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21 – O Nosso Quarto

A porta fechou-se atrás dela, e o corredor ficou em silêncio.

Rafael virou-se para Leo, à procura do sítio onde tinha estado a noite toda, o ombro, o braço, a mão. E não encontrou nada.

Leo estava parado no meio do corredor, com os punhos fechados e o olhar preso na porta. Não se mexia. Respirava depressa e curto. Quando Rafael lhe tocou no braço, ele nem deu por isso.

— Leo?

Nada.

— Leo, olha para mim. — A voz saiu-lhe fininha. — Amor?

O homem continuou a olhar para a porta.

E qualquer coisa dentro de Rafael, que tinha aguentado a mulher, o aperto nos pulsos e o corredor escuro sem estremecer, cedeu de uma vez. Recuou dois passos, virou-se e foi direito ao Mário, e encolheu-se contra o peito dele a chorar como não chorava desde os catorze anos.

— Eu não fiz nada — disse, contra o casaco do primo. — Eu não acreditei nela, primo, nem um segundo. Porque é que ele está assim? Está zangado comigo?

O Mário abraçou-o e olhou por cima da cabeça dele para o Henrique.

O Henrique foi ter com Leo. Pôs-lhe as duas mãos nos ombros e abanou-o, uma vez, sem cuidados.

— Leo. Acabou. Ela foi-se embora.

Leo não reagiu.

— Estás a assustar toda a gente. — O Henrique baixou a voz. — Estás a assustar o rapaz. Ele está ali a chorar. Volta.

Foi o choro que o trouxe de volta.

Leo voltou a cabeça devagar, como quem acorda num sítio errado, e viu Rafael agarrado ao primo, a tremer, com as costas a subir e a descer.

A raiva saiu-lhe do corpo de uma vez só, e o que ficou a seguir foi pior.

— Anjo.

Atravessou o corredor em três passos.

— Anjo, desculpa. — Estendeu a mão, e depois parou a meio, sem se atrever a tocar-lhe. — Desculpa. Olha para mim, por favor.

Rafael voltou-se, ainda com a cara molhada. E depois largou o primo e atirou-se a ele, e Leo apanhou-o como se o tivessem deixado cair de uma janela.

— Eu não acreditei nela — disse Rafael, contra o pescoço dele.

— Eu sei. Eu sei que não. Não foi por isso. — Leo apertou-o com força e falou-lhe para o cabelo. — Eu vi as marcas nos teus pulsos e deixei de ouvir. Não me lembro de mais nada. Tive medo de mim, Rafael. Nunca me tinha acontecido.

— Para de pedir desculpa.

— Eu vi-te ali agarrado por aquele animal e pensei…

— Não penses. — Rafael afastou-se o suficiente para lhe ver a cara, e pôs-lhe as duas mãos nela, como Leo lhe fazia a ele. — Estou aqui. Estou inteiro. Ela não me tirou nada.

Leo fechou os olhos e encostou a testa à dele.

O Mário, encostado à parede, tapou a boca com a mão. O Henrique puxou-o para si sem dizer nada.

🍃 🍃 🍃

Foi Leo quem quebrou o silêncio, uns minutos depois, já com a voz outra vez dele.

— Vamos embora. Por hoje já chega.

— Vais ficar bem, piolho? — perguntou o Mário.

— Vou. — Rafael limpou a cara com a manga. — A sério.

O Mário olhou para Leo. E o olhar dele, desta vez, não tinha nada de brincadeira.

— Cuida do meu primo.

— Vou cuidar.

Já iam a sair quando Rafael parou à porta do escritório e voltou para trás.

— Mário.

O primo levantou os olhos.

— Dá-me o teu número.

O Mário ficou parado. Abriu a boca. Olhou para o Henrique, e o Henrique fez-lhe um sinal pequeno com a cabeça, como quem diz vá.

— Piolho, eu não sei se…

— Eu não vou dizer nada a ninguém. — Rafael estendeu-lhe o telemóvel. — Nem aos meus pais, nem aos teus. A ninguém. Isso decides tu, e decides quando quiseres. — Fez uma pausa. — Mas eu passei quatro anos a pensar que tu tinhas morrido. Não vou sair daqui outra vez sem saber onde é que tu estás.

