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22 🔞 – A Primeira Noite Deles

🔞 Este capĂ­tulo contĂ©m conteĂșdo para leitores adultos.

Rafael mal teve tempo de abrir a torneira.

A porta abriu-se atrĂĄs dele e Leo entrou, sem roupa, sem pressa e sem esconder nada. Parou a dois passos, encostado ao batente, e deixou-se ver.

Rafael ficou a olhar. Devia ter desviado os olhos, ou rido, ou dito alguma coisa a fazer de conta que nĂŁo estava nervoso. NĂŁo fez nada disso. Olhou, e o que sentiu nĂŁo foi medo. Foi outra coisa, quente, que lhe subiu pelo peito e lhe fez esquecer o que ia dizer.

— São cinco minutos, dizias tu — disse Leo.

— Passaram?

— Passaram trĂȘs.

Leo aproximou-se e puxou-o para si, e foi a primeira vez que Rafael sentiu o corpo dele todo contra o seu, sem roupa pelo meio, sem carro, sem escuro. Era quente. Era muito maior do que o dele. As mĂŁos de Leo desceram-lhe pelas costas devagar e pararam onde as costas deixam de ser costas, e ficaram ali.

— Anjo. — A voz saiu-lhe contra o cabelo dele. — Olha para mim.

Rafael levantou a cara.

— Estás mesmo bem? Andaste a provocar-me a noite toda, mas isso não quer dizer nada, e eu quero ouvir-te dizer. Se me disseres para parar, eu paro. Agora, daqui a cinco minutos, a meio. Onde quer que seja.

— Não quero que pares.

— Diz-me outra vez.

— NĂŁo quero que pares, amor. — Rafael pĂŽs-lhe as mĂŁos no peito. — Quero ir mais longe. NĂŁo sei atĂ© onde. Sei que quero.

— Então promete-me uma coisa. — Leo levantou-lhe o queixo. — Se houver alguma coisa que não gostes, ou que te assuste, ou que te faça sentir estranho, dizes. Não te calas para me agradar. Prometes?

— Prometo.

— Então anda cá.

🍃 🍃 🍃

Beijou-o contra os azulejos, com a ĂĄgua a correr atrĂĄs deles e o espelho jĂĄ embaciado.

Não foi como os beijos do carro. Leo jå não estava a medir nada. Beijou-o fundo, mordeu-lhe o låbio de leve, puxou-o pela nuca, e Rafael percebeu, com uma espécie de vertigem, que aquele era o homem que o Henrique conhecia e ele não.

E gostou.

A boca de Leo desceu-lhe pelo queixo, pelo pescoço, e demorou-se ali. Rafael agarrou-se-lhe aos ombros porque as pernas jå não estavam a colaborar. Uma das mãos de Leo segurava-lhe a nuca. A outra andava pelo peito dele, e parou onde a pele era mais sensível, e brincou ali com os dedos até Rafael deixar escapar um som que nunca tinha feito na vida.

— Isso — disse Leo, contra a pele dele. — Deixa sair. Quero ouvir tudo.

— Leo


— Diz-me se parar.

— Não pares.

A boca de Leo seguiu o caminho dos dedos. Rafael fechou os olhos e deixou a cabeça cair para trås contra o azulejo, e sentiu os låbios dele a descerem pelo peito, pelo estÎmago, devagar, um beijo de cada vez, como quem tem a noite toda e sabe disso.

Quando percebeu onde Ă© que aquilo ia dar, abriu os olhos.

— Leo. — A voz saiu-lhe fina. — Tu não tens de


— Eu sei que não tenho. — Leo levantou os olhos para ele, ajoelhado à frente dele, e sorriu de uma maneira que fez o chão da casa de banho mexer-se. — Quero.

Rafael abriu a boca para dizer alguma coisa e nĂŁo chegou a dizer nada.

