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Capítulo 19 — Ninguém Nos Separa

        O estacionamento privado do bar estava quase cheio àquela hora, mas Leo, como dono, tinha sempre o seu lugar reservado. Estacionou com calma e ambos saíram do carro.

       Rafael parou por um instante, olhando em volta, deslumbrado com o movimento, as luzes, a energia do lugar.

— Anjo, vamos entrar. Estás bem? — perguntou Leo, aproximando-se.

— Sim… vamos. Estava só a apreciar a vista — respondeu Rafael, ainda meio perdido no ambiente.

        Leo estendeu-lhe a mão. Rafael agarrou-a com força.

— Estás nervoso— murmurou Leo, apertando-lhe os dedos. — Fica calmo. Eu estou aqui. Estás seguro comigo.

— Eu sei. Vamos.

         Entraram de mãos dadas. O primeiro olhar curioso veio do segurança à porta.

— Boa noite, Sr. Leo. Sejam bem-vindos.

— Boa noite, Afonso. Quero aprese , e que passes a palavra aos outros. Ele tem entrada livre sempre que quiser e pode dispor do que quiser. Percebido?

         O tom de Leo era firme, quase autoritário.

— Sim, Dr. Leo. Pode deixar comigo. Prazer em conhecê-lo, Sr. Rafael. Bem-vindo à casa.

— O prazer é meu —respondeu Rafael, tímido.

         Continuaram a avançar. O próximo ponto de paragem foi um balcão que, para Rafael, parecia um bengaleiro, com várias peças de roupa alinhadas atrás de uma parede envidraçada.

— Dr. Leo… Sr… — cumprimentou outro segurança, claramente surpreendido por ver o patrão de mãos dadas com alguém. Mas sorriu, profissional.

— Boa noite— responderam os dois quase em uníssono.

        Leo apresentou Rafael novamente. Sabia que, em poucos minutos, toda a equipa saberia. E não se importava.

— Dá-me uma pulseira vermelha e uma preta. Para ele também.

         Rafael recebeu as pulseiras, intrigado.

— Existem várias cores, cada uma com o seu significado — explicou Leo enquanto colocava as suas. — A vermelha só os donos têm. E tu, como namorado do dono, tens o mesmo privilégio. Significa que tens os mesmos direitos que nós. A preta significa que não estás disponível. Que já pertences a alguém.

        Rafael arregalou os olhos.

— Leo… a preta tudo bem, mas a vermelha… — começou a protestar, mas Leo cortou-o com um sorriso.

— Caladinho. Quem manda aqui dentro sou eu. E eu quero que tenhas a vermelha. Entendido?

         Deu-lhe um toque no nariz. Rafael sorriu, maroto.

— Sim, Sr.!— disse, mostrando-lhe a língua como uma criança travessa.

— Malandro— riu Leo.

— Velhote.

         Foram avançando. Rafael observava tudo com curiosidade. Sentia alguns olhares sobre si, mas não se incomodou. Estava confortável. Um olhar em particular, vindo de uma loura que o seguia com atenção, deixou-o ligeiramente desconfortável — mas ignorou. Sorriu-lhe até, e viu-a corar.

        O ambiente era acolhedor, com madeira escura, mesas bem distribuídas, sofás confortáveis e música suave que tornava tudo mais íntimo. Uma escadaria discreta levava ao piso superior.

— Leo… o que há lá em cima? — perguntou Rafael, baixinho.

— Quartos— respondeu Leo, sincero.

— O quê?— Rafael quase tropeçou.

        Leo sorriu da reação.

— Depois explico-te como tudo funciona. Mas para já, só precisas de saber que tudo aqui é consentido e com regras de segurança e higiene muito rigorosas.

— Ok… não esperava outra coisa de ti.

         Aproximaram-se de uma porta com a placa “Escritório”. Rafael sentiu um aperto no estômago. Não sabia porquê. Já conhecia o Henrique. Só ia conhecer o namorado dele. Não era tímido…, mas algo o deixava inquieto.

        Leo percebeu.

— Anjo… o que se passa?

— Nem sei. Fiquei nervoso de repente. Como se… algo fosse acontecer. Não sei explicar.

— Já conheces o Henrique. E vais gostar do Mário.

— Não tem a ver com isso. Deve ser coisa da minha cabeça. Vamos entrar.

         Rafael parou à porta, algo a apertar-lhe o peito sem razão aparente.

        Leo abriu a porta.

        E o tempo parou.

