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Capítulo 17 — O Que Não Te Perguntei

          Enquanto isso, do outro lado da cidade, Leo era consumido pela ansiedade. Por mais que tentasse concentrar-se no trabalho, a mente traía-o constantemente, lançando perguntas no ar:

         “Será que ele falou com os pais?”

         “Será que vão impedir que fiquemos juntos?”

         “E se acharem que sou demasiado velho para o Rafael?”

         “Terá ele ficado magoado com o beijo?”

         “Terão os pais visto? Terão desaprovado?”

        Incapaz de suportar o silêncio, acabou por pegar no telefone e marcar o número de Rafael, apostando tudo naquele gesto impulsivo.


🍃 🍃 🍃


         Rafael, por sua vez, sentiu o coração disparar ao ver o nome de Leo iluminar o ecrã. Uma onda de desejo e nervosismo percorreu-o, tornando tudo à sua volta mais intenso, mais real. Por instantes, o ímpeto de atender — de ouvir a voz de Leo, de sentir a segurança que aquela ligação prometia — quase foi mais forte do que ele. Mas o eco dos conselhos dos pais ressoou-lhe na mente: não se atende o telemóvel à mesa.

         Enquanto isso, no outro lado da linha, Leo esperava. O vazio do não-atendimento tornava-se um abismo. A ansiedade evoluía para preocupação real, imaginando cenários cada vez mais sombrios.

         O telemóvel continuava a vibrar sobre a mesa, chamando silenciosamente a atenção de todos. O pai de Rafael, notando o nervosismo do filho, interveio com gentileza:

— Atende, filho. É o Leo, não é?

          Rafael hesitou, lutando contra o impulso de desobedecer à regra da casa.

— Sim, é. Deixe tocar, eu falo com ele depois.

          Mas o pai detetou a preocupação no rosto do filho e insistiu, com voz tranquila, mas firme:

— Atende. Ele deve estar preocupado.

— Mas pai…

         Sem levantar a voz, mas com autoridade inquestionável, o pai concluiu:

— Atende.

         Diante da firmeza do pai, Rafael cedeu. Pegou no telemóvel e, ao ouvir a voz de Leo, percebeu imediatamente toda a ansiedade que o consumia.

📞 — [Bom dia, Anjo!]

📞 — “Bom dia, Leo.”

📞 — [Anjo, porque não me respondeste? Estava a ficar preocupado.]

         Rafael colocou o dedo nos lábios, pedindo silêncio aos pais, e ativou o alta-voz. Queria que eles ouvissem.

📞 — [Estás bem? Algum problema com os teus pais? Eles estão chateados? Se for isso, só tens de dizer. Eu tento mudar… não quero que sofras por minha causa. Se eles não te deixaram ficar até mais tarde, tudo bem. Eu não me impor-to de ficar aí em casa, desde que esteja ao pé de ti. Só não te quero ver triste.]

         Os pais de Rafael olharam um para o outro, espantados pela preocupação genuína na voz de Leo.

📞 — “Leo, queres ouvir-me um segundo? Não atendi logo porque estava a tomar o pequeno-almoço com os meus pais, e temos a regra de não falar ao telemóvel à mesa. Eu estou bem. E os meus pais deixaram que eu saia contigo logo à noite — e nas noites que nós quisermos. Por isso, para de te preocupar.”

📞 — [Anjo… eu sei que às vezes pareço exagerado, mas não consigo evitar preocupar-me contigo.]

        A voz de Leo tremia de ansiedade.

📞 — [Desculpa se te fiz quebrar alguma regra aí em casa. Só de pensar que podes estar a sofrer por minha causa, ou que possa haver algum mal-estar entre ti e os teus pais, fico doente. Prefiro afastar-me para não te magoar, mesmo que isso me custe.]

          As palavras atingiram Rafael como um golpe. Os olhos encheram-se-lhe de lágrimas. O pai, atento, interveio:

📞 — “Leo, filho, já pensaste que, se te afastares, o Rafael também vai sofrer? Ele gosta mesmo de ti. E nós só queremos vê-lo feliz. A diferença de idades preocupa-te, percebemos isso. Mas acreditamos que não o irás magoar. O teu gesto de falares connosco no primeiro dia mostrou-nos isso.”

         Seguiu-se um breve silêncio. Depois, a voz de Leo, envergonhada, mas sorridente:

📞 — [Rafael, ainda estás aí? Apanhaste-me desprevenido ao colocares isto em alta-voz.]

