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11 – À Espera da Mensagem

Ao meio-dia menos um quarto, a Luísa bateu à porta com o resumo da reunião nas mãos, apertado contra o peito como um escudo.

— Entre.

Ela pousou as folhas em cima da mesa e deu um passo atrás. Leo leu-as ali mesmo, à frente dela. Duas páginas, limpas, sem uma palavra a mais. Os pontos do contrato por ordem, as datas a negrito, os valores numa tabela pequena ao fundo. E, na margem da segunda folha, a lápis, muito leve, uma nota: A Sr.ª Moreno pediu duas vezes para rever a cláusula das fotografias. Pode voltar a pedir.

Leo levantou os olhos.

— Reparou nisso sozinha?

A Luísa corou.

— Ela tocou no papel duas vezes, quando falaram dessa parte. E pareceu-me que não ficou contente.

Leo ficou a olhar para ela um bocado. Depois pousou as folhas e encostou-se na cadeira.

— Muito bem, Luísa. Muito bem mesmo. Há gente cá dentro há cinco anos que não repara nisto. — Empurrou as folhas de volta para ela. — Mande-me por e-mail. E guarde a nota do lápis. Vai ter razão.

Ela pegou nos papéis e saiu sem dizer nada. Mas à porta, antes de a fechar, Leo viu-a sorrir. Um sorriso pequeno e espantado, de quem não está habituada a que lhe digam aquilo.

🍃 🍃 🍃

Meio-dia e vinte. Nenhuma mensagem.

Leo estava a olhar para o telemóvel pela vigésima vez quando ouviu uma voz de rapariga no átrio, alta e alegre, e logo a seguir a voz da Luísa, aflita.

— Menina, espere, não pode… o Sr. Leo está…

A porta do gabinete abriu-se de rompante.

Uma rapariga de cabelo louro comprido e olhos escuros, de calções de ganga e óculos de sol na cabeça, entrou como se a sala fosse dela e o mundo também. Atrás, sem fôlego, vinha a Luísa, com as orelhas a arder.

— Desculpe, Sr. Leo, ela não parou, eu disse-lhe que tinha de…

— Não faz mal, Luísa. — Leo já estava a rir. — Esta não para nunca. Está habituada.

A rapariga atravessou o gabinete e atirou-se ao pescoço dele.

— Tio! Desde quando é que eu tenho de me anunciar? — Afastou-se e olhou para a porta. — Onde está a Maria? E quem é esta?

— A Maria já não trabalha cá. Esta é a Luísa, a minha secretária nova. — Olhou para a Luísa, que continuava parada à porta, sem saber se entrava ou se fugia. — Luísa, esta é a Amélia. A Sra. Amélia da agenda.

A Luísa abriu a boca e voltou a fechá-la.

— Desculpe, menina. Não sabia. Não volta a acontecer.

— Não peças desculpa! — A Amélia sorriu-lhe com os dentes todos. — Correste atrás de mim três corredores. Ninguém corria atrás de mim desde a escola primária. Gostei.

A Luísa não soube o que responder. Acenou, vermelha até ao pescoço, e fechou a porta devagar.

A Amélia virou-se para o tio e baixou a voz.

— Gosto dela. É muito diferente das outras. Principalmente da Maria, que eu nunca suportei. — Inclinou a cabeça. — O que é que aconteceu à Maria?

Leo pegou no casaco.

— Coisas que não te interessam, Furacão.

— Deixa-me adivinhar. Apaixonou-se por ti.

Leo não respondeu. A Amélia levantou as sobrancelhas até ao cabelo, e depois riu-se.

— Tio Leo. Não passas um mês sem arranjar uma confusão.

— Olha como falas, menina. Sou teu tio.

— És o meu tio favorito. — Deu-lhe o braço. — E vais pagar-me o almoço.

— Então é isso. Sabia que havia um motivo.

— Há sempre um motivo. — Puxou-o para a porta. — Anda. Conto-te no caminho.

🍃 🍃 🍃

No restaurante do costume, a duas ruas da L&L, sentaram-se na mesa do canto. Leo pousou o telemóvel em cima da toalha, ao lado do prato, com o ecrã virado para cima.

A Amélia reparou logo. Nunca, em dezassete anos, tinha visto o tio pôr o telemóvel em cima da mesa num almoço com ela.

— Estás à espera de alguma coisa?

— De uma mensagem.

— Importante?

Leo pensou um bocado antes de responder.

— Pode mudar-me a vida.

A Amélia pousou o menu.

— Tio. É paixão nova?

— Primeiro tu. — Leo pegou no copo de água. — O que é que te traz cá? E não me digas que é saudade.

Ela suspirou, derrotada.

— Os pais vão dar um carro ao Nuno nos anos. E eu pensei que tu podias pagar-lhe a carta. — Fez uma pausa estudada. — E já agora a minha, que também faço anos no mesmo dia, se bem te lembras.

