Capítulo 15 — O Primeiro Beijo a Sério
Leo inclinou-se um pouco, atento a cada nuance.
— Estás nervoso outra vez, Anjo? — perguntou num tom baixo, preocupado, mas sem assumir nada. — Não tens de ter medo… não de mim. Só quero perceber o que te está a preocupar.
— Leo… não é de ti que tenho medo. — A voz saiu-lhe trémula, e as faces arderam. — Tenho medo que deixes de me querer por eu não ter experiência. É isso que me assusta.
Assim que disse as palavras, sentiu-se exposto, como se tivesse colocado o coração nas mãos de Leo. E se não fosse suficiente? E se a sua inexperiência fosse motivo de desilusão? O silêncio que se seguiu pareceu-lhe infinito, o coração batendo descompassado, implorando por aceitação.
— Não tens de ter medo. Vou adorar ensinar-te. — disse, num tom baixo, cheio de promessas silenciosas. — A ideia de ser o primeiro em tantas coisas contigo emociona-me. Mas acima de tudo… quero conduzir-te com calma. Sem pressa. Quero respeitar cada limite teu, seguir o teu ritmo, com paciência, com carinho. Só vai acontecer o que tu quiseres que aconteça. Nunca te vou forçar a nada. Posso sugerir…, mas a decisão final será sempre tua, meu Anjo. Sempre.
Enquanto falava, Leo procurava os olhos de Rafael, esperando que cada palavra fosse um bálsamo para aquela angústia. Queria que ele percebesse que a falta de experiência não era um problema; era o que tornava tudo mais especial. Algo único, a ser construído juntos, passo a passo, sem pressas, sem cobranças. Apenas verdade.
— Obrigado… pela tua paciência. E pelo carinho. — Murmurou Rafael, a voz saiu partida. Tentou sorrir, mas o sorriso não chegou aos olhos. O olhar fugia para as mãos, que apertava nervosamente no colo. As bochechas coradas denunciavam o medo de não estar à altura, mesmo enquanto tentava manter a esperança viva.
Leo inclinou-se um pouco, tentando captar o olhar perdido dele. Um sorriso tranquilo desenhou-se-lhe nos lábios; um sorriso que queria ser abrigo, não invasão. Tocou-lhe de leve no braço, num gesto de encorajamento.
— Fico feliz por quereres aprender… e por confiares em mim para isso.— disse, com os olhos atentos a cada nuance do rosto de Rafael.
O silêncio que se seguiu foi breve, mas cheio de promessas mudas.
Rafael inspirou fundo, tentando controlar a inquietação que lhe bailava nos olhos.
— Então… eu vou à casa de banho um instante, enquanto tratas do pagamento.— Murmurou, desviando o olhar.
Leo sorriu, divertido com o constrangimento dele, e inclinou-se ligeiramente.
— Vais à casa de banho… ou vais verificar os teus níveis de açúcar? — perguntou num tom descontraído, mas com uma curiosidade carinhosa que não tentou esconder.
O rubor subiu imediatamente ao rosto de Rafael. Baixou ainda mais o olhar, mordendo o lábio num gesto tímido. A vergonha misturava-se com um certo alívio; Leo queria mesmo conhecê-lo por inteiro.
— As duas coisas…— admitiu, rindo de si próprio.
A gargalhada suave de Leo dissipou parte da tensão.
Ainda a sorrir, ele aproximou-se um pouco mais, a voz baixando para um tom cúmplice:
— Olha que falar dessas coisas é normal, sabes? Ainda mais se queremos partilhar uma vida juntos. Mas… se não te importares, preferia que fizesses o teste no carro. Quero ver. Quero aprender contigo. Faz parte de ti… e eu quero conhecer tudo isso também.
Rafael assentiu devagar, o peito aquecendo com a sinceridade de Leo, apesar do desconforto inicial. Os seus olhos, ainda inseguros, deixaram transparecer uma centelha de gratidão.
— Eu sei… só não estou habituado. Mas está bem, faço o teste no carro. Vou só à casa de banho e já venho. — disse, levantando-se com um sorriso tímido.
Leo pagou a conta enquanto Rafael se afastava.
Pouco depois, já no carro, o silêncio entre eles era confortável, mas carregado de atenção. Leo observava cada movimento de Rafael enquanto ele retirava do bolso uma pequena bolsa com o medidor, as fitas e as lancetas. O rapaz preparou tudo com gestos habituados: inseriu a fita, picou o dedo, aproximou a gota de sangue. Alguns segundos depois, o número surgiu no visor.
