Capítulo 22 — O Plano de Rafael
Pouco depois, saíram. Leo deixou Rafael à porta da escola e seguiu para o trabalho.
Assim que entrou, Rafael ligou ao amigo.
📞 — “Bom dia. Nuno, já chegaste?”
📞 — [Sim, estou no bar da escola.]
📞 — “Ok, até já.”
O bar estava cheio, mas Rafael encontrou-o rapidamente.
— Bom dia. Vens de casa do meu tio, não vens? — perguntou Nuno, mal o viu.
— Como sabes?
Nuno riu.
— Achas mesmo que eu não reconheço as minhas roupas?
Rafael corou.
— Dormi em casa do Leo, sim. Importaste-te que eu usasse as tuas roupas?
— Tu estás parvo? Claro que não. O que eu quero saber é o que se passou ontem. Como correu a noite?
— Conto-te tudo à hora de almoço. Prometo. Tenho muita coisa para te contar.
— Vou cobrar. Mas diz-me só uma coisa… tu e o meu tio já…?
— Ainda não.
Rafael ficou vermelho como um tomate.
— Mas ele nem te toca? — insistiu Nuno. — Percebo que ele respeite o teu tempo, mas…
— Ele toca, sim. E… toca muito bem. Só não me sinto preparado para ir até ao fim. Satisfeito?
Nuno sorriu, aliviado.
— Estava a ficar preocupado com o meu tio.
— O teu tio é fantástico. E preocupa-se comigo. Agora vamos, está na hora.
— À hora de almoço não escapas.
— Eu sei.
Saíram para a aula.
🍃 🍃 🍃
Leo entrou no edifício com um sorriso que contagiava quem passava. Ia a caminho do escritório quando recebeu uma mensagem de Henrique, pedindo que passasse por lá.
Como sempre, entrou sem bater.
— Quando é que aprendes a bater à porta? — resmungou Henrique.
— Nunca — respondeu Leo, ainda sorridente. Mas o sorriso desapareceu ao ver o rosto do amigo. — Henrique… aconteceu alguma coisa?
— Mais ou menos. O Mário não dormiu a noite toda. Chorou como eu nunca o vi chorar, nem quando era por causa do pai. Está preocupado com tudo o que aconteceu ontem. E eu também. Como está o miúdo?
Leo sentou-se, mais sério.
— Está ótimo. Ficou em choque quando percebeu quem o Mário era, mas ficou feliz. E quanto ao resto… não o incomodou. O Rafael é forte. O Mário está acordado?
— Deve estar. Porquê?
— Vou ligar-lhe. Quero acalmá-lo. Posso?
— Por favor. Odeio vê-lo assim e não poder fazer nada.
Leo pegou no telemóvel e ligou para Mário.
📞 — [Leo, bom dia… está tudo bem? O Rafael está bem?]
📞 — “Bom dia, Mário. Está tudo ótimo. O Rafael está fantástico. Ficou chocado ao perceber que o primo estava vivo, está em choque com o que o teu pai fez, como é natural …, mas está feliz, acredita. Respira fundo e tenta descansar um pouco. Vou enviar-te o número dele. Não lhe ligues agora, deve estar nas aulas. Ele almoça entre as 13h e as 14h30. Liga-lhe nessa altura. Ele vai gostar de te ouvir.”
Do outro lado, Leo ouviu um suspiro trémulo.
📞 — [Posso mesmo ligar? Ele não vai ficar chateado? Ele está bem… mesmo?]
📞 — “Liga-lhe e vais perceber por ti.”
Houve um silêncio breve, seguido de um pedido quase suplicante.
📞 — [Obrigado, Leo…por ligares]
📞 — “Vai descansar. Tens aqui alguém muito aflito por ti.”
📞 — [Diz-lhe que o amo… e que agora vou dormir um pouco. Já estou melhor.]
Quando Leo desligou, ouviu um suspiro profundo ao seu lado. Henrique parecia finalmente respirar.
