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Capítulo 20 — O Nosso Quarto

         Quando o silêncio finalmente caiu, Rafael aproximou-se de Leo, procurando o conforto habitual. Mas Leo não reagiu. O rosto estava fechado, o olhar perdido, a respiração curta. Ele tremia — não de medo, mas de raiva contida.

          Rafael sentiu o coração apertar.

         A sensação de abandono feriu-o mais do que qualquer palavra.

— Leo… por favor, diz-me o que está a acontecer. Amor? — chamou, a voz trémula.

         Sem resposta, o desespero tomou conta dele; correu para Mário e encolheu-se no peito do primo, soluçando.

— Primo… eu não fiz nada! Eu não acreditei nela! Porque é que o Leo está a afastar-me? Será que me odeia?

          Mário abraçou-o com força, trocando um olhar preocupado com Henrique.

         Henrique aproximou-se de Leo, pousando-lhe as mãos nos ombros.

— Leo, já passou. Ela foi embora. O Rafael precisa de ti.

          Leo não reagiu. Henrique insistiu, abanando-o de leve:

— Estás a assustar toda a gente. Especialmente o Rafael. Ele está em lágrimas. Volta para nós.

         Só ao ouvir o nome de Rafael — e o choro — Leo pareceu voltar a si. Fitou-o, a tremer nos braços de Mário, e aproximou-se devagar.

        Acariciou-lhe a cabeça com suavidade.

— Anjo… desculpa.

         Os braços dele abriram-se; Rafael, a sorrir entre lágrimas, caiu-lhe no peito, e Leo recebeu-o num abraço apertado, beijando-lhe a cabeça.

— Eu não acreditei nela… — murmurou Rafael, ainda inseguro.

— Eu sei, meu anjo. Não foi culpa tua. Desculpa se te assustei… não sei o que me deu. Senti uma raiva que não consegui controlar.

— Para de pedir desculpa, Leo. Tu não tiveste culpa. Ela só quis separar-nos. Mas eu não sou ingénuo. Se a amasses, não terias ido falar com os meus pais. Nem me apresentavas como teu namorado aqui, à frente dela.

         Leo sorriu, apertando-o mais.

— És mesmo o meu menino inteligente. Amo-te. Sabes disso, não sabes?

         Rafael assentiu, emocionado.

        Mário, incapaz de conter as lágrimas, refugiou-se nos braços de Henrique.

        Henrique sorria — um sorriso cheio de orgulho e alívio.

— Também te amo— disse Rafael. — Obrigado por confiares em mim. Se a amasses, ela saberia que não podes ter filhos.

— Não tenho segredos contigo, meu menino. Mas por hoje chega. Vamos para casa.

         Leo virou-se para os amigos:

— O Rafael já passou por muito. Vou levá-lo.

— Vais ficar bem, Rafael? — perguntou Mário.

— Sim. A sério.

— Leo, cuida bem do meu primo — pediu Mário, sério.

— Não te preocupes. Não vou falhar contigo. Certo, meu anjo?

— Certo— respondeu Rafael, com um sorriso tímido.

         Henrique acrescentou:

— Vai com calma. E trata bem desse rapaz.

        Depois das despedidas, Leo e Rafael recolheram apenas o essencial e saíram.

        O caminho até ao carro foi silencioso. Rafael olhava pela janela, triste, perdido nos próprios pensamentos.

        Já no carro, Leo falou com suavidade:

— Anjo… ainda estás magoado com o que aconteceu?

— Não. Já passou… — respondeu Rafael, mas o tom denunciava a mentira.

— Então porque esse ar triste? — Leo segurou-lhe a mão.

— Não é nada…

— Rafael.— Leo usou o tom firme que o rapaz detestava.

         Rafael suspirou.

— Não quero ir para minha casa…

         Leo riu, surpreendendo-o.

— E quem disse que íamos para a tua casa?

— Tu disseste que me ias levar para casa…

— Disse. Mas estava a falar da minha casa. Que, para mim, já é nossa.

         O sorriso de Rafael iluminou o carro inteiro, e Leo sentiu o coração aquecer de novo.

        Rafael só se apercebeu que já tinham chegado quando ouviu a voz de Leo interromper-lhe os pensamentos.

— Ei… Anjo. Já chegámos. Estás bem?

— Sim, apenas surpreendido. Tu moras aqui? Isto é tudo muito bonito.— respondeu, deixando transparecer nos olhos o brilho de quem se sente pequeno diante de tanta grandiosidade.

— Sim, eu moro aqui. Vem, vou mostrar-te a casa. — respondeu Leo, sorrindo ao notar o espanto e a fascinação no olhar de Rafael.