        À sua frente, Henrique segurava alguém nos braços — alguém que Rafael conhecia. Por quem tinha chorado. Que pensava nunca voltar a ver.

        O rosto. A altura. O sorriso que ainda estava a desvanecer.

       Não era possível.

— Tu… — a voz saiu-lhe partida, quase sem ar. — Tu estás morto.

        E o chão desapareceu-lhe debaixo dos pés.

        Leo apanhou-o antes de cair, descendo com ele devagar até ao sofá, o coração apertado. Não entendia o que se passava — mas sabia que era sério.

— Mário…— disse Leo, a voz baixa, mas firme. — O que está a acontecer?

         Mário não respondeu de imediato. Estava pálido, os olhos cheios de lágrimas, o corpo a tremer como se o chão lhe tivesse desaparecido. Henrique segurou-o pelos ombros, tentando ancorá-lo ao presente.

— Bebé… olha para mim. Conheces o Rafael?

        Mário abriu a boca, mas as palavras custaram a sair.

— É o meu primo— murmurou, a voz partida. — O meu piolho.

        O silêncio que se seguiu foi pesado. Leo e Henrique trocaram um olhar, mas nenhum falou. Havia coisas que só o tempo podia explicar.

        Rafael começou a despertar devagar. Os olhos abriram-se, desorientados, e o primeiro rosto que procurou foi o de Leo.

— Estás aqui —murmurou, aliviado.

— Estou sempre— respondeu Leo, apertando-lhe a mão.

        Mas depois os olhos de Rafael voltaram a pousar em Mário — e a expressão mudou. Não era medo.  Era reconhecimento. Era saudade. Era uma dor antiga que nunca tinha tido nome.

         Mário aproximou-se devagar, como quem se aproxima de algo frágil.

— Piolho…

         Rafael não se mexeu. Ficou imóvel, os olhos presos no primo, como se tivesse medo que ele desaparecesse se piscasse.

— Como… —a voz falhou-lhe. Engoliu em seco e tentou de novo. — Como é possível? O teu pai disse que… disseram-nos que…

— Eu sei o que disseram— interrompeu Mário, a voz embargada. — E sinto muito. Sinto tanto, piolho.

         Rafael levantou-se devagar, ainda sem equilíbrio. Leo pousou-lhe uma mão nas costas, silencioso, presente.

— Eras tu— murmurou Rafael, como se estivesse a falar mais para si do que para alguém. — Eras sempre tu que eu sentia falta. Nos anos, no Natal… havia sempre um lugar vazio que ninguém conseguia preencher.

         Mário fechou os olhos, deixando escapar uma lágrima.

— Eu também sentia a tua falta. Todos os dias.

— Então porque não apareceste? Porque não disseste nada?

         A pergunta saiu carregada — não de raiva, mas de uma saudade que doía.

         Mário respirou fundo.

— Porque o meu pai afastou-me de tudo. Da família, dos amigos… de ti. E eu deixei, piolho. Tive vergonha durante muito tempo. Vergonha de ser quem sou. Vergonha de não ter lutado mais. Mas a verdade é que… escolhi ser feliz. Escolhi o Henrique. E paguei um preço muito alto por isso.

        Rafael ficou em silêncio, absorvendo cada palavra.

— O teu pai fez-te isto— disse por fim, a voz baixa. — Não tu.

         Mário abriu os olhos. Havia ali algo que precisava de ouvir há anos.

— Os meus pais aceitaram-me — continuou Rafael. — E vão aceitar-te também. Quando souberes que estás pronto.

      Mário não conseguiu responder. Só abriu os braços.

       E Rafael foi — sem hesitar, sem pensar, como quando era pequeno e corria para o primo depois de um pesadelo.

       O abraço foi longo. Silencioso. Cheio de tudo o que não tinha sido dito durante anos.

        Henrique e Leo observavam, ombro a ombro, sem falar. Havia momentos que não precisavam de palavras — e este era um deles.

       Mário riu, ainda com os olhos húmidos.

— Continuas igual, piolho. Sempre tão bom.

— Aprendi com os melhores — respondeu Rafael, afastando-se finalmente e indo direto para os braços de Leo.

         Leo recebeu-o sem hesitar, envolvendo-o com força.

— Estás bem?— murmurou, perto do ouvido.

— Estou —respondeu Rafael. E depois, mais baixo, só para ele: — Estou muito bem.

         Mário sorriu.

— Gostas dele?