Rafael respirou fundo.

📞 — “Estou aqui, Leo. Desculpa, mas precisava que os meus pais ouvissem tudo. E, por favor, não me chames Rafael assim tão sério… odeio quando fazes isso.”

          Leo soltou uma gargalhada descontraída.

📞 — [Ok, ok, Anjo. Tens razão. Senhor Wei, Dona Clara… amo muito o vosso filho. Sei que sou mais velho, entendo as dúvidas que possam ter. Mas o que sinto por ele é verdadeiro. Quero algo sério. Ele é novo, eu respeito isso. Vou saber esperar pelo tempo dele.]

         O pai respondeu com serenidade:

📞 — “Leo, nós sabemos. Não te preocupes tanto connosco. Preocupa-te em fazer o Rafael feliz. Respeita-o, claro, mas lembra-te de que não és tu quem deve tomar decisões por ele.”

         Rafael sorriu, aliviando a tensão:

📞 — “Está tudo bem, Leo. Depois falamos melhor. A que horas me vens buscar logo?”

📞 — [Por volta das dez da noite, serve-te?]

📞 — “Serve, sim. Vou estar à tua espera.”

          Leo fez uma pausa, emocionado:

📞 — [Senhor Wei, Dona Clara… obrigado pela confiança. Prometo cuidar bem do nosso menino.]

         Despediram-se. O ambiente à mesa suavizou-se.

Como puderam notar, a preocupação dele é verdadeira. Ele não fazia ideia de que vocês estavam a ouvir — disse Rafael, sorrindo. — Ele tem sido sempre assim comigo.

         O pai pousou a mão sobre a mesa, transmitindo segurança:

— Sim, meu filho. Ele tem sentimentos genuínos por ti e respeita-te. Mas a diferença de idade mexe com ele. Fala com ele sobre isso. Ainda que só tenhas 18 anos, és muito mais adulto do que aparentas. E sei que não vais esperar indefinidamente, quando tu também o desejas… O meu conselho é falares com ele.

         Rafael assentiu, emocionado:

— Obrigado, pai. Vou fazê-lo. Preciso que ele entenda que também tenho voz nas decisões sobre nós.

         Dona Clara acariciou-lhe o braço:

— Isso mesmo, filho. Num relacionamento, o diálogo é essencial. É a base de tudo. E as decisões devem ser tomadas em conjunto.

— Obrigado —murmurou Rafael, sentindo-se seguro no amor dos pais.

        Enquanto se levantava, a respiração estava mais leve. Dirigiu-se ao quarto, pensando em ligar ao Nuno para partilhar tudo o que sentia. Mas, antes mesmo de marcar o número, o telemóvel tocou. Era o Nuno — como se tivesse adivinhado.

📞 — [Então, como estás? Sobreviveste? Conta-me tudo!] — irrompeu a voz ansiosa do amigo. — [O meu tio é tão bom na cama como dizem? Fala logo, quase não dormi!]

         Rafael soltou uma gargalhada sonora. Imaginava o amigo a andar de um lado para o outro, nervoso, apertando o telemóvel com força.

📞 — “Bom dia para ti também, amigo! Como estás? Tanta ansiedade… achas mesmo que te vou contar pormenores?”

         Do outro lado, ouviu-se um suspiro impaciente.

📞 — [Desculpa, bom dia… Não me deixes nesta ansiedade. Por favor… por favor.]

        Rafael respirou fundo, sentindo o coração acelerar ao recordar a noite anterior.

📞 — “Ok, ok. A noite foi fantástica. O Leo é uma pessoa maravilhosa. Meigo, carinhoso, atencioso… sempre preocupado comigo, a perguntar se eu estava confortável. Sorria tanto — e, meu Deus, o sorriso do teu tio derrete o meu coração…

        Houve um silêncio breve, até que Nuno explodiu:

📞 — [Espera lá. Tens a certeza de que saíste com o meu tio? Esse não é o tio que eu conheço.]

        Rafael sorriu, sentindo-se ainda mais próximo de Leo pela diferença entre o homem que conheceu e a imagem que Nuno tinha dele.

📞 — “É o teu tio, sim… e, respondendo à tua pergunta, não faço ideia se ele é bom na cama ou não.”

        O silêncio do outro lado denunciou o choque de Nuno.

📞 — [Como não?! O meu tio não te tentou levar para a cama??]

