20 – Ninguém Nos Separa
O homem da porta era enorme e tinha uma cara de quem já viu tudo.
— Boa noite, Sr. Leo.
— Boa noite, Afonso. — Leo não largou a mão de Rafael. — Este é o Rafael. Quero que passes a palavra aos outros. Ele entra sempre que quiser, com ou sem mim, e tem tudo o que pedir.
O Afonso olhou para as duas mãos dadas, e depois para Rafael, e nem por um segundo a cara dele mudou.
— Com certeza. Muito prazer, Sr. Rafael. Seja bem-vindo à casa.
— O prazer é meu — disse Rafael, e a voz saiu-lhe mais fina do que queria.
A porta de madeira escura abriu-se para dentro.
Rafael tinha imaginado aquilo de muitas maneiras nas últimas semanas. Nenhuma estava certa. Lá dentro não havia gritos, nem correntes, nem nada do que a cabeça dele tinha inventado às duas da manhã. Havia uma luz baixa, cor de âmbar, paredes de pedra antiga, música funda a sair do chão. Havia um bar comprido de madeira com gente encostada a conversar, sofás de couro em recantos meio escondidos, e um cheiro morno a madeira e a bebida.
Podia ser um bar qualquer, se não fosse a maneira como as pessoas estavam. Havia uma calma estranha. E havia olhares, muitos, a segui-los desde que entraram.
Ao fundo, uma escada estreita subia para o piso de cima.
— O que há lá em cima? — perguntou Rafael, baixinho.
— Quartos.
Rafael quase tropeçou no degrau que não existia.
— Quartos?
— Depois explico-te como funciona. — Leo apertou-lhe a mão, a segurar o riso. — Para já só precisas de saber que aqui dentro nada acontece sem as duas pessoas quererem, e que as regras são minhas, do Henrique e do Mário. E que quem as parte não volta a entrar.
Pararam num balcão ao lado da entrada, atrás de um vidro. Um rapaz de camisa preta endireitou-se de repente ao ver quem era.
— Dr. Leo. Boa noite.
— Boa noite. Dá-me duas pulseiras vermelhas e duas pretas.
O rapaz hesitou meio segundo antes de as entregar. Rafael ficou com as duas na mão, a olhar para elas.
— São de quê?
— De cores. — Leo pôs as dele, uma em cada pulso, e depois estendeu a mão para as de Rafael. — Cada cor quer dizer uma coisa. Aqui dentro não se pergunta às pessoas o que elas querem, lê-se. — Apertou-lhe a vermelha no pulso. — Esta só a têm os donos.
— Leo, eu não sou…
— A preta quer dizer que não estás disponível. Que já tens alguém.
— Leo.
— E a vermelha quer dizer que tens os mesmos direitos que eu. Que ninguém te toca, ninguém te fala, ninguém se aproxima de ti sem tu quereres. — Apertou-lhe a segunda. — Cá dentro quem manda sou eu. E eu quero-te com a vermelha.
Rafael olhou para os dois pulsos.
— E se eu disser que não quero?
— Então tiras. — Leo encolheu os ombros. — És tu que decides. Mas eu ia preferir que a tivesses.
Rafael ficou com elas.
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Foram andando. Rafael olhava tudo, com a mão bem fechada na dele. Não estava desconfortável, para sua própria surpresa. Estava curioso.
Sentia os olhares. Percebeu, ao fim de um bocado, que não era por ser quem era, mas por estar de mão dada com aquele homem. Duas raparigas ao balcão trocaram um olhar. Um senhor de barba branca levantou o copo na direção de Leo, com um sorriso.
E, a um canto, encostada a uma coluna de pedra, havia uma mulher que não desviou os olhos.
Era morena, de cabelo liso e comprido, vestida de preto. Ficou a olhar para Rafael de uma maneira que não era curiosidade. Rafael sorriu-lhe, por educação, porque não sabia fazer outra coisa, e ela não sorriu de volta.
Levou dois segundos a esquecer-se dela.
Ao fundo do corredor havia uma porta com uma placa pequena: Escritório.
E foi ali, a três passos daquela porta, que Rafael parou.