— Não gosto…— disse Rafael, com ar malandro, deixando todos em suspense. — Amo o meu Velhote.

         Leo riu, aliviado.

— Assustas-me, seu travesso.

— Adoro-te, Velhote.

         Beijou-o suavemente nos lábios, sem se importar com quem estava presente. Henrique e Mário riram.

— Velhote?!— disseram os dois ao mesmo tempo.

— Fica-te bem, Velhote — provocou Henrique.

         Leo revirou os olhos, mas sorria como um homem que tinha o mundo inteiro nos braços.

— Podem gozar. Eu sou o Velhote deste pequeno malandro que me devolveu a felicidade. E isso basta-me.

         Rafael ria, aconchegado no peito dele.

— Leo, não te atrevas a magoar o meu priminho — avisou Mário, meio a sério, meio a brincar.

— Entra na fila, primo— respondeu Leo. — O teu namorado foi o primeiro a ameaçar-me. Depois os pais do Rafael. E, quando a minha família souber… vão todos fazer o mesmo.

— A tua família?— perguntou Henrique. — Eles já conhecem o Rafael?

         Leo suspirou.

— Conhecem-no muito melhor do que eu. Há muitos anos. O Rafael é o melhor amigo do meu sobrinho.

         Henrique soltou uma gargalhada.

— Amigo… boa sorte com isso.

— Obrigadinho pelo apoio… grandes amigos — resmungou Leo, voltando a abraçar Rafael.

— Velhote, tens de mostrar aquilo que vales — provocou Rafael, piscando-lhe o olho.

         Os outros dois riram alto.

— Meu garotinho maroto… um dia eu mostro-te quem é o velhote aqui. O que importa é que te amo. Só isso.

        Henrique observava-os com ternura.

— Obrigado, Rafael.

— Obrigado de quê?— perguntou o rapaz, genuinamente confuso.

— Por fazeres o meu amigo feliz. Nunca o vi assim. Nem quando estava com a Ana. Tu mudaste-o. Para melhor.

          Rafael sorriu.

— Ele percebeu que o que tinha com ela não era amor. Era só… hábito. É a mim que ele ama.

— Convencido— murmurou Leo, beijando-lhe a bochecha.

— Realista— corrigiu Rafael.

         Leo sorriu.

— É verdade. És tu que eu amo. Ela foi só uma ilusão.

          Do lado de fora, alguém aguardava — e não trazia boas intenções.

         A oportunidade não demorou a surgir.

         Rafael tinha acabado de sair para ir à casa de banho quando sentiu mãos fortes prenderem-lhe os pulsos.

         O aperto era tão brusco que lhe arrancou um gemido de dor. Antes que pudesse reagir, o segurança empurrou-o para o corredor lateral, afastando-o da vista de todos.

         Só então Rafael percebeu que algo estava errado.

        A mulher loura aproximou-se devagar, os braços cruzados, o olhar carregado de desprezo — e algo mais, algo inquietante, como se estivesse a olhar para alguém que não era ele.

— Tu és só o novo submisso do Leo, não és? — perguntou, com um sorriso torto.

        Rafael respirou fundo, tentando manter a calma apesar do aperto nos pulsos.

— Submisso? Nem sei o que isso é. Sou o namorado.

        A loura soltou uma gargalhada estranha, quase histérica. O segurança, atrás dele, hesitou por um instante — como se não estivesse totalmente confortável com a situação — mas manteve o aperto.

— Namorado?— repetiu ela, inclinando a cabeça. — Eu sou a mulher dele. É de mim que ele gosta. É a mim que ele procura.

         Rafael piscou, confuso. Por um segundo, uma dúvida ténue atravessou-lhe a mente. Mas desapareceu tão rápido quanto veio. Leo nunca lhe mentiria.

        E, de repente, Rafael desatou a rir. Riu alto, com vontade, como quem desfaz uma mentira à força do próprio riso.

       A mulher vacilou, apanhada de surpresa.


🍃 🍃 🍃


         No escritório, a conversa seguia leve, cheia de risos, até que uma batida forte ecoou pela porta. Antes que alguém pudesse reagir, ela abriu-se de rompante.

         Um segurança entrou, ofegante, o rosto alarmado.

— Dr. Leo… precisamos de si imediatamente! A Vera e o Gui levaram o seu rapaz para fora à força. Por favor… venha rápido!

          Leo levantou-se tão depressa que a cadeira quase tombou. O coração disparou-lhe no peito, o sangue gelou-lhe nas veias. Henrique e Mário levantaram-se logo atrás, partilhando o mesmo pânico silencioso.