— Cento e oitenta e três… O que significa, Pequeno? — perguntou Leo, genuinamente curioso.
— Significa que está um pouco acima do normal, mas não preciso de fazer insulina— explicou Rafael.
— E acima de quanto é que tens de fazer? — insistiu Leo.
— Só faço acima dos duzentos. — Rafael ergueu o olhar. — Leo… estás mesmo interessado em saber sobre a diabetes?
O calor que sentiu no peito surpreendeu-o. Nunca ninguém se mostrara tão disposto a entender a sua rotina.
— Claro que sim— respondeu Leo, como se fosse óbvio. — Já te disse: essa tal de diabetes faz parte de ti. E eu quero saber tudo o que faz parte de ti.
Rafael sorriu, tocado.
— Amanhã levo-te algo onde podes aprender mais. Estás interessado?
— Quero saber tudo o que puder. Assim saberei como lidar com ela… e contigo. — Léo sorriu de lado. — Um dia vais ensinar-me a picar o dedo, pode ser?
— Pode. Mas em breve vou colocar monitor de continuo de glicemia, um dispositivo que coloco em alguma zona do corpo, faz a avaliação continua dos meus açucares. Só preciso de ter a aplicação em telemóvel. Sem mais picadas no dedo.
— E porque não colocaste antes? — perguntou Léo, sincero. — Se te facilita a vida…
Rafael encolheu os ombros, com um sorriso pequeno.
— Nunca achei que precisasse. Nunca senti necessidade. Mas agora que estou contigo… parece-me mais confortável. — A voz saiu-lhe baixa, quase envergonhada. — Agora podemos ir.
— Vamos— respondeu Leo.
Durante o caminho até casa, conversaram com leveza, como quem tenta prolongar um instante precioso. Mas Leo lutava contra um impulso que já conhecia bem; o mesmo que o tinha traído no carro dias antes. A vontade era mais forte que o controlo.
A mão dele, hesitante, deslizou até à perna de Rafael. O rapaz estremeceu ao sentir o toque; não por medo, mas por algo mais profundo, mais confuso. Não afastou a mão grande, que agora percorria a sua coxa com uma pressão suave, quase reverente.
Rafael tentou conter os sons que lhe escapavam involuntariamente, e Leo, atento, sentia o efeito de cada suspiro. Havia algo de íntimo e inquietante naquele momento, algo que oscilava entre desejo e dúvida.
O resto do caminho seguiu em silêncio. As palavras tinham fugido, deixando apenas o som do motor e a respiração contida entre os dois. Quando Léo estacionou perto da casa de Rafael, soltou o cinto com um suspiro e virou-se para ele, procurando-lhe o rosto.
— Pronto, meu Anjo… chegámos. E… desculpa — murmurou, tocando com suavidade nas bochechas macias que tanto o fascinavam.
Rafael franziu a testa, confuso.
— Por que estás a pedir desculpa?
— Por te ter tocado sem pedir. Já é a segunda vez… e não quero ultrapassar o que não me foi dado.
Rafael corou, mantendo os olhos fixos na rua, como se fosse mais fácil encarar o mundo lá fora do que o que sentia por dentro.
— Não peças desculpa. Tu percebeste que eu gostei… Se não tivesse gostado, teria afastado a tua mão. Mas não o fiz. Nem quero fazer. Eu gosto quando me tocas —disse num fio de voz, o coração exposto, sem coragem de o encarar.
Por isso mesmo não viu o sorriso que iluminou o rosto de Léo; um sorriso feliz, quase emocionado. O homem inclinou-se para ele, desapertou-lhe o cinto de segurança e pousou as mãos grandes nos ombros do rapaz, guiando-o com delicadeza para que se virasse.
Rafael deixou-se conduzir, mas manteve o rosto inclinado para baixo, as bochechas em chamas. Uma das mãos de Leo ergueu-lhe o queixo com cuidado, obrigando-o a levantar o rosto; mas os olhos continuavam fechados.
Leo sorriu, tocado pela timidez dele. O seu menino era tão envergonhado… e isso só aumentava o carinho que sentia.
Com uma mão a segurar-lhe o rosto, a outra deslizou do ombro até à nuca, onde começou a acariciá-lo com ternura, transmitindo segurança através do toque.
Rafael, de olhos fechados, entregava-se ao momento. Não via os movimentos de Leo; apenas sentia o calor, a proteção, a presença que o envolvia. O corpo grande de Leo aproximou-se lentamente, criando uma expectativa silenciosa entre ambos. O coração de Rafael acelerou.