         Saíram do carro e Leo estendeu a mão para Rafael, que a agarrou com firmeza, sentindo o coração acelerar e as mãos ligeiramente húmidas devido ao nervosismo. Rafael tentava controlar a respiração enquanto era guiado por Leo por um pequeno lanço de escadas, cujos degraus de pedra estavam iluminados por uma luz suave e ladeados por arbustos meticulosamente cuidados. A imponência da entrada principal da vivenda, rodeada de flores e vegetação, fazia com que Rafael se sentisse ainda mais pequeno diante de tamanha grandiosidade. Leo percebeu o nervosismo do rapaz, mas optou por não dizer nada, apenas apertou-lhe a mão num gesto reconfortante, conduzindo-o até à porta.

          Assim que a porta foi aberta, surgiu um pequeno corredor que levava a uma ampla sala de estar, lindamente mobilada. Um pequeno hall separava a sala da cozinha moderna, onde também se encontrava a zona de jantar, criando uma ligação harmoniosa entre os espaços. À lateral da sala, havia uma escada majestosa que conduzia ao segundo andar.

          Leo parou com Rafael no meio da sala, percebendo que ainda não era o momento certo para mostrar o resto da casa, pois notava o aumento do nervosismo no seu rapaz. Sentou-se no sofá e puxou  Rafael para que este se acomodasse no seu colo. No início, o menino retraiu-se com o susto, mas logo relaxou e encostou a cabeça no peito largo de Leo. O calor que emanava dai envolveu-o, assim como o aroma suave do perfume, trazendo-lhe uma sensação de conforto inesperada. Rafael deixou escapar um suspiro, transmitindo ao mesmo tempo alívio e prazer, o que fez Leo sorrir ao sentir a proximidade e a confiança crescerem entre eles.

— Estás mais calmo, meu Anjo? — Leo perguntou, envolvendo Rafael num abraço ainda mais apertado, deixando um beijo carinhoso no topo da sua cabeça enquanto lhe acariciava as costas com ternura.

— Um pouquinho.— respondeu o menino, com um sorrisinho no rosto.

— Queres partilhar comigo o que te vai na cabeça? Se for melhor para ti, posso levar-te a casa, só quero que te sintas seguro aqui. — A voz de Leo era suave, transmitindo compreensão e tranquilidade, mais interessado em acalmar Rafael do que em qualquer resposta.

— Não quero ir para minha casa. Dá-me só um tempinho, já fico bem.

Leo afagou-lhe o cabelo, olhando-o nos olhos com delicadeza.

— O que se passa? Estás assustado comigo? — perguntou num tom baixo e acolhedor, mostrando-se completamente disponível para ouvir e compreender Rafael.

         Pediu ao mesmo tempo que afastava delicadamente a cabeça de Rafael do seu peito, obrigando-o a erguer o olhar para si. O rosto do menino estava agora intensamente corado, denunciando o turbilhão de emoções que sentia.

— Tens medo de mim? É isso? Quero que saibas que jamais te faria mal. Trouxe-te apenas porque queria estar contigo, sentir-te perto de mim, partilhar a noite ao teu lado. Só isso, sem qualquer pressão.

— Desculpa... Eu sei que nunca me obrigarias a nada. Só não entendo porque estou assim. Não tenho medo de ti, acredita... só não quero ir para casa. Tu estás zangado por eu não querer avançar mais?

       A dúvida que lhe pesava no peito escapou-lhe finalmente pela boca, num tom trémulo e sincero.

— Zangado? Porque haveria de ficar? O teu tempo é importante para mim, já te disse mais do que uma vez que respeito isso e estou a ser totalmente honesto.

         Rafael hesitou antes de finalmente desabafar o que mais o inquietava.

— Isto é uma estupidez porque eu desejo-te, mas ao mesmo tempo sinto um medo que não consigo explicar. Quero estar contigo e, mesmo assim, parece que há algo em mim que me trava, como se o coração e a razão estivessem em conflito...

         Rafael fitava o chão, mãos crispadas nos joelhos, e a voz saiu-lhe num fio trémulo, quase sufocado pelo peso de um medo que parecia maior do que ele. As palavras escapavam hesitantes, como se cada uma fosse uma confissão dolorosa:

— E se tu não gostares? E se não for como tu estás habituado? E se eu não aguentar… tu vais deixar-me. E eu não quero que me deixes.

