18 – O Que Não Te Perguntei
O telemóvel vibrava em cima da toalha.
Rafael olhava para ele sem lhe tocar. A mãe olhava para o marido. O marido olhava para o filho.
— Atende, filho.
— Pai, a regra…
— A regra é minha, e hoje sou eu que a levanto. — O Sr. Wei pousou a chávena. — Ele deve estar preocupado. Atende.
Rafael pegou no telemóvel à quarta vibração.
📞 — "Olá."
📞 — [Anjo. Ainda bem. Estava a ficar preocupado.]
A voz de Leo vinha depressa, mais aguda do que o costume.
📞 — [Porque é que não respondeste à mensagem? Está tudo bem? Houve algum problema com os teus pais?]
Rafael olhou para os pais. Depois fez uma coisa que nunca tinha feito: levou um dedo aos lábios, a pedir silêncio, e carregou no alta-voz.
Queria que eles ouvissem.
📞 — [Se eles estão chateados comigo, diz-me. A sério. Eu falo com eles, eu vou lá, eu…] — Uma inspiração funda. — [Se eles não te deixarem ficar até tarde, não faz mal nenhum. Eu vou a tua casa. Fico na sala com eles a ver televisão, se for preciso. Desde que esteja ao pé de ti. Só não te quero ver triste por minha causa.]
A D. Clara pousou a torrada. O Sr. Wei tirou os óculos.
📞 — "Leo. Queres ouvir-me um segundo?"
📞 — [Diz.]
📞 — "Eu não respondi porque estava a tomar o pequeno-almoço com os meus pais. Aqui em casa não se atende o telemóvel à mesa. Está tudo bem. Eles deixam-me ir contigo logo à noite. Deixam-me ir nas noites que eu quiser. Ninguém está zangado com ninguém."
Do outro lado da linha houve um silêncio.
📞 — [Ah.] — Uma pausa. — [Então eu fiz uma cena enorme por causa de uma regra da mesa.]
📞 — "Fizeste."
📞 — [Desculpa. Eu sei que às vezes pareço exagerado.] — A voz dele desceu. — [Mas não consigo evitar. Só de pensar que te fiz quebrar uma regra em tua casa, ou que possa haver mau ambiente entre ti e os teus pais por minha causa, fico doente. Se for preciso afasto-me. Mesmo que me custe.]
Foi ali que a cara de Rafael se desfez.
Ele abriu a boca para responder e não lhe saiu nada. Foi o pai quem falou, inclinado sobre a mesa, com a voz calma de quem está a explicar uma jogada.
— Leo. É o pai do Rafael.
Do outro lado da linha, o silêncio ficou de uma qualidade diferente.
📞 — [Sr. Wei.]
— Estou a ouvir-te desde o princípio, e peço desculpa por isso. Foi o meu filho que pôs o alta-voz. — Uma pausa. — Já pensaste que, se te afastares, quem sofre é ele? O Rafael gosta muito de ti. Nós só o queremos ver feliz. A diferença de idades preocupa-te, isso percebe-se. Mas nós acreditamos que não o vais magoar. Percebemos isso no dia em que entraste por esta porta para falar connosco, antes de sair com ele.
Outra pausa. Rafael viu, no ecrã, os segundos da chamada a correr.
📞 — [Apanhou-me desprevenido, Sr. Wei.] — A voz de Leo saiu com um riso envergonhado pelo meio. — [Rafael, ainda aí estás?]
📞 — "Estou aqui. Desculpa. Precisava que eles ouvissem."
📞 — [Precisavas de me apanhar assim?]
📞 — "Precisava."
📞 — [Está bem.] — Um suspiro. E depois, mais firme: — [Sr. Wei. D. Clara. Já que me apanharam, digo-o de uma vez. Eu amo muito o vosso filho. Sei que sou catorze anos mais velho. Sei as dúvidas que isso vos pode levantar. Mas o que sinto por ele é verdadeiro. Quero uma coisa séria. Ele é novo, e eu vou saber esperar pelo tempo dele.]
Rafael ficou a olhar para o telemóvel.
A mãe levou a mão à boca. O pai não se mexeu, mas os olhos dele ficaram molhados por trás dos óculos, e ele não fez nada para os limpar.
Amo muito o vosso filho.
Não era a ele que Leo o estava a dizer. Era aos pais dele, ao telefone, sem saber que ele estava ali a ouvir.
E, ao mesmo tempo, era exatamente a ele.
