top of page

Capítulo 11 — À Espera da Mensagem

         Luísa concluiu o relatório com um sorriso de satisfação e, dirigiu-se ao gabinete de Leo, ansiosa por perceber qual seria a reação dele.

       Leo tentava concentrar-se nos e-mails e relatórios, mas a mente insistia em fugir, sempre a regressar a Rafael, à resposta que esperava, ao que aquele dia ainda podia trazer.

       Uma batida na porta arrancou-o desse estado.

— Entre.

        Luísa entrou com cuidado, os papéis junto ao peito como um escudo. Os ombros tensos, a respiração acelerada — tudo nela denunciava o nervosismo.

        Aproximou-se e estendeu os documentos. Leo recebeu-os com calma, pousou-os sobre a mesa e olhou-a nos olhos, encorajando-a. Depois começou a folhear as páginas, e um sorriso lento desenhou-se-lhe no rosto.

        Ao ver o sorriso, Luísa relaxou um pouco. O peso nos ombros aliviou.

— Muito bem, Pequena. Muito bom mesmo. Apanhaste os pontos essenciais e passaste-os para o papel com clareza. Os meus parabéns. O que fizeste não está ao alcance de muitos.

        Luísa corou. Sentiu orgulho — um orgulho que não estava habituada a sentir.

        Leo devolveu-lhe um sorriso breve, inclinando-se para a frente, partilhando a satisfação daquele momento.

— Obrigada, senhor— murmurou ela, tentando controlar a respiração.

       Leo recostou-se na cadeira, cruzando os dedos sobre o peito num gesto descontraído.

— Podes terminar e enviar para o meu e-mail. Eu trato do resto.

        Luísa assentiu e saiu do gabinete.


🍃 🍃 🍃


       O relógio avançava devagar, a rotina instalava-se… até que, perto da hora de almoço, tudo mudou.

       Uma jovem de beleza impressionante entrou no edifício. Cabelos louros longos, olhar escuro, traços suaves, corpo delineado — impossível passar despercebida. Caminhou com determinação, ignorando protocolos e sem se anunciar.

        Luísa apercebeu-se da presença dela e apressou-se a interceder, correndo atrás pelos corredores.  Mas chegou tarde demais.

        Leo levantou os olhos quando a porta se abriu de rompante. A jovem entrou com confiança, seguida de uma Luísa aflita e sem fôlego.

— Srta… não pode entrar assim! Sr.… desculpe a menina… — balbuciou Luísa, tentando bloquear a passagem.

        Leo reconheceu-a de imediato e sorriu, divertido com o esforço de Luísa.

        A jovem ignorou o embaraço e dirigiu-se a Leo com naturalidade:

— Tio, desde quando é que eu tenho de me anunciar? A Maria? E quem é esta?

         Leo fez-lhe um sinal tranquilizador.

— A Maria foi despedida. Esta é a Luísa, a minha nova secretária. Ainda não se conhecem.

        Luísa corou.

— Desculpe-me, senhorita. Não volta a acontecer.

        Saiu do gabinete. O corredor pareceu-lhe maior, mais silencioso. O som das vozes deles misturava-se com o burburinho do escritório. Sentia-se deslocada, ainda a recuperar do embaraço.


🍃 🍃 🍃


        Amélia abraçou o tio.

— Boa tarde, tio. A secretária nova agradou-me. É muito diferente das outras que já tiveste. Especialmente daquela Maria, de quem nunca gostei.

       Leo sorriu. Amélia continuou:

— Mas afinal, o que aconteceu à Maria? Esta nova secretária é mesmo diferente.

— Boa tarde, Furacão. Consegues adivinhar? Mais uma vez alguém tentou o famoso “golpe da barriga”. Não resultou. Despedi-a. Decidi procurar alguém realmente interessada em trabalhar, sem segundas intenções.

       Amélia riu-se.

— Tio Leo… o senhor não consegue passar muito tempo sem arranjar confusão. Sempre a meter-se em sarilhos.

          Leo deu-lhe uma palmada carinhosa na testa.

— Olha como falas comigo, mocinha. Sou teu tio, mais respeito.

— Não lhe faltei ao respeito. Só disse o que toda a gente pensa. E olhe… acho que finalmente encontrou uma secretária decente. Gostei dela. Não a deixe escapar.

        Leo sorriu, consciente de que toda a família conhecia bem as suas peripécias sentimentais.

— O azar persegue-me. —brincou, lançando olhares frequentes ao telemóvel.

— Vamos almoçar. Quero saber porque tenho a honra da tua companhia — disse ele, tentando disfarçar o nervosismo.

         Amélia abraçou-o com fingida inocência.

— Tio, porque tenho de ter um motivo? Não posso simplesmente vir almoçar com o meu tio favorito?