— Lembro-me. Estava lá quando nasceram. — Leo riu-se. — E porque é que não me pediram os teus pais?

— Porque a ideia foi minha. E porque tu dizes que não aos meus pais e nunca me dizes que não a mim.

Leo abanou a cabeça.

— E tu, o que vais dar ao teu irmão?

— Uma semana na Madeira, para duas pessoas. Ele que escolha a companhia.

— O Nuno tem namorada e ninguém me disse?

— Que eu saiba, não. — A Amélia encolheu os ombros com um ar misterioso que Leo não soube decifrar. — Mas nunca se sabe.

— Está bem. Eu pago as duas cartas. E a ti, que mais te dou?

— Mais nada. Com o dinheiro que poupo na carta, junto para a viagem da minha vida.

— Que é?

— Um safari na Tanzânia.

— Vais ter de juntar muito.

— Eu sei. Por isso é que comecei cedo.

Leo estendeu a mão por cima da mesa e apertou a dela. A Amélia sorriu, e durante meia hora falaram de tudo e de nada, dos gémeos, da avó, da faculdade que ela ainda não tinha escolhido. Leo respondia, ria-se, perguntava. E de trinta em trinta segundos, sem dar por isso, olhava para o telemóvel.

Até que o telemóvel acendeu.

A Amélia calou-se a meio de uma frase. Viu o tio agarrar no telemóvel com uma pressa que não era dele, e ficar a olhar para o ecrã, muito quieto, sem o desbloquear.

— Então? — perguntou ela, baixinho. — É isso?

Leo desbloqueou.

📩 — <Já falei com eles. Posso ligar?>

Não respondeu à mensagem. Ligou.

📞 — "Olá."

📞 — [Olá.]

Uma pausa.

📞 — [Estás ocupado? Posso ligar mais logo, se…]

📞 — "Não estou ocupado. Conta-me."

📞 — [Falei com eles. Com os meus pais.]

Outra pausa, mais curta.

📞 — [Deixam. Mas querem conhecer-te primeiro. Antes de sairmos. Tu… disseste ontem que falavas com eles. Ainda queres?]

Leo fechou os olhos um segundo.

📞 — "Claro que quero. A que horas?"

📞 — [Às sete. Em minha casa.]

📞 — "Às sete estou aí. Estás nervoso?"

📞 — [Um bocado.]

E logo a seguir, mais baixo:

📞 — [Muito.]

Leo sorriu. Do outro lado da mesa, a Amélia não tirava os olhos dele.

📞 — "Eu também. Mas não digas a ninguém."

Ouviu-o rir, um riso curto, espantado.

📞 — "Vai correr bem, anjo. Vou falar com eles, vamos jantar, e trago-te a casa à hora que eles disserem. Prometo."

📞 — [Está bem.]

Uma voz de mulher, ao longe, a chamar um nome.

📞 — [A minha mãe está a chamar-me para almoçar. Tenho de ir.]

📞 — "Vai. Come tudo."

📞 — [Leo…]

📞 — "Diz."

📞 — [Nada. Até logo.]

Desligou. Leo ficou com o telemóvel encostado à orelha mais um segundo, a ouvir o silêncio, antes de o pousar na mesa.

Quando levantou os olhos, a Amélia estava com o queixo apoiado nas mãos e um sorriso que lhe ia de orelha a orelha.

— Trago-te a casa à hora que os teus pais disserem — repetiu ela, devagar, a saborear cada palavra. — Come tudo.

— Amélia.

— Tio. Quantos anos tem?

Leo pegou no guardanapo e dobrou-o ao meio. Depois outra vez.

— Dezoito.

A Amélia deixou de sorrir de repente. Não por reprovação. Por espanto.

— Dezoito. — Olhou para ele com outros olhos. — Ele, disseste. É um rapaz.

— É.

Ela ficou calada um bocado, a olhar para o tio como se o visse pela primeira vez. O tio que nos Natais respondia a e-mails ao canto. O tio que nunca apresentava ninguém. Que nunca, em dezassete anos, pusera o telemóvel em cima da mesa.

— E tu vais falar com os pais dele — disse, por fim. — Hoje.

— Vou.

— Porquê?

Leo demorou a responder.

— Porque é o que está certo. E porque não quero que nada nisto comece mal.

A Amélia estendeu a mão por cima da mesa, pegou na dele e apertou-a com força.

— Quero conhecê-lo.

— Um dia destes.

— Como é que ele se chama?

Leo sorriu, mas não disse. Pagou a conta, deu-lhe um beijo na testa à porta do restaurante e viu-a afastar-se rua acima, a virar-se duas vezes para trás com cara de quem ia ligar ao irmão gémeo mal dobrasse a esquina.

Depois ficou parado no passeio, com as mãos nos bolsos.

Às sete.

Era só isso que existia agora.