— Obrigado, Leo… estava a ficar desesperado. Já não sabia o que fazer — confessou, passando a mão pelo rosto.
— Ele diz que te ama. E que vai descansar agora — disse Leo, sorrindo.
— Não te via sorrir assim há muitos anos. Fico mesmo feliz por ti.
Leo encostou-se à cadeira, deixando escapar um sorriso quase envergonhado.
— Eu não me sentia assim há muito tempo. Só de pensar nele… só de o ter ao meu lado… é suficiente para me preencher. Com ele começo a perceber o que é o amor. E que não tem nada a ver com sexo. É outra coisa. É… fazer amor, no sentido mais profundo. Sabes, desde que começámos a sair, não tivemos nada disso. E acredita: estou bem. Claro que quero, mas não é prioridade. Vai acontecer quando tiver de acontecer.
Henrique sorriu, emocionado.
— Estou tão feliz por ti, Leo. Aquele menino trouxe de volta o melhor de ti. Trata-o bem… ou ganho um inimigo.
— Porque iria tratar mal quem eu amo? — Leo levantou-se. — Vamos trabalhar. Quanto mais rápido passar o tempo, mais depressa volto a ver o meu garotinho.
🍃 🍃 🍃
A hora de almoço chegou.
Rafael e Nuno saíram da faculdade e foram ao sítio habitual. Nuno estava quase a tremer de curiosidade.
— Rafael, vais contar-me ou não? Estou a morrer de ansiedade — disse assim que se sentaram.
Rafael riu-se da aflição do amigo.
Mas antes que pudesse começar a falar, o telemóvel tocou.
Ao ver o número desconhecido no ecrã, Rafael vacilou. Depois olhou para Nuno, inspirou profundamente e decidiu atender.
📞 — “Sim, quem fala?” — Rafael atendeu com alguma hesitação, mas relaxou assim que reconheceu a voz do outro lado.
📞 — [Piolho, és tu?]
📞 — “Mário?! Quem te deu o meu número?”
O rosto de Rafael iluminou-se de imediato, e Nuno, sentado à sua frente, percebeu que não era o tio quem ligava. A curiosidade dele aumentou na mesma proporção que o sorriso de Rafael.
📞 — [Foi o Leo. Ligou-me de manhã e deu-me. O Henrique deve ter falado com ele. Fiquei tão preocupado… e deixei o Henrique ainda pior. Ele acabou por comentar com o Leo.]
A voz de Mário carregava preocupação, mas também um alívio tímido.
📞 — “Eu estou bem. Fiquei chocado, claro…, mas estou muito feliz por te ter de volta à minha vida. O que eu não entendo é porque o teu pai tem de agir assim.”
📞 — [Fiquei tão preocupado, Piolho…, mas feliz por estares bem.]
📞 — “Estou bem. Mesmo. Olha… queres que mantenha segredo ou posso contar?”
📞 — [Podes contar. Estou pronto para ‘ressuscitar’ e enfrentar o meu pai.]
📞 — “Ótimo, porque tenho aqui à minha frente um Nuno a deitar fumo pelas orelhas. A cabeça dele está a mil.”
Nuno olhava-o com uma mistura de impaciência e fascínio, mas tranquilo ao ver o sorriso genuíno do amigo.
📞 — "Obrigado. Um abraço. Feliz por estares bem.”
📞 — [Um abraço, Piolho. Muito feliz por estares bem.]
Rafael desligou e encontrou o olhar ansioso de Nuno pousado nele.
— Vais contar-me ou não? Esta ansiedade está a matar-me. Nem me consegui concentrar nas aulas.
Rafael riu-se, divertido com o desespero do amigo.
— Vou contar tudo. Mas prometes que não me interrompes? Perguntas só no fim.
— Prometo! Mas fala rápido ou eu morro aqui mesmo.
Rafael respirou fundo e começou a relatar tudo o que tinha acontecido nas últimas horas — omitindo apenas as partes mais íntimas entre ele e Leo.