— Há quanto tempo?— perguntou Leo, a voz tensa, já a correr para a porta.

— Cinco minutos, no máximo.

         Leo não esperou mais.

        Saiu disparado, seguido pelos outros dois.


🍃 🍃 🍃


        Ao atravessarem as portas do bar, pararam de súbito.

         Lá fora, ainda à distância, Rafael estava de pé, os pulsos presos pelo segurança, enquanto a mulher loura o encarava com uma mistura de raiva e… algo mais sombrio. Rafael ria — um riso provocador, insolente, mas também um escudo.

         Leo sentiu o peito apertar-se e as mãos começarem a tremer. O medo era tão intenso que quase o sufocava.

        Henrique e Mário trocaram um olhar rápido — preocupação e admiração misturadas. O miúdo tinha coragem.

        Escondidos por um instante, observaram.

        Rafael inclinou-se para a mulher, o sorriso afiado.

— Mulher dele? Estranho… ele nunca me disse que era casado. Se ele te ama tanto, porque foi comigo que falou com os meus pais? Porque foi a mim que apresentou como namorado?

         A mulher engoliu em seco, enquanto o segurança ao seu lado se movia, inquieto.

          Rafael continuou, firme:

— Ele ama-me. Está a proteger-me. E tu? Tu és… nada na vida dele.

          As palavras caíram como pedras. A loura vacilou; os olhos, trémulos, perderam-se entre Rafael e o vazio.

          O rosto empalideceu e as mãos começaram a tremer.

— Quando ele souber…— murmurou Vera, deixando a frase suspensa.

         Vera respirou fundo, como quem tenta agarrar-se a um fio de realidade.

— Quando ele souber que está grávida… não é?

         Rafael sorriu, mas o sorriso era frio.

— Boa sorte com isso, minha linda. Se ele realmente te amasse, saberias que ele não pode ter filhos. Mas não sabias, pois não?

          A mulher ficou imóvel, como se tudo à sua volta tivesse parado.

— O amor dele por ti é tão grande — continuou Rafael, com uma calma cruel — que nunca te contou. Mas comigo é diferente. Eu sei tudo. Porque ele… ama-me.

        O silêncio que se seguiu foi sufocante.

        Vera levou a mão à boca; os olhos encheram-se de lágrimas, não de tristeza, mas de pânico — como se algo nela se partisse por dentro.

        Foi então que Leo não aguentou mais: saiu do esconderijo a passo firme, tenso, sem tirar os olhos de Rafael, com o coração a querer saltar do peito.

        Henrique e Mário seguiram-no, prontos para intervir.

         Vera virou-se e, ao ver Leo, corou — não de vergonha, mas de raiva, humilhação e delírio. Deu um passo atrás, como se tivesse sido apanhada em flagrante.

       Leo aproximou-se de Rafael, sem tirar os olhos dele, como se precisasse de confirmar que estava inteiro.

         Baixou a voz, tentando acalmar o ambiente — e o coração do rapaz

— O que se passa aqui, Anjo? Estás bem? — perguntou, pousando as mãos firmes nos ombros de Rafael e puxando-o para si com cuidado.

          O segurança, ao cruzar o olhar com Leo, sentiu a ameaça silenciosa que vinha dele. Largou Rafael quase de imediato, como se tivesse tocado fogo.

         Rafael soltou um suspiro aliviado, ainda um pouco constrangido por ser o centro das atenções, mas grato pela presença de Leo.

         Vera, porém, não perdeu tempo a recuperar a pose. Endireitou-se, ergueu o queixo e respondeu com uma convicção teatral, como quem recita um texto mal decorado:

— Sr. Leo, eu só estava a cumprimentar o seu novo submisso e a dar-lhe as boas-vindas.

          O sorriso triunfante dela durou apenas um instante — o tempo de Leo confirmar, sem hesitar, o que   Rafael dissera. Vera arregalou os olhos e ficou muda, a boca a abrir e a fechar.

        Leo, com um orgulho impossível de esconder, declarou com voz firme e um sorriso cúmplice:

— Ele não é meu submisso. É o meu namorado. O meu companheiro.

         Puxou Rafael para junto de si, envolvendo-o num abraço quente, protetor, quase instintivo. Sentiu o rapaz tremer e inclinou-se para murmurar-lhe ao ouvido:

— Estás mesmo bem?