Foi então que Leo sussurrou ao seu ouvido, a voz baixa provocando-lhe um arrepio.
O rapaz estremeceu, não por medo, mas pelo efeito intenso e novo que aquela proximidade lhe causava. Era um momento de descoberta, onde hesitação e desejo se misturavam, tornando tudo mais íntimo.
— Abre os olhos, meu Anjo… abre. Quero ver os teus lindos olhos quando te beijar.
A voz de Leo era um sussurro cheio de ternura. Rafael obedeceu devagar, como quem desperta de um sonho, e encontrou o rosto de Leo tão próximo que podia sentir-lhe o calor da respiração. A boca quase tocava a sua, e com isso veio o turbilhão: ansiedade, desejo, e o velho receio de não estar à altura.
Leo sorriu, doce.
— Tão lindo, o meu garotinho… o meu menino. Eu preciso de te beijar. Só te peço que te deixes levar. Se não quiseres, diz. Eu vou respeitar-te sempre, sabes disso. Mas preciso que me digas, meu Anjo… posso provar os teus lábios?
Rafael ficou em silêncio por um instante, o coração a bater como se quisesse fugir do peito. Depois, num gesto tímido, inclinou-se ligeiramente para a frente; não como resposta, mas como entrega.
E naquele gesto tímido, quase impercetível, Rafael deixou de fugir. Leo percebeu — e sorriu. Porque o momento certo… estava mais perto do que nunca.
Durante alguns instantes, o silêncio encheu o carro. Leo acariciava suavemente a nuca de Rafael, que mantinha o olhar preso nos olhos dele, como se o mundo tivesse parado ali.
— Desculpa, meu Anjo…— murmurou Leo, a voz baixa. — Acho que me deixei levar. Não queria que te sentisses desconfortável. Só queria… sentir-te.
Preparava-se para se afastar, mas sentiu uma mão pequena agarrar-lhe a nuca, impedindo-o de recuar.
— Eu quero… quero mesmo, mas… — Rafael hesitou, a voz trémula, os receios ainda à flor da pele.
— Mas o quê, Anjo? —Leo tentou sorrir, preocupado. — Fala comigo. Não te assustei, pois não? Não ficaste com medo de mim depois do que te contei?
A mão de Leo deslizou da nuca até à face corada de Rafael, percorrendo-lhe as bochechas com uma delicadeza quase reverente. A outra mão segurava-lhe o queixo, mantendo o olhar preso ao seu. Rafael sentiu-se exposto, mas encontrou coragem para sussurrar:
— Não é isso… Eu nunca beijei ninguém. Não sei como se faz. Tenho medo de que não gostes… que me deixes por isso.
Leo suspirou, apertando-lhe o rosto com ternura.
— Lá estás tu com isso…— disse num tom calmo. — Se quisesse alguém experiente, procurava outra pessoa. Mas és tu que me fazes sentir especial. Tenho orgulho em ser o primeiro. Quero ensinar-te, apoiar-te, descobrir tudo contigo. Não duvides do quanto isso significa para mim.
Rafael sentia o coração tão alto que tinha a certeza de que Leo o ouvia. As mãos não sabiam onde pousar. A respiração recusava-se a ser normal. E os olhos — os olhos não conseguiam deixar de pousar nos lábios de Leo.
Rafael não respondeu, mas o sorriso tímido nos lábios dizia tudo. Pousou as mãos sobre as de Leo, aceitando o carinho. O tempo pareceu suspender-se enquanto Leo se inclinava, devagar, até que os seus lábios tocaram os de Rafael.
O primeiro contacto foi suave, quase uma pergunta silenciosa. Leo sentiu a hesitação de Rafael, mas também a entrega. O beijo começou tímido, mas logo Leo deixou que a ponta da língua percorresse devagar o contorno dos lábios de Rafael, explorando com cuidado, como quem procura memorizar cada detalhe. Rafael estremeceu, surpreendido pela sensação nova. Por um instante ficou imóvel, sem saber como reagir — mas o toque paciente de Leo guiou-o. Lentamente cedeu, abrindo os lábios, deixando que as línguas se encontrassem. A resposta era tímida no início, mas à medida que sentia a segurança de Leo, foi correspondendo com crescente confiança.
Leo saboreava cada suspiro que escapava de Rafael, sentindo o corpo do rapaz vibrar de emoção. Quando finalmente se separaram, Rafael abriu os olhos, ainda tonto, os lábios entreabertos, o rosto corado.
