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13 – O Primeiro Beijo

Rafael não disse nada durante duas ruas.

Leo deixou-o estar. Conduziu devagar pelo bairro, entre muros baixos e laranjeiras, com as janelas meio abertas e o cheiro da noite de julho a entrar no carro. Ao lado, o rapaz tinha as mãos entre os joelhos e os olhos presos no porta-luvas, como se lá dentro estivesse escrita a resposta a alguma coisa.

À terceira rua, Leo encostou o carro à berma, em frente a um pinhal escuro, e desligou o motor.

— Anjo.

Rafael levantou os olhos, assustado.

— Porque é que parámos?

— Porque estás calado desde que saímos de tua casa. — Leo virou-se no banco para ficar de frente para ele. — E eu não sei ler silêncios. Ainda não. Diz-me o que se passa.

— Nada.

— Rafael.

O rapaz voltou a olhar para o porta-luvas.

— Estás nervoso? — perguntou Leo, com cuidado. — Achas que é cedo? Se não quiseres ir, levo-te a casa agora e ninguém fica zangado. Nem eu. — Esperou. — Tens medo de mim?

— Não! — Saiu-lhe alto, depressa. — Não é nada disso. Eu quero ir. Quero estar contigo. E não tenho medo de ti. A sério que não. É só que…

Parou. Leo viu-o engolir em seco.

— Fala comigo, anjo. Estou aqui a tentar adivinhar, e quando eu adivinho, adivinho sempre o pior.

Rafael respirou fundo.

— Tenho medo que deixes de gostar de mim. — Disse-o para as mãos. — Por ser novo. Não tenho experiência nenhuma. De nada. Tu deves estar habituado a pessoas que sabem o que fazem, que sabem o que dizer. E eu não sei. Não sei como é que me devo portar para tu não te cansares de mim.

Ficou vermelho no escuro. Leo não o via, mas sabia.

Não respondeu logo. Estendeu o braço, pôs-lhe a mão na nuca e puxou-o devagar, por cima do travão de mão, até lhe encostar a cabeça ao ombro. Rafael deixou-se ir. Ficou ali, meio torto, com a cara na camisa branca de Leo, e Leo sentiu-o respirar.

— Ouve-me bem — disse, junto ao cabelo dele. — Eu gosto de ti assim. Como és. Não tens de saber nada. Não quero que te transformes noutra pessoa para me agradar, porque eu não gostei de outra pessoa. Gostei de ti. — Afastou-o só o suficiente para o ver. — Sê tu. É só isso que te peço. E eu prometo que também sou eu.

Rafael acenou, sem conseguir falar.

— E mais uma coisa. Esta é importante. — Leo segurou-lhe a cara com as duas mãos. — Quando tiveres uma dúvida, um medo, uma coisa qualquer que te esteja a roer por dentro, dizes-me. Não ficas a imaginar sozinho. Falamos. Mesmo que seja parvo. Mesmo que tenhas vergonha. Prometes?

— Prometo.

— E eu prometo o mesmo. Nada de esconder coisas um do outro.

Rafael sorriu, pela primeira vez desde que saíra de casa.

— Estou a portar-me como uma criança.

— Estás a portar-te como alguém que nunca fez isto. É diferente.

— E se… — Rafael mordeu o lábio. Depois disse tudo de uma vez, muito depressa, antes que a coragem lhe fugisse. — Eu nunca beijei ninguém, Leo. Ninguém. E estou com medo que tu me beijes e eu não saiba e tu não gostes e…

Não chegou a acabar a frase.

Leo inclinou-se e tocou-lhe nos lábios com os seus. Leve. Muito leve. Um beijo que quase não chegou a sê-lo, que durou o tempo de uma respiração.

Quando se afastou, Rafael tinha os olhos muito abertos e a boca ainda entreaberta, como se se tivesse esquecido de a fechar.

— Isto foi para deixares de pensar parvoíces — disse Leo, e sorriu. — Vou gostar muito de te ensinar. E vou gostar muito de ser o primeiro. Percebido?

Rafael demorou um segundo a encontrar a voz.

— Sim, senhor. — Engoliu em seco. — Percebidíssimo.

Leo riu-se e apertou-lhe o queixo entre dois dedos.

— Atrevido.

— Disseste para ser eu.

— Disse. — Leo ligou o motor. — Arrependo-me já.

