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19 🔞 – No Nosso Tempo

🔞 Este capĂ­tulo contĂ©m conteĂșdo para leitores adultos.

Na sala, o Sr. Wei pousou o jornal no colo quando os passos chegaram ao corredor.

— Boa noite, Sr. Wei. — Leo ficou de pĂ©, Ă  entrada. — SerĂĄ que podemos falar um minuto? Antes de sairmos.

O pai olhou para ele por cima dos óculos. Depois para o filho, parado atrås dele, com a mão ainda na maçaneta da porta da rua.

— Claro. — Levantou-se sem pressa. — Vamos lá fora. Está bom tempo.

SaĂ­ram para o quintal. Rafael ficou na sala, e a mĂŁe veio pĂŽr-lhe a mĂŁo no ombro sem dizer nada.

🍃 🍃 🍃

O quintal tinha um muro baixo e duas laranjeiras, e cheirava à terra molhada da rega da tarde. O Sr. Wei sentou-se no banco de pedra debaixo da maior. Leo ficou de pé, e depois percebeu que estava de pé como quem espera uma sentença, e sentou-se também.

— Fiquei a pensar no que me disse esta manhĂŁ — começou. — Sobre nĂŁo tomar decisĂ”es por ele. Na altura nĂŁo percebi. Achei atĂ© que estava a ser injusto comigo. — Olhou para as mĂŁos. — SĂł percebi hoje ao almoço, quando um amigo mo explicou com outras palavras.

O Sr. Wei esperou.

— Eu decidi esperar — disse Leo. — Decidi que não ia tocar-lhe antes de ele estar preparado. E fiz isso a pensar nele. Mas decidi sozinho. Nunca lhe perguntei o que ele queria. Nem uma vez. — Respirou fundo. — Achei que o estava a proteger. Se calhar estava só a proteger-me a mim.

O velho acenou devagar, como quem confirma uma jogada que jĂĄ tinha previsto.

— Eu sei que amas o meu filho — disse. — Sei que nos respeitas, que respeitas esta casa, e que a diferença de idade te pesa mais a ti do que a nĂłs. — Fez uma pausa. — E tambĂ©m sei que o desejas, e que ele te deseja a ti. Ele nĂŁo estĂĄ a perceber porque Ă© que tu te afastas. Anda a pensar que nĂŁo o queres. Sabe que gostas dele. É o resto que nĂŁo lhe entra na cabeça.

Leo ficou calado.

— Eu tambĂ©m jĂĄ fui novo, Leo — disse o Sr. Wei. — E jĂĄ tive dezoito anos e a certeza de que sabia tudo.

— Sr. Wei, preciso de lhe perguntar uma coisa. A sĂ©rio. E preciso de uma resposta a sĂ©rio.

— Então pergunta.

Leo levantou os olhos.

— O senhor está bem com isto? Comigo, com a idade que tenho, com o que isto vai ser? Porque se não estiver, eu prefiro saber agora.

O Sr. Wei nĂŁo hesitou.

— Estou. — Tirou os Ăłculos e limpou-os Ă  camisa, devagar. — NĂłs educĂĄmos aquele rapaz para pensar pela cabeça dele. NĂŁo o vamos agora tratar como se nĂŁo soubesse o que quer. Ele sabe. — Voltou a pĂŽr os Ăłculos. — Fala com ele. Decidam os dois. Eu e a mĂŁe confiamos em vocĂȘs.

Leo sentiu uma coisa a sair-lhe dos ombros, de uma vez, como quem pousa um caixote que carregava havia tanto tempo que jĂĄ se tinha esquecido do peso.

— Obrigado. Estava mesmo a precisar de ouvir isso. — Hesitou. — Sr. Wei
 ainda há uma coisa.

— Diz.

— Eu amo o seu filho. — Disse-o a olhar para ele, sem baixar a voz. — Ainda não lho disse. Vou dizer-lho hoje. — Engoliu em seco. — E queria pedir-lhe se ele pode ficar em minha casa esta noite. Prometo


— Não prometas nada. — O Sr. Wei levantou a mão. — Já disse o que tinha a dizer.

Leo riu-se, apanhado.

— Ia dizer que prometo respeitar as decisĂ”es dele. Todas.

