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Capítulo 12 — Um Passo Decisivo

          Leo tentou concentrar-se nas tarefas pendentes, mas a mente fugia-lhe para o passo decisivo que estava prestes a tomar.

— Luísa?

         Luísa estava tão concentrada nos papéis que quase caiu da cadeira quando Leo a chamou. Nem dera pela entrada dele.

— Sr.? Desculpe, não o ouvi chegar!

— Tudo bem. O relatório está pronto?

— Sim, já envie para o e-mail. Deixei alguns documentos na sua secretária para que acho que devia ler e assinar.

— Ok, verei isso. Paraste para comer, Pequena?

         O rubor no rosto de Luísa denunciou a resposta antes mesmo de ela fa-lar.

— Não, Sr….

         Leo suspirou, preocupado.

— Então vai comer.

— Não tenho fome, Sr.

— Vai comer. É uma ordem. Só te quero de volta daqui a uma hora.

         Antes que ela saísse, Leo acrescentou:

— E desmarca a entrevista com a revista. Hoje não tenho cabeça para isso. Remarca para outra altura.

— Certo, Sr. Obrigada e até já.

         De volta à sala, Leo sentiu-se um pouco menos ansioso e conseguiu focar-se no trabalho. Revisou o relatório de Luísa — impecável — e depois tratou de pendências deixadas por Maria. Descobriu documentos atrasados e, pior, sinais claros de que ela o tentara manipular para um casamento por interesse. A mistura de surpresa, desilusão e alívio deixou-o pensativo.

          Passado algum tempo, ouviu um toque suave na porta.

— Entre!

         Luísa entrou, tímida como sempre.

— Sr., a entrevista ficou marcada para a próxima semana.

— Ótimo. Hoje não estou com cabeça para isso. Obrigado.

        Leo sorriu-lhe com sinceridade.

        Depois apontou para outra pilha de papéis.

— Podes tratar destes também. Já li e assinei. Deviam ter seguido há muito.

— Vou tratar disso agora mesmo, Sr.

— Obrigado, Pequena.

         Luísa hesitou antes de falar:

— Sr., eu vou sair mais cedo hoje. Não fique até tarde.

— Certo, obrigada.

         Quando ela saiu, Leo tentou retomar o trabalho, mas a concentração evaporara-se. Decidiu ir para casa descansar um pouco. Antes, porém, passou pela escola para falar com Henrique, como fazia muitas vezes.

        Luísa ficou sozinha, rodeada de papéis e silêncio, determinada a terminar o trabalho.


🍃 🍃 🍃


— Olá… que fazes aqui?— perguntou Henrique, surpreendido com a visita tão cedo.

        Leo ajeitou os papéis na mesa, lançou um olhar rápido ao relógio e depois voltou-se para o amigo. A luz suave do fim de tarde entrava pelas janelas entreabertas.

— Vou sair mais cedo hoje. Se surgir algum imprevisto, trata de resolver, por favor. Prefiro não ser incomodado.

         O sorriso involuntário que lhe iluminava o rosto traía-o. Só de pensar em Rafael, o peito apertava-se.

Henrique cruzou os braços, fingindo seriedade, mas o sorriso maroto denunciava-o.

— Certo… e posso saber o motivo? Ou melhor, não preciso. Tens o nome “Rafael” estampado na cara.

        Leo riu-se.

— Apanhaste-me. Vou jantar com ele.

        Henrique inclinou-se para trás, provocador:

— Só jantar, mesmo? O pobre garoto nem imagina o que o espera!

        Leo inspirou devagar, sereno.

— Só jantar, prometo. Quero que tudo corra bem. Sem pressas.

        A sinceridade na voz dele fez Henrique endireitar-se.

— Leo… estás mesmo a falar a sério? Levas o teu garoto a sério. Isso é novo para mim.

        Leo olhou para a janela, a luz refletida nos vidros a suavizar-lhe a expressão.

— É mesmo só jantar. Quero aproveitar cada instante da companhia dele, conhecê-lo devagar. Vou saber esperar pelo meu garoto. E se ele estiver pronto.