🍃 🍃 🍃

O caminho demorou quinze minutos. Leo conduziu com uma mão e, com a outra, sempre que o trânsito deixava, procurava a de Rafael no banco e entrelaçava os dedos nos dele. Era tudo o que se permitia. Queria mais, e sabia que queria. Mas surpreendeu-se ao perceber que estava bem assim.

— Mais calmo, anjo?

— Mais.

A certa altura, Rafael tirou a mão de dentro da dele. Leo sentiu uma pontada de qualquer coisa, mas o rapaz só a afastou para lhe pegar outra vez e a pousar em cima da própria perna, acima do joelho.

— Aqui também pode ser — disse, a olhar para a estrada. — Desde que fique quietinha.

Leo soltou uma gargalhada.

— Mensagem recebida.

A mão ficou. Quieta, como prometido. Rafael ficou a olhar pela janela, com um sorriso que tentava esconder e não conseguia.

— Leo?

— Diz.

— Porque é que me chamas anjo?

Leo tirou os olhos da estrada um segundo.

— Não gostas? Posso chamar-te outra coisa.

— Não, eu gosto. Só queria saber.

Leo pensou antes de responder.

— A primeira pessoa a dizê-lo foi o Henrique. No dia do casting, quando te viu. Disse que parecias um anjo daqueles das igrejas antigas, com cara de quem desceu por engano. — Sorriu. — Eu fiquei com a palavra. Ele que arranje outra.

Rafael riu-se baixinho. Depois ficou calado um bocado, e disse, muito baixo:

— Gosto de ser o teu anjo.

Leo apertou-lhe a perna, só um pouco, só uma vez. E sentiu-o estremecer debaixo da mão. Um som pequeno escapou ao rapaz, quase nada, uma respiração que se prendeu a meio. Rafael ficou imediatamente vermelho e virou a cara para a janela.

Leo fingiu que não tinha ouvido.

Manteve a mão onde estava, quieta, como prometera. Mas durante uns segundos a cabeça fugiu-lhe para aquele som, e para todos os outros que um dia, com tempo e paciência, havia de descobrir. O desejo estava lá, e era verdadeiro, e não ia desaparecer por ele fingir que não o sentia.

Mas havia outra coisa, mais forte do que isso. A vontade de fazer aquilo bem.

Tens tempo, disse a si próprio. Pela primeira vez na vida, tens tempo.

🍃 🍃 🍃

O carro saiu da estrada principal e entrou num caminho estreito, ladeado de ciprestes. No fim do caminho, entre árvores, apareceu uma casa grande de pedra, antiga, com janelas altas e varandas de madeira escura. Lanternas penduradas nos beirais davam uma luz dourada ao jardim: roseiras, caminhos de gravilha, uma fonte pequena a correr ao fundo.

Leo estacionou debaixo de uma figueira velha, num canto do pátio, e deu a volta ao carro para lhe abrir a porta.

Rafael saiu devagar, a olhar para tudo.

— Isto é lindo — disse, quase sem voz. E depois, a olhar para Leo: — Obrigado.

— Ainda nem entraste.

— Obrigado na mesma.

Leo pousou-lhe a mão nas costas, ao de leve, e levou-o até à porta.

À entrada, veio recebê-los um senhor de idade, de colete e camisa de manga arregaçada, com um sorriso largo e os olhos pequenos de quem já viu muita gente entrar por aquela porta.

— Sr. Leo! Há quanto tempo! — Apertou-lhe a mão com as duas. — Então, como vai a família?

— Vai bem, Raul, obrigado. E a sua?

— Fui avô! — O homem endireitou-se, cheio de orgulho. — A minha filha teve um rapaz há um mês. Três quilos e meio. Chora mais do que o pai dele, que já é dizer muito.

— Parabéns. A sério.

— Obrigado, obrigado. — Depois baixou um pouco a voz. — E a D. Laura? Como está?

Leo demorou meio segundo a responder. Rafael reparou nesse meio segundo.

— Na mesma, Raul.

O senhor acenou devagar, como quem percebe e não pergunta mais.

— Diga-lhe que a mesa dela ainda é a mesma. Ao pé da lareira. — E, antes que o silêncio pesasse, virou-se para Rafael com o mesmo sorriso de antes. — E este jovem?

Leo abriu a boca. A palavra ficou-lhe presa na língua. Não sabia que palavra era. Não a tinham dito ainda, nenhum dos dois, e ele não ia ser o primeiro a dizê-la à frente de um estranho.

— É um amigo meu. O Rafael.

— Muito prazer, Rafael. Bem-vindo.