— Pronto, agora sim, sei que estou tramado — riu Leo.

        Saíram juntos, passando por Luísa, que os observou discretamente. Depois, dirigiram-se ao restaurante habitual.

         Sentaram-se frente a frente. Leo colocou o telemóvel em cima da mesa — algo que nunca fazia.   Amélia reparou imediatamente.

— Tio, está tudo bem? Que tanto olha para o telemóvel?

        Leo tentou disfarçar, mas o sorriso denunciou-o.

— Estou à espera de um SMS ou telefonema importante. Pode mudar a vida do teu velho tio.

— Agora deixaste-me curiosa. É paixão nova?

        Leo riu-se, mas não respondeu. O empregado aproximou-se para recolher os pedidos, e Leo aproveitou para encerrar o assunto:

— Se tudo correr bem, em breve vais saber.

        Quando o empregado se afastou, Leo inclinou-se para a sobrinha.

— Mas conta lá, princesa. O que te traz aqui hoje? Há sempre um motivo.

       Amélia brincou com a colher.

— Há sim. Os pais querem oferecer um carro ao Nuno nos anos e queriam saber se o tio está disposto a pagar-lhe a carta.

        Leo ergueu as sobrancelhas.

— E porque não me falaram eles?

— Porque a ideia foi minha. Achei que devia ser eu a pedir.

       Leo riu-se, divertido.

— E tu, o que vais oferecer ao teu irmão?

— Uma semana na Madeira para duas pessoas. Ele pode escolher a companhia.

— O Nuno tem namorada e não me disse nada?

— Que eu saiba, não…, mas nunca se sabe.

       Leo acenou, já rendido.

— Está combinado, eu ofereço-lhe a carta. E tu, princesa, já sabes o que queres receber?

       Amélia hesitou, olhando para a toalha.

— Se o tio me pagar a carta também, junto o dinheiro para a viagem dos meus sonhos.

— E onde é essa viagem?

— Um safári na Tanzânia.

        Leo sorriu e tocou-lhe na mão.

— Vais ter de juntar bastante, mas eu pago-te a carta. Prometido.

       Amélia sorriu, agradecida, e o ambiente ficou mais leve, cheio daquela cumplicidade natural entre os dois.

       O almoço decorreu entre risos e provocações, mas Leo mantinha o olhar preso ao telemóvel.

       A certa altura, Amélia interrompeu-se a meio de uma frase ao ver Leo agarrar o telemóvel com um gesto súbito, quase nervoso. Os olhos dela brilharam de curiosidade.

— Tio, finalmente chegou o que tanto esperava? — perguntou, com um sorriso maroto, inclinando-se ligeiramente para espreitar o ecrã.

      Leo sentiu o coração acelerar. Por um instante, hesitou antes de desbloquear o telemóvel, como se quisesse prolongar aquele segundo de esperança.

         “Será que é ele? Será que finalmente vou saber?”

         As mãos tremiam-lhe levemente.

        Respirou fundo, reuniu coragem… e abriu a mensagem

📩 — Boa tarde. Posso ligar?

        Leo sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha ao ver o nome de Rafael no ecrã. O peito apertou-se, as mãos suaram. Por um instante, hesitou — e se não fosse a resposta que esperava?

        Do outro lado da mesa, Amélia largou o talher, atenta ao menor movimento do tio. O sorriso de Leo surgiu de repente, largo e quase infantil, contrastando com a ansiedade que lhe apertava o peito.

📞 — “Boa tarde, meu Anjo! Como estás?”

        A voz de Leo soava descontraída, mas a ansiedade traía-lhe o tom.

📞 — [Estou bem, espero não estar a atrapalhar?]

        A voz de Rafael tremia, denunciando o nervosismo.

        Leo sorriu, tentando acalmá-lo.

📞 — “Anjo, tu nunca me atrapalhas! Está tudo bem mesmo? Pareces nervoso! Foram os teus pais?

📞 — [Não, eles deixaram, mas…]

📞 — “Então por que essa voz estranha? Se eles deixaram, devias estar feliz.”

📞 — [Estou, mas nervoso, só isso! Eles querem falar contigo. Tudo bem por ti?]

         Leo inspirou devagar, sentindo o peso da responsabilidade.

📞 — “Mas é claro que está tudo bem. Vou buscar-te às 19h e falo com eles na altura. Não te quero nervoso.”

📞 — [Eu vou ficar bem. Tudo isto é novo para mim, só isso.]

📞 — “Eu sei, meu Anjo, eu sei. Vamos com calma. Só nos vamos conhecer melhor, nada mais. Meu garotinho…”

         Amélia arregalou os olhos, surpresa ao perceber que era um rapaz quem fazia o tio sorrir daquela maneira. A descoberta deixou-a ainda mais atenta.