          Leo aproximou-se devagar, estendendo a mão até pousar suavemente sobre a de Rafael, que estremeceu ao contacto quente, quase como se aquele gesto pudesse acalmar a tempestade interior. O olhar de Leo era profundo, carregado de ternura e uma preocupação genuína:

— Meu deus, ainda esses medos? Escuta… já te disse que gosto de ti tal como és, sem reservas. Vou adorar ensinar-te, como fiz hoje no carro, e vou ter toda a paciência do mundo para te mostrar o caminho. Diz-me, sinceramente, é o tamanho que te assusta? Tens medo da dor?

          Rafael vacilou, desviando o olhar, e o silêncio que se seguiu foi preenchido pelo som acelerado da sua respiração. Uma luta interna desenrolava-se: queria confiar, mas a insegurança era uma sombra teimosa. Por fim, a voz saiu-lhe baixa, rouca de emoção:

— Sim… sei que é irracional, mas é isso. Sinto um turbilhão cá dentro, e, enquanto te desejo, sinto medo. É como se tudo em mim estivesse dividido…

         Leo manteve-se em silêncio, apenas acariciando-lhe a cabeça, permitindo que Rafael respirasse.

— Nunca me fizeste sentir medo — murmurou — bem pelo contrário. Mas, às vezes, a minha cabeça inventa razões, mesmo sabendo que um dia vou ter de enfrentar isto. Não consigo mudar quem sou, nem tu podes… mudar por mim. E é a ti que quero.

          Leo inclinou-se, beijando-lhe a testa com infinita delicadeza, e a sua voz soou como um abrigo:

— Meu amor… é sempre a tua decisão. Se não quiseres que eu faça amor contigo, se achares que ainda não estás preparado, vou respeitar, acredita. Só quero continuar a ter-te por perto, poder tocar-te como antes. Não é difícil para mim, desde que estejas aqui.

         Sentado ainda no colo de Leo, respirou fundo e, num gesto tímido, mas cheio de significado, levantou a cabeça para o olhar nos olhos. Viu surpresa e esperança refletidas no rosto do homem mais velho e, num impulso de afeto, aproximou os lábios dos dele, num beijo suave, quase uma promessa.

— Desculpa a minha estupidez… e os meus medos. Eu confio em ti, Leo. Não és tu, sou eu, as minhas inseguranças. Assusta-me não ter experiência, tu és um homem experiente. Tenho medo de que me deixes por não saber ser aquilo que esperas. Mas ver o teu olhar triste… magoou-me mais do que todos os meus medos juntos.

          Hesitou, sentindo o calor das mãos de Leo a acalmá-lo, e finalmente, com a voz embargada, deixou cair todas as defesas:

— Quero fazer amor contigo, Amor. Já decidi, preciso enfrentar o que sinto. O medo vai continuar, eu sei, até acontecer. Mas confio em ti. Muito.

          O olhar de Leo brilhou, inundado por uma felicidade serena, e Rafael sentiu pela primeira vez que, talvez, o medo não fosse maior do que a vontade de estar ali, nos braços de quem, dia após dia, lhe ensinava o que era amar e ser amado.

— O que me chamaste?

          Rafael corou intensamente e voltou a esconder o rosto no peito largo de Leo, mas com um sorriso nos lábios. Sentiu o coração bater mais forte ao pronunciar aquela palavra carregada de sentimento, como se desse um passo importante, quase assustador, mas absolutamente verdadeiro. Chamar Leo de “amor” era muito mais do que um simples carinho — era abrir-se, expor o que sentia, confiar.

— Amor.— Murmurou Rafael, ainda escondido, mas deixando transparecer a felicidade no tom de voz.

— Diz de novo, Anjo... diz. — Leo pediu, afagando-lhe os cabelos com ternura.

— Amor.— Repetiu Rafael, desta vez encarando-o de relance, o sorriso cada vez mais evidente.

         Leo sorriu, emocionado, e a sua voz saiu tranquila e calorosa:

— Adorei. Anjo, meu garotinho, sabes bem que te desejo muito. Saberei esperar por ti, meu anjo. Quero que tenhas a certeza disso. Só quero ver-te descontraído, e que te entregues apenas quando sentires vontade, nunca por obrigação.

Para... Eu sei disso muito bem. Eu também te desejo, e muito... Às vezes o medo atrapalha um pouco, especialmente a parte física, mas sei que nunca me magoarias de propósito. A confiança que sinto em ti é maior do que qualquer receio.

— Podes ter a certeza de que nunca te magoaria. Meu anjo, nunca te menti e não vou mentir agora: pode doer um pouco, sim. Mas prometo que vou pôr todo o meu carinho e amor para que seja o mais suave possível.

         Leo sorriu, tentando quebrar a intensidade do momento:

— Mas chega disto. Vamos tomar um banho e descansar?

— Vamos... os dois? — perguntou Rafael, brincando, com um olhar malicioso e divertido.