— Nós sabemos, Leo — disse o Sr. Wei, e a voz dele também não estava firme. — Não te preocupes tanto connosco. Preocupa-te é em fazê-lo feliz. Respeita-o, sim. — Fez uma pausa, e Rafael percebeu que o pai estava a escolher as palavras com muito cuidado. — Mas lembra-te de uma coisa: não és tu quem deve tomar as decisões por ele. São dois. As decisões são dos dois.
Do outro lado, o silêncio foi mais longo do que os outros.
📞 — [Está bem.]
📞 — "Leo." — Rafael pigarreou. — "A que horas me vens buscar?"
📞 — [Por volta das dez. Serve?]
📞 — "Serve. Estou à tua espera."
📞 — [Sr. Wei, D. Clara… obrigado. Pela confiança.] — Uma pausa curta. — [Prometo tomar conta dele.]
A chamada acabou.
Ficaram os três à mesa, sem dizer nada. O rádio dava as notícias do trânsito, como todas as manhãs, e ninguém as ouvia.
— Ele não sabia que vocês estavam a ouvir — disse Rafael, por fim. — Ele é sempre assim. Sempre.
O pai voltou a pôr os óculos.
— Eu sei, filho. — Pousou a mão em cima da mesa, aberta, e Rafael pôs a dele em cima. — Aquele homem tem medo de te magoar. E quem tem medo de magoar, não magoa. — Apertou-lhe os dedos uma vez. — Mas ouve o que eu te digo. A idade dele mexe com ele mais do que ele deixa ver. E quem anda com medo começa a decidir sozinho. Decide o que tu podes, o que tu queres, o que é melhor para ti. Sem te perguntar nada. Sempre a pensar que te está a proteger.
Rafael ficou muito quieto.
— É isso que ele está a fazer — disse, baixinho.
— É isso que ele está a fazer.
A mãe acariciou-lhe o braço.
— Fala com ele, meu amor. Tens dezoito anos, mas tens cabeça. Diz-lhe o que queres. Diz-lhe o que não queres. Num casal fala-se, e decide-se a dois. — Sorriu. — Senão, daqui a um ano, ele ainda te está a levar a casa às onze e meia e tu ainda estás à espera de um sinal que ele também está à espera de te dar.
Rafael riu-se. Mas era um riso pequeno, porque a cabeça já estava noutro sítio.
— Obrigado, pai. Mãe. — Levantou-se. — Preciso que ele perceba que eu também tenho voz nisto.
🍃 🍃 🍃
Subiu as escadas a pensar em ligar ao Nuno.
Nem chegou a marcar. O telemóvel tocou-lhe na mão, com a cara do Nuno no ecrã, uma fotografia de há dois anos em que ele tinha gelado na cara.
📞 — "Estava mesmo a ligar-te."
📞 — [Claro que estavas. Eu sou vidente.] — A voz do Nuno vinha acelerada, como sempre. — [Então? Conta. Correu bem?]
📞 — "Correu."
📞 — [Correu como? Correu bem, ou correu bem?]
📞 — "Nuno."
📞 — [Desculpa. Estou nervoso. Isto para mim ainda é muito esquisito, Rafa. Tu. E o meu tio.] — Uma pausa. — [Então? O que é que fizeram ontem?]
Rafael atirou-se para cima da cama, de costas, a olhar para o teto.
📞 — "Ele levou-me a ver a mãe."
Do outro lado, o silêncio foi tão comprido que Rafael chegou a olhar para o ecrã para ver se a chamada tinha caído.
📞 — [Levou-te à minha avó.]
📞 — "Levou."
📞 — [Ao lar. À Casa das Tílias. À avó.] — A voz do Nuno tinha mudado completamente. — [Rafa. O meu tio não leva lá ninguém. Ninguém. Nós vamos ao domingo, os meus pais, eu e a Amélia, e ele vai à quinta sozinho. Sempre sozinho. Nunca levou lá uma pessoa na vida.]
📞 — "Eu sei. Ele disse-me."
📞 — [E como é que ela estava?]
📞 — "Num dia bom. A D. Graça disse que tinha comido tudo." — Rafael sorriu para o teto. — "Chamou-me menino bonito. Perguntou-me o nome quatro vezes. Deu-me um rebuçado às escondidas."
📞 — [Os rebuçados de mentol.] — O Nuno riu-se, e o riso partiu-se a meio. — [Ela dá-nos sempre. A Amélia tem uma gaveta cheia deles.]
Ficaram os dois calados um bocado.
📞 — [Ela chamou-lhe Enzo?]
📞 — "Chamou."
📞 — [Pois.] — O Nuno respirou fundo. — [Odeio aquilo. Odeio mesmo. Ela lembra-se do avô e não se lembra dele.]
