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12 – Um Passo Decisivo

Às três da tarde, Leo já tinha lido o mesmo contrato duas vezes e não era capaz de dizer o que lá estava.

Pousou a caneta. Olhou para o relógio. Faltavam quatro horas.

Quatro horas, pensou, e estás assim.

Pela parede de vidro fosco via a sombra da Luísa, curvada sobre a secretária, imóvel. Não se tinha levantado desde que ele voltara do almoço. Leo abriu a porta.

— Luísa.

Ela deu um salto na cadeira, tão grande que uma pilha de folhas deslizou para o chão.

— Sr. Leo! Desculpe, não o ouvi.

— Não faz mal. — Esperou que ela apanhasse as folhas. Em cima da secretária, ao lado do teclado, havia um iogurte fechado e uma colher de plástico ainda no papel. — Já almoçou?

Ela olhou para o iogurte. Depois para ele. As orelhas ficaram vermelhas antes da resposta.

— Ainda não tive tempo.

— São três da tarde.

— Eu como isto daqui a bocadinho. Não tenho muita fome, Sr. Leo, a sério.

Leo ficou um momento a olhar para ela. Para a maneira como puxou a blusa para baixo quando percebeu que ele estava a olhar, sem dar por isso, como quem se tapa.

— Desça ao bar — disse. — Peça uma sandes e uma fatia do bolo de laranja. Diga que é por minha conta. E só a quero cá em cima daqui a meia hora.

— Sr. Leo, não é preciso…

— Não é pedido.

Ela abriu a boca para responder e fechou-a outra vez. Pegou no casaco.

— E, Luísa. — Ela parou à porta. — A entrevista das cinco e meia, com a revista espanhola. Desmarque-a, por favor, e passe-a para a semana que vem. Hoje não tenho cabeça para isso.

— Trato disso já, antes de descer.

Quando a porta de vidro se fechou, Leo voltou para a secretária e, pela primeira vez naquele dia, conseguiu ler um documento até ao fim. O resumo da Luísa. Duas páginas. Não havia nada para corrigir.

Passada meia hora, bateram à porta.

— Entre.

A Luísa entrou com um guardanapo de papel ainda na mão, que tentou esconder atrás das costas.

— A entrevista ficou para terça-feira que vem, às onze. Já está na agenda.

— Obrigado. — Apontou para uma pasta na ponta da mesa. — Isto já está assinado. Pode mandar seguir. Devia ter saído há um mês.

Ela pegou na pasta e ficou parada, a apertá-la contra o peito, como fazia com o bloco de notas.

— Sr. Leo, eu hoje tenho de sair às cinco. Eu avisei ontem.

— Eu sei. Vá à vontade.

Ela hesitou. Depois disse, muito depressa, como quem atravessa uma rua sem olhar:

— E o senhor não fique cá até tarde.

Leo quase se riu.

— Hoje não fico, Luísa. Prometo.

Ela saiu. Leo ficou a olhar para a porta durante um bocado, com uma coisa quente no peito que não sabia bem de onde vinha. Havia muito tempo que ninguém naquele andar se preocupava com a hora a que ele saía.

🍃 🍃 🍃

O salão dos castings, no primeiro andar, estava vazio. As cadeiras encostadas à parede, o chão ainda marcado pelos passos de quem tinha desfilado de manhã. Ao fundo, Henrique mostrava a uma rapariga muito alta, de ténis e rabo-de-cavalo, como é que se dava a volta no fim da passadeira sem perder o queixo.

— Outra vez. Não olhes para os pés. Os pés sabem onde estão.

A rapariga deu a volta outra vez. Henrique acenou, satisfeito, e mandou-a embora. Só depois reparou em Leo, encostado à porta.

— Olha quem é. — Cruzou os braços. — Às quatro da tarde, no meu andar. O que é que se passa? Morreu alguém?

— Vou sair mais cedo. Se houver algum problema lá em cima, resolve tu. Não me liguem.

Henrique ficou a olhar para ele. Leo tentou manter a cara séria e não conseguiu. Sentiu o sorriso a fugir-lhe pelos cantos da boca, como um miúdo apanhado com a mão no frasco.

— Não precisas de dizer nada — disse Henrique. — Tens o nome dele escrito na testa. Em letras grandes.

— Vou jantar com ele.

— Só jantar?

