02 – À Porta do Sonho
Do outro lado da cidade, Rafael já tinha contado as rachas do teto duas vezes.
Às seis da manhã desistiu de dormir. Às seis e meia desistiu de fingir que ia voltar a adormecer. Às sete estava sentado na beira da cama, com os pés descalços no chão frio e o telemóvel na mão, a reler pela décima vez o anúncio: L&L procura novos rostos. Segunda-feira, 10h00. Traga fotografias recentes.
Na parede em frente, presa com fita-cola, a capa de março. E, num canto, meio escondida atrás de um cartaz de um desfile de Milão, uma fotografia recortada de uma entrevista antiga: Leo Mattos, de camisa branca, a olhar para qualquer coisa fora da imagem. Rafael tinha-a recortado aos quinze anos. Nunca contara a ninguém porquê. Nem a si próprio, na verdade.
Levantou-se. Tomou banho. Experimentou três camisas e voltou à primeira. Diante do espelho, passou um pouco de corretor por baixo dos olhos, para disfarçar a noite, e ficou a olhar para o reflexo com desconfiança: os olhos azuis rasgados, herança impossível de uma mãe portuguesa e de um pai chinês; o cabelo louro que nunca ficava como ele queria. Os colegas da escola chamavam-lhe o estrangeiro. Às vezes a brincar.
Nada de exageros.
Da cozinha vinha o tilintar das chávenas, a voz baixa do pai, o cheiro a pão torrado. Rafael parou à porta. Tinha ensaiado aquilo durante uma semana e, agora que o momento chegara, as frases tinham fugido todas.
A mãe viu-o primeiro. Pousou a chávena.
— Tão cedo, e já vestido? — Olhou-o de cima a baixo, e depois outra vez. — Vais a algum lado?
— Posso falar convosco um minuto?
O pai ajeitou os óculos e dobrou o jornal ao meio, devagar, como fazia sempre que sabia que a conversa ia ser séria. Na porta do frigorífico, por trás dele, estava o convite do casamento do Jorge, preso com um íman em forma de galo de Barcelos. Os livros de Direito do Luís ocupavam metade da mesa, como sempre.
Rafael sentou-se na ponta da cadeira.
— Hoje há um casting na L&L. Para modelos. — Engoliu em seco. — Eu queria ir.
O silêncio durou o tempo de a torradeira saltar.
— Um casting — repetiu o pai.
— É só uma manhã. Não vou deixar a universidade, prometo. Em setembro começo Ciências da Comunicação, como combinámos. Isto é só… — procurou a palavra, e não a encontrou melhor — …uma coisa que eu queria experimentar. Se não tentar, vou passar a vida a pensar nisso.
O pai olhou para a mãe. A mãe olhou para o pai. Rafael conhecia aqueles olhares desde pequeno: era assim que os dois conversavam sem precisar dele na sala.
— E vais sozinho? — perguntou a mãe.
— Mãe, tenho dezoito anos.
— Há duas semanas — disse o pai, sem sorrir, mas com qualquer coisa nos olhos que parecia um sorriso.
— Vou sozinho — insistiu Rafael, mais baixo.
A mãe estendeu a mão por cima da mesa e apertou a dele. Tinha os dedos quentes da chávena.
— Se é isso que queres, vai. — E, antes que ele pudesse agradecer: — Mas comes primeiro.
— Não consigo, mãe. Tenho o estômago fechado.
— Rafael.
— Como qualquer coisa lá. A sério.
O pai abanou a cabeça devagar e voltou a abrir o jornal. Mas antes de o esconder por trás das páginas, disse:
— Desde os cinco anos que é assim. Quando mete uma coisa na cabeça, não há quem o tire.
Rafael abraçou-os aos dois ao mesmo tempo, desajeitado, com a cadeira a arrastar no chão. A mãe riu-se. O pai resmungou que lhe estava a amarrotar o jornal.