🍃 🍃 🍃

Em casa, Rafael comeu o almoço todo sem sentir o sabor de nada. A mãe olhou para ele duas vezes e não disse nada. O pai olhou para a mãe e também não disse nada.

Depois subiu para o quarto e atirou-se para a cama, com o telemóvel em cima do peito.

Eu também. Mas não digas a ninguém.

Ficou a olhar para o teto, a sorrir como um idiota.

Passado um bocado, o sorriso transformou-se noutra coisa. Uma ideia. Tinha estado ali o tempo todo, e só agora, deitado na cama, com os pais lá em baixo a lavar a louça juntos como se nada fosse, é que ela apareceu inteira.

*Se aceitaram isto, aceitam tudo.*

Pegou no telemóvel e ligou ao irmão.

📞 — [Rafa? Ligares-me a esta hora é mau sinal. O que é que se passou?]

📞 — "Nada de mal. Hoje à noite vou jantar fora."

📞 — [E isso é notícia? Com o Nuno, suponho.]

📞 — "Não é com o Nuno."

Do outro lado, um silêncio curto.

📞 — [Com uma rapariga? Tu?]

📞 — "Com um homem."

O silêncio, desta vez, foi mais comprido. Rafael ouviu o irmão pousar qualquer coisa, uma chávena, um livro.

📞 — [Um homem.]

A voz do Luís tinha mudado.

📞 — [Rafa… tu… E os pais? Sabem?]

📞 — "Contei-lhes hoje de manhã. Ao pequeno-almoço."

📞 — [E?]

📞 — "E a mãe chorou e disse que não havia desilusão nenhuma. E o pai disse que não estava zangado, estava com medo. E depois quiseram saber o nome dele."

Fez uma pausa.

📞 — "Luís. Aceitaram. Assim. Sem mais nada."

Não ouviu nada do outro lado durante muito tempo. Depois ouviu o irmão respirar, fundo, uma vez, como quem sobe do fundo de uma piscina.

📞 — [Porque é que me estás a contar isto a mim primeiro?]

📞 — "Porque sei."

📞 — [Sabes o quê?]

📞 — "Sei, Luís. Sei desde os catorze anos. E sei de quem é que tu gostas."

O silêncio que se seguiu foi o mais comprido de todos.

Quando o Luís voltou a falar, foi numa voz que Rafael não lhe conhecia.

📞 — [Desde os catorze. E nunca disseste nada.]

📞 — "Não me competia. Competia-te a ti."

Rafael enrolou o fio dos auscultadores no dedo.

📞 — "Mas agora sei que os pais não se vão importar. Por isso tenho uma proposta."

📞 — [Tenho medo das tuas propostas.]

📞 — "Os anos do Nuno. Daqui a umas semanas. Vens comigo."

📞 — [Eu? Nem fui convidado. E o Nuno mal fala comigo.]

📞 — "O Nuno mal fala contigo porque fica vermelho cada vez que tu entras numa sala. Nunca reparaste?"

📞 — [O Nuno não…]

O Luís parou.

📞 — [O Nuno nunca saiu com nenhuma rapariga.]

📞 — "Pois não."

📞 — [Nunca. Em anos.]

📞 — "Pois não, Luís."

Outro silêncio. Rafael imaginava o irmão sentado na cama do quarto que alugava perto da faculdade, com a mão na testa, a juntar as peças.

📞 — [E se estiveres enganado?]

📞 — "Não estou."

Sorriu para o teto.

📞 — "Vais ser a prenda de anos dele. Eu trato do resto. A mãe do Nuno ajuda. Só te peço uma coisa: não lhe partas o coração. Senão tens de te ver comigo."

O Luís riu-se. Um riso nervoso, meio desfeito, que Rafael não ouvia há muito tempo.

📞 — [Obrigado, mano.]

E, logo a seguir:

📞 — [E tu… diverte-te hoje. Quero saber tudo amanhã. E Rafa…]

📞 — "Diz."

📞 — [Se esse homem te fizer mal, também tem de se ver comigo.]

🍃 🍃 🍃

Às seis começou a vestir-se. Às seis e um quarto mudou de camisa. Às seis e meia voltou à primeira. Tomou um duche que não precisava, penteou o cabelo três vezes, pôs perfume, tirou-o com uma toalha húmida porque lhe pareceu demasiado, e voltou a pôr, menos.

Às sete menos cinco estava sentado no sofá da sala, de calças de ganga pretas e camisa branca, ao lado do pai, que fingia ler o jornal e não virava a página havia dez minutos. A mãe andava da cozinha para a sala e da sala para a cozinha sem nada nas mãos.

O relógio da parede marcava cada segundo como se tivesse prazer nisso.

Às sete em ponto, ouviram um carro parar lá fora.

O pai pousou o jornal.

A mãe parou à porta da cozinha.

Rafael deixou de respirar.

Quando sair o próximo livro, queres saber?

Mais nada. E podes sair da lista quando quiseres.

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