— Isso já eu sei. — O pai levantou-se e sacudiu as calças. — Pode ficar, sim. Se ele quiser. — Deu dois passos e parou. — E, Leo. A minha mulher acha que tu devias começar a tratar-nos por outra coisa que não senhor.

— E o senhor?

— Eu acho que ainda Ă© cedo. — Quase sorriu. — Mas eu sou mais lento do que ela em tudo. Ela jĂĄ te tinha escolhido Ă  porta, no primeiro dia.

🍃 🍃 🍃

Quando voltaram Ă  sala, Rafael estava encostado Ă  mĂŁe no sofĂĄ, com os olhos vermelhos.

Levantou-se logo. NĂŁo perguntou nada. Encostou a cara ao ombro de Leo e ficou ali.

— Não me vais deixar, pois não? — disse, contra a camisa dele. — Foi por causa do que eu disse ao pequeno-almoço? Esquece o que eu disse. Eu estou bem. Só preciso de ti.

Leo apertou-o com mais força.

— Porque Ă© que eu te havia de deixar? — Afastou-o para lhe ver a cara. — Vai lavar essa cara. Prometo-te que falamos assim que sairmos daqui.

— Prometes?

— Prometo.

Rafael foi Ă  casa de banho quase a correr, e ficaram os trĂȘs na sala, com trĂȘs sorrisos que ninguĂ©m comentou.

Quando voltou, tinha a cara lavada e o cabelo molhado na testa.

— Podemos ir?

— Podemos, anjo.

À porta, Rafael abraçou a mĂŁe e o pai, como fazia sempre, e o pai disse-lhe alguma coisa muito baixo ao ouvido que o fez ficar vermelho atĂ© ao pescoço.

🍃 🍃 🍃

No carro, Rafael nem esperou que ele ligasse o motor.

— O que Ă© que foste falar com o meu pai?

— Calma.

— NĂŁo consigo ter calma. O que Ă© que foste lĂĄ fazer?

Leo riu-se baixinho. Depois virou-se no banco, pegou-lhe nas duas mĂŁos e ficou a olhar para elas.

— Primeiro quero pedir-te desculpa.

Rafael franziu a testa.

— Desculpa de quĂȘ?

— De ter decidido sozinho uma coisa que era dos dois. — Leo passou-lhe o polegar pelas costas da mĂŁo. — Quando eu te disse que ia esperar, nĂŁo foi porque nĂŁo te desejasse. Foi porque achei que era o melhor para ti. Achei que era isso que tu querias. Nunca te perguntei nada. Decidi por ti, em silĂȘncio, e ainda por cima fiquei todo orgulhoso de mim. — Abanou a cabeça. — O teu pai avisou-me esta manhĂŁ e eu nem percebi o que ele me estava a dizer. Desculpa.

Rafael soltou o ar que tinha preso no peito sem dar por isso.

— Eu pensei que nĂŁo me desejasses assim tanto — admitiu. — Pensei que fosse por eu nĂŁo ter experiĂȘncia nenhuma. E se fosse isso
 — Encolheu os ombros. — Eu jĂĄ tinha pensado em arranjar alguma experiĂȘncia com outra pes


Leo ficou imĂłvel.

A mão que lhe segurava a cara parou. Não apertou. Não se afastou. Ficou ali, quieta, e a respiração dele mudou.

— Não digas isso. — A voz saiu-lhe rouca. — Por favor.

— Leo


— SĂł a ideia de outra pessoa te tocar
 — Fechou os olhos. — DĂłi-me, Rafael. E nĂŁo Ă© porque tu sejas meu, nem nada disso. É porque eu te amo.

O carro ficou em silĂȘncio.

Rafael deixou de respirar.

Leo abriu os olhos e olhou em frente, para o portĂŁo verde ao fundo da rua, com a mĂŁo ainda no rosto dele.

— Amo-te de uma maneira que nunca senti na vida — disse. — Com trinta e dois anos, e nunca tinha sentido isto. É por isso que ando assim. Tenho medo de não chegar. Medo de que um dia olhes para mim e vejas um homem catorze anos mais velho. Medo de que escolhas outra pessoa. Medo de que
 — A voz falhou-lhe. — De que não me queiras.

Rafael pĂŽs a mĂŁo em cima da dele, na prĂłpria cara.