        Henrique ficou em silêncio, absorvendo aquela nova faceta do amigo. A chuva começava a bater nos vidros, preenchendo o espaço entre eles.

       Leo continuou, num tom quase confessional:

— Estou a adorar esta sensação. Ter alguém com quem me preocupar… e gostar disso. Colocar o prazer do outro antes do meu. Dar carinho. Nunca pensei que isso existisse em mim. Mas com ele… surge naturalmente. Quero cuidar dele. Quero que ele aprenda a gostar de mim ao ritmo dele.

        Henrique sorriu, sincero.

— Gosto desse teu novo eu. Lembra-me de agradecer ao Rafael por isso.

       Leo levantou-se, animado.

— Por hoje chega. Falamos amanhã. Não contes comigo esta noite.

— Diverte-te. —disse Henrique, piscando-lhe o olho.

— Vou tentar. Mas só estar com o meu pequeno Anjo já é felicidade suficiente.

        Saiu, ouvindo o riso alto do amigo.


🍃 🍃 🍃


        Leo tomou um banho longo, escolheu calças pretas, camisa branca e sapatos clássicos. Finalizou com o perfume preferido — o toque final do seu ritual de confiança.

        Às 19 horas em ponto, estacionou em frente à elegante vivenda de Rafael, destacada pela fachada clara e pelo jardim meticulosamente cuidado, onde as flores balançavam suavemente ao sabor da brisa do entardecer.

        Leo deixou-se ficar alguns segundos no carro. O peso da expectativa fazia o coração bater mais depressa, e a mente oscilava entre o entusiasmo e o receio de não causar boa impressão.

        Tocou à campainha. E enquanto esperava, percebeu que o coração já não batia de medo. Batia de esperança.


🍃 🍃 🍃


        Às 19 horas em ponto, o som da campainha ecoou pela casa, arrancando Rafael ao turbilhão de ansiedade em que se encontrava. Num impulso, levantou-se e correu até à porta, sentindo o coração bater descompassado, como se cada batida anunciasse o início de algo irrepetível.

— Boa noite, Leo.— disse Rafael, num sorriso nervoso.

— Boa noite. Como está o meu Anjo? Que rostinho de preocupação é esse? Está tudo bem?

        Com carinho, Leo aproximou-se e depositou um beijo delicado na testa de Rafael, gesto que fez o coração do jovem bater ainda mais forte.

— Só estou nervoso…— murmurou Rafael.

— Mas porquê, Anjo?

         Leo levantou a mão e acariciou-lhe o rosto corado com as costas dos dedos. Depois inclinou-se e sussurrou-lhe palavras tranquilizadoras, tentando acalmar-lhe o coração.

         Rafael sorriu, tímido, quando Leo comentou:

— Adoro quando ficas vermelho.

        Mas o nervosismo não desapareceu, e Leo insistiu:

— Queres dizer-me o que se passa?

       Rafael desviou o olhar

— Desculpa teres de vir falar com os meus pais…

         Leo levantou-lhe o queixo com delicadeza.

— Olha para mim, Anjo. Eu não estou aqui obrigado. Estou aqui porque gosto de ti. Porque quero estar contigo e quero que os teus pais saibam. Eles não me conhecem, e tu és muito jovem ainda — é natural que fiquem preocupados.

       A voz dele tornou-se ainda mais sincera:

— Eu podia simplesmente levar-te para a cama e não me preocupar com mais nada. Mas preocupo. E é por isso que estou aqui. Quero que eles saibam que quero algo sério contigo, que tu já és importante para mim, mesmo no pouco tempo que te conheço. Percebido, Anjo?

        Enquanto falava, Leo fazia suaves carícias nas bochechas e no cabelo de Rafael, gestos que o acalmavam sem que ele se apercebesse.

        Sem que dessem conta, os pais de Rafael tinham-se aproximado, atentos à demora. Ouviram as palavras, viram os gestos, e trocaram um olhar silencioso antes de regressarem discretamente ao interior da casa.