📞 — [Certo, eu vou ficar calmo. Não atrapalho mais, deves estar ocupado!]

📞 — “Para ti nunca estarei ocupado. Nunca.

📞 — [Então às 19h estarei à espera.]

📞 — “Já me estás a despachar?”

📞 — [Nada disso… a mãe está a chamar-me para almoçar. Falamos logo!]

📞 — “Ok… vai lá. Até logo, garoto.”

📞 — [Anjo…]

         O sussurro tímido de Rafael aqueceu o coração de Leo.

📞 — “Meu pequeno Anjo… até já.”

         Ambos desligaram com sorrisos nos rostos, sentindo-se próximos apesar da distância.

— Tio, a sua felicidade tem um nome. Nunca o vi assim. Está apaixonado, não está?

        Leo sorriu, mas manteve-se reservado.

— Tem um nome, sim. Mas por agora prefiro manter em segredo. É tudo muito recente. Ele é jovem, e não sei ao certo o que sente por mim. Sei que gosto dele, mas não me quero precipitar. Não com ele. Quero conhecê-lo melhor… e que ele me conheça também. Para ele, tudo isto é novidade.

         Amélia cruzou os braços.

— É um rapaz, certo? Que idade tem?

        Leo suspirou.

— Tem dezoito. Acabou de fazer. Por isso te disse que vou devagar. Quero que ele tenha tempo para saber o que sente. Tempo para escolher.

— Convencido! Está apaixonado. Quero conhecer esse rapaz que o faz sorrir assim… e o faz pensar em mudar.

        Leo riu-se, leve como há muito não se sentia.


🍃 🍃 🍃


       Em casa, Rafael desceu para almoçar, o sorriso ainda estampado no rosto. A mãe reparou logo:

— Esse sorriso… não te vejo assim há muito tempo. Foi esse rapaz?

— Foi.— Rafael respondeu, sem conseguir disfarçar a felicidade. — Mas mãe… ele já é um homem, um pouco mais velho do que eu.

        O pai interveio, compreensivo:

— Se ele te faz feliz —e ao que parece faz — isso para nós é o suficiente. Mas ele vem falar connosco?

— Sim! Ele vem buscar-me às 19h e vai falar convosco.

— Ótimo! Agora vamos comer antes que a comida fique fria.

        Rafael sentia-se profundamente feliz e grato pelos pais que tinha. Pela primeira vez, sentia que podia ser ele próprio, sem medo.


🍃 🍃 🍃


        Mas a ansiedade começava a instalar-se em Leo. O pensamento de ir falar com os pais de Rafael fazia-lhe o coração acelerar — agora não de alegria, mas de receio.

        E se não fosse aceite? E se vissem apenas a diferença de idade, e não o que ele sentia de verdade?

       Amélia, sentada à sua frente, observava-o em silêncio. Reparou como o sorriso do tio vacilava por momentos, como o olhar se perdia, inquieto, entre a esperança e o receio. Viu-lhe o brilho nos olhos, mas também a sombra breve da dúvida.

       O almoço terminou envolto em risos e cumplicidade, mas Leo sentia-se inquieto. Enquanto pagava a conta, notava o olhar perspicaz da sobrinha, sempre pronta a adivinhar-lhe os segredos. À porta do restaurante, Amélia abraçou-o com força.

Vais mesmo contar-me quem é? — sussurrou, divertida.

         Leo sorriu, desviando o olhar para o céu cinzento.

— Um dia destes, prometo.

        Despediram-se com um aceno cúmplice. Leo viu-a afastar-se, sentindo uma estranha mistura de leveza e ansiedade. O caminho de regresso ao escritório pareceu-lhe mais longo do que nunca.

        Às 19h. Era só isso que existia agora. Às 19h ia buscá-lo. E o resto… o resto podia esperar.


🍃 🍃 🍃


         Deitado na cama, o olhar perdido no teto, Rafael sentia-se feliz. Agradecia aos céus pelos pais que tinha — compreensivos, amorosos, sempre desejosos da felicidade dos filhos. Com o coração mais leve, pensava no que poderia oferecer ao Nuno e à Amélia. O que dar a alguém que já tem tudo?

        De repente, um sorriso iluminou-lhe o rosto.

        “Porque não? Se eles me aceitaram, porque não aceitariam também o Luís? E eles merecem!”

        Porque não dar um empurrãozinho à natureza? Ele conhecia segredos, guardava-os; não os podia revelar, mas podia ajudar a que se revelassem.

       Pegou no telefone e marcou o número do Luís.

        Ele seria a prenda de anos do Nuno.

📞 — [Rafael, bom dia! Estás a ligar-me tão cedo. Aconteceu alguma coisa?] — perguntou Luís, preocupado.   Era raro receber chamadas tão cedo do irmão.

