16 – Quintas-feiras
O verão passou devagar, como passam os verões em que não se quer que acabem.
Durante três semanas, Leo aprendeu coisas que nunca tinha precisado de saber. Aprendeu que Rafael acordava tarde e mal disposto, e que não se lhe devia mandar mensagem antes das dez. Que gostava de gelado de limão e nunca o pedia, e que Leo o pedia por ele e o deixava roubar-lhe metade. Que tinha medo de cães grandes e fingia que não. Que ria de boca aberta quando se esquecia de ter vergonha.
Aprendeu a picar-lhe o dedo. Da primeira vez, num banco de jardim ao pé do rio, as mãos tremeram-lhe tanto que Rafael teve de lhe segurar o pulso.
— És tu que vais desmaiar — disse o rapaz, a rir.
— Cala-te e dá-me o dedo.
Noventa e oito. Leo leu o número em voz alta como se tivesse ganho alguma coisa.
Viam-se quase todos os dias. Ao fim da tarde, depois da revista. Às vezes ao almoço, num sítio pequeno perto da L&L onde ninguém os conhecia. Ao fim de semana, iam para longe da cidade, para praias onde a água era demasiado fria e ninguém se importava. Beijavam-se dentro do carro, à sombra de árvores, em sítios onde não havia ninguém a ver. Nunca mais do que isso. Leo não pedia. Rafael, às vezes, parecia querer que pedisse, e não sabia dizê-lo, e Leo fingia que não percebia, porque tinha prometido.
E às onze e meia, sempre, o carro parava à sombra da mesma árvore, a uns metros do portão verde.
O Sr. Wei deixou de olhar para o relógio à segunda semana.
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Foi numa quarta-feira à noite, dentro do carro, que Leo perguntou.
Estavam parados à beira do rio, com os vidros abertos e o cheiro a maresia a entrar. Rafael tinha os pés descalços em cima do tablier, coisa que Leo não deixava ninguém fazer e que a ele deixava. Estava a contar uma história do Nuno, qualquer coisa sobre uma bicicleta e um lago, e Leo não estava a ouvir. Estava a olhar para ele.
— Amanhã é quinta-feira — disse, quando o rapaz acabou.
Rafael olhou para ele, confuso.
— Pois é.
— Às quintas vou ver a minha mãe. — Leo tinha as mãos no volante, embora o carro estivesse parado. — Há quatro anos que vou. Todas as quintas.
Rafael tirou os pés do tablier, devagar. Não disse nada. Lembrava-se do carro, no primeiro dia: Está viva. Mas doente. E da cara de Leo a fechar-se. Lembrava-se do Raul à porta do restaurante: e a D. Laura? E do um dia apresento-ta, no fim de um jantar em que Leo lhe contara tudo menos aquilo.
— Queres vir comigo?
Rafael ficou um segundo sem respirar.
— Quero.
Leo acenou. Continuou a olhar para a frente, para o rio escuro.
— Tenho de te explicar umas coisas antes. — A voz dele mudou. Ficou mais baixa, mais cuidadosa. — A minha mãe tem Alzheimer. Começou uns anos depois de eu ficar bom. Primeiro eram coisas pequenas. Esquecia-se das chaves, do nome das ruas. Depois passou a esquecer-se de nós. — Fez uma pausa. — Há quatro anos que está num lar. Nós não conseguíamos. Tentámos, os três. Não conseguimos.
— Leo…
— Deixa-me acabar. — Não foi duro. Foi só alguém que precisava de chegar ao fim de uma frase antes que ela lhe fugisse. — Ela não sabe quem eu sou. Há dias em que me chama pelo nome do meu pai. Há dias em que acha que sou o médico. Há dias em que não me chama nada. E há dias, muito raros, em que olha para mim e eu acho que sabe. Mas depois passa.
Rafael pôs-lhe a mão em cima da dele, no volante.
— Pode não correr bem — avisou Leo. — Pode estar num dia mau. Pode chorar, ou zangar-se, ou não dizer uma palavra a tarde inteira. Se isso acontecer, vamos embora, e não faz mal.
— Está bem.
— Nunca lá levei ninguém. — Leo virou-se finalmente para ele. — Nem a Beatriz. Ninguém. Só a família e o Henrique.
Rafael entrelaçou os dedos nos dele.
— Então amanhã vou.
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O lar ficava fora da cidade, a vinte minutos, numa casa grande e amarela com persianas verdes e um jardim cheio de tílias. Chamava-se Casa das Tílias, e o nome estava pintado à mão numa placa de madeira ao lado do portão. Cheirava a relva cortada e a sopa.
Leo estacionou no sítio de sempre, ao pé da tília maior. Ficou um bocado sentado, como na primeira vez à porta da casa de Rafael. Depois tirou uma coisa do porta-luvas: uma escova de cabelo, velha, com cabo de madeira.
— É dela — disse, quando viu Rafael a olhar. — Trago-a sempre. Lá dentro têm outras. Mas esta é a dela.
À entrada, uma senhora de bata azul-clara, baixa e redonda, com os óculos pendurados ao peito num fio de contas, veio ter com eles pelo corredor.
