17 – O Leo que Rafael Despertou
Leo acordou às sete com vontade de lhe escrever.
Pegou no telemóvel, abriu a conversa com R., escreveu Bom dia, anjo, e ficou a olhar para as três palavras. Depois apagou-as. Não se mandavam mensagens ao Rafael antes das dez. Tinha aprendido isso na primeira semana, com um quem é que manda mensagens às sete da manhã, és algum pássaro? e um emoji de cara zangada que o fizera rir sozinho na cozinha.
Pousou o telemóvel com o ecrã para baixo e foi tomar banho.
Na véspera, quando o deixara à sombra da árvore do costume, às onze e meia, o rapaz tinha-o beijado de uma maneira diferente. Mais demorada. Mais quieta. Como quem diz uma coisa sem palavras. E depois saíra do carro sem dizer nada, e Leo ficara um bocado a olhar para o portão verde, com a sensação de que alguma coisa tinha mudado e de que não sabia bem o quê.
Sabia que tinha a ver com a mãe. Com a escova. Com o rebuçado de mentol que o rapaz tinha guardado no bolso da camisa como se fosse uma coisa preciosa.
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Henrique estava no bar do rés-do-chão, sentado à mesa do canto, de telemóvel na mão e um sorriso parvo na cara. Leo não precisou de perguntar com quem é que ele estava a falar.
— Bom dia — disse, a sentar-se à frente dele.
Henrique levantou os olhos do ecrã. Olhou-o de cima a baixo, devagar, como fazia com os alunos novos no primeiro dia.
— Bom dia. — Pousou o telemóvel. — Olha para essa cara. A noite correu bem, estou a ver.
— Correu muito bem.
A rapariga do balcão trouxe-lhe o café e a fatia de bolo de laranja sem ele pedir. Leo agradeceu. Henrique esperou que ela se afastasse, e inclinou-se para a frente com um brilho nos olhos que Leo conhecia desde os seis anos.
— Finalmente.
— Finalmente o quê?
— Não te faças parvo. Três semanas e meia, Leo. Tu. Três semanas e meia. — Henrique abriu as mãos, como quem apresenta uma prova. — Eu já estava a pensar que te tinha acontecido alguma coisa. Um acidente. Uma doença. Um voto religioso.
Leo pegou no café e bebeu um gole.
— Não foi isso.
Henrique ficou parado.
— Como assim, não foi isso?
— Não foi isso — repetiu Leo, calmo. — Ainda não aconteceu nada, Henrique. Não dessa maneira.
Henrique abriu a boca. Fechou-a. Voltou a abri-la.
— O quê? — Saiu-lhe mais alto do que queria. Duas raparigas da redação, na mesa ao lado, viraram a cabeça. Henrique baixou a voz até um sussurro furioso. — Tu não… em três semanas e meia… tu, Leo Mattos, que…
— Fala baixo.
— Estou a falar baixo! — sussurrou Henrique, mais alto. — Então o que é que foi, ontem? Porque tu entraste aqui com uma cara que eu não te via desde os vinte anos.
Leo pousou a chávena. Ficou um momento a olhar para o bolo.
— Levei-o ao lar.
Henrique deixou de falar.
Ficou muito quieto, do outro lado da mesa. Não fez mais perguntas. Conhecia Leo há vinte e seis anos, e conhecia a D. Laura quase há tanto tempo, desde os lanches de pão com manteiga na cozinha da vivenda branca, quando os dois tinham seis anos e joelhos esfolados. Sabia o que as quintas-feiras eram. Sabia que Leo nunca lá tinha levado ninguém. Nem a Beatriz.
— À tua mãe — disse, por fim.
— À minha mãe.
— E?
Leo encolheu os ombros. Mas os olhos traíram-no.
— Ela gostou dele. Chamou-lhe menino bonito. Deu-lhe um rebuçado de mentol às escondidas. — Sorriu. — Perguntou-lhe o nome quatro vezes. Ele respondeu quatro vezes, sempre como se fosse a primeira. Nunca perdeu a paciência. Nem uma vez.
Henrique não disse nada.
— E ela falou de mim — continuou Leo, mais baixo. — Do caderninho. Lembras-te do caderninho?
— Lembro. — Henrique quase se riu. — Andavas com aquilo para todo o lado. Escreveste lá que a D. Olga da mercearia tinha bigode e ela leu por cima do teu ombro no autocarro.
— Ela lembrou-se. Não sabia quem eu era, mas lembrou-se do caderninho. — Leo olhou para a chávena. — E depois, no parque, contei-lhe o que quer dizer L&L.
Desta vez, Henrique pousou as duas mãos em cima da mesa.
— Contaste-lhe.