Rafael apertou-lhe a mão e sorriu. Mas sentiu o olhar do senhor demorar-se nele um bocadinho mais do que era preciso. Não era um olhar mau. Era curioso. Como quem mede.

E bastou isso para a cabeça dele começar a correr.

Toda a gente o conhece aqui. Com quem é que ele costuma vir? Quantas pessoas é que já trouxe? Será que todos olham para mim e pensam que sou só mais um?

E também: quem é a D. Laura?

O sorriso foi-se-lhe apagando aos poucos. Leo reparou. Reparou no franzir pequeno das sobrancelhas, nos olhos que fugiram para o chão.

— Estás bem? — murmurou, enquanto seguiam o Raul até à mesa.

— Estou. — A resposta veio atrasada. — Estou só a pensar demais.

🍃 🍃 🍃

Lá dentro, a casa era grande e quente. Vigas de madeira escura no teto, chão de pedra gasta, paredes cheias de coisas antigas: um arado, lanternas de ferro, molduras com fotografias a sépia de gente que já ninguém sabia quem era. Cheirava a pão acabado de sair do forno, a alecrim e a vinho.

Ao fundo, ao pé de uma lareira apagada, havia uma mesa vazia com uma toalha branca e uma jarra com uma única rosa. Rafael olhou para ela ao passar. Leo não.

O Raul sentou-os ao pé de uma janela, com cortinas de linho. Leo puxou a cadeira a Rafael, e Rafael sentou-se sem saber bem o que fazer às mãos.

Quando ficaram sozinhos, Leo inclinou-se por cima da mesa.

— Agora diz-me o que se passou lá fora. E não me digas nada. Essa cara não engana ninguém.

Estendeu a mão e passou-lhe o polegar pela cara, devagar. Rafael corou de imediato.

— É estranho — disse, por fim, a mexer na ponta do guardanapo. — Toda a gente te conhece aqui. E aquele senhor olhou para mim de uma maneira… Pareceu-me que estava a pensar que eu era só mais um que tu trazes cá.

Leo riu-se. Não era um riso de gozo. Era outra coisa, mais parecida com ternura. Rafael levantou os olhos, espantado.

— Estás com ciúmes, anjo?

— Não! — Ficou ainda mais vermelho. — Não são ciúmes. É só que…

Não acabou. Leo não o apressou.

— Tenho trinta e dois anos — disse, com calma. — Não vou fingir que não houve ninguém antes de ti. Houve. Mas isso foi antes.

Rafael continuava a enrolar o guardanapo nos dedos.

— E queres saber porque é que o Raul olhou para ti assim? — Leo esperou que ele levantasse os olhos. — Porque eu nunca trouxe cá ninguém. Ninguém, Rafael. Venho aqui desde miúdo. Com os meus pais, com os meus irmãos, com os meus sobrinhos. Este sítio é da família. Nunca trouxe cá uma única pessoa que não fosse da família.

Fez uma pausa.

— Ele estava a tentar perceber quem és tu. Porque sabe que não és da família. — Baixou a voz. — Ou melhor. Não eras.

Rafael ficou a olhar para ele. Muito quieto. E depois, sem aviso nenhum, os olhos encheram-se-lhe de água.

Leo endireitou-se na cadeira, alarmado.

— Disse alguma coisa que não devia? Anjo, tens de começar a acreditar em mim, por favor, eu não…

Um empregado aproximou-se nesse momento, discreto, e pousou na mesa um cesto de pão ainda quente, manteiga, queijo da serra, azeitonas. Leo agradeceu sem olhar para ele.

— O que é que os senhores vão beber?

— Um copo de tinto da casa. Só um, que vou conduzir. — Olhou para Rafael. — E tu, anjo?

Rafael corou por ouvir a palavra à frente de outra pessoa, mas não disse nada. Leo não o tinha feito de propósito. Tinha-lhe saído. E, no fundo, gostou.

— Uma Coca-Cola Zero, por favor.

O empregado afastou-se.

Rafael limpou os olhos com as costas da mão.

— Não chorei porque me magoaste — disse, baixinho. — Foi ao contrário. Ninguém nunca me disse uma coisa assim. Que eu podia fazer parte de alguma coisa.

Leo estendeu a mão por cima da mesa e entrelaçou os dedos nos dele.

— Então habitua-te. Porque vou dizer muitas vezes.