— Só jantar.

Henrique levantou uma sobrancelha. Leo sustentou-lhe o olhar.

— Primeiro — disse — vou a casa dele. Conhecer os pais.

Henrique descruzou os braços.

— Os pais.

— Os pais.

— Tu. — Henrique apontou para ele, depois para o chão, como se precisasse de confirmar onde estava. — Leo Mattos. Que em trinta e dois anos nunca conheceu os pais de ninguém. Nem os da Beatriz, e tu ias casar com ela.

— Ia.

Leo esperou que o nome doesse. Não há muito tempo, aquele nome ainda lhe fechava a garganta. Agora era só um nome.

— Ele nunca mentiu aos pais, Henrique. Nunca. Nem sobre coisas pequenas. — Leo encolheu os ombros. — Não vou ser eu a ensiná-lo.

Henrique ficou calado. Sentou-se numa das cadeiras encostadas à parede e fez-lhe sinal para se sentar ao lado. Leo sentou-se.

— Quantos anos disseste que ele tinha?

— Dezoito.

— E tu trinta e dois. — Não era uma acusação. Era só uma conta. — Vais dizer-lhes?

— Se perguntarem, digo.

— Vão perguntar.

— Então digo.

Henrique abanou a cabeça devagar, e Leo percebeu que ele estava a sorrir.

— E o resto? — perguntou Henrique, mais baixo. — O Refúgio. Aquilo que tu és lá dentro.

Leo olhou para as mãos.

— Ele não precisa de saber disso agora. — Fez uma pausa. — Não sei se precisa de saber alguma vez, Henrique. Não é isso que eu quero dele.

— E o que é que queres dele?

Leo pensou antes de responder. Lá fora, alguém ria no corredor. Uma porta bateu.

— Quero cuidar dele — disse, por fim. — Ter alguém com quem me preocupe e gostar de me preocupar. Nunca pensei que isso existisse em mim. Com ele aparece sozinho. Quero que ele goste de mim ao ritmo dele. Nem mais depressa, nem mais devagar.

Henrique não disse nada durante um bocado. Depois pôs-lhe a mão no ombro e deixou-a lá.

— Gosto deste teu novo eu — disse. — Lembra-me de agradecer ao rapaz.

Leo levantou-se.

— Não contes comigo esta noite. No Refúgio.

— Não contava. — Henrique piscou-lhe o olho. — Diverte-te.

— Vou tentar.

Já estava à porta quando o ouviu rir, alto, sozinho no salão vazio.

🍃 🍃 🍃

A vivenda estava em silêncio quando chegou.

Tomou um duche comprido. Fez a barba outra vez, embora não precisasse. Abriu o roupeiro e tirou o fato cinzento, porque era o que vestia quando precisava de parecer inteiro, e ficou a olhar para ele pendurado na porta.

Depois voltou a guardá-lo.

Não era dia de parecer inteiro. Era dia de parecer ele.

Vestiu umas calças pretas e uma camisa branca, arregaçou as mangas até meio do braço e desfez o que tinha feito. Voltou a arregaçá-las. Pôs o relógio do pai. Tirou-o. Pô-lo outra vez.

Trinta e dois anos, pensou, a olhar para o espelho. E estás a mudar de ideias sobre umas mangas.

Pelo caminho, parou numa pastelaria. Entrou decidido, apontou para uma caixa de bombons na montra e, quando a empregada já a estava a embrulhar, lembrou-se.

— Desculpe. Afinal não.

A empregada olhou para ele como se ele fosse maluco. Leo pediu desculpa outra vez e saiu. Duas ruas abaixo havia uma florista. Escolheu um ramo pequeno, sem exageros, flores do campo atadas com ráfia, e escreveu no cartão, com a letra mais direita que conseguiu: Para a D. Clara. Obrigado por me receber. Leo.

Às sete menos cinco, estava parado em frente ao portão verde.

A rua era a mesma da véspera. Os mesmos muros baixos, as mesmas laranjeiras, o mesmo silêncio de bairro onde toda a gente se conhece. Mas ontem ele só tinha vindo deixar um rapaz à porta. Hoje ia entrar.

Desligou o motor e ficou uns segundos com as mãos no volante.