O que veio a seguir apagou-lhe o resto do mundo. Ficou o calor da ågua nas costas, os azulejos frios nos ombros, e uma mão grande aberta na barriga dele para o manter de pé. Tentou não fazer barulho nos primeiros segundos, por vergonha, e depois desistiu, porque Leo lhe tinha pedido para não o fazer e porque jå não conseguia.

— Amor
 — Agarrou-se ao cabelo dele sem pensar, e sentiu-o rir. — Eu vou
 Leo


As pernas cederam-lhe de vez.

Escorregou pela parede abaixo até ficar sentado no chão do duche, com a ågua a cair-lhe nas costas e a respiração desfeita. Leo continuou de joelhos à frente dele.

— Estás bem, anjo?

Rafael riu-se, sem forças.

— Estou Ăłtimo. — Abriu um olho. — Tu Ă© que acho que nĂŁo.

Leo estava corado até ao pescoço, com o peito a subir e a descer e as mãos a tremerem-lhe um bocado, e não escondia nada do que aquilo lhe estava a custar.

— Eu estou bem.

— Levanta-te.

— Rafael


— Levanta-te — repetiu, e havia qualquer coisa na voz dele que não estava lá uma hora antes.

Leo levantou-se.

E foi a vez de Rafael ficar de joelhos.

🍃 🍃 🍃

Leo ficou imĂłvel.

Não estava à espera daquilo. Não daquele rapaz, que tremia quando o beijavam, que corava quando lhe chamavam anjo à frente de um empregado de mesa. E, no entanto, ali estava ele, com a ågua a correr-lhe pelas costas e os olhos levantados, a tentar disfarçar o nervosismo e a não conseguir.

— Não tens de fazer isto.

— Eu sei. — Rafael engoliu em seco. — Mas quero. Diz-me como.

Leo fechou os olhos um segundo. Quando os abriu, havia neles uma coisa que Rafael nunca lhe tinha visto: uma rendição completa, sem defesas nenhumas.

— Não há como — disse, rouco. — Vai devagar. Usa as mãos. E, se não gostares, paras, e não acontece nada.

Rafael aproximou-se com um cuidado quase reverente.

Começou pelas mãos, como tinha aprendido no carro, e foi nos sinais que encontrou coragem: a respiração de Leo a prender-se, a mão dele a fechar-se na borda do duche, o som baixo que lhe escapou e que ele não conseguiu segurar. Quando se aproximou pela primeira vez com a boca, foi um roçar apenas, quase uma pergunta.

Leo fez um som que nĂŁo tinha nada a ver com ele.

Rafael continuou. Havia coisas desconfortĂĄveis, o queixo, os joelhos no chĂŁo duro, a estranheza de tudo aquilo. Mas por cima disso havia uma vontade que ele nĂŁo sabia nomear: a de dar. De ser ele a fazer alguma coisa, pela primeira vez, em vez de receber.

As mãos de Leo pousaram-lhe na cabeça. Não empurraram. Ficaram ali, com uma delicadeza que não combinava nada com o tamanho delas, e de vez em quando os dedos fechavam-se-lhe no cabelo e voltavam a abrir-se, como quem se segura a si próprio.

— Rafael.

O nome saiu-lhe partido. NĂŁo era um pedido. Era sĂł o nome a escapar.

E quando Leo chegou ao fim, foi assim, com o nome dele na boca, mais parecido com uma reza do que com uma palavra.

🍃 🍃 🍃

Rafael ficou ali sentado, a recuperar o fĂŽlego. Tossiu um bocado. E depois, sem perceber porquĂȘ, começou a chorar.

NĂŁo foi dor. NĂŁo foi nojo. As lĂĄgrimas vieram sozinhas, em silĂȘncio, misturadas com a ĂĄgua, e ele nĂŁo conseguiu explicĂĄ-las nem a si prĂłprio.

Leo ajoelhou-se Ă  frente dele tĂŁo depressa que bateu com o joelho no chĂŁo.