Leo aproximou-se do ouvido dele e sussurrou:
— Meu Anjo… nem imaginas como o teu sabor me fica na boca. Os teus suspiros são música só para mim.
Leo lutava contra o impulso de ir mais longe. As mãos tremiam-lhe no rosto quente de Rafael, mas conteve-se — e afastou-se devagar. Rafael protestou com um som baixo, quase um lamento.
Leo sorriu e encostou a testa à dele
— Chega por hoje, meu Anjo… — murmurou. — Vamos ter muitos momentos. Adorei os teus lábios… são tão macios. E a tua boca… doce como imaginei.
Afastou-se um pouco, mas manteve a mão na nuca de Rafael, acariciando-o com ternura. Um dedo traçou a curva da face corada, detendo-se nos lábios, como quem quer guardar o momento.
Mas ao olhar para Rafael, Leo percebeu uma sombra nos olhos do rapaz, uma tristeza silenciosa.
Por alguns segundos, nenhum dos dois se mexeu.
Rafael ficou imóvel, os olhos ainda fechados, como se abri-los pudesse desfazer o momento. Sentia o calor dos lábios de Leo ainda pousado nos seus, como uma marca que não desaparecia. O coração batia devagar agora — não de medo, mas de algo que ainda não sabia nomear.
Leo observava-o em silêncio, o polegar a acariciar-lhe a face, esperando. Havia no olhar dele uma ternura que Rafael nunca tinha visto em mais ninguém — a de quem acabou de receber algo precioso e sabe disso.
— Estás bem?— perguntou Leo, num sussurro que mal perturbou o silêncio.
Rafael abriu os olhos devagar.
— O que foi, meu Anjo?— perguntou, quase num sussurro. — Fiz alguma coisa que te magoou?
Rafael hesitou, os olhos perdidos. Quando falou, a voz saiu baixa, quebrada:
— Não… não me magoaste. Só… às vezes não sei se sou suficiente. Se estou a fazer tudo certo. Se tu… gostas mesmo de mim.
Leo sentiu o coração apertar. Quis protegê-lo ainda mais.
— Meu Doce… tu és mais do que suficiente. Gosto de ti por inteiro, não pelo que fazes, mas pelo que és. Nunca duvides disso.
Rafael olhou-o, e naquele olhar havia esperança e medo, como quem está a aprender a confiar.
— Anjo… que se passa?— Leo insistiu, ao ver Rafael tentar sair do carro apressado.
— Não é nada… vou embora. — respondeu Rafael, tentando fugir à emoção.
Leo não o deixou ir. Segurou-lhe o braço com suavidade, sentindo-o tremer. Rafael chorava agora, e isso partiu-lhe o coração.
— Porque estás a chorar? Não gostaste? Fui bruto contigo? Talvez… talvez ainda não estejas preparado… — murmurou Leo, mais para si do que para Rafael.
— Tu é que não gostaste, pois não? Eu… eu não fui bom o suficiente. Não vais querer ver-me mais, não é?
Leo percebeu, finalmente, que o que doía a Rafael não era o beijo, mas o medo de não ser suficiente.
— Anjo… olha para mim, por favor. — Pediu, erguendo-lhe o rosto com as mãos. — Não chores. Desculpa-me. Esqueci que tudo isto é novo para ti. Eu não parei porque não estava a gostar… parei porque estava a gostar demais. Estava a perder o controlo, e percebi que tu também sentias tudo com a mesma intensidade.
Rafael ergueu os olhos, ainda húmidos, mas agora com um sorriso tímido. Leo retribuiu com ternura.
— Meu pequeno Anjo… nem imaginas o quanto te desejo, mas mais importante do que isso é respeitar o teu tempo e tudo o que estás a viver agora. Eu respeito a tua pouca experiência, os teus 18 anos, a tua história, os teus medos… quero que sintas sempre segurança ao meu lado, sem pressa nem pressão. Prometi a mim mesmo que só avançaria quando sentisses que é o momento certo. Não quero invadir o teu espaço, nem forçar nada. Por muito que te queira, saberei esperar. Mais do que o teu corpo, quero-te por inteiro — quero-te corpo, alma e mente. Quero conhecer as tuas dúvidas, partilhar os teus sonhos, apoiar os teus receios. Gosto de tudo o que és, não apenas do que posso tocar. Percebes?
Leo deixou um beijo breve nos lábios de Rafael, como promessa.