— Contei.
Henrique ficou a olhar para ele muito tempo. Depois abanou a cabeça, devagar, e encostou-se para trás na cadeira.
— Estás apaixonado, Leo.
Leo não respondeu. Pegou no garfo, partiu um bocado de bolo e não o comeu.
— Talvez — disse, por fim.
— Talvez uma ova. — Henrique cruzou os braços. — Conheço-te há vinte e seis anos. Já te vi em todas as fases. Na fase das festas. Na fase do hospital. Na fase da Beatriz. Na fase depois da Beatriz, que foi a pior de todas. Esta é nova. Nunca te vi assim. — Fez uma pausa. — E é bonita, pá.
Leo sorriu. Não conseguiu evitar.
— Ele faz-me querer ser melhor — disse. — Não sei explicar de outra maneira. É como se tudo o que eu achava importante antes tivesse perdido o peso. A revista, o dinheiro, o Refúgio. Continua lá tudo. Mas agora há ele, e o resto encolheu.
— Isso tem um nome.
— Eu sei que tem um nome.
— Então diz.
— Não to vou dizer a ti primeiro — disse Leo, e riu-se. — Tem juízo.
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Henrique partiu um bocado do bolo dele sem pedir licença e comeu-o.
— Mas explica-me uma coisa — disse, de boca cheia. — Três semanas e meia. Tu desejas o rapaz, não desejas? Porque se não desejas, temos um problema maior do que eu pensava.
— Desejo. — Leo não baixou a voz, desta vez. — Muito. Mais do que desejei alguém na vida. E sei que, se eu insistisse, ele acabava por dizer que sim. — Abanou a cabeça. — Mas não quero que ele diga que sim porque eu insisti. Quero que seja ele a querer. Por inteiro. Sem medo. Tem dezoito anos, Henrique, e nunca tinha beijado ninguém antes de mim. Está a descobrir quem é. Eu não quero ser uma coisa que lhe aconteceu. Quero ser uma coisa que ele escolheu.
Henrique ficou calado.
— Conheci os pais dele — continuou Leo. — Gente boa. A mãe trata-o como se ele fosse de vidro e ao mesmo tempo deixa-o partir-se, se for preciso. O pai joga xadrez e diz as coisas importantes em chinês. Olharam para mim e viram um homem de trinta e dois anos a entrar-lhes em casa, e mesmo assim abriram a porta. — Fez uma pausa. — Não lhes quero dar razões para se arrependerem.
— Eu estava preocupado contigo — admitiu Henrique. — A sério. Quando me disseste, na primeira semana, que ias conhecer os pais, pensei que estavas a ter uma crise de meia-idade adiantada.
— E agora?
— Agora acho que és um parvo apaixonado. — Henrique sorriu. — Que é muito melhor.
Leo riu-se.
— Quero conhecê-lo — disse Henrique. — A sério. Não só de passagem, no salão, a cair para o lado. Quero conhecer o rapaz que fez isto ao meu amigo.
— Vais conhecer. — Leo pousou o garfo. — Hoje à noite. Se os pais o deixarem ficar até mais tarde.
— Hoje à noite? — Henrique franziu a testa. — Hoje à noite estou no Refúgio. Com o Mário. Como todas as sextas.
— Eu sei.
Henrique ficou a olhar para ele. Demorou um segundo. Depois outro. Depois percebeu, e endireitou-se na cadeira como se lhe tivessem puxado os ombros para trás.
— Vais levá-lo ao Refúgio.
— Vou mostrar-lhe. Só isso. O bar. O sítio. Quero que veja com os olhos dele, em vez de imaginar coisas.
— Então ele sabe.
— Sabe tudo. Contei-lhe no primeiro jantar. — Leo encolheu os ombros. — Não consigo esconder-lhe nada, Henrique. Tentei. Disse-te que ele não precisava de saber, lembras-te? E seis horas depois estava a contar-lhe. Não consigo mentir-lhe. Nem sequer consigo não lhe dizer as coisas.
Henrique ficou calado muito tempo. Depois descruzou os braços e passou a mão pela barba curta.
— Nem a Beatriz sabia — disse, baixinho.
— Pois não.
— Nem a Beatriz foi ao lar. Nem a Beatriz sabia o que era a L&L. Nem a Beatriz sabia do Refúgio. — Henrique abanou a cabeça. — E tu andaste com ela dois anos. Ias casar com ela.
— Ia.
— E este rapaz, em três semanas e meia, já sabe tudo.
Leo não respondeu. Não era preciso.
Henrique ficou a olhar para ele com uma cara que Leo não conseguiu ler. Orgulho, talvez. Ou uma coisa parecida com ternura. Ou só o cansaço bom de quem espera muito tempo por uma coisa e finalmente a vê chegar.