        Rafael, mais tranquilo, pegou na mão de Leo e conduziu-o para dentro. Ao entrar, notou o sorriso nos rostos dos pais — algo que lhe pareceu estranho, sensação partilhada por Leo.

— Mãe… pai… este é o Leo. Leo, esta é a minha mãe, Clara, e o meu pai, Wei.

        Leo cumprimentou-os com educação.

— Prazer em conhecê-los.

— Meus filhos, sentem-se um pouco — convidou Clara, com um sorriso acolhedor.

         O que veio a seguir surpreendeu ambos. Clara continuou, com doçura:

— Leo… posso chamá-lo assim, não posso? Afinal, acabei de ganhar mais um filho. Alguém que consegue colocar um sorriso no rosto do nosso menino e o deixa com este ar feliz merece ser tratado como família. E, pelo que vimos agora há pouco, parece-me que ele vai ter o carinho que merece.

         Rafael corou de imediato, mas Leo tomou a palavra:

— D. Clara… Sr. Wei… tudo o que ouviram foi dito de coração. Sei que é cedo, que nos conhecemos há pouco tempo, mas sinto que gosto do vosso filho. Percebo que ele também gosta de mim, mas reconheço que é novo e que tudo isto pode ser apenas uma ilusão — afinal, tudo ainda é novidade para nós. Saberei respeitar o espaço e o tempo dele. Não quero privá-lo de nada. Quero que viva as próprias experiências, siga os seus sonhos, mantenha os amigos e tenha tudo aquilo a que tem direito. Só quero poder fazer parte disso, se ele desejar… e se vocês permitirem.

         As palavras deixaram Rafael sem voz. As lágrimas começaram a escorrer-lhe silenciosamente pelo rosto.

        Leo afagou-lhe a cabeça com carinho.

— Meu Pequeno Anjo… eu disse alguma coisa que não gostasses?

— Eu gosto de ti, sim…— respondeu Rafael, emocionado. — Só não contava com as palavras que disseste.

        Leo aproximou-se mais.

— Tudo o que disse foi sentido e é verdadeiro. Tu já te tornaste alguém muito importante para mim. Sei que mal nos conhecemos, mas não posso ignorar o que sinto.

        O pai de Rafael interveio então, com uma expressão de compreensão:

— Meus filhos… depois do que ouvimos e vimos, têm a nossa bênção. Faça o meu filho feliz. Agora… se o magoar…

        Leo respondeu com firmeza:

— Se eu magoar o Rafael, não será o único a querer a minha morte. Só quero a felicidade dele. Obrigado pela confiança.

        A mãe acrescentou:

— Só não se esqueça de que tudo isto é novo para ele.

— Tenho isso bem presente, D. Clara. Prometo respeitá-lo e dar-lhe tempo— garantiu Leo.

        A mãe sorriu.

— Obrigada, meu filho. Agora vão e divirtam-se. Tem cuidado contigo.

        Leo perguntou:

— O Rafael tem hora para voltar? Se tiver, eu respeito.

        O pai respondeu:

— Só que não passe a noite fora. Para nós, está bem assim.

        Rafael sorriu, emocionado.

— Obrigado, mãe… pai.

         A mãe acrescentou:

— Estás em idade de viver as tuas paixões. Quem escolhes para estar ao teu lado é decisão tua. O nosso papel é apoiar-te.

         Leo levantou-se e ajudou Rafael a erguer-se, entrelaçando os dedos com os dele.

— D. Clara, Sr. Wei… prometo cuidar bem do vosso menino. Só quero vê-lo feliz.

        O pai observou-os com orgulho. Rafael apertou a mão de Leo, recebendo o mesmo aperto afetuoso.

        O ambiente suavizou-se.

        Antes de saírem, Rafael voltou-se para os pais:

— Mãe… Pai… obrigado. Amo-vos muito.

— Nós também te amamos, meu querido — respondeu a mãe.

       O pai abraçou-o com força.

        De mãos dadas, saíram para a noite.

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