Leo endireitou-se logo.

— Nós ficamos bem aqui, Sr. Wei. A sério.

— Eu sei que ficam. — O pai virou uma página. — Mas eu também já fui novo, e vocês estão a começar agora. Vão.

A D. Clara escondeu o sorriso atrás da chávena.

Rafael estendeu a mão. Leo pegou nela.

E subiram.

Quando sair o próximo livro, queres saber?

Mais nada. E podes sair da lista quando quiseres.

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