         Rafael endireitou-se, orgulhoso:

📞 — “Para tua informação, o teu tio nem me tocou. Só houve beijos. Ele faz questão de só me tocar quando eu me sentir preparado. E contou-me a vida dele. Já passou por bastante.”

         O silêncio prolongou-se, até que Nuno respondeu num tom quase sussurrado:

📞 — [Meu Deus, Rafael… ele não te tocou… respeitou a tua idade e vontade… sorriu… foi carinhoso… e falou contigo…]

         Rafael apressou-se a continuar:

📞 — “Ele contou-me sobre a doença, sobre não poder ter filhos… falou de uma tal de Ana, que achava amar e que acabou por o tornar distante. Falou das tentativas de algumas pessoas o enganarem, dizendo que iam ter filhos dele… até do lado dominador dele me falou. Logo vou conhecer o bar. Ah, e sei que tinha dito para não dizer que te conhecia, mas depois de tudo o que ele me contou, não consegui esconder.

         Nuno ficou em silêncio, absorvendo tudo.

📞 — [Rafa… só posso dizer que és mesmo especial para o meu tio. Senão ele nunca te contava essas coisas. A própria Ana nunca soube disso.]

         Rafael hesitou antes de responder:

📞 — “Hoje ele percebe que não era amor, era só desejo. Eles entendiam-se… eram bons juntos, sim.”

        Nuno soltou uma gargalhada breve, mas depois falou com sinceridade:

📞 — [Nem sei o que dizer. O meu tio merece ser feliz. Se isso passar por ti, acredito mesmo que podem ser muito felizes. Ele contigo parece outra pessoa. Acho que todos nós vamos gostar de ver esse lado dele.]

         Rafael passou a mão pelo cabelo, e finalmente confessou:

📞 — “Eu gosto mesmo dele, sabes? Não sei se é amor, nunca senti isto antes, mas sinto-me bem só de pensar nele, de estar com ele. E saber que os meus pais nos apoiam deixa-me ainda mais feliz.

         O riso leve dos dois preencheu o quarto.

📞 — [Os teus pais estão a ser incríveis.]

📞 — “Eles perceberam que estou feliz. E já perceberam que o Leo não é nenhum abusador, muito pelo contrário. Gostaram do facto de ele ter ido falar com eles logo no primeiro dia.”

        Nuno respondeu com humor:

📞 — [Pelo que vejo, o meu tio não te vai largar tão cedo. Não és só mais uma aventura. Ele quer algo contigo. Nunca fez questão de nos apresentar à Ana ou de conhecer a família dela, mas contigo quis conhecer os teus pais logo no primeiro encontro… hahaha.]

📞 — “Porque é que estás a rir?”

📞 — [Porque percebi que, além de amigo e irmão do coração, acabei de ganhar mais um tio… hahaha!]

📞 — “Então quero ver respeito pelo Tio, está bem?”

         Continuaram a conversar com leveza, e combinaram almoçar juntos no dia seguinte, aproveitando para visitar a faculdade antes do início das aulas.

        O resto do dia de Rafael arrastou-se devagar — ele não via a hora de voltar a estar com Leo.

       Fechou os olhos com uma decisão tomada. Amanhã o Leo ia perceber que o Rafael que conhecera hoje… já não era o mesmo.


🍃 🍃 🍃


         Depois de conversar com Rafael, Leo sentiu-se mais tranquilo, mas uma dúvida persistente não lhe saía da cabeça. As palavras do Sr. Wei ecoavam-lhe na mente: “Não tomes decisões por ele…”.

        A manhã passou rapidamente. Leo esforçou-se por manter o foco, até que o toque do telefone interno o arrancou dos pensamentos.

📞 — [Boa tarde. Vens almoçar?]

         Leo olhou para o relógio, surpreendido. Eram quase 14h.

📞 — "Vou sim. Guarda lugar para mim no refeitório. Desço já."

         Quando entrou no refeitório, o cheiro familiar da comida misturava-se ao burburinho das conversas. Mas Leo só sentia o peso de uma apreensão que lhe apertava o peito. Avistou Henrique já sentado, empurrando a comida no prato sem grande vontade.

         Quando se sentou ao lado do amigo, encontrou o olhar atento de Henrique.

— Estás com um ar estranho, Leo — murmurou Henrique, inclinando-se ligeiramente. — É o Rafael, não é? Aconteceu alguma coisa?