🍃 🍃 🍃

Escolheram bacalhau com natas, porque Leo disse que era o melhor da casa e Rafael disse que gostava. Depois o empregado foi-se embora, e Leo ficou a olhar para ele de uma maneira que Rafael já começava a conhecer. Como quem vai perguntar uma coisa séria.

— Anjo. Posso perguntar-te uma coisa?

— Podes.

— Podes comer de tudo? A diabetes não te proíbe nada?

Rafael sorriu. Percebeu o que estava por trás da pergunta.

— Posso comer quase tudo. Tenho é de ver o açúcar antes e depois. E, se estiver muito alto, faço insulina.

— E vês como?

Rafael hesitou. Depois foi buscar o estojo preto ao bolso das calças e abriu-o em cima da mesa, meio escondido atrás do cesto do pão. Leo inclinou-se para ver. O medidor. As tiras. A caneta de insulina. E, num canto, a caixinha laranja que ele já conhecia.

— Assim.

Picou o dedo, rápido, sem fazer caretas, como quem já fez aquilo milhares de vezes. Encostou a gota de sangue à tira. O medidor apitou.

— Cento e dez — disse. — Está bom. Se estivesse abaixo de setenta, comia logo qualquer coisa doce. Se estivesse muito acima de duzentos e cinquenta, via quanta insulina tinha de dar.

Leo ficou a olhar para o pequeno aparelho como se fosse a coisa mais importante em cima da mesa.

— Ensinas-me?

Rafael levantou os olhos.

— O quê?

— Tudo isso. Os números. A caneta. O que fazer se algum dia for preciso. — Leo falou devagar, e a voz saiu-lhe mais baixa do que queria. — Odiei ver-te no chão daquela sala, Rafael. De olhos fechados. E eu ali sem saber o que fazer. Tive de ficar a ver outra pessoa tratar de ti. Não quero voltar a sentir aquilo. Quero saber cuidar de ti.

Rafael ficou um bocado calado, a olhar para ele. Como se estivesse à espera de perceber se era a sério. Era.

— Ensino — disse, por fim. — Ensino-te tudo.

Fechou o estojo e guardou-o. As mãos tremiam-lhe um pouco. Não era do açúcar.

🍃 🍃 🍃

O jantar chegou, e com ele a conversa foi ficando mais leve. Rafael falou do curso que ia começar em setembro, das aulas de chinês que o pai lhe dera aos sábados até aos dez anos e que ele tinha odiado, do Nuno, que conhecia desde o sétimo ano e que *era a pessoa mais barulhenta do mundo*. Leo riu-se mais do que se lembrava de rir há muito tempo.

A certa altura, Rafael perguntou-lhe pela revista, e Leo contou. Não tudo. Só o que se conta num primeiro jantar.

Depois, já com os pratos quase vazios, Leo pousou o garfo.

— Sabes uma coisa? — disse, mais baixo. — Nunca me importei muito com o que sentiam as pessoas com quem estive. Estava. Ia embora. No dia seguinte já não me lembrava da cara delas. — Olhou para ele. — Contigo não é assim. Contigo preocupo-me com o que pensas. Com o que sentes. Se estás bem. Se estás a gostar. Tu és o mais importante, agora. Não aquilo que eu possa querer.

Rafael ouviu tudo sem se mexer. Depois sorriu. Um sorriso pequeno, que começou num canto da boca e foi crescendo devagar.

Leo viu-o nascer e sentiu uma coisa no peito que não conseguiu pôr em palavras.

— Posso dizer-te uma coisa? — perguntou Rafael.

— Diz.

— Lá fora, ao Raul. — Rafael tentou fazer uma cara séria e não conseguiu. — Disseste que eu era teu amigo.

Leo baixou os olhos para a mesa. E, pela primeira vez naquela noite, foi ele que corou.

— Disse.

— Amigo — repetiu Rafael, a saborear a palavra. — Os teus amigos costumam beijar-te dentro do carro?

— Atrevido.

— Disseste para eu ser eu.

Leo riu-se. Depois deixou de rir. Pegou-lhe na mão por cima da mesa, e ficou a olhar para ela um bocado, antes de levantar os olhos.

— Disse amigo porque ainda não te perguntei nada — disse. — E não ia perguntar-te à frente do Raul, à porta de um restaurante, como quem pede o sal.

Rafael deixou de sorrir. Ficou só a olhar para ele, muito quieto.

— Eu não quero ser só teu amigo, Rafael.

Quando sair o próximo livro, queres saber?

Mais nada. E podes sair da lista quando quiseres.

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