— Anjo? — Leo voltou-se. — O que foi?
— Não sei. — Rafael tinha a mão no peito, sem dar por isso. — Fiquei esquisito. Como se… não sei explicar. Como se alguma coisa fosse acontecer.
— Já conheces o Henrique. E o Mário é boa gente, vais gostar dele.
— Não é isso. — Rafael abanou a cabeça e respirou fundo. — É coisa da minha cabeça. Vamos.
Leo abriu a porta.
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E o tempo parou.
O escritório era pequeno e quente, com um sofá, uma poltrona e uma secretária cheia de papéis. O Henrique estava de pé ao lado do sofá, a rir de alguma coisa, com um braço à volta de outro homem.
Um homem mais novo. Magro. Escuro de cabelo. Com um sorriso que ainda estava a acabar de se desfazer na cara quando os olhos dele encontraram os de Rafael.
Rafael conhecia aquela cara.
Tinha chorado por aquela cara. Tinha-a visto em fotografias que a família tinha guardado e depois deixado de mostrar. Tinha aprendido a não falar nela às refeições, porque a tia começava a chorar e o tio saía da mesa.
— Tu… — A voz saiu-lhe sem ar nenhum. — Tu estás morto.
E o chão desapareceu-lhe debaixo dos pés.
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Leo apanhou-o antes de ele cair.
Desceu com ele até ao sofá, de joelhos no chão, com uma mão na nuca do rapaz e a outra a procurar-lhe a cara.
— Rafael. Rafael, olha para mim. — Já tinha a outra mão no bolso dele, à procura do estojo, com o coração a bater-lhe na garganta. — Anjo. Ouves-me?
— Não é o açúcar — disse Henrique, atrás dele. A voz estava estranha. — Leo.
Leo voltou-se.
O Mário estava encostado à secretária, branco como a parede, a tremer de alto a baixo. Henrique tinha-o agarrado pelos ombros, como quem segura alguém que pode cair.
— Mário. — Leo levantou-se devagar. — O que é que se passa aqui?
O Mário abriu a boca. Não saiu nada à primeira.
— É o meu primo — disse, por fim. A voz partiu-se ao meio. — É o meu piolho.
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Rafael voltou a si devagar, com o teto do escritório a mexer-se e uma mão quente na cara.
— Estás aqui — murmurou.
— Estou sempre — disse Leo.
Ajudou-o a sentar-se. Rafael ficou um momento com a cabeça baixa, à espera de que o mundo assentasse. E depois levantou os olhos, e o mundo voltou a desassentar-se todo outra vez.
O Mário estava a dois passos dele. Não se aproximava mais. Estava parado, com os braços caídos, como quem tem medo de partir uma coisa.
— Piolho.
Rafael não se mexeu. Ficou a olhar para ele sem pestanejar, com medo de que aquilo desaparecesse se fechasse os olhos.
— Como é que é possível? — A voz falhou-lhe. Engoliu em seco e tentou outra vez. — O teu pai disse… Ele disse-nos que tu… — Não conseguiu acabar. — Nós fomos à missa, Mário. Fizemos-te uma missa.
O Mário fechou os olhos e uma lágrima desceu-lhe pela cara.
— Eu sei o que ele disse. — A voz dele mal se ouvia. — Eu sei. E sinto muito, piolho. Sinto tanto.
Rafael levantou-se. As pernas não o aguentaram bem e Leo pôs-lhe logo uma mão nas costas, sem dizer nada, só para estar ali.
— Eras tu — disse Rafael, mais para si próprio do que para alguém. — Nos anos, nos Natais, havia sempre uma cadeira a mais na mesa e ninguém dizia nada. Eu tinha catorze anos e ninguém me explicou nada. Só me disseram que tu tinhas morrido e que não se falava mais nisso.
— Eu também senti a tua falta. Todos os dias.
— Então porque é que não apareceste? — A pergunta saiu sem raiva. Saiu com uma saudade que doía mais do que a raiva. — Porque é que não me disseste nada? Eu tinha guardado o teu casaco, Mário. Aquele verde. Guardei-o anos.
O Mário respirou fundo.