O Mário pegou no telemóvel com as mãos a tremer e escreveu o número. Devolveu-o. E depois puxou-o para outro abraço, um abraço rápido e apertado, daqueles que são para não deixar ver a cara.

— Liga-me — disse. — Quando quiseres. A qualquer hora.

— Ligo amanhã.

— Amanhã é sábado.

— Então ligo amanhã, que é sábado.

🍃 🍃 🍃

O caminho até ao carro fez-se em silêncio.

Rafael ia a olhar pela janela, com a cabeça encostada ao vidro. A euforia tinha passado e o que ficou foi um cansaço fundo, daqueles que vêm depois de muita coisa junta.

— Anjo. — Leo procurou-lhe a mão. — Ainda estás a pensar nela?

— Não.

— Então o que é?

— Nada.

— Rafael.

Era aquele tom. O que ele não conseguia aguentar.

Rafael suspirou e disse-o de uma vez, a olhar para o painel do carro.

— Não quero ir para minha casa.

Leo riu-se.

Rafael voltou-se, ofendido, e ele levantou uma mão, a pedir tempo.

— E quem é que te disse que íamos para tua casa?

— Tu disseste que me levavas para casa.

— Disse. Para minha casa. — Leo encolheu os ombros, com os olhos na estrada. — Que, na minha cabeça, já é nossa.

Rafael ficou a olhar para ele.

Não disse nada. Não conseguia. Mas pegou-lhe na mão em cima do travão de mão e não a largou até ao fim do caminho.

🍃 🍃 🍃

A casa apareceu ao fundo de uma rua tranquila, atrás de um muro branco coberto de buganvílias.

Rafael saiu do carro e ficou parado no passeio.

Era grande. Muito maior do que a casa dos pais dele. Branca, com janelas altas e um lanço de degraus de pedra até à porta, iluminados por luzinhas baixas entre os arbustos. As buganvílias subiam pelo muro todo, cor-de-rosa, e caíam do outro lado.

— Foi a minha mãe que as plantou — disse Leo, ao lado dele. — O meu pai queria vermelhas.

Rafael riu-se baixinho. Lembrava-se.

— E ganhou ela.

— Ganhou sempre ela.

Subiram os degraus de mão dada. Rafael tinha a mão húmida e Leo não comentou; apertou-lha e abriu a porta.

Dentro havia um corredor curto e uma sala grande, com um sofá comprido e janelas até ao chão. À direita, uma cozinha moderna com balcão, e a zona de jantar a seguir. À esquerda, uma escada larga subia para o primeiro andar.

Estava tudo muito arrumado. E muito silencioso.

Rafael parou no meio da sala sem saber o que fazer com as mãos.

Leo viu.

Não lhe mostrou a casa. Sentou-se no sofá, puxou-o pela mão e, quando o rapaz hesitou, puxou-o outra vez, até o ter sentado em cima dele, com as costas encostadas ao seu peito.

Rafael ficou rígido dois segundos. Depois deixou-se ir, e encostou a cabeça ao ombro dele, e soltou um suspiro que veio de muito fundo.

Cheirava ao perfume de Leo. Era quente. Era o sítio mais seguro em que tinha estado o dia inteiro.

— Melhor? — perguntou Leo, a beijar-lhe o alto da cabeça.

— Um bocadinho.

— Queres contar-me o que se passa nessa cabeça? — Passou-lhe a mão pelas costas, devagar. — E se preferires, levo-te a casa agora mesmo, e não fico chateado nem meio segundo. Só quero que te sintas bem aqui.

— Não quero ir para casa. — Rafael fechou os olhos. — Dá-me um bocadinho e já fico bem.

Leo levantou-lhe a cara com dois dedos no queixo.

— Tens medo de mim?

— Não. — Saiu-lhe depressa, e era verdade. — Nunca tive. Nem um segundo.

— Então?

Rafael ficou um bocado calado. Depois disse:

— Tu estás zangado por eu não querer ir até ao fim?

Leo ficou tão espantado que quase se riu, e não se riu porque percebeu a tempo que o rapaz estava a falar a sério.