📞 — "Ontem lembrou-se de uma coisa dele." — Rafael hesitou. Havia coisas que não eram dele para contar, mas aquela era da família do Nuno, não era do Leo sozinho. — "Falou de um caderninho que ele tinha, quando era pequeno."
📞 — [O caderninho.] — O Nuno riu-se outra vez, molhado. — [A minha mãe fala nisso. Que ele andava com aquilo para todo o lado.]
📞 — "Ele ficou… " — Rafael procurou a palavra. — "Ficou parado. Com a escova no ar. Nunca vi ninguém ficar assim."
📞 — [Rafa.]
📞 — "Diz."
📞 — [Tu sabes o que isso quer dizer, não sabes? Levar-te lá. Tu percebeste.]
Rafael fechou os olhos.
📞 — "Percebi."
🍃 🍃 🍃
📞 — [Pronto, chega de coisas sérias, que eu ainda choro e depois a minha mãe pergunta porquê.] — O Nuno mudou de voz como quem muda de canal. — [Agora conta-me o resto. Já dormiram juntos?]
📞 — "NUNO."
📞 — [O quê? Sou o teu melhor amigo. Tenho direito.]
📞 — "Não tens direito nenhum. E não. Não dormimos."
Silêncio.
📞 — [Três semanas e meia.]
📞 — "Três semanas e meia."
📞 — [Rafa, o meu tio…]
📞 — "O teu tio não me toca porque acha que eu ainda não estou pronto."— Rafael sentou-se na cama. — "Beija-me. Só isso. E diz sempre que a decisão é minha, que é quando eu quiser."
📞 — [E tu queres?]
Rafael ficou calado um segundo a mais do que devia.
📞 — [Ah.] — O Nuno fez um som complicado. — [Ok. Ok. Vou fingir que não percebi nada, porque estamos a falar do meu tio e eu ainda não estou preparado para isto.]
📞 — "Foste tu que perguntaste!"
📞 — [E arrependi-me!] — Riram-se os dois. Depois o Nuno acalmou. — [Falaste com ele?]
📞 — "Vou falar. Hoje."
📞 — [Boa. Fala. Porque ele é assim, Rafa. Decide tudo sozinho e depois acha que fez um favor a toda a gente. Faz isso na empresa, faz isso connosco, fazia isso nos Natais quando a minha mãe lhe perguntava o que queria para o jantar.] — Uma pausa. — [Mas contigo ele ouve. Eu vi. No dia dos anos da minha mãe, ao telefone, ele parou a meio de uma frase porque tu lhe mandaste uma mensagem. Parou a meio, Rafa.]
📞 — "Estás a inventar."
📞 — [Não estou nada. E, já agora, eu ganhei um tio novo, portanto exijo respeito.]
📞 — "Ganhaste um o quê?"
📞 — [Um tio! Tu vais casar com o meu tio, logo passas a ser meu tio. É matemática.] — O Nuno estava a rir-se tanto que quase não se percebia o que dizia. — [Tio Rafael. Tio Rafa. Vou-te chamar isso à frente de toda a gente.]
📞 — "Eu mato-te."
📞 — [Tio Rafa!]
Combinaram almoçar no dia seguinte e ir ver a faculdade antes de as aulas começarem. Quando desligaram, Rafael ficou sentado na cama, com o telemóvel na mão e o teto a parecer-lhe mais baixo do que de manhã.
Hoje, pensou. Hoje falo com ele.
🍃 🍃 🍃
Leo passou a manhã a ler contratos sem perceber uma palavra.
Não era a chamada. A chamada tinha corrido bem, até bem demais. Era a frase do pai do rapaz, que lhe tinha ficado atravessada como uma espinha.
Não és tu quem deve tomar as decisões por ele.
Já lhe tinha dado três voltas. Não estava a decidir nada por ninguém. Estava a respeitá-lo. Estava a esperar. Estava a fazer a coisa certa, pela primeira vez na vida, e tinha sido preciso um senhor de óculos e jornal dobrado para lhe pôr uma dúvida na cabeça.
Às duas menos um quarto, o telefone interno tocou.
📞 — [Vens almoçar, ou vais ficar aí a olhar para a parede?]
📞 — "Já desço."
O refeitório estava quase vazio àquela hora. Henrique já lá estava, a empurrar arroz de um lado do prato para o outro.
Leo sentou-se. Comeu duas garfadas. Pousou o garfo.
— Diz lá — disse Henrique, sem levantar os olhos do prato.
— O quê?
— Tens uma cara desde as dez da manhã. Ou é o rapaz, ou morreu alguém, e eu prefiro que seja o rapaz. — Levantou os olhos. — O que foi?