— Porque o meu pai me tirou tudo. — Disse-o devagar, uma palavra de cada vez. — A casa, a família, os amigos. A ti. Disse a toda a gente que eu tinha morrido, e eu deixei que ele dissesse. — Abanou a cabeça. — Tive vergonha durante muito tempo. Vergonha de ser assim. Vergonha de não ter lutado mais. Mas a verdade é que eu escolhi ser feliz. Escolhi o Henrique. E paguei o preço.
Rafael ficou em silêncio a ouvir aquilo.
Depois disse, muito baixo:
— O teu pai é que fez isto. Não foste tu.
O Mário abriu os olhos. Havia ali qualquer coisa que ele precisava de ouvir havia anos e que não sabia que precisava.
— Os meus pais aceitaram-me — continuou Rafael. — Há três semanas e meia. Sabes o que a minha mãe me disse? Que não há desilusão nenhuma em saber quem eu sou. — Deu um passo em frente. — Eles vão querer ver-te. Quando tu estiveres pronto. Só quando tu estiveres pronto.
O Mário não conseguiu responder. Só abriu os braços.
E Rafael foi, sem pensar, como ia quando era pequeno e tinha um pesadelo e atravessava o corredor a correr até ao quarto onde o primo dormia nas férias de verão.
O abraço foi longo, e foi calado, e teve lá dentro tudo o que não tinha sido dito em quatro anos.
Leo e Henrique ficaram ao lado, ombro com ombro, sem dizer uma palavra.
— Sabias? — perguntou Leo, muito baixo.
— Sabia que ele tinha um primo. Sabia o nome. — Henrique tinha os olhos vermelhos. — Não fazia ideia de que era o teu.
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Quando se largaram, o Mário limpou a cara com a manga e riu-se.
— Continuas igual, piolho. Cresceste vinte centímetros e continuas igual.
— Aprendi com os melhores. — Rafael foi direito aos braços de Leo, e Leo recebeu-o como se fosse a coisa mais natural do mundo.
O Mário ficou a olhar para os dois. E depois, com um sorriso torto:
— Gostas dele?
Rafael fingiu que pensava. Deixou o silêncio crescer.
— Não gosto — disse, por fim. — Amo o meu velhote.
Leo fechou os olhos.
— Velhote? — disseram o Henrique e o Mário ao mesmo tempo.
— Fica-te bem — disse Henrique, encantado. — Velhote.
— Podem gozar à vontade. — Leo apertou Rafael contra si. — Sou o velhote deste malandro. Dá-me jeito.
Rafael riu-se contra o peito dele.
O Mário cruzou os braços, e a voz dele mudou. Continuava a sorrir, mas não estava a brincar.
— Leo. Não te atrevas a magoar o meu primo.
— Entra na fila. — Leo nem hesitou. — O teu namorado foi o primeiro. Depois foram os pais dele. E ainda falta a minha família.
— A tua família? — Henrique franziu a testa. — Eles conhecem o Rafael?
Leo suspirou.
— Conhecem-no melhor do que eu. Há anos. — Fez uma pausa. — Ele é o melhor amigo do Nuno.
Henrique atirou a cabeça para trás e riu-se alto.
— Do Nuno! — Bateu com a mão na secretária. — Ai, isto vai ser lindo. Boa sorte para o Natal.
— Obrigadinho pelo apoio.
O Henrique voltou-se para Rafael, e desta vez não estava a rir.
— Obrigado.
— De quê?
— Por teres feito isto ao meu amigo. — Apontou-o com o queixo. — Eu conheço-o desde os seis anos. Nunca o vi assim. Nem com a Beatriz. Nem nunca.
Rafael ficou vermelho e não soube o que responder.
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Saiu para ir à casa de banho por volta da meia-noite.
O corredor lá fora era mais fresco e mais escuro, e a música chegava abafada. Rafael ia a pensar no Mário, e no casaco verde, e em como é que ia contar aquilo aos pais, quando duas mãos lhe apertaram os pulsos por trás.
Foi tão depressa que nem gritou. Sentiu-se empurrado por uma porta lateral para um corredor de serviço, mal iluminado, e quando conseguiu levantar a cabeça já a mulher morena estava à frente dele, de braços cruzados.