Enquanto falava, Nuno mudava de expressão como se estivesse a assistir a um filme: espanto, indignação, tristeza, alívio, surpresa.
Quando Rafael terminou, Nuno ficou alguns segundos em silêncio, a absorver tudo.
— Rafael… tu estás bem? Foi um dia em cheio. Eu não sei o que faria no teu lugar. Aguentares aquela doida, enfrentares tudo aquilo, acreditares no meu tio… e depois veres o “fantasma” do teu primo… eu não sei como reagiria.
— Não foi fácil — admitiu Rafael. — Mas agradeço ao teu tio por me ter contado a verdade. Se eu não soubesse que ele não podia ter filhos, tinha acreditado nela. Ela parecia tão convincente…
Nuno suspirou.
— O meu tio gosta de ti. Gosta mesmo. Ele nunca conta a vida a ninguém. Nem à quase-mulher. Ele nunca foi carinhoso connosco, e nós sabemos que ele gosta de nós… mas contigo é diferente. Contigo ele é outra pessoa. Mas… o que se passou com o Mário?
— Não sei tudo. Só sei que o meu tio não aceitou que ele fosse gay, e muito menos que namorasse alguém mais velho. Acho que o ameaçou — a ele ou ao Henrique. O Mário escolheu ser feliz… e o meu tio “matou-o”. Eu nunca gostei dele. Agora odeio-o. Fez-me perder quatro anos. Nunca lhe vou perdoar.
— Eu sei… eu também gostava dele. Ele era bom para mim. Tratava-me como tratava a ti. — Nuno ergueu as mãos para o céu. — Graças a Deus pelas famílias em que nascemos.
— Graças a Deus, os meus pais adoram o Leo.
— Os teus pais são de outro mundo. Agora diz-me uma coisa… tu gostas do meu tio?
A pergunta apanhou Rafael de surpresa.
— Claro que gosto. Ou não estava com ele. Se me perguntas se o amo… não sei. Nunca amei ninguém que não fosse a minha família… e tu. Mas quase posso dizer que é isso que sinto por ele. Estar com ele deixa-me feliz. Sinto-me bem.
— Então porque não deixas que ele… pronto… que ele avance contigo?
— Estás a falar de sexo?
— Sim. Não percebo porque te negas.
— Nuno… nem tudo é sexo. Vais perceber isso um dia. Eu gosto do teu tio e desejo-o muito. Ele também me deseja. Ainda não aconteceu tudo — disse Rafael, malandro. — Tenho medo. E ele está a dar-me tempo.
— Medo de quê?
— De não o satisfazer. De o perder. De não saber o que fazer. Da dor.
Nuno revirou os olhos.
— Se não fosses meu amigo, batia-te agora. Ninguém nasce ensinado. Aprende-se. O meu tio vai adorar ensinar-te. E olha… o sonho de qualquer homem é ser o primeiro na vida do outro. O meu tio não é exceção. Porque achas que ele te escolheu? Ele podia ter quem quisesse.
— Ele diz-me isso.
— Então pronto.
— Dá-me só mais tempo. Acabámos de começar a namorar. Está tão bom assim.
— Mas o meu tio consegue manter-se afastado de ti? Ainda não aconteceu nada?
Rafael sorriu, malandro.
— Curioso?
— Muito.
— Há coisas que não te vou contar. Mas posso dizer que o teu tio tem umas ótimas mãos… e uma boca fantástica.
Nuno abriu um sorriso enorme.
— Justo. Muito justo. E estou muito feliz por vocês os dois. Agora… sábado. Como vais? O meu tio vai buscar-te?
— Não te preocupes. Eu apareço lá. Com a tua prenda.
— Já compraste a minha prenda? Mas ontem ainda não tinhas nada!
— Depois vês. Vais gostar. Agora vamos, está na hora das aulas.
— Vais deixar-me curioso?
— Vou.
Rafael levantou-se, pagou a refeição e saiu, deixando Nuno a protestar infantilmente.