— Zangado? — Abanou a cabeça. — Anjo, olha para mim. Eu já te disse, e vou dizer as vezes que forem precisas: o teu tempo é teu. Eu não estou à espera de nada esta noite. Trouxe-te para aqui porque não te queria deixar à porta de casa depois do que aconteceu. Só isso.

Rafael mexeu nos dedos dele, um por um, sem olhar para ele.

— É uma estupidez.

— Diz na mesma.

— Eu desejo-te. — Ficou vermelho, mas continuou. — Desejo-te muito. E ao mesmo tempo tenho um medo que não consigo explicar. É como se a cabeça e o resto de mim estivessem a puxar para lados diferentes.

— Medo de quê?

— De não ser como tu estás habituado. — A voz baixou-lhe. — De tu não gostares. De eu não aguentar e tu te fartares de mim. E se eu fizer tudo mal, e tu…

— Se acabas essa frase, ponho-te fora do sofá.

Rafael riu-se, e foi um riso molhado.

Leo pegou-lhe na mão e levantou-lhe a manga, com muito cuidado, até ver os pulsos. As marcas tinham escurecido, quatro dedos em cada um, roxas nas pontas.

Ficou a olhar para elas um bocado.

— Espera aqui.

Foi à cozinha e voltou com um pano com gelo lá dentro. Sentou-se ao lado dele e pousou-lhe o pano no pulso, a segurá-lo com as duas mãos, sem dizer nada.

— Leo.

— Diz.

— É o tamanho — soltou Rafael, num fôlego só, a olhar para o chão. — Pronto. Já disse. É o medo de que doa.

Leo não se riu. Não fez uma piada. Acenou devagar, como quem recebe uma coisa importante.

— Obrigado por me dizeres.

— Estou cheio de vergonha.

— Não tenhas. — Trocou o pano de pulso. — Eu não te vou mentir, nem hoje nem nunca. Pode doer um bocado ao princípio. Não muito, se formos devagar e se eu fizer as coisas bem. E vamos parar as vezes que tu quiseres parar. Uma, duas, dez. Se pararmos dez vezes, paramos dez vezes.

— E se pararmos e não voltarmos a começar?

— Então dormimos. — Leo encolheu os ombros. — Eu fico feliz na mesma. Isso é que tu ainda não acreditas, pois não?

Rafael olhou para ele. Para os olhos claros, para a barba já a nascer àquela hora da noite, para as mãos grandes a segurarem um pano com gelo em cima do pulso dele.

— Acredito, sim — disse. — É por isso que já decidi.

— Decidiste o quê?

— Quero. — Rafael engoliu em seco, mas não desviou os olhos. — Contigo. Não hoje, se calhar, ou se calhar hoje, não sei. Mas quero. Já não é o medo que manda. Quero enfrentar isto, amor.

Leo ficou muito quieto.

— O que é que me chamaste?

Rafael percebeu o que tinha dito e escondeu logo a cara no peito dele.

— Nada.

— Chamaste-me qualquer coisa.

— Não chamei nada.

— Rafael.

— Amor — disse ele, para a camisa dele, com a voz abafada. — Chamei-te amor. Pronto.

Leo pôs-lhe a mão na nuca, e Rafael sentiu-o respirar fundo.

— Diz outra vez.

— Outra vez não.

— Por favor.

Rafael levantou a cara. Estava vermelho até às orelhas, mas estava a sorrir.

— Amor.

Leo beijou-o. E não foi um beijo com pressa nenhuma. Foi um beijo de quem tem a noite toda e a casa toda e mais ninguém a quem dar satisfações.

— Eu tenho trinta e dois anos — disse, contra a boca dele. — E hoje é a primeira vez que alguém me chama isso e eu acredito.

🍃 🍃 🍃

Foi Leo quem quebrou o momento, porque eram quase duas da manhã e o rapaz tinha o dia inteiro em cima.

— Vamos tomar banho e dormir?

— Os dois? — perguntou Rafael, com a cara mais inocente do mundo.

— Não provoques.

— Estava só a perguntar.

— Ia adorar. — Leo levantou-se e puxou-o pela mão. — E é exatamente por isso que não. Hoje não. Anda.

