14 – Cuidar de Ti
Leo apertou-lhe a mão por cima da mesa.
— Quero ser o teu porto seguro — disse. — Nos dias maus. Aquele a quem ligas quando o mundo pesa demais, e também aquele com quem festejas quando corre bem. Quero ser teu amigo, sim. Mas também cúmplice. A pessoa que te ouve às três da manhã quando não consegues dormir. Que te abraça quando está frio. Que dança contigo na sala sem música só porque estás contente.
Rafael não disse nada. Tinha os olhos muito abertos e a boca um bocadinho aberta, outra vez, como no carro.
Leo passou-lhe o polegar pelas costas da mão.
— E para isso tens de me conhecer. A sério. — Fez uma pausa. — Quero contar-te uma coisa. Uma coisa que nunca tive vontade de contar a ninguém que não fosse da família. Mas contigo tenho.
Rafael endireitou-se na cadeira, devagar, como quem percebe que o que vem a seguir é importante.
— Até aos vinte e cinco anos — começou Leo — achei que a vida era comprida. Que tinha tempo para tudo. Estudava, sim, mas o resto era festas, copos, noites que acabavam de manhã. Não pensava muito. Não queria pensar.
Olhou para o copo de vinho, quase vazio.
— Aos vinte e cinco, descobri que tinha um cancro. Nos testículos. Já estava avançado quando dei por ele.
Rafael deixou de respirar. Leo viu-o, e continuou na mesma, porque se parasse agora não ia conseguir recomeçar.
— Fui operado. Tiraram-me os dois. — Disse-o sem baixar os olhos, como quem diz as horas. — Puseram-me próteses. Por fora ninguém dá por nada. Mas perdi a possibilidade de ter filhos. Depois vieram meses de quimioterapia, de radioterapia. Um ano inteiro. No fim disseram-me que estava curado. — Encolheu os ombros. — Nunca te garantem que não volta. Dizem só que, por agora, não está lá.
Rafael estendeu a mão livre e pô-la em cima da de Leo. Não disse nada. Não era preciso.
— Fiquei revoltado. Durante meses não quis ver ninguém. Achei que o mundo tinha deixado de fazer sentido. — Leo apertou-lhe os dedos. — Mas a minha família esteve lá. Os meus irmãos. O Henrique, que dormiu num sofá do hospital mais noites do que eu consigo contar. E a minha mãe, que não me largou a mão.
— A D. Laura? — perguntou Rafael, baixinho.
Leo olhou para ele. Durante um segundo pareceu surpreendido, como se se tivesse esquecido de que o Raul dissera aquele nome à entrada.
— A D. Laura — repetiu. E sorriu, mas foi um sorriso que não chegou aos olhos. — Um dia apresento-ta.
Não disse mais nada sobre ela. Rafael percebeu que havia ali uma porta, e que não era ainda a altura de a abrir. Não perguntou.
— Depois disso — continuou Leo — acabei o curso. Comecei a escrever sobre moda. Depois veio a revista, e a escola do Henrique, e o nome começou a aparecer nos jornais. E com o nome veio muita gente. Mulheres, homens. — Não desviou os olhos. — Nunca quis ficar com ninguém. Algumas tentaram ficar comigo à força. Uma ou duas vieram dizer-me que estavam grávidas.
— E tu…
— E eu sabia que não era possível.
Rafael ficou calado. Leo pegou no copo, olhou para o fundo, e voltou a pousá-lo sem beber.
— Há uns anos, pensei que ia mudar. Apareceu uma rapariga. Aluna da escola. Bonita, muito bonita, daquelas que entram numa sala e a sala muda. Chamava-se Beatriz. Ao fim de uns meses estávamos a viver juntos. — Fez uma pausa. — Nunca lhe contei nada disto. Do cancro. De nada. Nunca a apresentei à minha família. E mesmo assim achava que a amava.
— Achavas?
— Achava. — Leo respirou fundo. — Um dia resolvi pedi-la em casamento. Tinha o anel no bolso do casaco. Saí mais cedo da revista para fazer uma surpresa. — Parou. — Quando cheguei a casa, ela estava na cama. Com dois homens.
Rafael levou a mão à boca.
— Tentou explicar-se. Disse que a tinham obrigado. Disse que era a primeira vez. — Leo abanou a cabeça devagar. — Eu já não a ouvia. Lembro-me de estar à porta do quarto com a mão no bolso, a apertar a caixinha do anel, e de pensar que aquilo não podia estar a acontecer na minha casa.
Ficou um bocado calado.
— Semanas depois, veio dizer-me que estava grávida. — Um sorriso seco. — Ri-me. Disse-lhe que o filho não era meu e que duvidava até de que houvesse filho. Ela jurou que ia provar. Nunca mais a vi.