— Anjo. — Segurou-lhe a cara com as duas mãos. — Olha para mim. Assustei-te? Fui longe demais? Diz-me.

— Não. — Rafael abanou a cabeça, a rir e a chorar ao mesmo tempo. — Não foi nada disso. Eu queria. Se não quisesse, tinha parado, e tu sabes que eu tinha parado.

— EntĂŁo porquĂȘ?

— Não sei. — Passou o braço pelo pescoço dele e encostou-lhe a cara ao ombro. — Acho que foi por ser a primeira vez que eu te dei alguma coisa. Sempre me deste tudo tu. Hoje fui eu.

Leo apertou-o com força.

E foi só quando Rafael lhe pÎs a mão na cara que percebeu que também ele estava a chorar.

— Amor. — Rafael limpou-lhe a cara com o polegar, como Leo fazia com ele. — Estou bem. A sĂ©rio.

— Eu não queria que a tua primeira vez fosse no chão de uma casa de banho.

— Foi no sítio onde eu quis que fosse. — Rafael sorriu. — E promete-me uma coisa.

— Outra vez?

— Esta Ă© importante. — Afastou-se para lhe ver os olhos. — NĂŁo te retraias comigo. Aquele que tu foste hĂĄ bocado, quando deixaste de medir tudo, tambĂ©m Ă©s tu. Eu quero esse. Quero-te inteiro, jĂĄ te disse.

Leo demorou a responder.

— Prometo tentar — disse, por fim. — Mas tu prometes dizer quando for demais. Não aceitas nada só para me agradar.

— Prometido.

🍃 🍃 🍃

Tomaram banho a sério depois, os dois debaixo da ågua, sem pressa. Lavaram-se um ao outro, e a certa altura Rafael estava a rir-se porque Leo lhe estava a lavar o cabelo com uma concentração de quem desarma uma bomba.

— Estás a fazer isso com muita seriedade.

— Estou a fazĂȘ-lo bem. Que Ă© diferente.

— EstĂĄs a fazĂȘ-lo como se eu fosse um cĂŁo pequenino.

— Cala-te e fecha os olhos, que tens champî a cair.

Quando saĂ­ram, jĂĄ nĂŁo havia vergonha nenhuma entre os dois. Rafael vestiu o pijama do Nuno, que lhe ficava grande nos ombros, e sentou-se na beira da cama.

— Leo.

— Diz.

— Preciso de comer qualquer coisa.

Leo nĂŁo perguntou porquĂȘ, nĂŁo fez cara de preocupado, nĂŁo se atrapalhou. JĂĄ nĂŁo precisava. Desceu Ă  cozinha e voltou dois minutos depois com um pacote de sumo e um croissant num prato.

— Chega?

— Chega. — Rafael picou o dedo primeiro, com o estojo em cima dos joelhos. — Oitenta e oito.

— Baixou.

— Baixou. — Rafael abriu o sumo. — Faz-se exercício, baixa.

Leo abriu a boca. Fechou-a. E ficou com uma cara tĂŁo parva que Rafael quase se engasgou com o croissant a rir.

🍃 🍃 🍃

Deitaram-se por volta das trĂȘs da manhĂŁ.

Rafael encostou-se-lhe ao peito com a mesma naturalidade com que se sentava no sofĂĄ em casa dos pais, e adormeceu em menos de um minuto, com uma mĂŁo fechada na camisa do pijama do Nuno.

Leo ficou acordado muito tempo.

NĂŁo era a primeira vez que tinha alguĂ©m na cama. Era a primeira vez que deixava alguĂ©m dormir ali. Nem a Beatriz, nos dois anos em que viveram juntos, tinha adormecido naquele quarto; ele ia para o escritĂłrio, ou ficava a trabalhar atĂ© ela dormir, ou inventava qualquer coisa. Nunca tinha percebido bem porquĂȘ.

Agora percebia.