          Rafael, aproveitando o momento, ergueu o rosto com aquele sorriso travesso que só ele sabia fazer.

— Sim. Leo, essa senhora diz que é tua esposa. Não me disseste que eras casado quando falaste com os meus pais.

        Henrique e Mário quase engasgaram a rir.

        Leo, por um instante, ficou rígido — até ver o brilho trocista nos olhos de Rafael. Relaxou e deixou escapar uma gargalhada curta.

        Rafael continuou, implacável:

— E também não sabia que ias ter um filho. Disseste que não podias tê-los.

         A provocação arrancou sorrisos dos três homens atrás dele. Henrique e Mário trocaram olhares cúmplices, como quem assiste à melhor comédia improvisada da noite.

        Vera, agarrada ao último fio de esperança, avançou com uma audácia:

— Amor…— disse, num tom meloso que só funcionaria num anúncio de perfume barato. — Eu sei que me amas, Leo. Ele é só mais um. Eu perdoo-te. Vamos ter um filhote.

         Tentou aproximar-se de Leo com um sorriso doce — mas foi travada por uma mão firme que a afastou sem cerimónia. Leo puxou Rafael ainda mais para si, como se o corpo dele fosse um escudo.

— Em primeiro lugar— disse Leo, a voz dura — eu não sou, nem nunca fui o teu amor. Tu foste apenas uma boa foda. E segundo: além de eu não poder ter filhos, nós nunca fizemos nada sem preservativo. Nunca.

         Vera empalideceu, mas insistiu, com a voz a tremer:

— Fizemos sim… deve ter acontecido em algum momento…

        Leo semicerrou os olhos, impassível.

— Podemos rever todas as câmaras. Mas vais perder.

         Rafael, já sem paciência, respirou fundo. As mãos tremiam-lhe, mas a voz saiu firme, carregada de convicção:

— Olha, chega. Posso ser novo, mas não sou influenciável. Sei que ele me ama, por isso não vais conseguir virar-me contra ele. E agradeço-lhe por me ter contado tudo sobre a vida dele — senão talvez agora estivesse na dúvida.

          Deu um passo à frente, encarando Vera com uma coragem que surpreendeu até Leo.

— Ele pode ter-te fodido, mas sabes… é para a minha cama que ele vem à noite. É abraçado a mim que ele dorme. E é comigo que ele faz amor.

        Henrique sorriu, orgulhoso.

        Mário quase se emocionou ao ver o primo tão seguro de si.

        Vera, desesperada, tentou recuperar terreno:

— Amor… vais deixar que ele me fale assim?

        Leo virou-se para ela, os olhos faiscando de raiva.

— O que ele disse é pouco. E a única pessoa que me pode — e a quem eu dei autorização — para me chamar “amor”… é ele. Não tu.

        O silêncio que se seguiu foi pesado, quase palpável.

        E Vera… quebrou por dentro.

        Leo inspirou fundo, tentando recuperar o controlo, mas o corpo permanecia rígido, os punhos cerrados, o olhar sombrio. Quando falou, a voz saiu fria, definitiva:

— Por mim, a senhora estava no olho da rua. E esse brutamontes também.

         O segurança engoliu em seco.

        Rafael, ainda a esfregar o pulso dorido, tentava disfarçar as marcas vermelhas que começavam a surgir. Leo viu. E o mundo dele encolheu num ponto de fúria pura.

       Leo segurou o pulso de Rafael e viu as marcas dos dedos; algo dentro dele quebrou. Largou-o e avançou num impulso sobre o segurança.

         O soco foi rápido, certeiro, violento.

         O homem caiu ao chão sem tempo de reagir.

FORA DAQUI OS DOIS! — bradou Leo, a voz a ecoar pelo espaço, carregada de autoridade e raiva.

         Vera virou-se para Henrique e Mário, tentando agarrar-se à última réstia de influência:

— Sr. Henrique, Sr. Mário, vão deixar que isto aconteça? Eu estou aqui há anos! Quem é essa coisa para me mandar embora?

         Foi a vez de Mário perder o controlo.

         Agarrou o braço dela com firmeza, o olhar feroz.

— Essa “coisa” é o namorado de um dos donos, amigo do outro… e meu primo. Tem mais direito aqui do que tu alguma vez tiveste. Agora sai.

        A voz dele soou como uma sentença.

        Vera percebeu que tinha perdido.

        Ela e o segurança recolheram os pertences e saíram, derrotados pelo peso da tensão.

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