🍃 🍃 🍃
No quarto, conferiu a mochila pela terceira vez: carteira, telemóvel, garrafa de água, o envelope com as fotografias que o Nuno lhe tirara no parque na semana anterior. E o estojo preto do medidor de açúcar, com as tiras, as agulhas e a caneta de insulina que quase nunca usava, mas que a médica o obrigava a trazer sempre.
Faltava qualquer coisa doce. Tinha o hábito de trazer um pacote de bolachas no bolso da frente. Hoje o bolso estava vazio, e ele não reparou.
O telemóvel vibrou.
📩 — <Vais arrasar, Rafa! Sê tu próprio. O meu tio é exigente, mas é justo. Eu só te passei o anúncio, o resto é contigo.>
Rafael sorriu. O Nuno era o melhor amigo que tinha desde o sétimo ano, e só há poucos meses é que ele descobrira que o tio Leo de quem o Nuno falava às vezes, entre um jogo e outro, era aquele Leo. Quase se engasgara com a Coca-Cola.
📩 — <Obrigado. Sem ti nem tinha coragem.>
📩 — <Se correr mal, vamos comer aquele bolo de chocolate gigante e rir disto tudo. Se correr bem, pagas tu.>
📩 — <Combinado.>
Pôs os auscultadores, escolheu a música que ouvia sempre antes dos exames, e saiu de casa quase a correr, antes que a coragem lhe fugisse.
🍃 🍃 🍃
O edifício da L&L tinha sete andares de vidro e um jardim à frente tão bem tratado que parecia pintado. Rafael ficou um minuto inteiro no passeio do outro lado da rua, com a mochila ao ombro, a olhar para as letras prateadas por cima da entrada.
Ainda podes voltar para casa. Ninguém sabe que vieste, a não ser o Nuno e os teus pais.
Atravessou a rua.
Na portaria, um segurança de fato escuro olhou para ele por cima do balcão, conferiu uma lista e mandou-o para o primeiro andar. No corredor, havia uma dúzia de cadeiras encostadas à parede e quase todas ocupadas. Rapazes e raparigas da idade dele, ou pouco mais, alguns com portefólios de capa dura, outros com o telemóvel na mão, todos com a mesma cara de quem finge que não está nervoso.
Uma rapariga de tranças compridas fez-lhe sinal para se sentar ao lado dela.
— Também é a tua primeira vez?
— Nota-se muito?
— Estás agarrado à mochila como se te fossem roubar o almoço. — Ela riu-se. — Eu também. Sou a Sara.
— Rafael.
— Dizem que é o próprio Leo Mattos que escolhe — disse um rapaz encostado à parede, sem tirar os olhos do telemóvel. — Dizem que é um gelo.
Rafael não respondeu. Olhou para as mãos e reparou que lhe tremiam um bocadinho. Primeiro pensou que eram os nervos.
Depois veio o suor frio na nuca, e aquela sensação conhecida de ter a cabeça cheia de algodão. As letras do cartaz na parede em frente começaram a tremer também.
Não comeste nada, idiota.
Enfiou a mão no bolso da frente da mochila. Vazio.
— Estás bem? — perguntou a Sara. — Estás muito branco.
— Estou. Só preciso de comer qualquer coisa. — Levantou-se devagar, com cuidado para não mostrar que o chão estava um bocadinho inclinado. — Sabes se há um bar?
— No rés-do-chão, ao fundo. Vai, que isto ainda demora. Eu guardo-te o lugar.
Desceu as escadas agarrado ao corrimão. O bar era pequeno, com seis ou sete mesas, cheirava a café e a bolos acabados de fazer, e àquela hora estava quase vazio. Pediu um sumo de laranja e um croissant com doce, e sentou-se na mesa do canto, de costas para a porta.
Bebeu o sumo de uma vez. Esperou. Aos poucos, o chão foi voltando ao sítio.
O telemóvel vibrou outra vez em cima da mesa.
📩 — <Vai correr bem, Rafa. Confia.>
Rafael fechou os olhos, encostou a cabeça à parede e respirou fundo. Não reparou na porta do bar a abrir-se atrás dele, nem nos passos que pararam a meio do caminho até ao balcão.
Mais nada. E podes sair da lista quando quiseres.