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15 – O Primeiro Beijo a Sério

Leo fez sinal ao empregado para trazer a conta.

Rafael aproveitou para se levantar.

— Vou só à casa de banho, enquanto pagas.

Leo inclinou-se na cadeira e olhou para ele de baixo para cima, com um meio sorriso.

— À casa de banho? Ou vais ver o açúcar?

Rafael ficou vermelho num segundo. Mordeu o lábio.

— As duas coisas — admitiu, e riu-se de si próprio.

— Faz no carro — pediu Leo. — Se não te importares. Quero ver outra vez. Quero aprender a ler aquilo como tu lês.

Rafael ficou um momento parado ao lado da mesa, a olhar para ele. Ninguém lhe tinha pedido aquilo antes. Os pais sabiam. O Nuno sabia. Mas ninguém tinha pedidopara ver.

— Está bem — disse. — No carro.

🍃 🍃 🍃

Lá fora, a noite tinha arrefecido. A fonte continuava a correr ao fundo do jardim, e as lanternas dos beirais faziam sombras compridas no pátio de gravilha. O Raul veio à porta despedir-se, apertou a mão a Leo com as duas mãos, como à chegada, e a Rafael deu-lhe uma palmadinha no ombro.

— Volte, Rafael. Com ele ou sem ele.

— Com ele — disse Leo.

O Raul riu-se, e ficou à porta até eles chegarem à figueira.

Dentro do carro, Leo acendeu a luz do teto e ficou a ver. Rafael tirou o estojo preto do bolso, abriu-o em cima dos joelhos e fez tudo sem pensar: a tira no medidor, a lanceta, o dedo, a gota. Encostou a gota à tira. Esperaram os dois. O aparelho apitou.

— Cento e oitenta e três — leu Leo. — É mau?

— Não. É normal, depois de jantar. Está um bocado alto, mas desce sozinho. — Rafael limpou o dedo a um lenço de papel. — Como te disse ao jantar, só faço insulina se passar muito dos duzentos e cinquenta.

— E se estivesse baixo?

— Comia qualquer coisa. Tenho sempre bolachas na mochila. E, se desmaiar… — Tocou com o dedo na caixinha laranja, no canto do estojo. — Isto. Mas isto já tu viste.

— Já. — Leo ficou a olhar para a caixinha. — E não gostei nada de ver.

Rafael fechou o estojo devagar.

— Leo. Estás mesmo interessado nisto? Na diabetes?

Leo olhou para ele como se a pergunta não fizesse sentido.

— Faz parte de ti. Eu quero saber tudo o que faz parte de ti. — Pensou um bocado. — Um dia deixas-me ser eu a picar-te o dedo?

Rafael riu-se.

— Um dia. Se prometeres que não desmaias tu.

— Prometo.

— O médico anda a dizer-me para pôr um sensor — contou Rafael, a guardar o estojo no bolso. — Um aparelho pequenino que se cola no braço e vai medindo o açúcar sozinho, a toda a hora. Vê-se no telemóvel. Acabavam-se as picadas no dedo.

— E porque é que ainda não puseste?

Rafael encolheu os ombros.

— Nunca achei que precisasse. Sempre me desenrasquei assim. — Olhou pela janela. — Um dia destes, se calhar.

Leo apagou a luz do teto e ligou o motor.

🍃 🍃 🍃

O caminho de volta fez-se devagar. Leo não tinha pressa nenhuma de chegar e Rafael também não, e os dois sabiam isso sem precisarem de o dizer. Falaram de coisas leves: do Raul, do neto de três quilos e meio, da cara do empregado quando Rafael pediu a Coca-Cola Zero, como se fosse um insulto à casa.

A certa altura, Leo deixou de falar.

A mão dele desceu do volante e pousou na perna de Rafael, onde tinha estado à ida. Só que desta vez não ficou quieta. Os dedos moveram-se devagar, uma vez, pela coxa acima, e pararam. Voltaram a descer. Uma pressão leve, quase nada.

Rafael sentiu-o no corpo inteiro. Não afastou a mão. Olhou pela janela e tentou respirar como uma pessoa normal, e não conseguiu, e uma respiração mais funda escapou-lhe no escuro do carro.

Leo ouviu-a. E a mão ficou onde estava, até ao fim do caminho.

Nenhum dos dois disse mais nada.

Às onze e vinte e cinco, Leo parou o carro uns metros antes do portão verde, à sombra de uma árvore. Na casa, a luz da sala estava acesa. Desligou o motor, tirou o cinto e virou-se para ele.