        Leo hesitou. O garfo ficou suspenso no ar. Um nó apertou-lhe a garganta e desviou o olhar para a mesa, como se ali estivesse a resposta.

— Não sei. Acho que está tudo bem… — disse, mas a própria voz o traiu. Os dedos tamborilavam na bandeja, inquietos.

         Henrique ergueu uma sobrancelha, esperando. Leo sentiu-se puxado para a superfície — precisava de partilhar. Em poucas frases, contou o que se tinha passado com os pais de Rafael, e a frase do Sr. Wei voltou a ecoar-lhe na mente.

— Não consigo entender o que ele quis dizer com aquilo de não tomar decisões pelo casal…— confessou, franzindo o sobrolho.

        Henrique soltou uma gargalhada inesperada.

— A sério, Leo? Tão perspicaz para umas coisas e tão cego para outras! Não percebes mesmo?

         Leo corou, o coração acelerado.

— Se soubesse, não estava assim. Ajuda-me, por favor.

         Henrique ainda brincou mais um pouco, mas ao ver o desespero do amigo, decidiu intervir.

— Quando decidiste não fazer amor com ele … falaste com ele sobre isso? Perguntaste se era o que ele queria? Ou simplesmente decidiste sozinho?

         Leo ficou de boca aberta.

— O quê? Não pode ser só isso… ou pode?

          Leo ficou de boca aberta.ropelar-se na sua mente. Ele achava que estava a fazer o correto — mas nunca tinha perguntado ao próprio Rafael o que ele queria.

— Isso mesmo, meu burro— disse Henrique, sorrindo. — Tomaste uma decisão pelos dois. Não perguntaste nada. Assumiste por ti, sei lá eu porquê.

          Leo passou a mão pelo rosto, incrédulo.

— Meu Deus… tens razão. Assumi que era o melhor só porque ele é novo. Nem pensei que ele pudesse querer outra coisa. E ele já está cheio de dúvidas por não ter experiência… Merda.

— Uma coisa eu sei— continuou Henrique. — Aquela cabeça jovem não deve estar bem. Para falar com o pai sobre isso… deve estar a pensar que tu não o desejas.

         Leo fechou os olhos, sentindo o peso da revelação.

— Obrigado, amigo. Sou novo nisto. Tudo o que faço é pelo Rafael, mas esqueci que ele também é novo e com menos experiência do que eu. Vou falar com ele logo. Tenho de esclarecer tudo.

— Fazes bem. E não voltes a tomar decisões sozinho sobre o que diz respeito aos dois. Ele é novo, sim, mas é inteligente e sabe o que quer. Aprende comigo— disse Henrique, num tom fraternal. — Aquele miúdo está a fazer-te bem. Nunca te vi assim.

         Leo sorriu, cansado, mas aliviado.

— Nem eu me reconheço quando estou com ele.

       Depois da refeição, cada um seguiu o seu caminho. Leo passou o resto do dia ansioso pelas 22h — pela hora de ver o seu Anjo. 

        Quando o turno terminou, foi para casa, jantou, arranjou-se e, às 22h em ponto, tocava à porta de Rafael.


🍃 🍃 🍃


          Rafael passou o dia inteiro ansioso. Sentia falta de Leo, e o coração batia-lhe mais rápido só de imaginar o reencontro.

        A campainha tocou.

        Rafael quase correu para a porta.

— Boa noite, Leo.

— Boa noite, Anjo.

          Leo inclinou-se e deixou um beijo leve nos lábios quentes de Rafael, que corou.

— Podemos ir, Leo. Estou pronto — disse Rafael, sorrindo, ainda corado.

        Leo acariciou-lhe a face com as costas da mão.

— O teu pai ainda está acordado. Queria falar com ele antes de irmos.

         Rafael engoliu em seco. O coração acelerou-lhe no peito — não de medo, mas de antecipação.

— Claro… ele está na sala.

         Leo sorriu-lhe com ternura.

— Vai correr tudo bem, Anjo.

        Rafael abriu espaço para ele entrar. Os passos ecoaram pelo corredor, enquanto a luz quente da sala se aproximava.

        Do outro lado, o Sr. Wei levantou o olhar ao ouvir o movimento.

       Leo inspirou fundo.

        Rafael ficou à porta, imóvel. Lá dentro, o pai e o Leo falavam. E ele, pela primeira vez, não tinha medo do que pudesse ser

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