Pousou as duas mãos em cima da mesa.
— A partir daí, fechei-me. Passei a achar que era mais fácil não sentir nada do que voltar a sentir aquilo. Tudo passou a ser só físico. Um alívio. Mais nada. — Olhou para Rafael. — Até ontem.
Rafael tinha as lágrimas a descer pela cara, outra vez, sem barulho.
— Anjo. — Leo inclinou-se, alarmado. — Estás a chorar. Disse alguma coisa que…
— Não. — Rafael limpou os olhos com as costas da mão, depressa. — Não é por isso. É que… ninguém nunca me contou uma coisa assim. Ninguém nunca olhou para mim como se eu fosse… — Não conseguiu acabar. — Não sabia que podia ser assim tão importante para alguém.
Leo estendeu a mão e limpou-lhe a cara com o polegar, primeiro de um lado, depois do outro.
— És. Quando é que vais meter isso nessa cabeça?
— Vou meter. Preciso é de tempo. — Rafael fungou e riu-se ao mesmo tempo. — Ela deixou-te ir assim, tão fácil?
— Não lhe dei escolha. Fui eu que saí por aquela porta. — Fez uma pausa, e a voz desceu. — O que te estou a contar, só a minha família e o Henrique sabem. Agora sabes tu.
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Ficaram um bocado em silêncio. Não era um silêncio pesado. Era outro, mais quieto, como quando se pousa uma coisa que se carregou muito tempo.
Foi Rafael quem o quebrou.
— Posso perguntar-te uma coisa?
— Podes.
— O que é que mudou? — Olhou para as mãos dos dois, juntas em cima da toalha. — Disseste que era só físico. E agora?
Leo pensou antes de responder.
— Agora sei que aquilo não era amor. Amor, se calhar, é isto. — Fez um gesto pequeno, para a mesa, para ele. — Querer saber se estás bem. Pensar em ti antes de pensar em mim. Querer-te tanto que me custa, e ter paciência na mesma. — Baixou a voz. — Contigo não penso em sexo, Rafael. Penso em fazer amor.
Rafael ficou vermelho até às orelhas.
— Não é a mesma coisa? — perguntou, meio a rir, meio a medo.
— Não. — Leo inclinou-se, como quem conta um segredo. — Sexo é o corpo. Fazer amor é quando o resto vem atrás.
Rafael mordeu o lábio. Desviou os olhos para a janela, depois para a toalha, depois outra vez para ele.
— Para — disse, muito baixo. — Não digas mais nada.
Leo franziu a testa.
— Posso saber porquê?
Rafael engoliu em seco. Apertou os dedos uns nos outros, por baixo da mesa. Ficou tão vermelho que Leo pensou que ia ter de chamar o empregado para lhe trazer água.
— Porque estás a deixar-me… — Parou. Olhou para baixo, só um segundo, e voltou a olhar para ele. — Tu sabes. Só de ouvir a tua voz. Só de estares aqui. Quando dizes essas coisas, eu… — Desistiu da frase. — Nunca nenhuma rapariga me deixou assim. Nunca ninguém. Nunca tive vontade de… de nada, só por estar ao pé de alguém. E contigo tenho.
Leo ficou muito quieto.
Durante uns segundos não conseguiu dizer nada. Havia nele duas coisas a puxar em sentidos contrários: um orgulho quente, quase selvagem, por ser querido daquela maneira; e a promessa que tinha feito a si próprio, no carro, à porta da casa dos pais dele, no salão vazio do Henrique. Devagar. Ao ritmo dele.
Fechou os olhos um momento. Quando os abriu, conseguiu sorrir.
— Eu também sinto isso tudo — disse, e a voz saiu-lhe mais rouca do que queria. — Nem imaginas quanto. — Passou-lhe os dedos pelas costas da mão, devagar. — Mas vou cuidar de ti. E para isso tenho de ser forte pelos dois.
— Desculpa.
— Para de pedir desculpa. Não fizeste nada de mal. — Leo suspirou. — Eu vou sobreviver a isto. Acho eu.
Rafael riu-se, e a vergonha partiu-se ao meio.
🍃 🍃 🍃
O empregado veio levantar os pratos.
— Sobremesa, anjo?
— Não, obrigado. Evito doces.
Leo sorriu para dentro, a pensar na caixa de bombons que tinha deixado na pastelaria.
— Mais alguma coisa? Um chá?
— Estou bem assim.
O empregado afastou-se. E Leo percebeu que era agora.
Tinha dito ao Henrique, horas antes, que o Rafael não precisava de saber. Que talvez nunca precisasse. Mas depois, no carro, tinha-lhe pedido uma promessa. Nada de esconder coisas um do outro. E tinha prometido o mesmo.