— Então quero muito conhecê-lo — disse. — E o Mário também vai querer.
Disse o Mário com um cuidado estranho. Leo reparou, e não percebeu porquê.
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Henrique voltou a pegar no telemóvel. Leu qualquer coisa no ecrã e o sorriso desapareceu-lhe da cara, devagar, como quando se apaga uma luz num quarto do fundo.
— O que foi?
— Nada. — Henrique bloqueou o ecrã e pousou o telemóvel com a face para baixo. — O Mário. A mãe dele ligou-lhe outra vez. — Suspirou. — Sabes o que eu estava a pensar, quando falavas dos pais do Rafael? Que gostava que com a família do Mário tivesse sido assim.
Leo não disse nada. Pôs-lhe a mão no ombro por cima da mesa e deixou-a lá, como Henrique fizera com ele no salão vazio, semanas antes.
Sabia pouco. Sabia o que o Henrique lhe contara numa noite de muitos copos, e depois nunca mais: que o Mário tinha saído de casa aos dezassete, que não falava com o pai, que a mãe ligava de vez em quando, às escondidas, e que ele ficava dias em silêncio depois de cada chamada. Leo nunca perguntara mais. O Mário também nunca contara.
— Vão ficar bem — disse Leo. — Vocês os dois.
— Eu sei. — Henrique sacudiu a cabeça, como quem sacode água do cabelo. O sorriso voltou, mais pequeno. — Anda. Acaba o bolo e vamos trabalhar. Tristezas não pagam dívidas, e eu tenho quarenta miúdos lá em cima à espera de aprenderem a andar.
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Do outro lado da cidade, Rafael estava acordado desde as oito.
Não tinha dormido quase nada. Tinha passado metade da noite a olhar para o teto e a outra metade a olhar para o rebuçado de mentol, pousado na mesa de cabeceira, ao lado do telemóvel, no papel às riscas amarrotado.
Às nove já estava sentado à mesa da cozinha, com um pão que não comia e o telemóvel ao lado do prato, com o ecrã para cima.
A mãe olhou para o relógio da parede. Depois para o marido. O marido baixou o jornal um centímetro.
— O menino acordou cedo — disse o pai, em português, mas no tom com que dizia as coisas em chinês.
— Não consegui dormir.
— Estou a ver.
A mãe pôs-lhe um café com leite à frente, sem açúcar, como sempre.
— Então? — perguntou, a sentar-se. — Como estava a mãe dele?
Rafael demorou a responder. Tinha-lhes dito, na véspera, antes de sair, onde ia. Tinha-lhes dito tudo o que Leo lhe deixara dizer: que a mãe estava doente, que estava num lar, que ele a ia ver todas as quintas. Não lhes tinha dito o resto. Não lhes ia dizer o que era a L&L, nem o caderninho, nem a escova de cabo de madeira. Isso não era dele para contar.
— Estava bem — disse. — Num dia bom. Gostou de mim.
— Claro que gostou — disse a mãe.
— Chamou-me menino bonito. E disse que eu tinha nome de anjo.
O pai pousou o jornal na mesa.
— E ele? — perguntou. — O Leo?
Rafael pensou nele agachado ao lado do cadeirão, com a escova na mão. Na mão dele a tremer, e depois a parar de tremer.
— Penteou-lhe o cabelo — disse. — Com muito cuidado. Como se ela fosse de vidro.
Os pais trocaram um daqueles olhares.
Nesse momento, o telemóvel vibrou ao lado do prato. Rafael olhou para o ecrã e o sorriso saiu-lhe antes de conseguir fazer nada para o impedir.
Eram dez e um minuto.
📩 — <Bom dia, anjo. Dormiste? Eu não. Falaste com eles sobre logo à noite?>
— Nem é preciso perguntar de quem é — disse o pai.
— Pai…
— O teu pai tem razão — disse a mãe, a rir. — Os teus olhos acenderam-se como uma árvore de Natal. — Pôs-lhe a mão em cima da dele. — É bom ver-te assim, filho.
Rafael ficou vermelho, mas não desviou os olhos.
— Estou feliz — admitiu. — Com ele sinto-me bem. Sinto-me… eu. Ele respeita-me. Respeita o meu tempo. E respeita-vos a vocês.
— Isso já nós vimos — disse o pai. — Três semanas e meia, e todas as noites às onze e meia à porta. Nem um minuto depois. — Pegou na chávena. — É um homem de palavra. Ganhou mais uns pontos.
— Quantos pontos é que ele já tem? — perguntou Rafael, a sorrir.
— Não te digo. Senão fica convencido.