Antes de subirem, Rafael parou na cozinha, tirou o estojo do bolso e picou o dedo. Leo esperou, encostado ao balcão, com os braços cruzados.

— Cento e vinte e quatro.

— Bom?

— Bom. — Rafael arrumou tudo. — Para uma noite destas, até é um milagre.

Subiram as escadas de mão dada.

Leo abriu uma porta ao fundo do corredor e acendeu a luz.

Rafael deu dois passos e parou.

O quarto era grande, em tons de castanho e creme, com uma cama enorme de madeira escura. Por cima da cabeceira havia um quadro abstrato iluminado por dois candeeiros pequenos. Havia duas mesas de cabeceira, um recanto com duas cadeiras e uma mesa baixa, e uma parede quase toda em vidro que dava para uma varanda comprida, com um sofá, uma cadeira de baloiço e uma mesa. Lá fora via-se o escuro das árvores.

— É lindo — disse Rafael, quase sem voz. — Meu Deus. O teu quarto é lindo.

— Não é o meu quarto.

Rafael voltou-se, sem perceber.

— Como assim? Tu não dormes aqui?

— Durmo. — Leo encostou-se ao batente da porta, com as mãos nos bolsos. — Mas a partir de hoje é o nosso quarto. E podes mudar o que não gostares.

Rafael franziu a testa.

— É o teu quarto. Porque é que eu havia de mudar alguma coisa?

— Porque quero que seja teu também. — Leo disse-o sem drama nenhum, como quem diz as horas. — Quero-te aqui muito tempo, Rafael. Por isso, se houver alguma coisa que não gostes, muda.

Rafael ficou a olhar para o quarto outra vez. Para a cama, para a varanda, para o candeeiro de um dos lados que devia ser o lado dele, agora.

— Então não mudo nada — disse. — Nadinha. Está perfeito.

Deu mais uns passos, a olhar em volta.

— A casa de banho não é aqui no quarto?

Leo apontou para a parede da esquerda, onde havia um espelho grande, do chão ao teto.

— Ali. Atrás do espelho.

— Isso é uma porta?

— É.

— Bem pensado. — Rafael foi lá, encostou a mão ao vidro e riu-se quando a porta cedeu. — Bem pensado mesmo.

— Tens toalhas nos armários e tens lá tudo o que precisares. Vou buscar-te um pijama. — Leo já ia a sair. — Ficou cá um do Nuno, de quando eles dormem cá. Deve servir-te.

— Ótimo. Vou dormir de pijama do teu sobrinho. Isto não é nada esquisito.

— Queres dormir sem nada?

— Quero o pijama.

Leo riu-se e saiu para o corredor.

🍃 🍃 🍃

Quando voltou, com o pijama dobrado na mão, Rafael estava ao pé da cama a desapertar os botões da camisa.

Devagar. Um de cada vez.

Leo parou à porta.

— Anjo. O que é que estás a fazer?

— A despir-me. — Rafael tirou a camisa e dobrou-a com todo o tempo do mundo, a olhar para ele. — Para tomar banho. Porquê? O quarto não é aqui? Onde é que querias que eu me despisse?

Tinha a cara a arder e as orelhas cor de tomate, e mesmo assim não desviou os olhos. Leo percebeu, a meio de um segundo muito comprido, que o rapaz sabia exatamente o que estava a fazer.

— Esse sorriso — disse, e a voz saiu-lhe mais baixa do que queria. — Tu sabes bem o que estás a fazer.

— Faço ideia.

— Rafael. Vai tomar banho.

— Estou a ir.

— Vai. Por favor. — Leo passou a mão pela cara. — Eu não sou de ferro.

— Ainda bem que não és.

Rafael pegou na toalha, virou-lhe as costas e foi até à porta do espelho. Já com a mão na maçaneta, olhou por cima do ombro.

— Tens cinco minutos para mudares de ideias.

E desapareceu lá dentro.

Leo ficou sozinho no meio do quarto, com um pijama do sobrinho na mão, o coração aos saltos e um sorriso que não conseguia tirar da cara.

Ouviu a água a correr do outro lado da parede.

Cinco minutos.

Quando sair o próximo livro, queres saber?

Mais nada. E podes sair da lista quando quiseres.

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