— Pronto, anjo. Chegámos. — Tocou-lhe na cara com as costas dos dedos. — E desculpa.

Rafael franziu a testa.

— Desculpa porquê?

— Por te ter tocado sem pedir. — Leo tirou a mão. — Já é a segunda vez. Não quero tirar o que não me deste.

Rafael ficou a olhar para a rua em frente, para o portão, para a luz da sala. Qualquer coisa era mais fácil de olhar do que ele.

— Não peças desculpa — disse, num fio de voz. — Tu percebeste que eu gostei. Se não tivesse gostado, tinha tirado a tua mão. E não tirei. Nem quero tirar. — Engoliu em seco. — Eu gosto quando me tocas.

Não olhou para ele ao dizê-lo. Por isso não viu a cara de Leo.

🍃 🍃 🍃

Leo inclinou-se, desapertou-lhe o cinto de segurança e pousou-lhe as mãos nos ombros. Virou-o para si, devagar. Rafael deixou-se virar, mas manteve a cara em baixo, e quando Leo lhe levantou o queixo com um dedo, tinha os olhos fechados.

Leo sorriu.

Deixou uma mão no rosto dele e passou a outra pela nuca, pelo cabelo curto ali atrás, devagar, para trás e para a frente. Sentiu-o relaxar aos poucos. Aproximou-se mais. Rafael sentia-o chegar sem o ver: o calor, o cheiro do perfume, a respiração cada vez mais perto.

— Abre os olhos, anjo — pediu Leo, junto ao ouvido dele. — Quero ver-te quando te beijar.

Rafael abriu os olhos devagar. A cara de Leo estava tão perto que via as pestanas dele uma a uma.

— Deixa-te ir — disse Leo, baixinho. — Se não quiseres, dizes, e eu paro. Mas preciso que me digas. Posso?

Rafael não respondeu. Inclinou-se para a frente. Um centímetro, se tanto. Não foi uma resposta. Foi mais do que isso.

Leo beijou-o.

Ao princípio foi como no carro, à ida: leve, quase uma pergunta. Depois, quando sentiu Rafael não fugir, Leo demorou-se. Passou-lhe a ponta da língua pelo lábio, devagar. Rafael estremeceu e ficou imóvel, sem saber o que fazer. E depois, aos poucos, guiado pela paciência do outro, abriu a boca e deixou-se ensinar.

Não soube quanto tempo durou. Soube que a mão de Leo lhe apertou a nuca a certa altura, e que a sua própria mão tinha ido parar à camisa dele, agarrada ao tecido, sem que desse por isso. Soube que houve um som, baixinho, e que era dele.

Foi Leo quem parou.

Afastou-se devagar, com a testa encostada à dele e a respiração tão desarrumada como a de Rafael. Ficou assim uns segundos. Depois afastou-se mais, e Rafael fez um som pequeno, de protesto, que o envergonhou logo a seguir.

— Chega por hoje — disse Leo, com a voz rouca.

Rafael abriu os olhos. E Leo, que o estava a ver, viu a cara dele mudar. Viu a luz a apagar-se nos olhos azuis, devagar, como uma lâmpada a que se baixa a intensidade.

— O que foi, anjo?

— Nada. — Rafael pegou na maçaneta da porta. — Tenho de ir.

— Rafael. — Leo segurou-lhe o braço, com cuidado. Sentiu-o tremer. — Olha para mim.

Rafael olhou. Tinha os olhos cheios.

— Não gostaste, pois não? — Saiu-lhe partido. — Eu não sei fazer isto. Eu disse-te que não sabia. E tu paraste.

Leo percebeu. E sentiu uma coisa apertar-lhe o peito, uma mistura de ternura e de vontade de rir, e de uma espécie de culpa por não ter percebido antes.

— Anjo. — Segurou-lhe a cara com as duas mãos. — Eu não parei porque não estava a gostar. Parei porque estava a gostar demais. Estava a perder a cabeça. E tu também. E eu prometi ao teu pai onze e meia, não prometi?

Rafael pestanejou. Uma lágrima caiu-lhe na mesma, mas os cantos da boca levantaram-se.

— Prometeste.

— Então. — Leo limpou-lhe a lágrima com o polegar. — Não quero que o primeiro beijo a sério da tua vida acabe com o teu pai a bater no vidro do carro.

Rafael riu-se, com os olhos ainda molhados.