— Eu tambĂ©m te amo.

Leo virou-se devagar. Como quem tem medo de ter ouvido mal.

— Amo-te, Leo. — Rafael estava vermelho, e os olhos brilhavam-lhe, mas a voz nĂŁo tremeu. — Nunca quis mais ninguĂ©m. Nunca quis aprender nada com mais ninguĂ©m. SĂł contigo. Aquilo que eu ia dizer era sĂł uma parvoĂ­ce que me passou pela cabeça uma noite. Nunca fiz nada. Nunca ia fazer.

Leo fechou os olhos outra vez, e desta vez foi diferente.

Rafael viu-o chorar. Foi pouco, e foi em silĂȘncio, e ele limpou a cara com as costas da mĂŁo como um homem que nĂŁo estĂĄ habituado a fazer aquilo Ă  frente de ninguĂ©m. Mas viu.

— Diz outra vez — pediu Leo.

— Amo-te.

— Outra vez.

— Amo-te.

Leo puxou-o para si, por cima do travĂŁo de mĂŁo, e beijou-lhe a testa, e o cabelo, e a cara toda, e Rafael riu-se com os olhos molhados e deixou-se beijar.

🍃 🍃 🍃

Leo conduziu até ao fim da rua e saiu do bairro. Encostou o carro no mesmo sítio da outra noite, em frente ao pinhal escuro, e desligou o motor.

— Anda cá.

Beijaram-se ali, sem ninguĂ©m a ver, como tinham feito dezenas de vezes nas Ășltimas semanas. Mas nĂŁo foi como nas outras vezes. Leo jĂĄ nĂŁo estava a segurar-se a si prĂłprio, e Rafael sentiu isso na boca dele antes de perceber porquĂȘ: no modo como o beijou, mais fundo, sem pressa nenhuma e sem aquele travĂŁo que estava sempre lĂĄ.

A mão de Leo desceu-lhe pelo pescoço, pelo peito, por cima da camisa. Parou na cintura.

E Rafael, com a cara escondida no pescoço dele porque não conseguia fazer aquilo a olhar, pegou-lhe no pulso e levou-lhe a mão mais abaixo.

Leo ficou quieto.

— Tens a certeza? — perguntou, junto ao ouvido dele.

— Tenho.

— Se quiseres que eu pare, dizes. A qualquer altura, por qualquer razão. Nem tens de explicar nada.

— Eu sei. — Rafael riu-se, nervoso, e o riso saiu-lhe trĂ©mulo. — Fala menos.

Leo riu-se também. Depois deixou de rir.

A mão dele ficou onde Rafael a tinha posto, por cima das calças, e Rafael sentiu-a fechar-se, devagar, e todo o ar do carro lhe pareceu de repente demasiado quente. Ouviu-se a si próprio, um som que nunca se tinha ouvido fazer, e levou a mão à boca para o prender.

Leo afastou-lha com cuidado.

— Não. — A voz saiu-lhe rouca, junto à orelha dele. — Deixa-me ouvir.

Depois abriu-lhe o botão das calças. Devagar, a dar-lhe tempo de dizer que não. Rafael não disse que não.

Quando os dedos de Leo o tocaram, mesmo, sem nada pelo meio, Rafael arqueou-se no banco e agarrou-lhe o ombro com força. A boca de Leo encontrou-lhe o pescoço. A mão começou a mexer-se, sem pressa, a aprender o que lhe arrancava a respiração e o que lhe arrancava o nome dele.

— Assim? — perguntou Leo.

— Assim.

— Diz-me se for demais.

Rafael não conseguiu responder. Tentou pensar, tentou manter-se dentro do carro, da rua, da noite, e não conseguiu. Cada movimento apagava-lhe um pensamento. Sentia a camisa colada às costas, o cinto de segurança esquecido a um canto, a boca de Leo a subir-lhe pelo pescoço até ao maxilar, e uma coisa quente a crescer-lhe no ventre, camada sobre camada, cada vez mais apertada.

— Leo


— Estou aqui.

Foi råpido. Rafael percebeu, na altura, que ia ser råpido e que não havia nada a fazer quanto a isso, e teve tempo de ficar envergonhado, e não teve tempo de mais nada. O corpo tomou conta. As costas arquearam-se, os dedos fecharam-se na camisa de Leo, e ele deixou-se ir com a cara enterrada no pescoço dele, a dizer o nome dele contra a pele.