Tinha fechado contratos com casas de Milão e de Paris sem que o coração lhe mudasse de ritmo. Tinha dito que não a homens que valiam dez vezes a revista dele. E agora estava ali, parado à porta de uma casa onde nunca tinha entrado, com medo de um senhor reformado que nunca tinha visto na vida.

Pegou nas flores. Saiu do carro.

Tocou à campainha e, enquanto esperava, percebeu que o coração já não lhe batia de medo. Batia de outra coisa, que não tinha nome, ou que tinha e ele ainda não se atrevia a dizer.

🍃 🍃 🍃

Foi Rafael quem abriu a porta.

Estava de calças de ganga pretas e camisa branca, com o cabelo louro ainda húmido nas pontas, e a cara de quem não respirava há vários minutos. Olhou para Leo. Olhou para a roupa de Leo. Olhou para a própria roupa.

— Parecemos combinados — disse, e riu-se, um riso nervoso que lhe saiu pelo nariz.

— Parecemos. — Leo sorriu. — Boa noite, anjo.

— Boa noite, Leo.

Leo inclinou-se e deu-lhe um beijo na testa. Sentiu-o fechar os olhos.

— Que cara é essa?

— Nenhuma.

— Rafael.

O rapaz baixou os olhos para as flores, para os sapatos de Leo, para o tapete da entrada.

— Desculpa — disse, muito baixo. — Teres de vir cá. Teres de falar com eles. Deves achar isto tudo uma infantilidade.

Leo mudou as flores de mão e, com a que ficou livre, levantou-lhe o queixo. Devagar. Esperou que ele olhasse.

— Olha para mim. Eu não estou aqui obrigado. Estou aqui porque quero. — Passou-lhe as costas dos dedos pela cara, que já estava vermelha. — Eu podia ter-te levado a jantar sem pôr um pé nesta casa. Ninguém ficava a saber. Mas não é isso que eu quero. Quero que os teus pais saibam quem eu sou. Quero que saibam que isto é a sério. Tu és muito novo, eles não me conhecem, e é normal que tenham medo. Eu no lugar deles também tinha.

Rafael não disse nada. Leo continuou a passar-lhe os dedos pela cara, pelo cabelo atrás da orelha, muito devagar, e sentiu-o acalmar-se por baixo da mão sem que ele desse por isso.

— Percebeste, anjo?

— Percebi.

— E adoro quando ficas vermelho. Só para saberes.

Rafael deu uma gargalhada curta, meio estrangulada, e escondeu a cara no ombro dele durante um segundo. Um segundo só. Depois endireitou-se, pegou-lhe na mão e puxou-o para dentro.

Nenhum dos dois viu, ao fundo do corredor, a porta da cozinha a fechar-se muito devagar.

🍃 🍃 🍃

A sala era pequena e cheia de coisas. Livros até ao teto, um tabuleiro de xadrez numa mesa baixa com um jogo a meio, fotografias de três rapazes em várias idades a subir pelas paredes. Cheirava a comida e a flores de laranjeira.

Os pais de Rafael estavam de pé, lado a lado, no meio da sala. Leo reparou que estavam os dois a sorrir. Não era o sorriso que esperava. Não era educado, nem desconfiado. Era outra coisa, mais parecida com alívio. Rafael também reparou, porque lhe apertou os dedos como quem pergunta o que é que se passa?

— Mãe, pai. Este é o Leo. — A voz saiu-lhe mais fina do que queria. — Leo, esta é a minha mãe, Clara. E o meu pai, Wei.

— Muito prazer. — Leo estendeu as flores à mãe. — São para si, D. Clara.

Ela pegou no ramo, leu o cartão, e olhou para ele por cima das flores durante um bocado.

— Obrigada, Leo. Sentem-se, por favor.

Wei apertou-lhe a mão. Tinha a mão seca e firme, e não a largou logo. Olhou-o por trás dos óculos como Leo imaginou que olhava para um tabuleiro de xadrez: sem pressa, a ver três jogadas à frente.

Sentaram-se. Rafael no sofá, ao lado de Leo, tão perto que os joelhos se tocavam. Os pais nas duas poltronas em frente. A D. Clara com as flores ao colo.

Houve um silêncio. Daqueles que ninguém sabe quem deve partir.

Foi a mãe.

— Como é que se conheceram?

Rafael olhou para Leo. Leo percebeu, pela cara dele, que aquela era a pergunta que ele temia. E percebeu também porquê: se o rapaz tivesse contado tudo em casa, a mãe não teria perguntado assim, com aquela calma.