— Eu quero-te muito — disse Leo, mais baixo. — Mais do que devia. Mas quero mais ainda que te sintas seguro comigo. Os teus dezoito anos, o que ainda não viveste, os medos que tens, isso tudo importa-me. Eu espero. Quero-te inteiro, Rafael. Não é só a boca, nem só o corpo. És tu.

Deu-lhe um beijo curto, nos lábios, como quem assina.

— Percebeste?

— Percebi. — Rafael fungou. — Desculpa. Eu sei que gostas de mim. É só que às vezes tenho medo que te canses.

— Não me vou cansar. Nunca. Vou gostar muito de te ensinar tudo, já te disse. Estás mais calmo?

Rafael acenou. Leo puxou-o para o peito e abraçou-o, desajeitado, por cima do travão de mão, e ficaram assim um bocado, com a luz da sala acesa lá ao fundo.

— Gosto muito de ti — disse Rafael, contra a camisa dele. — Muito. Eu sei que te conheço desde ontem. Mas não aguentava se isto acabasse agora.

E, antes que Leo pudesse responder, abriu a porta, saiu do carro e correu para o portão verde sem olhar para trás.

Leo ficou a vê-lo atravessar o jardim, a abrir a porta de casa, a desaparecer lá dentro.

— Eu também gosto muito de ti, anjo — disse, sozinho, para o carro vazio. — E não vais sair da minha vida tão cedo.

Olhou para o relógio. Onze e vinte e nove.

Ligou o motor e foi-se embora a sorrir, com o gosto da boca dele ainda na sua.

🍃 🍃 🍃

Na sala, o pai estava no sofá com o jornal aberto na mesma página do fim da tarde. A mãe estava à janela, e deixou cair a cortina quando ouviu a chave na porta.

— Então? — perguntou ela.

— Correu bem. — Rafael não parou. Já ia a meio das escadas. — Boa noite. Amo-vos.

A porta do quarto fechou-se lá em cima.

O Sr. Wei baixou o jornal e olhou para o relógio da parede.

— Onze e vinte e nove — disse.

A D. Clara não respondeu. Mas quando se sentou ao lado dele, estava a sorrir.

🍃 🍃 🍃

No quarto, Rafael encostou-se à porta fechada e ficou ali parado, com a mão na boca.

Tomou um duche comprido. A água quente não ajudou nada. O beijo continuava lá, na boca, na nuca onde a mão dele tinha estado, na perna. O corpo lembrava-se de tudo antes de ele deixar, e ele deixou. Pela segunda vez em dois dias, encostado aos azulejos, com os olhos fechados e o nome de Leo preso entre os dentes.

Depois deitou-se às escuras, com o cabelo ainda molhado na almofada.

Não conseguia dormir. Não queria.

A certa altura, levantou-se e foi até à parede. Afastou um canto do cartaz do desfile de Milão e ficou a olhar para o recorte que estava ali escondido havia três anos. Leo Mattos, de camisa branca, a olhar para qualquer coisa fora da fotografia.

Tinha a mesma camisa, hoje. Ou uma igual.

Rafael riu-se sozinho, no escuro, e voltou a tapar o recorte com o cartaz.

🍃 🍃 🍃

Do outro lado da cidade, a vivenda branca estava em silêncio.

Leo tomou também um duche, demorado, e deixou que a água lhe levasse o resto da noite dos ombros. Pensou nos olhos tímidos do rapaz, no som que lhe escapara, na mão agarrada à camisa. O corpo reagiu, e ele deixou. Mas o que lhe ficou quando fechou a torneira não foi isso. Foi uma coisa mais funda, que não conhecia, ou que já não conhecia há muito tempo.

Deitou-se, pegou no telemóvel e escreveu. Apagou. Escreveu outra vez.

Enviou, e adormeceu quase logo a seguir, certo de que o rapaz já estava a dormir.

Enganou-se.

Na casa do portão verde, Rafael deu um salto na cama quando o telemóvel vibrou em cima da mesa de cabeceira. Pegou nele com as mãos a tremer. Viu o nome Leo no ecrã e sorriu antes de abrir.

📩 — <Eu também gosto muito de ti. E não me vou separar de ti. Apareceste de repente, anjo, e fazes-me feliz como eu já não sabia ser. Dorme bem. Teu, Leo.>

Rafael leu a mensagem três vezes. Depois apertou o telemóvel contra o peito e ficou assim, de olhos abertos no escuro, até adormecer.

Quando sair o próximo livro, queres saber?

Mais nada. E podes sair da lista quando quiseres.

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