Leo contou. A chamada, o alta-voz, os pais a ouvirem tudo, o que ele tinha dito sem saber que estavam à escuta. E a frase do pai, no fim.
— Não percebi o que ele quis dizer — admitiu. — As decisões são dos dois. Eu não estou a decidir nada. Estou a esperar.
Henrique pousou o garfo. Encostou-se para trás na cadeira. E começou a rir-se.
— Não tem piada nenhuma.
— Tem muita piada. — Henrique limpou os olhos com o guardanapo. — Leo. Tu és a pessoa mais esperta que eu conheço para umas coisas e a mais cega do mundo para outras.
— Ajuda-me, por favor.
— Está bem. — Henrique inclinou-se para a frente. — Quando decidiste esperar, falaste com ele?
Leo abriu a boca.
— Eu…
— Perguntaste-lhe se era isso que ele queria? — Henrique levantou uma mão, a contar pelos dedos. — Perguntaste-lhe o que é que ele queria fazer, e quando, e até onde? Ou decidiste sozinho, dentro dessa tua cabeça, o que era melhor para os dois, e depois cumpriste à risca, todo orgulhoso de ti?
Leo ficou a olhar para ele.
O ruído do refeitório continuou à volta dos dois: tabuleiros, cadeiras a arrastar, alguém a rir-se ao fundo. Leo não ouvia nada disso.
— Merda — disse.
— Pois.
— Merda, Henrique.
— Tomaste uma decisão pelos dois — disse Henrique, mais suave. — Uma decisão bonita, é verdade. Mas tomaste-a sozinho. Nunca lhe perguntaste nada. E aquele rapaz tem dezoito anos, nunca teve ninguém, e passa os dias a pensar que não chega para ti. Fizeste as contas?
Leo passou a mão pela cara.
— Ele deve achar que eu não o desejo.
— Se calhar. Se calhar não. — Henrique encolheu os ombros. — Mas ele foi falar disso com o pai, Leo. Um rapaz de dezoito anos foi falar disso com o pai. Alguma coisa ele tinha atravessada.
Leo ficou um bocado calado, com os dois cotovelos na mesa.
— Eu estava a tentar fazer bem.
— Eu sei que estavas. — Henrique deu-lhe uma palmada no braço. — E fizeste bem em esperar. O erro não foi esperar. Foi esperar sem lhe perguntar nada. Não é a mesma coisa.
Leo acenou devagar.
— Vou falar com ele hoje.
— Faz isso. — Henrique voltou ao arroz. — E não voltes a decidir sozinho o que é dos dois. Ele é novo, mas não é parvo. Sabe muito bem o que quer. — Apontou-lhe o garfo. — Aprende comigo, que sou mais velho três meses e muito mais sábio.
— Tens três meses a mais e a mesma idade mental de sempre.
— E mesmo assim sou mais sábio. É triste para ti.
🍃 🍃 🍃
Às dez menos cinco, o Mercedes preto parou em frente ao portão verde.
Leo ficou um momento dentro do carro, como fazia sempre, com as mãos no volante. Não estava nervoso por causa do Refúgio. Estava nervoso por causa do que ia dizer depois.
Tocou à campainha.
Rafael abriu a porta antes do segundo toque, com o cabelo ainda húmido e uma camisa azul-escura que Leo não lhe conhecia.
— Boa noite, Leo.
— Boa noite, anjo.
Inclinou-se e beijou-o. Um beijo curto, à porta de casa dos pais dele, com a luz do corredor acesa. Rafael ficou vermelho na mesma.
— Podemos ir. Estou pronto.
Leo passou-lhe as costas dos dedos pela cara.
— O teu pai ainda está acordado?
Rafael parou.
— Está. Está na sala. Porquê?
— Queria falar com ele. — Leo endireitou a manga da camisa, um gesto pequeno que Rafael já lhe conhecia. — Antes de sairmos. É rápido.
Rafael engoliu em seco. O coração começou a bater-lhe depressa, mas não era medo. Era outra coisa.
— Claro. Entra.
Leo entrou. Os passos dele soaram no corredor e Rafael ficou onde estava, com a mão na maçaneta e a porta aberta para a noite, a ouvir as duas vozes na sala: a do pai, calma, e a de Leo, mais baixa, a dizer qualquer coisa que ele não conseguia distinguir.
Pela primeira vez, não teve vontade de ouvir à porta.
Não fazia falta. Fosse o que fosse que estavam a combinar lá dentro, ele já tinha decidido o que ia dizer nessa noite.
Mais nada. E podes sair da lista quando quiseres.