Leo podia ter dito no casting e parado aí. Não parou.

— No casting de ontem. — Olhou para a D. Clara, depois para o Sr. Wei. — O Rafael sentiu-se mal a meio. Caiu. Eu estava lá e levei-o para a sala de descanso. O enfermeiro da escola deu-lhe uma injeção de glucagon. O medidor marcava quarenta e um.

A D. Clara pousou as flores no braço da poltrona.

— Quarenta e um — repetiu.

Olhou para o filho. Rafael estava da cor da almofada vermelha do sofá.

— Uma quebra pequena — disse ela, muito devagar. — Foi o que tu disseste.

— Eu não menti, mãe. — A voz dele tremeu. — Só não disse tudo. Não queria que ficassem assustados. Já tinha passado.

A mãe fechou os olhos um segundo. O pai não disse nada, mas Leo viu-lhe a mão fechar-se em cima do joelho.

— Ele estava com medo de vos assustar — disse Leo, com cuidado. — E eu assustei-me por todos, se isso serve de alguma coisa. — Fez uma pausa. — Desde ontem já li tudo o que encontrei sobre hipoglicemias. Sei onde é que ele traz o estojo. Sei o que é a caixinha laranja. Sei o que fazer se ele cair outra vez. E ele hoje vai jantar à hora certa, isso garanto-lhe.

A D. Clara ficou a olhar para ele muito tempo. Depois olhou para o filho, e depois outra vez para Leo, e Leo viu-lhe os olhos mudarem. Não sabia bem para quê.

— Obrigada — disse ela. — Por ter estado lá. E por me ter contado.

Wei tirou os óculos, limpou-os à camisa com uma calma exagerada, e voltou a pô-los.

— Que idade tem, Leo?

Rafael deixou de respirar ao lado dele. Leo sentiu-o.

— Trinta e dois anos, Sr. Wei.

O pai não disse nada durante um bocado.

— Catorze anos — disse, por fim.

— Catorze.

— O Rafael disse-nos que era um bocadinho mais velho.

— Um bocadinho é generoso — disse Leo. — Ele é que é generoso.

A D. Clara fez um som que podia ter sido um riso engolido. Wei não riu. Mas uma coisa qualquer mexeu-se-lhe no canto da boca e desapareceu logo a seguir.

— E o que é que faz?

— Tenho uma revista. A L&L.

— A L&L. — A D. Clara endireitou-se na poltrona. — Leio-a no cabeleireiro. — Depois percebeu. — O casting era seu.

— O casting era da escola, que é de um amigo meu. O edifício é meu, sim. — Leo não desviou os olhos. — O Rafael desistiu antes de eu saber como ele se chamava. E se um dia quiser voltar, a isso ou a outra coisa qualquer lá dentro, entra pelo trabalho dele. Não por mim. Isso é uma promessa que lhe faço a ele e que lhes faço a vocês.

Wei ficou a olhar para ele. Três jogadas à frente.

— Porque é que veio cá, Leo? — perguntou. — Podia ter ido buscá-lo à esquina. Ele tem dezoito anos. Não precisava de nós.

Leo pensou antes de responder. Sentiu a mão de Rafael, pousada no sofá entre os dois, encostar-se à dele.

— Porque sei que é cedo — disse. — Conhecemo-nos ontem, e não sei o que isto vai ser. Sei que gosto do vosso filho. Acho que ele gosta de mim. Mas ele é novo, e tudo isto é novo para ele, e pode ser que daqui a uns meses descubra que não era bem isto que queria. Se for assim, eu vou saber aceitar. — Olhou para Rafael, que tinha os olhos presos nele. — Não lhe quero tirar nada. Quero que vá para a faculdade em setembro, que tenha os amigos dele, que faça asneiras da idade dele e viva o que tem para viver. Só gostava de fazer parte disso. Se ele quiser. E se vocês deixarem.

Ninguém disse nada.

Leo sentiu um movimento ao lado e olhou. Rafael estava a chorar. Sem barulho, com a cara muito quieta, as lágrimas a descerem sozinhas.

— Anjo. — Pôs-lhe a mão na cabeça, sem pensar, à frente dos pais. — Disse alguma coisa que não devia?

Rafael abanou a cabeça.