— Não provoques. Iria adorar tomar banho contigo, mas é melhor não. Não quero confundir mais essa cabecinha. Prometo que o faremos quando estiveres mais à vontade comigo— respondeu Leo num tom suave, esforçando-se para manter a serenidade diante do olhar curioso de Rafael.

          De mãos dadas, subiram as escadas e entraram num dos quartos. Rafael parou assim que entrou, olhando à sua volta. Leo parou também, preocupado, e olhou para Rafael, tentando perceber se ele ainda estava assustado. O que viu, porém, acalmou-o. Rafael estava com os olhos muito abertos, olhando espantado o quarto. Ele percorreu cada detalhe com o olhar, como se estivesse diante de algo mágico e inesperado.

— É lindo. Meu Deus, o teu quarto é lindo.

         O menino olhava deslumbrado o quarto decorado em tons de castanho e creme. A cama king size era simples, com estrado em madeira de mogno. Por trás dela, um quadro grande e abstrato era iluminado por pequenos candeeiros. De cada lado, havia uma mesa de cabeceira em castanho-escuro.  Num dos cantos, um pequeno recanto de leitura reunia duas cadeiras e uma mesinha. Uma enorme varanda, com vista para a floresta, completava o ambiente com um sofá, uma cadeira de baloiço e uma mesa para refeições.

— Meu amor, não é o meu quarto… — Leo murmurou, aproximando-se e pousando a mão suavemente no ombro de Rafael. O menino deixou de admirar os detalhes e olhou para Leo, surpreendido, os olhos brilhando de curiosidade.

— A partir de agora, é o nosso quarto. E podes modificar o que não gostares— acrescentou Leo, sorrindo com carinho.

        Rafael franziu a testa, ainda a tentar compreender, e olhou Leo nos olhos, como se buscasse o significado por trás das palavras.

— É o teu quarto… porque mudaria? — perguntou, num tom baixo.

        Leo aproximou-se mais um pouco, oferecendo um olhar tranquilizador.

— Porque estás comigo agora, e vai ser o nosso quarto. Quero-te ao meu lado por muito tempo, por isso podes mudar o que não gostares.

          Rafael sorriu, sentindo-se finalmente em casa.

— Então não vou mudar nada… nadinha mesmo. Adorei.

        Entraram, o menino continuava a olhar em volta.

— A casa de banho não é no quarto?

        Rafael perguntou ao olhar em volta, sem encontrar uma porta que parecesse a casa de banho. Olhou para a pessoa que sorria ao seu lado e que apontava para uma das paredes, onde estava um espelho grande, e só então ele percebeu que era uma porta.

— Ali, por detrás do espelho.

— Bem pensado.

— Lá dentro, vais encontrar tudo o que precisas, tens toalhas nos armários. Vou buscar um dos pijamas do Nuno, que te devem servir.

— Ok. — Disse Rafael.

         Num gesto provocador, como se já tivesse feito aquilo mil vezes, Rafael começou a despir-se, peça por peça. Leo ficou imóvel, incapaz de desviar o olhar; Rafael mantinha uma calma ensaiada, mas o rubor denunciava-o — havia ali uma ousadia tímida, nascida da confiança que tinham construído.

         O corpo de Leo reagiu antes da mente; Rafael percebeu e gostou do efeito.

— Anjo, que estás a fazer?

— Ora… estou a tirar a roupa para tomar banho. Porquê? O quarto não é aqui? Onde mais devia tirar?— disse Rafael, com um sorriso maroto, tentando disfarçar o rubor.

— Esse sorriso… agora percebi. Sabes muito bem o que estás a fazer, não sabes?

        Rafael hesitou por um instante, o rosto a arder de vergonha e de uma excitação crescente. Entre o medo de se expor e o desejo de se entregar, acabou por se despir — corado, vulnerável, mas sem recuar.

        O olhar de Leo pousou nele e Rafael sentiu um arrepio; sabia o efeito que causava e, para a sua surpresa, adorava. Leo observava-o com fascínio, ternura e desejo, dividido entre avançar e hesitar — mas rendido.

— Rafael, vai tomar banho, por favor. Eu não sou de ferro!

— E ainda bem que não és — respondeu Rafael, virando-se e oferecendo-lhe uma visão perfeita das costas. Com um sorriso maroto, acrescentou: — Tens cinco minutos para entrares na casa de banho.

        E, antes que Leo respondesse, Rafael desapareceu atrás da porta. Leo ficou sozinho, com o coração descompassado e um sorriso que não conseguia travar: o seu Anjo estava a provocá-lo — e a parte mais assustadora era que ele estava a gostar.

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