— Sr. Leo! Está hoje num dia bom, a sua mãe. Tomou o pequeno-almoço todo e ainda pediu mais pão. — Depois viu Rafael e parou. Olhou para ele por cima dos óculos que não tinha postos. — E trouxe companhia.
— Trouxe, D. Graça. É o Rafael.
— Muito prazer, Rafael. — A D. Graça apertou-lhe a mão e demorou-se a olhar para ele, e depois para Leo, e sorriu de uma maneira que fez Rafael corar. — Ela está no jardim de inverno. Ao pé da janela, como sempre.
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O jardim de inverno era uma sala envidraçada, virada para as tílias, cheia de cadeirões e de plantas em vasos. Havia uma televisão ligada sem som a um canto, e três ou quatro senhoras de idade sentadas em cadeirões, a dormitar ou a olhar para nada.
A D. Laura estava sentada ao pé da janela, sozinha, com as mãos no colo.
Era pequena. Muito mais pequena do que Rafael imaginara. Tinha o cabelo todo branco, preso atrás com um gancho torto, e uma camisola de malha cor-de-rosa abotoada até cima, apesar do calor. Os olhos eram claros. Iguais aos de Leo. Rafael viu-o de imediato e sentiu qualquer coisa apertar-lhe a garganta.
Leo aproximou-se devagar e agachou-se ao lado do cadeirão, à altura dela.
— Olá, mãe.
A D. Laura virou a cara para ele. Olhou-o com atenção, como quem olha para alguém que lhe parece familiar e não sabe de onde.
— Olá — disse, educada. E depois, com um sorriso pequeno: — Veio cedo hoje, Enzo.
Leo não a corrigiu.
— Vim — disse. — Trouxe um amigo.
A D. Laura desviou os olhos para Rafael, parado a dois passos, sem saber o que fazer às mãos. E a cara dela mudou. Abriu-se toda, como uma janela.
— Ai, que menino tão bonito. — Estendeu a mão para ele. — Anda cá. Anda cá que eu não mordo.
Rafael olhou para Leo. Leo acenou, com os olhos a brilhar de uma maneira estranha.
Rafael aproximou-se, agachou-se do outro lado do cadeirão, e a D. Laura pegou-lhe na mão com as duas dela. Tinha as mãos quentes, secas, muito leves, como papel.
— Como é que te chamas?
— Rafael.
— Rafael. É nome de anjo, sabias? — Apertou-lhe a mão. — E tens olhos de anjo. Tão azuis. De onde é que vens com esses olhos?
— Daqui. — Rafael sorriu. — Mas o meu pai é chinês.
— Chinês! — A D. Laura riu-se, encantada, como se lhe tivessem contado uma coisa maravilhosa. — Olha, Enzo. O menino é chinês.
— Estou a ver, mãe.
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Leo mostrou-lhe a escova.
— Posso?
A D. Laura olhou para a escova, e depois para ele, e por um momento pareceu que ia dizer que não. Mas depois tirou o gancho torto do cabelo, com as mãos um pouco trémulas, e virou-se de costas para ele no cadeirão.
Leo começou a escová-la.
Devagar. Com muito cuidado. Do alto da cabeça até às pontas, uma vez, e outra, e outra. Segurava as madeixas brancas com a mão livre para não puxar, como se estivesse a pentear uma criança. A D. Laura fechou os olhos.
Rafael ficou a ver, sentado no chão ao lado do cadeirão, sem conseguir dizer nada.
Aquele não era o homem que tinha entrado no salão dos castings de fato escuro, com a cara fechada e os olhos gelados. Não era o homem que dizia eu sou dominador numa mesa de restaurante sem baixar os olhos. Era outro. Um que Rafael nunca tinha visto, e que suspeitava que quase ninguém tinha visto.
— O meu filho também tem olhos assim — disse a D. Laura, de repente, de olhos fechados.
Leo parou a escova no ar.
— Assim como, mãe?
— Claros. Como os meus. — Sorriu, sem abrir os olhos. — O meu Leo. É o do meio. Quer ser jornalista, sabias? Anda sempre com um caderninho atrás, a escrever tudo o que vê. Até o que as pessoas dizem no autocarro. Um dia ainda lhe batem.
Rafael olhou para Leo. Leo tinha a escova parada no ar e os olhos fixos no cabelo branco da mãe. Não se mexia.
— Ele deve ser muito bom — disse Rafael, com cuidado. — A escrever.
— É. — A D. Laura abriu os olhos. Estavam molhados, não se sabia porquê. — É o mais bonito dos três. Não digas aos outros.
— Não digo.
Leo voltou a escovar. Devagar. Rafael viu-lhe a mão tremer uma vez, e depois parar de tremer.
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Ficaram a tarde toda.