— Não. — Limpou a cara com as costas da mão, envergonhado. — Só não estava à espera. Que dissesses isso tudo. Assim. Aqui.

— Disse porque é verdade.

A D. Clara olhou para o marido. O marido olhou para ela. Um daqueles olhares, pensou Leo, que só existem entre pessoas que estão casadas há trinta anos e já não precisam de falar.

— Ouvimos o que disse lá fora — confessou ela, por fim. — À porta. Não era para ouvir. Mas ouvimos.

Rafael escondeu a cara nas mãos.

— Mãe…

— Deixa-me falar, filho. — Voltou-se para Leo. — Tínhamos medo. Ainda temos. É o nosso filho mais novo, e tem uma doença que o pode deitar abaixo a meio de uma rua, e nunca teve ninguém. E de repente aparece um homem de trinta e dois anos com uma revista. — Parou. — Mas depois vi a maneira como lhe levantou a cara para ele olhar para si. E vi-o acalmar-se. O Rafael não deixa ninguém mexer-lhe no cabelo desde os seis anos, sabia?

— Não sabia — disse Leo, baixinho.

Ela sorriu, com os olhos molhados.

— Pois. Agora sabe.

Wei pigarreou. Todos olharam para ele.

— Faça o meu filho feliz — disse. — E se o magoar…

Não acabou a frase. Não precisava.

— Não precisa de acabar, Sr. Wei. — Leo aguentou-lhe o olhar. — Se eu o magoar, vai ter de se pôr na fila. E eu serei o primeiro dela.

O pai ficou a pensar naquilo. Depois acenou, uma vez, curto. Leo teve a sensação estranha de ter ganho uma peça importante sem saber qual.

— A que horas quer que ele esteja em casa? — perguntou.

Wei olhou para o relógio da parede.

— Meia-noite.

— Às onze e meia está cá.

Desta vez, o pai sorriu mesmo. Pouco. Mas sorriu.

— Clara — disse a mãe, e Leo olhou para ela sem perceber. — Trate-me por Clara. O *Dona* faz-me sentir velha. E já me chega ter três filhos crescidos para isso.

🍃 🍃 🍃

À porta, Rafael abraçou a mãe. Depois o pai, que o apertou com força e lhe disse qualquer coisa ao ouvido que Leo não ouviu.

— Amo-vos — disse Rafael, com a voz a falhar.

— Nós também, meu menino. — A mãe arranjou-lhe o colarinho da camisa. — Vai. Come tudo.

Leo sorriu. Era a mesma coisa que ele lhe tinha dito ao telefone.

Já estavam no caminho do jardim quando o Sr. Wei os chamou. Leo voltou-se. O pai de Rafael estava à porta, com a luz da entrada por trás, e disse uma frase em chinês, devagar, virado para Leo, como dizia sempre as coisas que queria que ficassem:

— 他是我们的宝贝.

E fechou a porta.

Leo ficou parado no meio do jardim, com as laranjeiras à volta, a olhar para a porta fechada. Depois olhou para Rafael, que estava vermelho até às orelhas.

— O que é que ele disse?

— Nada.

— Rafael.

— Depois digo-te. — Puxou-o pela mão até ao portão. — Um dia. Talvez.

Leo abriu-lhe a porta do carro. Rafael entrou, e desta vez não ficou a olhar para as mãos. Ficou a olhar para ele.

🍃 🍃 🍃

Na sala, a D. Clara estava à janela, por trás da cortina, a ver o Mercedes afastar-se rua abaixo. O marido veio pôr-se ao lado dela e pousou-lhe a mão no ombro.

— Achas que ele percebeu? — perguntou ela.

— Não. Mas o Rafael percebeu. — Wei tirou os óculos e esfregou os olhos. — Chega.

Ficaram os dois ali, calados, até as luzes do carro desaparecerem ao fundo da rua.

— Trouxe flores — disse ela, por fim. — Com um cartão com o nome dele.

— Eu vi.

— E ele deixou-o mexer-lhe no cabelo.

Wei pôs os óculos outra vez e olhou para o tabuleiro de xadrez na mesa baixa, com o jogo a meio.

— Trinta e dois anos — disse, e suspirou. — Mas ao menos não mentiu.

Quando sair o próximo livro, queres saber?

Mais nada. E podes sair da lista quando quiseres.

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