— Mau!
Rafael respondeu-lhe com a língua de fora antes de sair da loja.
O resto do dia passou depressa. No final das aulas, cada um seguiu o seu caminho habitual.
🍃 🍃 🍃
Ao chegar a casa, Rafael sabia que ainda tinha uma parte importante do seu plano por resolver. Se queria que tudo corresse bem no sábado, precisava da aprovação dos pais de Nuno. Não avançaria sem falar com eles.
S ubiu para o quarto, procurou o número no telemóvel e l— perguntou ela, preocupada. Era raro Rafael ligar-lhe.
📞 — “Olá, tia.”
📞 — [Olá, meu querido. Está tudo bem? Precisas de alguma coisa?]— perguntou ela, preocupada. Era raro Rafael ligar-lhe.
📞 — “Está tudo bem. Só queria perguntar uma coisa… tenho uma prenda especial para dar ao Nuno, mas preciso da vossa aprovação. Queria saber o que pensam.”
Houve um breve silêncio do outro lado.
📞 — [Agora deixaste-me preocupada. Fala, querido.]
📞 — “Tia… eu sei que vocês não são preconceituosos. Pelo menos não com os outros. Mas… e se for com o Nuno?”
📞 — [Com o meu filho seria igual. Mas porquê?] — a voz dela soou intrigada. Ela nunca ligara ao género de quem os filhos amavam, desde que houvesse amor.
📞 — “Eu queria levar alguém comigo… alguém que sei que ele vai adorar. E alguém de quem ele gosta há muito tempo. Mas é um homem. E eu não quero fazer nada que vá contra o que vocês pensam.”
📞 — [Meu querido, nós sabemos há muito tempo que o Nuno é gay, se é isso que te preocupa. E estamos bem com isso. Acreditamos no amor livre. Mas posso saber quem é essa pessoa?]
📞 — “Claro. É o meu irmão Luís.”
Do outro lado, Rafael ouviu um suspiro tão profundo que não conseguiu evitar rir.
📞 — “O Luís ama o Nuno há muito tempo. Nunca fez nada porque o Nuno era novo… e porque achava que ele era hétero. Mas eu sei que o Nuno também gosta dele. Por isso pensei que era uma boa altura para os juntar. Se puder ser com a vossa bênção.”
📞 — [Filho… estaríamos sempre bem com quem ele escolhesse. Mas confesso que fico muito mais descansada sabendo que é o teu irmão.]
A senhora ria agora, enternecida com o plano de Rafael.
📞 — “Então, tia… pode contar com mais uma boca para comer. E, por favor, não digam nada ao Nuno. Ele não desconfia de nada.”
📞 — [Combinado. Será um segredo.]
📞 — “Obrigada, tia. Quem me dera que todos fossem como vocês… e como os meus pais.”
A frase saiu-lhe mais triste do que pretendia.
📞 — [Há tristeza na tua voz, querido. Está tudo bem?]
📞 — “Desculpe, tia. Está tudo bem.”
Desligou.
Mas outra preocupação crescia dentro dele:
Como reagiriam os seus pais ao saberem a verdade sobre o tio e o primo? A mãe adorava o irmão, e ele era a única família que lhe restava. Como suportaria descobrir que ele rejeitara o próprio filho?
Rafael suspirou.
Ainda não era o tempo certo. Precisava de organizar o turbilhão dentro de si e falar primeiro com Mário, antes de chamar os pais para aquela verdade.
De repente, lembrou-se de Amélia.
Já tinha a prenda de Nuno, mas ainda não a dela. Ficou sem saber o que fazer por instantes, até que uma ideia lhe surgiu, arrancando-lhe um sorriso malandro: o tio de Amélia podia ajudá-lo.
Com o plano já a formar-se na cabeça, Rafael foi tomar banho e depois desceu para estar com os pais antes do jantar. Mas, apesar de tudo o que conseguira naquele dia, havia algo que lhe pesava no peito:
Leo não tinha ligado, nem sequer enviado uma mensagem.