📞 — “Bom dia, Luís! Adivinha só… hoje vou jantar fora!” — disse Rafael, num tom descontraído, tentando disfarçar o nervosismo.

📞 — [E desde quando isso é novidade? Vais jantar com o Nuno?]

📞 — “Achavas mesmo que seria novidade se fosse com ele?” — provocou Rafael, sorrindo.

📞 — [Então há uma rapariga no meio disto?] — Luís riu-se do outro lado.

📞 — “Não, não é uma menina… é um homem.” — confessou Rafael, sentindo o coração acelerar.

📞 — [Um homem…? Tu vais sair com um homem? Rafael, tu gostas de homens? E os pais? Como reagiram?]

📞 — “Tantas perguntas, mano! Sim, é um homem. E sim, gosto dele. Não sei se gosto de homens no geral, mas gosto dele. E os pais aceitaram muito bem — só querem que sejamos felizes. É por isso que te liguei.”

         O coração de Luís disparou. Uma mistura de surpresa, alívio e medo percorreu-o. Ficou em silêncio, tentando perceber o verdadeiro motivo daquela conversa.

📞 — [Espera… o que é que eu tenho a ver com isso?]

📞 — “Se os pais me aceitaram, também te aceitavam.”

         Do outro lado, Luís sentiu o coração apertar.

📞 — [Tu sabes que eu sou…]

📞 — “Gay. Sei, sim. E sei perfeitamente de quem tu gostas. Por isso, venho fazer-te um convite: vens comigo ao jantar de anos do Nuno?”

📞 — [Como é que sabes que eu gosto do Nuno…? Bem, não respondas. Se sabes que sou gay, não é difícil perceberes de quem gosto. Mas eu nem fui convidado. E se ele não gostar de mim?]

       Rafael soltou uma gargalhada.

📞 — “És mais tolo do que eu pensava! Tu vais ser a prenda de anos do Nuno.”

📞 — “O teu amigo não gosta de mim… e eu não sou uma menina.” — protestou Luís, hesitante.

📞 — “Pois não és. Mas alguma vez viste o Nuno sair com alguma menina?”

          Luís ficou em silêncio, a recordar.

📞 — “Agora que penso nisso… realmente não.”

📞 — “E nunca te perguntaste porquê, seu tonto? O Nuno gosta de ti há muito tempo. E eu sei que te falta coragem para lhe dizeres que também gostas dele. Por isso, vais comigo ao jantar. Ele vai adorar ver-te lá.”

         A esperança cresceu dentro de Luís.

📞 — “Tens mesmo a certeza? Achas que posso tentar alguma coisa? Ele não me vai rejeitar…?”

📞 — “Avança, Luís. Ele vai ficar feliz, tenho a certeza. Só te peço uma coisa: não magoes o coração dele, ou vais ter de te ver comigo!”

         Luís respirou fundo, sentindo-se mais leve.

📞 — “É já este sábado, certo?”

📞 — “Sim. Depois combinamos tudo.”

📞 — “Obrigado, mano. Já ganhei o dia. E tu… aproveita o jantar.”

        Ao desligar, Luís ficou a olhar para o telemóvel, o coração acelerado. Pela primeira vez em muito tempo, sentia-se à beira de algo importante. Sorriu sozinho, dividido entre ansiedade e esperança.

        Com o décimo oitavo aniversário de Nuno a aproximar-se, Rafael viu a oportunidade perfeita. Falou com a mãe de Nuno, que sempre soube e aceitou a orientação do filho. Ela adorou a ideia e prometeu manter segredo, reservando um lugar especial à mesa — ao lado de Nuno.

        O plano estava em marcha.

       O tempo avançava devagar. Rafael olhava para o relógio vezes sem conta, como se pudesse fazê-lo andar mais depressa.

      Começou a preparar-se muito antes da hora. Escolher a roupa tornou-se uma tarefa difícil — queria causar a melhor impressão. Tomou um banho prolongado, arranjou o cabelo com cuidado, aplicou o perfume favorito.

       Depois de várias indecisões, escolheu calças de ganga preta justas, uma camisa slim que acentuava a silhueta e os ténis preferidos.

       Às 19h em ponto, já estava pronto — mas o peito parecia pequeno para tanta ansiedade.

        Sentado na sala ao lado do pai, sentia o cheiro do café misturar-se ao silêncio tenso da casa. A mãe movimentava-se discretamente, aumentando ainda mais a expectativa.

        O relógio marcava cada segundo com crueldade. Rafael olhava para a porta, para o telemóvel, para o reflexo na janela. O coração batia tão forte que parecia ecoar pela casa.

       O som de um carro a estacionar lá fora fez o coração de Rafael saltar no peito. Prendeu a respiração. As mãos suaram.

       Era a hora.

bottom of page