— Sim… e desculpa. Eu sei que gostas de mim, mas às vezes penso que a minha falta de experiência vai afastar-te. E eu não quero que te afastes… não quero mesmo.
— Tontinho… nunca te deixaria por isso. Já te disse que vou adorar ensinar-te… ser o teu primeiro. Estás mais calmo?
Leo puxou-o para o peito, envolvendo-o num abraço quente.
— Sim. Eu gosto muito de ti… muito mesmo. Sei que nos conhecemos há pouco tempo, mas não suportaria se nos separássemos agora.
Rafael saiu do carro a correr, sem dar tempo a Leo de responder, sem ver o sorriso de felicidade que se desenhava no rosto do homem.
— Eu também gosto muito de ti… meu pequeno Anjo. Entraste na minha vida e não vais sair dela tão cedo.
Leo partiu com o carro, o sorriso preso no rosto. A confissão de Rafael ecoava-lhe no peito, deixando-o leve, quase em êxtase.
Rafael entrou em casa sem olhar para trás. O coração ainda batia descompassado, a mente girava em torno do que acabara de dizer. Tinha-se confessado num impulso, mas não se arrependia. Era verdade. Era o que sentia.
Subiu direto para o quarto, como quem precisa de silêncio para entender o próprio corpo. A lembrança do beijo ainda vibrava na pele, como se os lábios de Leo tivessem deixado uma marca invisível. O calor não passava. Era como se o toque ainda estivesse ali, a respiração ainda próxima, o desejo ainda aceso — não no corpo, mas no coração.
No banho, deixou que a água escorresse pelo rosto e pelos ombros. Encostou-se à parede, olhos fechados, e a imagem de Leo voltou-lhe à mente com uma nitidez quase dolorosa: o olhar, o toque, o sussurro, os lábios que ainda sabia onde tinham estado.
O corpo reagiu antes que pudesse evitar — um calor que descia devagar, concentrado, inegável. Rafael respirou fundo, deixou a mão deslizar sem resistência, pelo tórax, pelo abdómen, até à sua intimidade, guiada pela memória do toque de Leo, pelo som da voz dele, pela sensação de ser escolhido.
O clímax chegou depressa, quase a surpreendê-lo, e deixou-o imóvel por um momento, a respiração pesada, a água quente a escorrer-lhe pelo peito.
Saiu do banho com o coração ainda em chamas, mas com a mente mais clara. Deitou-se, e a lembrança do beijo ainda vibrava na pele, como se os lábios de Leo tivessem deixado uma marca invisível.
O quarto escuro parecia mais íntimo do que nunca. O sono tardava, mas Rafael não se importava. Estava a sentir — e isso, por si só, já era novo.
🍃 🍃 🍃
Enquanto a noite avançava, noutra parte da cidade, Leo chegava a casa com o sorriso ainda estampado no rosto.
No quarto, despiu-se devagar. A excitação emocional ainda pulsava sob a pele — ternura, desejo contido, espanto. Dirigiu-se para a casa de banho, deixando que o vapor do chuveiro o envolvesse.
Sob a água, deixou-se levar pelos pensamentos em Rafael. O rosto do rapaz surgia-lhe com nitidez: os olhos tímidos, o sorriso hesitante, os lábios entreabertos com entrega. O corpo reagia, sim — mas o que sentia por Rafael era maior do que qualquer impulso. Era profundo, era novo, era raro. Respirou fundo e deixou a água acalmar-lhe a mente.
Depois, foi para a cama, pegou no telemóvel e escreveu algumas palavras para o seu Anjo. Enviou a mensagem e adormeceu quase de imediato, certo de que Rafael já estaria a dormir
Contudo, Leo enganou-se. Rafael, longe de dormir, permanecia desperto, com o coração e a mente agitados pelos acontecimentos daquela noite. Sobressaltou-se ao ouvir o sinal de uma mensagem a chegar. O coração acelerou, antecipando quem poderia ser o remetente. Com as mãos a tremer, apanhou o telemóvel e, ao ver o nome de Leo, sorriu.
Era mesmo dele.
Rafael abriu a mensagem com mãos trémulas, como quem desembrulha algo precioso. As palavras de Leo pareciam ter corpo, voz, presença; como se o próprio estivesse ali, ao seu lado, a sussurrar-lhe ao ouvido.
📩 — Eu também gosto muito de ti e não me vou separar de ti. Tu és o meu Anjo, um Anjo que surgiu de repente, mas que me faz imensamente feliz. Sempre teu.