E isso doía mais do que queria admitir.
🍃 🍃 🍃
O resto do dia passou rápido para Leo, até que perto da hora do jantar percebeu que não tinha falado com Rafael e não tinha combinado nada com ele. Mas ele precisava de ver o seu garotinho. Só então se apercebeu que não lhe tinha ligado o dia todo ou enviado SMS.
Depressa corrigiu o seu erro e fez uma ligação. Do outro lado não demorou a atender.
📞 — “Olá, anjo. Boa noite. Como estás?”
📞 — [Olá. Então ainda te lembras que eu existo?]
Foi um Rafael triste que falou, na voz percebia-se a tristeza e não conseguiu deixar de ser sarcástico. Leo sentiu que lhe tinham partido o coração, tinha magoado o seu garotinho, não era sua intenção, mas tinha.
📞— “Desculpa, anjo, desculpa-me. Juro-te que não volta a acontecer. Eu não me esqueci de ti. Convenci-me que tínhamos marcado para estar juntos hoje á noite, mas afinal não.”
📞 — [Tudo bem. Estás a ligar agora. Que querias?]
📞 — “Ouvir a tua voz não é o suficiente?”
Leo disse brincalhão.
📞 — [Só ouvir a minha voz, já te deixa feliz?]
📞 — “Acredita que sim, mas não chega. Quero ver-te. Posso ir até aí depois do jantar para estarmos juntos um pouquinho?”
📞— [Tu foste mau comigo o dia todo, nem uma mensagem, nada. Não devia deixar que vieses aqui.]
📞— “Rafael…tu ficaste mesmo chateado, não ficaste? Merda, jurei a mim mesmo que nunca te magoaria e afinal fui o primeiro a fazê-lo e logo nos primeiros dias. Compreendo que não me queiras ver. Respeito. Vou voltar para casa hoje, eu mereço.”
Rafael percebeu a tristeza em voz e em como ele estava verdadeiramente sentido pelo que tinha feito. Sabia que o tinha magoado, ainda que não te tenha essa intenção. Rafael sabia que estava a ser rude também.
📞 — [Ok, podes passar por aqui…]
📞— “E estou perdoado, anjo? Prometo não voltar a fazer isso. Mas o meu garotinho também me podia ter enviado uma mensagenzinha que fosse.”
📞 — [Ok, ok. Ambos erramos. Passas por aqui, então?]
📞 — “Se estiver tudo bem por ti e pelos teus pais.”
📞 — [Então, podes vir á vontade, eles adoram-te!]
📞 — “Só eles…”
Leo provocou.
📞 — [Não abuses…]
Rafael entrou na brincadeira.
📞 — “Um beijo, amor. Até já.”
📞 — [Até já.]
Foi um Leo mais feliz que desligou a chamada, com o registo na sua mente que isso passaria a enviar-lhe mensagem de vez enquanto e a ligar-lhe com mais frequência.
Leo saiu finalmente do escritório, enviou uma SMS a Henrique, que também já tinha saído, a informá-lo que nessa noite não iria ao Bar, pois iria ficar com o seu garotinho.
Foi em direção a casa, feliz por perceber que apenas algumas horas com o seu Anjo eram suficientes para o deixar assim.
E Leo entrou em casa com um sorriso no rosto.
🍃 🍃 🍃
Foi um Rafael mais feliz que desligou o telefone e se aproximou dos pais, que estavam juntos na cozinha a preparar o jantar, e abraçou-os, deu um beijo a cada um deles.
— Filho, esse teu sorriso, espero que nunca o percas. — D Clara disse ao ver o filho feliz.
— Mãe, enquanto eu estiver com Leo e ele me tratar como me tem tratado, não tem como eu não ser feliz. Ele é tudo o que sonho e ainda mais.
— Filho, hoje não vais sair? — Perguntou o pai.