Ficou depois a tremer, sem saber muito bem porquĂȘ, e Leo segurou-o. SĂł isso. Segurou-o, com os lĂĄbios encostados ao cabelo dele, atĂ© o tremor passar.

— Estás bem? — perguntou, ao fim de um bocado.

— Estou. — A voz de Rafael saiu meia enrolada. — Estou ótimo. Desculpa ter sido tão


— Se acabas essa frase, eu ponho-te fora do carro.

Rafael riu-se contra o pescoço dele.

Lå fora, um carro passou na estrada, e as luzes atravessaram o teto do Mercedes e foram-se embora. Leo deu-lhe um lenço de papel que tirou do porta-luvas, sem comentårios, e Rafael endireitou a roupa com as orelhas a arder.

Depois voltou a olhar para ele. Tinha a cara em brasa e uma determinação nova nos olhos.

— Agora ensina-me.

Leo parou.

— Anjo


— Não. — Rafael pîs-lhe um dedo nos lábios. — Estás outra vez a decidir por mim. — Fez uma pausa, e a voz tremeu-lhe um bocadinho, mas não recuou. — Eu quero. Quero ser eu a fazer-te isso. Mostra-me como gostas.

Leo ficou a olhar para ele. E depois, muito devagar, tirou-lhe o dedo dos lĂĄbios e beijou-o.

— Está bem — disse. — Sem pressa.

Rafael levou as mĂŁos ao cinto dele, e as suas mĂŁos tremiam tanto que Leo teve de o ajudar com a fivela, e os dois se riram no escuro, e o riso tirou-lhe metade do medo.

O resto tirou-lho a mĂŁo de Leo, que se pousou em cima da dele e a guiou. Devagar. A mostrar-lhe a pressĂŁo, o ritmo, o sĂ­tio. E, quando percebeu que ele jĂĄ sabia, largou-a.

Rafael continuou sozinho.

Nunca tinha visto Leo assim. A cabeça encostada ao banco, o pescoço esticado, os olhos fechados com força, uma mão fechada em punho contra a porta do carro e a outra na nuca dele, sem apertar. A respiração a partir-se em sítios que Rafael foi aprendendo a reconhecer em tempo real: uma inspiração presa quando fazia daquela maneira, um som baixo, quase engolido, quando ia mais devagar.

— Rafael.

NĂŁo era um pedido. Era sĂł o nome a escapar-lhe.

E Rafael percebeu, com uma espécie de espanto quente, que era ele que estava a fazer aquilo. Que aquele homem, que mandava num edifício de sete andares e num bar onde as pessoas lhe chamavam senhor, estava ali, no banco de um carro, completamente entregue a um rapaz de dezoito anos que não sabia nada.

Era uma versĂŁo dele que ninguĂ©m conhecia. Nem a Beatriz. Nem o RefĂșgio. Nem os jornais.

E quando Leo se deixou ir, foi com o nome dele na boca.

🍃 🍃 🍃

O silĂȘncio que ficou no carro era quente, e nĂŁo era nada parecido com o silĂȘncio do princĂ­pio da noite.

Rafael encostou a cabeça ao ombro dele. Leo beijou-lhe o alto da cabeça.

— Menos assustado?

— Não. Mais.

Leo endireitou-se de repente.

— Mais? PorquĂȘ? Fiz alguma coisa que


— NĂŁo Ă© nada disso. — Rafael pĂŽs-lhe a mĂŁo no peito para o sossegar. E ficou vermelho outra vez. — É por causa
 daquilo. — Fez um gesto vago com a cabeça, na direção do colo dele, e escondeu a cara. — Aquilo nĂŁo vai entrar em mim, pois nĂŁo? Vai doer que se farta.

Leo ficou dois segundos em silĂȘncio. Depois começou a rir-se, e riu-se tanto que teve de encostar a testa ao volante.

— Não tem piada!

— Tem toda a piada. — Leo puxou-o para si, ainda a rir. — Anjo. Ouve-me. Não vai acontecer nada que tu não queiras. E quando acontecer, vai ser devagar, e vai ser no tempo certo. — Beijou-lhe a testa. — No nosso tempo.