Não se pede uma coisa destas a alguém com um segredo guardado no bolso.
— Há mais uma coisa que tens de saber sobre mim — disse. — Pode fazer-te mudar de ideias. E se fizer, eu percebo. Mas quero que fique uma coisa clara antes de eu começar: o que te vou contar é para me conheceres. Não é uma coisa que eu queira contigo. Nunca pensei nisso contigo. Nunca.
Rafael endireitou-se.
— Estás a assustar-me.
— Eu sei. Desculpa. — Leo respirou fundo. — Já ouviste falar do Refúgio?
— Não. O que é?
— Um bar. Perto do rio, numa rua estreita. Não tem letreiro. Quem sabe, sabe. Quem não sabe, passa ao lado. — Fez uma pausa. — É meu. Meu, do Henrique e do Mário, o companheiro dele.
Rafael esperou. Percebia que aquilo ainda não era a coisa.
— Não é um bar como os outros. É um sítio para pessoas que gostam de… certas regras. De certos jogos. — Leo escolheu as palavras com cuidado, como quem atravessa um chão que range. — Sabes o que é BDSM, anjo?
Rafael acenou que sim. Depois hesitou, e abanou a cabeça.
— Mais ou menos. Já li qualquer coisa. Não sei bem.
— Ao longo da vida, fui descobrindo que gostava disso. Não me perguntes quando começou, porque não sei. Foi acontecendo. — Olhou-o nos olhos. — Lá dentro, eu sou dominador, Rafael. Quem manda. É lá que vou quando preciso de pôr a cabeça em ordem. Ou quando preciso de outras coisas.
O silêncio que se seguiu foi o mais comprido da noite. Leo não se mexeu. Tinha as mãos em cima da mesa e não as estendeu para as dele. Queria que Rafael pudesse levantar-se e ir-se embora sem ter de as soltar primeiro.
— Diz alguma coisa, anjo. Por favor.
Rafael pestanejou, como quem acorda.
— Não percebi metade do que disseste — admitiu. — A sério. Dominador, submisso. Tenho uma ideia, mas é vaga. Acredito em ti quando dizes que não é isso que queres de mim, seja lá o que isso for. Mas não consigo dizer o que acho de uma coisa que não conheço. — Mexeu no guardanapo. — Nem sei o que sentia se tu fosses lá fazer isso com outras pessoas. Não sei mesmo. Acho que só o tempo me vai dizer.
Leo soltou o ar que estava a segurar.
— É a resposta mais honesta que alguém me deu na vida.
— Disseste para eu ser eu.
— Disse. — Leo quase sorriu. — Um dia destes levo-te lá. Para veres com os teus olhos o que é, em vez de imaginares. Só se quiseres.
— Sim, senhor — disse Rafael, a meio de um sorriso.
O sorriso de Leo desapareceu.
Rafael viu-o desaparecer e não percebeu porquê. Leo estendeu a mão por cima da mesa e pegou na dele, e Rafael sentiu-lhe os dedos frios, um tremor pequeno que não estava lá antes.
— Não me chames isso — pediu Leo, baixinho. — Por favor.
— O quê?
— Senhor. — A palavra saiu-lhe com cuidado, como se pesasse. — No carro, há bocado, também o disseste. Eu ri-me, porque não sabias. Mas agora já sabes. Lá dentro, é assim que me chamam. Senhor. Às vezes pior. Eu vivi isso muitos anos, e sei o peso que essas palavras têm. — Apertou-lhe os dedos. — De ti não as quero ouvir. Nem a brincar. Tu não és isso para mim. Prometes?
Rafael sentiu a garganta apertar. Não percebia tudo. Mas percebia o suficiente.
— Prometo. Desculpa, Leo. Não sabia.
— Eu sei que não sabias. É por isso que te estou a dizer.
🍃 🍃 🍃
Rafael ficou a olhar para as mãos dos dois durante um bocado. Depois passou a língua pelos lábios e respirou fundo, como quem se prepara para saltar para água fria.
— Já que estamos a contar coisas. — Tinha a voz insegura. — Também tenho uma para te contar. Prometi que não te dizia, mas acho que é justo. Depois de tudo o que me contaste.
Leo levantou uma sobrancelha.
— Tu prometeste a alguém que não me dizias uma coisa?
— Ao Nuno.
Leo não reagiu logo. O nome demorou um segundo a fazer sentido. Depois outro segundo a encaixar.
— Que Nuno?