— Não, ele vem daqui a pouco ficar aqui comigo e conversar, assim aproveito e adianto umas coisas da escola. Oh, a propósito, Sábado é o aniversario do Nuno e da Amelia, vou passar o dia lá e dormir com eles, como de costume. Já tenho o presente do Nuno, mas precisava de um dinheiro para comprar o da Amélia.
— Claro, meu filho. Sabes o que vais comprar? — A mãe perguntou.
— Não, mas vou pedir ao Leo que me ajude e pedir-lhe para ir comprar comigo.
— Fazes bem. Agora está na altura de irmos para a mesa. — A mãe anunciou.
O pai terminou a dizer:
— Meu filho, vou transferir dinheiro para tua conta, se for preciso mais só tens de dizer, ok.
— Obrigado, pai, não vou gastar muito, prometo.
— Eu sei que não.
Sentaram-se a mesa e como sempre a conversa fluía entre eles de uma forma natural.
No fim da refeição, Rafael queira ajudar os pais na cozinha, mas foi enviado para a quarto para estudar enquanto esperava pelo namorado, que não se fez esperar muito.
🍃 🍃 🍃
A campainha da porta, tocou, pouco tempo depois de Rafael ter entrado no quarto e como se a cadeira tivesse molas, dá um salto e corre para a porta, mas o pai já tinha aberto. Leo já tinha entrado e estava a cumprimentar os pais do menino.
— Boa noite, pai, mãe. Espero não vir incomodar. Mas queria ver o Rafael. Hoje não falei com ele. — E virando-se para o menino, levou uma das mãos a cabeça deste e afagou-a, ao mesmo tempo que o seu rosto se inclinou para deixar um beijo na testa do garotinho. Que corou. — E, tu meu Anjo. Estou perdoado?
— Bom, vamos entrar e conversam lá dentro. — Disse D. Clara.
Entraram e todos sentaram-se no sofá. Os pais olhavam, desconfiados para o filho, que parecia um pouco distante de Leo e pouco lhe falava.
— Rafael, que se passa? Leo veio até aqui para estar contigo e tu não lhe falas? — O pai perguntou.
— Estou chateado com ele, pai. — O menino disse com s braços cruzados sobre o peito, fingindo um ar magoado.
— Rafael, já pedi desculpas e estou aqui agora. — Disse um Leo um pouco nervoso.
— E pode saber-se o que se passou? — O pai reforçou a pergunta. Conhecia o filho que tinha.
— O Leo hoje não me ligou, nem mandou mensagem, esqueceu que eu existo, pai. — Disse o menino triste, e o pai olhou para ele de uma forma estranha.
— Rafael, eu não te ensinei a seres assim. Egoísta e só a pensares em ti. — O pai disse um pouco zangado.
— Pai?! — O menino disse estranhando a reprimenda, sem perceber porque o pai disse aquilo.
— Tu já pensaste que Leo está a trabalhar? Que está ocupado? E porque tem de ser só ele a enviar mensagem ou a ligar, não me dizes? Já pensaste que ele também pode gostar de receber uma simples mensagem tua ou uma ligação? E vocês são dois na relação, o investimento tem de ser dos dois, não só de um. Ou por muito que ele te ame, vais acabar por se cansar.
Depois da reprimenda do pai, Rafael baixou a cabeça, incapaz de olhar quer o pai quer o namorado. O pai tinha razão no que disse, ele tinha estado a ser egoísta e a agir como uma criança.
— Para conversarem mais à vontade, vão para o teu quarto, lá estão mais á vontade. — Disse a D Clara.
— Nós ficamos bem aqui, D Clara. — Leo disse, pois não queria abusar da confiante dos dois.
— Filho, está tudo bem. Sei que não vais fazer nada de mal, aqui em casa. — Disse o Sr., Wei, com um sorriso maroto. — Mas eu já fui novo e sei bem como é. Vocês estão a começar agora. Vão.
O menino não disse nada, incapaz ainda de falar, mas levantou-se e estendeu a mão a Leo, que lhe pegou e foram até ao quarto.