Atrás, o segurança apertava-lhe os pulsos com força suficiente para doer.
— Tu és o novo submisso do Leo, não és? — disse ela.
Rafael respirou fundo. O coração batia-lhe com força, mas a voz saiu-lhe firme.
— Submisso? Nem sei bem o que isso é. Sou o namorado.
A mulher riu-se. Foi um riso estranho, alto demais, que acabou de repente.
— Namorado. — Inclinou a cabeça para o lado. — Eu sou a mulher dele. É de mim que ele gosta. É a mim que ele procura.
E, enquanto o dizia, pousou a mão aberta na barriga.
Rafael reparou nisso. Reparou também na aliança fina e gasta que ela tinha no dedo, uma aliança de ouro que já tinha perdido o brilho. Não percebeu porque é que reparou, nem porque é que aquilo lhe fez uma coisa esquisita no estômago.
Por um segundo, um segundo só, teve uma dúvida.
E a dúvida passou, porque se lembrou do carro, e do quintal, e de um homem de trinta e dois anos a pedir autorização ao pai dele para falar.
Então fez a única coisa que lhe ocorreu.
Desatou a rir.
Riu-se alto, com vontade, com os pulsos ainda presos, e a mulher recuou meio passo como se ele lhe tivesse atirado água à cara.
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No escritório, a porta abriu-se de rompante.
— Dr. Leo! — Era um dos seguranças, sem ar. — O Gui e a Vera levaram o seu rapaz lá para fora. À força.
Leo levantou-se tão depressa que a cadeira caiu para trás.
— Há quanto tempo?
— Cinco minutos. No máximo.
Não esperou pela resposta. Saiu a correr, com o Henrique e o Mário atrás.
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Pararam à entrada do corredor de serviço.
Rafael estava de pé, com os pulsos presos, e estava a rir-se. Leo sentiu o sangue fugir-lhe todo da cabeça. Quis avançar e o Henrique agarrou-lhe o braço.
— Espera. Ouve.
— Mulher dele? — dizia Rafael. — Que estranho. Ele nunca me disse que era casado. Disse-o aos meus pais, sabia? Foi a minha casa, sentou-se na minha sala e disse-lhes que queria uma coisa séria comigo.
A mulher não respondeu.
— Se ele a ama tanto assim — continuou Rafael —, porque é que foi comigo que falou com os meus pais? Porque é que é a mim que leva a casa às onze e meia todas as noites?
— Cala-te.
— E há mais uma coisa. — Rafael inclinou-se para a frente, o máximo que o aperto nos pulsos deixava. — Eu sei uma coisa sobre ele que a senhora não sabe. Uma coisa importante. Ele contou-me tudo, à frente dos meus pais e sem eu ter pedido. — Sorriu. — E não lha vou dizer. Porque isso é dele. E o que é dele não anda a ser contado nos corredores.
A cara da mulher desfez-se.
Foi uma coisa estranha de ver. Não foi raiva, nem vergonha. Foi qualquer coisa a ceder por dentro, como um muro que perde uma pedra e depois outra.
— Quando ele souber — murmurou. — Quando ele souber que eu estou à espera de um filho dele…
Ao fundo do corredor, Leo largou o braço do Henrique.
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Rafael viu-o chegar e sentiu-se inteiro outra vez.
Leo não olhou para a mulher. Não olhou para ninguém. Veio direito a ele, pôs-lhe as duas mãos na cara e olhou-o como quem conta os dedos de uma criança depois de uma queda.
— Estás bem?
— Estou.
O segurança largou-lhe os pulsos como se lhe tivessem queimado as mãos.
E foi então que a mulher se endireitou. Levantou o queixo, ajeitou o cabelo, e a voz saiu-lhe com uma doçura ensaiada.
— Sr. Leo. Eu estava só a dar as boas-vindas ao seu novo submisso.
Leo voltou-se devagar.
— Ele não é meu submisso. — Puxou Rafael para o seu lado. — É o meu namorado. E daqui para a frente é a única pessoa que tem de dizer quem entra e quem sai da minha vida.
Rafael, que ainda tremia, aproveitou.