Rafael respirou fundo.

— E vai doer?

— Não te vou mentir. Pode doer um bocado, ao princípio. — Leo passou-lhe o polegar pela cara. — Mas eu guio-te. Sempre. E paramos as vezes que for preciso. Nunca te vou mentir sobre isso, nem sobre nada.

Rafael acenou devagar. Depois franziu a testa.

— Espera. Foi disso que foste falar com o meu pai?

— Mais ou menos.

— Mais ou menos?

— Perguntei-lhe honestamente o que ele achava de nós. Da diferença de idades. E se ele estava bem com
 — Leo procurou as palavras, e pela primeira vez na noite pareceu envergonhado. — Com tudo. Contigo e comigo.

Rafael tapou a cara com as duas mĂŁos.

— Meu Deus. Falaste do meu pai sobre sexo. Com o meu pai. Vou mudar de país.

— Ele foi muito mais adulto do que tu estás a ser.

— Isso Ă© porque ele Ă© muito velho.

— Ele Ă© muito mais novo de cabeça do que tu pensas. — Leo pegou-lhe na mĂŁo outra vez. — E disse que sim. À outra pergunta tambĂ©m.

— Que outra pergunta?

— Se podias ficar em minha casa esta noite.

Rafael ficou muito quieto.

— E ele disse que sim?

— Disse que sim. Se tu quiseres. — Leo apertou-lhe os dedos. — E ouve bem: só acontece o que tu quiseres. Se não quiseres que aconteça nada, eu fico feliz na mesma. Fico feliz só de adormecer contigo lá e de acordar contigo lá.

Rafael ficou a olhar para as mĂŁos dos dois, juntas em cima do travĂŁo de mĂŁo.

— Eu quero dormir contigo — disse. — Mas
 nĂŁo sei se estou preparado para ir atĂ© ao fim. Desculpa.

— NĂŁo peças desculpa. — Leo levantou-lhe o queixo. — De ti sĂł quero verdade. O resto vem quando vier. E quem diz quando Ă© que estĂĄs pronto Ă©s tu. NinguĂ©m mais. Nem eu.

— Eu prometo que digo. — Rafael mordeu o lábio, e o sorriso fugiu-lhe pelos cantos da boca. — Mas aquilo de há bocado


— Aquilo de hĂĄ bocado o quĂȘ?

— Adorei. — Ficou vermelho, mas aguentou o olhar. — E quero aprender mais.

Leo soltou uma gargalhada.

— Atrevido.

— Tu gostas.

— Não gosto nada. — Piscou-lhe o olho. — Adoro.

Rafael pĂŽs o cinto, muito digno.

— Pronto. Podemos ir, velhote.

— Velhote?

— Velhote.

— Um dia destes mostro-te o velhote que eu sou.

— Promessas, promessas.

🍃 🍃 🍃

Foram pela marginal, com as janelas abertas e o rio preto Ă  direita. Rafael ia a olhar para fora, com a mĂŁo dentro da de Leo em cima do joelho dele, e a ver as luzes da outra margem a passar.

A certa altura, Leo saiu da avenida e meteu por umas ruas estreitas, entre prĂ©dios velhos e armazĂ©ns fechados. Virou duas vezes e entrou num pĂĄtio pequeno, com lugar para meia dĂșzia de carros. Havia um deles reservado, e foi lĂĄ que estacionou.

Rafael saiu e olhou em volta. NĂŁo havia letreiro nenhum. NĂŁo havia fila, nem mĂșsica a sair para a rua, nem nada que dissesse que ali dentro existia alguma coisa. SĂł uma porta de madeira escura ao fundo do pĂĄtio, com uma luz por cima, e um homem enorme, de fato preto, parado ao lado dela.

— É aqui? — perguntou, baixinho.

— É aqui.

Leo estendeu-lhe a mĂŁo.

Rafael olhou para a porta, e sentiu outra vez aquela coisa que lhe tinha apertado o peito Ă  porta de casa, uma hora antes, sem razĂŁo nenhuma.

Depois pegou na mão dele com força.

— Vamos.

Quando sair o prĂłximo livro, queres saber?

Mais nada. E podes sair da lista quando quiseres.

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