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Capítulo 2 — À Porta do Sonho

       Enquanto isso, noutra parte da cidade, Rafael rebolava na cama. Ainda era cedo, mas dormir tornara-se impossível. O nervosismo era mais forte: naquele dia ia tentar um casting na L&L.

        Adorava o mundo da moda e, naquele ano, iria ingressar na Universidade para cursar Ciências da Comunicação. A L&L era presença constante em sua casa. E, sem querer, Leo Mattos tornara-se o seu ídolo.

       A inquietação não o deixava em paz. Ia concretizar um sonho e, se tivesse a oportunidade de ver o seu ídolo de perto, seria ainda melhor. Vivia com os pais, ambos reformados. A mãe era portuguesa; o pai, de origem chinesa. Tinha dois irmãos mais velhos: Jorge, arquiteto de 25 anos, prestes a casar-se; e Luís, estudante de Direito, com 23. Rafael, com apenas 18 anos, era o mais novo — e, por isso, o mais protegido. Não que não gostasse, mas às vezes sentia-se sufocado. Até Nuno, o seu grande confidente, era superprotetor.

        Apesar de não se considerar infeliz, Rafael sentia que lhe faltava algo. Era rodeado de amor e carinho, mas sonhava com mais — e essa busca tornava-o tímido, introvertido, um pouco ingénuo e inseguro.   Ainda assim, chamava a atenção: olhos azuis rasgados, cabelo louro ondulado e um corpo bem constituído, com a beleza estranha de quem parece pertencer a outro lugar.

         Convencer a família a deixá-lo seguir este caminho não fora fácil, mas vencera a batalha. Mesmo assim, naquela manhã, o nervosismo não lhe dava tréguas. Levantou-se, tomou banho e arranjou-se com cuidado, tentando disfarçar as olheiras com um toque leve de maquilhagem. Vestiu calças de ganga, uma camisa simples e ténis. O estômago estava fechado — a ansiedade não lhe permitia comer.

         Parou junto à porta da cozinha, ouvindo o tilintar das chávenas e o murmúrio dos pais. O cheiro do café fresco misturava-se ao aroma do pão torrado, trazendo-lhe conforto e nostalgia. Respirou fundo, apertou as mãos e entrou devagar, como se quisesse prolongar aquele instante antes da avalanche de emoções.

         A mãe pousou a chávena; o pai ajeitou os óculos. Ambos o olharam, atentos.

— Mãe, pai… posso falar convosco um minuto?

— O que se passa, filho? — perguntou o pai.

         Rafael sentou-se, tentando controlar a voz trémula.

— Sei que sempre quiseram o melhor para mim, e agradeço tudo. Mas… hoje tenho uma oportunidade única. Vou a um casting na revista L&L, para tentar ser modelo. É um sonho antigo, e gostava muito de tentar.

         O pai franziu o sobrolho.

— E os estudos? Não vais deixar a universidade por causa disso, pois não?

— Não, pai. Vou continuar a estudar. Só quero tentar. Se não resultar, sigo em frente. Mas se não tentar, vou arrepender-me para sempre.

         A mãe apertou-lhe a mão, emocionada.

— Se é isso que queres, nós apoiamos-te. Só queremos que sejas feliz.

          O pai trocou um olhar com a mãe, murmurando algo sobre como Rafael, desde pequeno, nunca desistia do que queria. O jovem sentiu um alívio imenso. Abraçou-os, sentindo o apoio deles como um escudo contra o mundo.


🍃 🍃 🍃


       No quarto, olhou em volta: posters de desfiles, livros empilhados, revistas L&L abertas em páginas marcadas. O ambiente refletia os seus sonhos. Estudou o reflexo no espelho e ajeitou o cabelo com as mãos, repetindo para si mesmo: “Nada de exageros”. Pegou na mochila e confirmou: carteira, telemóvel, água e o portefólio improvisado com fotos tiradas por Nuno.

         Antes de sair, colocou os auscultadores e ouviu a música que sempre o fazia acreditar em si. Olhou-se ao espelho, sorriu de lado e murmurou:

— Hoje é o dia.

        O telemóvel vibrou. Era Nuno:

📩 — Vais arrasar, Rafa! Sê tu próprio. O meu tio Leo é exigente, mas justo. Só te dei a dica do casting — o resto é contigo. Estou a torcer por ti!

        Rafael sorriu.

📩 — Obrigado, Nuno! Sem ti, nem sequer tinha coragem para tentar.

         Nuno respondeu logo:

📩 — Se não correr bem, vamos comer aquele bolo gigante e rir disto tudo!

         Rafael riu-se, sentindo-se menos sozinho. Saiu de casa e desceu as escadas com passos decididos.

        Chamou um Uber e chegou adiantado ao edifício envidraçado de três andares, rodeado por um jardim cuidado. Ali funcionavam a sede da revista, a gráfica e a escola de modelos. Sentiu vontade de desistir, mas já tinha ido longe demais. Respirou fundo, ergueu a cabeça e entrou.

         Na portaria, explicou o motivo da visita e foi conduzido ao primeiro andar, onde cerca de dez pessoas aguardavam. Uma rapariga sorriu-lhe:

— Também vens para o casting?

— Sim. É a minha primeira vez.

— Somos dois— disse um rapaz encostado à parede. — Dizem que o Leo é exigente, mas justo.

          Rafael assentiu, sentindo-se menos deslocado. A concorrência era grande, mas ele estava ali pela experiência.

         Começava a sentir-se mal. Era diabético, não insulinodependente, e controlava a condição com alimentação. Andava sempre com algo doce, mas naquele dia esquecera-se de comer. Pediu licença para ir ao refeitório.

         No bar, pediu algo para comer e beber. Enquanto esperava, pensava em tudo o que vivera até ali. O coração batia forte; entre o medo e a esperança, sabia que aquele momento podia mudar a sua vida.

Sentado à mesa, não reparou na entrada de ninguém. Mas tudo mudou quando o telemóvel vibrou com uma nova mensagem de Nuno.

📩 — Vai correr bem, Rafa. Confia.

         Rafael sorriu, sentindo o coração aquecer um pouco. Guardou o telemóvel no bolso e respirou fundo, tentando acalmar a ansiedade que insistia em oprimir-lhe o peito.

        Mas naquele instante, enquanto ajeitava a camisa e se preparava para enfrentar o casting, Rafael acreditou numa coisa simples:

       Hoje podia ser o início de algo novo.

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