Ficou a ouvi-lo respirar, com o braço dormente por baixo da cabeça do rapaz, sem o mexer para não o acordar, e pensou em tudo o que tinha acontecido naquele dia. A conversa com o pai dele no quintal. O corredor. As marcas nos pulsos. O Mårio a chorar contra a parede. E aquele rapaz de dezoito anos, no chão de uma casa de banho, a dizer hoje fui eu.

NĂŁo te vou perder, pensou. NĂŁo sei o que faria.

Adormeceu de madrugada, com a cara encostada ao cabelo dele.

🍃 🍃 🍃

Acordaram tarde, porque era såbado e porque ninguém pÎs despertador nenhum.

Leo acordou primeiro. Ficou um bocado quieto, a olhar para o teto, com o peso morno do rapaz em cima do braço. Depois saiu da cama devagar, tomou banho, e desceu a fazer o pequeno-almoço.

Voltou com uma bandeja: leite morno, pĂŁo, fiambre, fruta, e nada com açĂșcar a mais.

Pousou-a na mesa do recanto e sentou-se na beira da cama.

— Anjo. Acorda.

— Mmm.

— São onze e meia.

— Mãe, mais cinco minutos.

Leo ficou dois segundos em silĂȘncio.

— Eu sou muita coisa — disse —, mas a tua mãe não sou.

Rafael abriu um olho. Depois o outro. E depois ficou vermelho até à raiz do cabelo.

— Desculpa. Pensei que estava em minha casa.

— Estás na tua casa.

Aquilo apanhou-o desprevenido. Rafael ficou a olhar para ele, com o cabelo todo levantado de um lado, e nĂŁo disse nada durante um bocado.

— Não me mimes muito — disse, por fim. — Que eu habituo-me.

— Esse Ă© o plano.

🍃 🍃 🍃

Comeram no recanto ao pé da varanda, com a porta aberta e o cheiro da manhã a entrar.

Ou melhor: Leo sentou-se numa cadeira e Rafael, em vez de se sentar na outra, sentou-se em cima dele.

— Gosto do teu colo, velhote. Posso ficar aqui?

— Podes ficar aí sempre que quiseres. É teu.

Comeram assim, entre conversas e bocados de pĂŁo roubados do prato um do outro. A certa altura, Rafael levantou-se para ir tomar banho e, ao passar por ele, levou uma palmada leve.

Deu um salto e voltou-se, de olhos esbugalhados.

— Desculpa. — Leo levantou logo as mãos. — Magoei-te? Assustei-te?

Rafael começou a rir-se.

— NĂŁo. Foi sĂł surpresa. — Encolheu os ombros, com a cara vermelha e o sorriso a fugir-lhe pelos cantos. — E gostei. Esse Ă©s tu. Eu jĂĄ te disse que quero esse.

Foi até à porta do espelho. Jå com a mão na maçaneta, olhou por cima do ombro e disse, com toda a calma do mundo:

— Da próxima vez podes bater com um bocadinho mais de força.

E desapareceu lĂĄ dentro.

Leo ficou sentado Ă  mesa, com uma chĂĄvena na mĂŁo, a olhar para a porta fechada.

— Este rapaz vai matar-me — disse, para a chávena.

🍃 🍃 🍃

Quando voltou, enrolado numa toalha, encontrou roupa dobrada em cima da cama. Calças de ganga, uma t-shirt e roupa interior que não era dele.

— Isto nĂŁo Ă© meu.

— É do Nuno. — Leo estava a apertar o relĂłgio, ao espelho. — VocĂȘs tĂȘm o mesmo tamanho. E nĂŁo vais sair daqui com a roupa de ontem.

Rafael pegou na t-shirt e ficou a olhar para ela.

— Leo.

— Diz.

— Como Ă© que eu explico ao Nuno que ando com a roupa dele?

Leo parou com o relĂłgio a meio do pulso.

— Isso — disse — Ă© um problema teu.

Quando sair o prĂłximo livro, queres saber?

Mais nada. E podes sair da lista quando quiseres.

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