A D. Laura perguntou a Rafael como se chamava quatro vezes. De todas as vezes ele respondeu como se fosse a primeira, com o mesmo sorriso, e de todas as vezes ela disse que era nome de anjo. Contou-lhe das buganvílias que tinha plantado no muro da casa nova, e de que eram cor-de-rosa e não vermelhas como o Enzo queria, e de que tinha ganho ela. Perguntou-lhe se ele gostava de pastéis de nata e ele disse que sim. A certa altura, meteu a mão no bolso da camisola e tirou um rebuçado de mentol, embrulhado em papel às riscas, e estendeu-lho.
— Toma. Não digas à enfermeira.
Leo abriu a boca para dizer alguma coisa. Rafael foi mais rápido.
— Obrigado. — Pegou no rebuçado, piscou o olho a Leo por cima da cabeça dela, e guardou-o no bolso da camisa. — Guardo para depois. Para não estragar o lanche.
— Menino ajuizado — aprovou a D. Laura.
Leo tapou a boca com a mão. Rafael não soube se era para esconder um riso, ou outra coisa.
Às cinco, a D. Graça veio buscá-la para o lanche. A D. Laura levantou-se com ajuda, devagar, agarrada ao braço de Leo. Já de pé, virou-se para Rafael e pôs-lhe a mão na cara.
— Voltas?
— Volto.
— Traz o Enzo contigo. — Deu duas palmadinhas leves na cara de Leo, ao lado dela, como quem dá a um desconhecido simpático. — Ele fica tão sozinho, coitado. Eu vejo.
E foi-se embora pelo corredor, pequenina, pelo braço da D. Graça, sem olhar para trás.
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Leo não disse nada até chegarem ao carro.
Não entrou. Ficou encostado à porta do lado do condutor, à sombra da tília grande, com a escova de madeira na mão, a olhar para a casa amarela. Rafael ficou ao lado dele. Não lhe tocou. Esperou.
— O Enzo era o meu pai — disse Leo, por fim.
— Eu percebi.
— Ela lembra-se dele. De tudo sobre ele. Das buganvílias, da cor, da discussão por causa da cor. Isso foi há quarenta anos. — Leo abanou a cabeça devagar. — E eu estou ali ao lado dela todas as quintas-feiras e sou o Enzo, ou o médico, ou ninguém.
Rafael ficou calado.
— Mas hoje falou de mim. — A voz de Leo partiu-se a meio. — Do caderninho. Eu tinha doze anos, Rafael. Já nem me lembrava do caderninho.
Rafael pôs-lhe a mão no braço. Leo deixou.
— Ela lembra-se de ti — disse Rafael, baixinho. — Só que de ti pequeno. Não é nada. É muito.
Leo virou-se para ele. Tinha os olhos vermelhos. E Rafael percebeu, com um aperto no estômago, que nunca o tinha visto assim, e que se calhar ninguém o via assim há muito tempo.
— Sabes o que quer dizer L&L? — perguntou Leo.
Rafael pestanejou. A pergunta apanhou-o desprevenido.
— A revista? — Encolheu os ombros. — Não. O Nuno diz que te perguntou uma vez e mudaste de assunto. Os jornais dizem que é Leo e alguém. Uma ex-namorada. Um sócio que morreu. Já li de tudo.
— É Leo e Laura.
Rafael ficou a olhar para ele.
— Dei-lhe o nome dela quando abri a revista. Numa sala com duas secretárias e um telefone que não tocava. Ela ainda estava boa. — Leo olhou outra vez para a casa amarela, para a janela do jardim de inverno. — Foi ela que me deu o primeiro caderninho, sabes? Quando eu tinha sete anos. Disse-me: escreve o que vês, que um dia alguém vai querer ler. A revista é isso. É o caderninho. — Sorriu, com os olhos molhados. — Nunca contei a ninguém. Os jornalistas perguntam e eu mudo de assunto. Só os meus irmãos e o Henrique sabem.
Fez uma pausa.
— E agora tu.
Rafael não aguentou. As lágrimas vieram-lhe sem aviso, quentes, e ele não fez nada para as parar. Deu um passo em frente e abraçou-o. Com força. Com os braços todos, pela cintura, com a cara encostada ao peito dele, ali, à sombra da tília, no parque de estacionamento de um lar, onde qualquer pessoa os podia ver.
Leo ficou um segundo parado. Depois deixou cair a escova em cima do capot e abraçou-o também.
Ficaram assim muito tempo.
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No caminho de volta, Rafael tirou o rebuçado de mentol do bolso da camisa e ficou a olhar para ele, na palma da mão. O papel às riscas, amarrotado.
— Não o vais comer, pois não? — perguntou Leo.
— Não. — Rafael fechou a mão. — Vou guardá-lo.
Leo tirou os olhos da estrada, só um segundo, para olhar para ele.
Rafael estava a olhar pela janela. Tinha os olhos ainda inchados, a mão fechada em cima do joelho, e uma coisa na cara que Leo não conhecia. Uma espécie de certeza.
E foi ali, na estrada, entre o lar e a cidade, com o sol a descer por trás das tílias no espelho retrovisor, que Rafael percebeu uma coisa que ainda não sabia dizer.
Não a disse.
Guardou-a, como o rebuçado. Para depois.
Mais nada. E podes sair da lista quando quiseres.