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Rafael respirou fundo.
— A propósito. O Leo perguntou se hoje posso chegar mais tarde. Quer mostrar-me uma coisa. Um sítio dele. Mas é à noite, e vai ser depois da meia-noite.
A mãe sorriu sem hesitar.
— Claro que podes. Nem precisas de perguntar. Já tens dezoito anos, filho.
— Ele diz que preciso.
— Ele diz?
— Diz que enquanto eu viver aqui, as regras são vossas. Que não quer fazer nada que vocês não saibam. — Rafael encolheu os ombros. — Ele quer que confiem nele. Não para vos agradar. Porque acha que é assim que deve ser.
Os pais olharam um para o outro outra vez.
— Filho — disse o pai, e tirou os óculos para os limpar à camisa, como fazia quando ia dizer uma coisa importante —, isso nós percebemos logo no primeiro dia. Ali, à porta. — Voltou a pôr os óculos. — Não precisas de pedir licença. Só queremos que nos digas onde estás. Se chegas tarde. Se não vens dormir. Para não ficarmos aqui acordados a olhar para o relógio.
— Tu não olhas para o relógio desde a segunda semana — disse a mãe.
— Olho às escondidas.
Rafael riu-se. Mas depois o riso passou, e ficou a olhar para o café com leite. Os pais esperaram. Conheciam-lhe aquela cara.
— Posso dizer-vos uma coisa? — perguntou, baixinho.
— Podes dizer-nos tudo — disse a mãe.
— O Leo respeita-me muito. Às vezes demais. — Engoliu em seco. — Nunca dá um passo maior do que aquele que eu dou. Diz sempre que a decisão é minha. Que só eu é que sei quando quero. E isso é bonito, eu sei que é. Mas… às vezes queria que ele fosse menos cuidadoso. Fico ansioso. Como se ele estivesse sempre à espera de um sinal meu. E eu não sei dar o sinal.
A mãe pôs-lhe a mão no braço.
— Isso chama-se respeito, meu amor. E às vezes é difícil de aguentar, quando se gosta muito de alguém. Não deve ser fácil para ele. E não é fácil para ti.
O pai pigarreou.
— Ele não te tenta tocar? — perguntou. Direto, como sempre. — Não te deseja?
— Pai! — Rafael escondeu a cara nas mãos. — Isso não se pergunta!
— Porquê? — O pai pegou no pão com toda a calma do mundo. — Tu já és um homem. Vais ter o teu homem. Claro que podemos falar disso. — Deu uma dentada no pão. — Tu e os teus irmãos não nasceram de geração espontânea, rapaz.
A mãe engasgou-se com o café. Rafael queria que o chão da cozinha se abrisse.
Mas depois tirou as mãos da cara. E, porque nunca tinha mentido aos pais e não ia começar agora, disse:
— Ele não me tocou. Beijou-me. Só isso. — Sentiu as orelhas a arder. — Eu sei que ele me deseja. Vejo-o. Nos gestos, na maneira como olha para mim. E vejo o esforço que ele faz para não fazer nada. Por eu ser novo. Por nunca ter… Acho que ele tem medo que eu me assuste. Que fuja.
— E tu? — perguntou o pai, mais baixo. — Também o desejas, filho?
Rafael olhou para ele. Para os óculos, para o jornal dobrado, para a mão grande pousada na mesa, ao lado do pão.
— Desculpa, pai. Mas sim.
O pai acenou. Uma vez. Sem julgamento nenhum na cara.
— Então fala com ele — disse. — Ele não adivinha. Diz-lhe o que sentes. Diz-lhe até onde queres ir, e até onde não queres. Num casal, é assim. Fala-se. — Fez uma pausa. — Não tenhas vergonha do que te vai na alma, Rafael. A vergonha é que estraga as coisas. Não é o que se sente.
Rafael ficou calado, espantado. Sabia que os pais eram abertos. Mas nunca tinha tido uma conversa assim, àquela mesa, com o jornal dobrado e o rádio baixinho a dar as notícias do trânsito.
E foi nesse momento que o telemóvel começou a tocar.
Não era uma mensagem. Era uma chamada.
Leo.
Rafael olhou para o ecrã, depois para os pais, depois outra vez para o ecrã. Na casa dos Cardoso Wei não se atendia o telemóvel à mesa. Nunca. Era a regra mais antiga da casa, mais antiga do que ele.
Deixou-o tocar.
O telemóvel vibrou em cima da toalha, contra a chávena, uma vez, duas, três, e o nome de Leo acendia-se e apagava-se, acendia-se e apagava-se, e ninguém à mesa disse nada.
Mais nada. E podes sair da lista quando quiseres.