— O teu sobrinho. — Rafael encolheu os ombros, muito vermelho. — Sou o melhor amigo dele. Desde o sétimo ano. Tu já me viste algumas vezes, em casa do teu irmão, quando eu era mais novo. Não te lembras de mim, pois não?
Leo encostou-se para trás na cadeira como se lhe tivessem dado um empurrão.
— Tu és o Rafa.
— Sou o Rafa.
— O Rafa do Nuno. — Levou a mão à testa. — O Rafa de quem a minha cunhada fala nos almoços de domingo. O que come tudo o que se lhe põe à frente. O que ajudou o Nuno a passar a Matemática.
— Esse.
— Eu nunca juntei o nome à cara. Nunca. — Leo riu-se, sem vontade nenhuma de rir. — E o Nuno sabe? De nós?
— Sabe que me levaste ao colo no casting — disse Rafael, a olhar para a toalha. — Gritou tanto que tive de afastar o telemóvel da orelha. O resto não sabe. Ainda.
Leo fechou os olhos.
— A Amélia — disse.
— O que tem a Amélia?
— Hoje ao almoço arrancou-me que eu estava a sair com alguém. De dezoito anos. E que era um ele. — Abriu os olhos. — A Amélia faz as contas em dois segundos, Rafael. Vou ser um homem morto.
Rafael tapou a boca com a mão, mas Leo viu-lhe os olhos a rir por cima dos dedos.
— Os anos deles são daqui a umas semanas — disse Rafael. — Eu vou. Vou sempre. Se quiseres, podemos fingir que não nos conhecemos.
— Não.
Saiu-lhe mais depressa do que queria. Rafael ficou a olhar para ele.
— Não quero fingir — disse Leo, mais calmo. — Para dizer a verdade, estava a pensar convidar-te para ires comigo. Para te apresentar à família. E afinal já te conhecem todos melhor do que eu. — Passou a mão pelo cabelo. — O problema é outro. Gostam muito de ti. E eu tenho medo do que vão dizer quando perceberem que o Rafa deles está comigo.
Rafael pousou a mão em cima da dele. Firme.
— Leo. Quem tinha de aceitar era eu. E os meus pais. E já aceitámos. A tua família também vai aceitar. Vão ver que gostas de mim. Isso é que interessa.
Leo ficou a olhar para ele, espantado. Não pela resposta. Pela calma com que ela vinha, de um rapaz que ainda há uma hora tinha tremido dentro de um carro com medo de não saber beijar.
— Tens razão — disse, por fim. — E mesmo que não aceitem, não te vou largar. Entraste na minha vida, e não te deixo sair dela. A não ser que sejas tu a querer.
— Não sei o que vai ser daqui a um ano. — Rafael sorriu, tímido. — Mas agora não quero sair. E é esquisito, porque te conheço desde ontem. Mas parece que te conheço há anos.
Há anos, pensou Leo, sem saber que o rapaz, sem querer, tinha acabado de dizer a verdade.
🍃 🍃 🍃
Leo olhou para o relógio e suspirou.
— São quase onze. Tenho de te levar a casa, anjo. Prometi ao teu pai onze e meia, e não quero que ele me odeie logo no primeiro dia.
— Porque é que fazes tanta questão de agradar aos meus pais?
— Porque são os teus pais. — Leo disse-o como se fosse óbvio. — Os pais da pessoa com quem quero estar muito tempo. Quero que confiem em mim. Quero que saibam que te respeito. — Suspirou. — E que não quero só levar-te para a cama.
Rafael ficou calado um segundo. Depois inclinou-se um pouco para a frente, por cima da mesa, e disse, muito baixo:
— Eu sei que não é só isso que queres de mim. — Corou até à raiz do cabelo, mas não desviou os olhos. — Mas espero que também me queiras lá.
Leo soltou uma gargalhada baixa. E depois deixou de rir, e ficou só a olhar para ele. De outra maneira.
— Posso fazer-te uma pergunta, anjo? Das mais difíceis.
— Podes.
— Tu também me queres? — A voz desceu. — Não estou a imaginar coisas, pois não?
Rafael sentiu um arrepio atravessá-lo de cima a baixo. Desviou os olhos. Mas não tirou a mão de dentro da dele.
— Não estás a imaginar. — Mal se ouviu. — Também te quero. Mas tenho muito medo. Medo de não saber. Medo de estragar tudo.
Leo passou-lhe a mão pelo braço, devagar, do pulso até ao cotovelo, e de volta.
— Não tens de ter medo. Eu guio-te. Sempre. E nunca te vou deixar fazer nada para que não estejas pronto.
Rafael fechou os olhos e deixou-se ficar ali, dentro daquele toque, que dizia tudo o que nenhum dos dois ainda sabia dizer.
Mais nada. E podes sair da lista quando quiseres.