— Leo — disse, com a cara mais inocente do mundo. — Esta senhora diz que é tua mulher. Não me disseste isso quando falaste com os meus pais.
O Henrique engasgou-se. O Mário tapou a boca com a mão.
Leo ficou rígido um segundo, até ver o brilho de troça nos olhos do rapaz.
— E também diz que vai ter um filho teu — acrescentou Rafael. — Isso é que eu não estava mesmo à espera.
— Amor — disse a mulher, e a palavra saiu-lhe pastosa. — Eu sei que me amas. Ele é só mais um. Eu perdoo-te. Vamos ter um filho.
Deu um passo na direção de Leo.
Leo pôs o braço à frente de Rafael e travou-a sem lhe tocar.
— Primeiro. — A voz dele saiu baixa e dura, e as pessoas ao fundo do corredor calaram-se. — Eu nunca fui teu amor. Foi uma noite, Vera. Uma. Há meses. E tu sabias disso quando aconteceu.
A mulher abanou a cabeça devagar, com um sorriso.
— Segundo: não pode haver filho nenhum. E antes que digas o contrário, nunca houve nada entre nós sem proteção. Nunca. Nem uma vez.
— Houve, sim. Deve ter havido, numa noite…
— Não houve.
Rafael respirou fundo.
— Olhe — disse, e a voz dele tremeu, mas não parou. — Eu posso ser novo. Mas não sou influenciável. A senhora não me vai virar contra ele, porque eu sei quem ele é. E sei porque ele me contou. — Deu um passo. — Pode ter dormido com ele. Mas é comigo que ele fica. É a mim que ele leva a casa. É a mim que ele apresentou aos pais.
O Mário, encostado à parede, pôs a mão na boca, e Leo percebeu, sem se voltar, que ele estava a chorar.
— Amor — disse a Vera, mais alto. — Vais deixar que ele me fale assim?
— O que ele disse ainda foi pouco. — Leo olhou-a de frente. — E há uma pessoa neste mundo a quem eu dei autorização para me chamar isso. Não és tu.
O corredor ficou em silêncio.
Foi quando Leo baixou os olhos e viu os pulsos de Rafael.
As marcas dos dedos estavam a nascer na pele clara, quatro riscos vermelhos em cada um, já a escurecer.
Qualquer coisa dentro dele partiu-se.
Largou a mão do rapaz, deu dois passos e acertou no segurança antes de alguém perceber o que estava a acontecer. O homem caiu de lado contra a parede e escorregou até ao chão.
— FORA DAQUI. — A voz de Leo encheu o corredor. — Os dois. Já. E não voltam a pôr os pés aqui dentro.
A Vera voltou-se para os outros dois, com as mãos a tremer.
— Sr. Henrique. Sr. Mário. Vão deixar isto acontecer? Eu venho aqui há anos. Quem é essa coisa para me mandar embora?
O Mário descolou-se da parede.
Atravessou o corredor, parou à frente dela e falou baixo, quase sem voz, o que era muito pior do que se tivesse gritado.
— Essa coisaé o namorado de um dos donos. É amigo do outro. — Uma pausa. — E é meu primo. Tem mais direito de estar aqui do que tu alguma vez tiveste. Rua.
A Vera olhou em volta. Para o segurança no chão. Para o Henrique. Para as pessoas paradas ao fundo do corredor.
E percebeu que tinha perdido.
Foi buscar a mala, sem dizer nada. Ao passar por Leo, parou. Levantou a cara para ele, e por um instante a expressão dela mudou toda: ficou mais nova, mais macia, quase feliz.
— David — disse, baixinho.
Passou por ele e saiu.
Rafael ficou a olhar para as costas dela até a porta se fechar.
— Leo.
— Diz.
— Ela chamou-te David.
Leo estava a olhar para os pulsos dele outra vez, com o maxilar apertado.
— Ouviste mal, anjo.
— Não ouvi, não. Ela disse David.
— Foi a música. — Leo pegou-lhe na mão com muito cuidado, como quem pega num copo rachado. — Anda. Deixa-me ver isso à luz.
Leo não voltou a pensar naquele nome durante meses.
Mais nada. E podes sair da lista quando quiseres.