10 – O Silêncio de Rafael
Leo chegou às nove menos dez e a Luísa já lá estava.
Tinha o casaco nas costas da cadeira, um café de máquina a arrefecer ao lado do teclado e o cartão de acesso novo ao pescoço, preso num fio vermelho que não era da empresa. A caixa das coisas da Maria já não estava a um canto. Alguém a tinha levado.
— Bom dia, Luísa.
— Bom dia, Sr. Leo.
Não se levantou, desta vez. Leo reparou nisso e não disse nada.
— A reunião das dez. Quero-a lá dentro comigo, a tomar notas. No fim faz-me um resumo do que ficou combinado. Consegue?
Ela olhou para ele com os olhos verdes muito abertos, e depois acenou uma vez, séria, como quem aceita uma missão.
— Consigo.
Leo entrou no gabinete e fechou a porta. Pousou o telemóvel em cima da secretária, com o ecrã virado para cima.
Nenhuma mensagem.
Eram nove da manhã. Um rapaz de dezoito anos, em julho, sem aulas, àquela hora ainda estava a dormir. Leo sabia isso. Olhou para o telemóvel na mesma.
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Às dez em ponto, o segurança da portaria ligou para cima. A Luísa foi buscar a visita ao elevador e voltou com uma mulher alta, de fato creme e cabelo apanhado num carrapito perfeito, que entrou no gabinete como se o gabinete fosse dela.
— Leo. — Estendeu-lhe a mão e demorou a largar a dele. — Alice Moreno. Finalmente. Já não sabia o que fazer para te conhecer ao vivo.
— Sr.ª Moreno. Sente-se, por favor.
Ela sorriu como quem regista um primeiro ponto perdido e se prepara para o segundo.
A reunião durou uma hora e vinte. Leo conhecia aquele contrato de cor: três editoriais por ano, uma capa, os direitos das fotografias, as datas. Discutiu cada ponto sem pressa e sem ceder no que não queria ceder. A Alice tentou duas vezes levar a conversa para outro lado, uma para um jantar em Milão, outra para o que é que um homem como tu faz ao fim de semana, e das duas vezes Leo trouxe-a de volta ao parágrafo onde estavam, com a mesma educação com que teria fechado uma porta.
A Luísa, sentada a um canto, escrevia. Não levantou a cabeça uma única vez. Mas, a certa altura, quando a Alice lhe tocou no braço por cima da mesa, Leo viu a caneta dela parar durante um segundo, e voltar a andar.
No fim, com o contrato assinado e a pasta fechada, a Alice levantou-se e ajeitou o casaco.
— Espero que um dia destes me deixes pagar-te um café. Só um café.
— Obrigado, Alice. — Leo acompanhou-a até à porta. — Mas já tenho com quem tomar café.
Disse-o sem pensar. Só depois de o dizer é que percebeu que não era verdade, ainda. Que era só uma coisa que ele queria que fosse verdade.
A Alice ficou a olhar para ele meio segundo a mais do que devia. Depois sorriu, e o sorriso foi um bocadinho menos largo do que o anterior.
— Que sorte a dela.
Leo não a corrigiu.
Quando as portas do elevador se fecharam, a Luísa apareceu ao lado dele com o bloco de notas apertado contra o peito. Tinha as orelhas vermelhas, mas o olhar direito.
— Tenho tudo, Sr. Leo. Os pontos todos, as datas e os valores. Faço-lhe o resumo até à hora de almoço.
— Faça. — Olhou para o bloco. As folhas estavam cheias de uma letra miudinha e organizada, com setas e sublinhados. — E Luísa… obrigado.
Ela acenou e voltou para a sua sala sem dizer mais nada.
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Onze e meia. Nenhuma mensagem.
Leo leu o mesmo e-mail três vezes sem perceber o que dizia.
Falaste com os teus pais? Disseram que não? Estás arrependido de ontem à noite? Assustei-te?
Pegou no telemóvel. Abriu a conversa com R. A última mensagem era a dele, da véspera: Vai dormir, anjo. Não penses demasiado. Por baixo, o Boa noite, Leo do rapaz.
Mais nada.
Pareces um adolescente, pensou. Trinta e dois anos, uma empresa com duzentas pessoas, um contrato com a Gucci acabado de fechar, e estás a olhar para um telemóvel como um miúdo de quinze anos à espera de que a rapariga da turma lhe responda.
Pousou o telemóvel. Voltou a pegar nele.
Nada.
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Rafael acordou às oito com o céu ainda enevoado e a cabeça cheia.
Tinha dormido mal. Tinha sonhado com coisas de que não se lembrava e acordado com o coração aos saltos, e a primeira coisa que fez, antes de abrir os olhos bem, foi procurar o telemóvel debaixo da almofada e reler a conversa toda, do Boa noite, anjo ao Boa noite, Leo.
Continuava lá. Não tinha sonhado.
Janta comigo amanhã?
Amanhã era hoje.
Sentou-se na beira da cama e ficou um bocado a olhar para os pés. Podia mentir. Podia dizer que ia jantar com o Nuno, e o Nuno cobria-o sem fazer perguntas. Mas Rafael nunca tinha mentido aos pais. Nem sobre coisas pequenas. Não era por ser bom rapaz. Era porque não sabia, simplesmente. Ficava vermelho, gaguejava, olhava para o chão. A mãe apanhava-o em dois segundos.
E, sobretudo, não queria começar aquilo, fosse o que fosse aquilo, com uma mentira.
Desceu as escadas devagar.
Na cozinha, os pais estavam à mesa, como todas as manhãs. O pai por trás do jornal. A mãe a barrar compota numa torrada. O rádio baixinho, a dar as notícias do trânsito.
— Bom dia — disse Rafael.
A mãe olhou para ele e pousou a faca.
— Dormiste mal.
Não era uma pergunta. Nunca era.
— Um bocado.
Sentou-se. Pegou num pão. Não lhe deu nenhuma dentada.
O pai baixou o jornal até aos óculos.
— O que é que se passa, Rafael?
Rafael olhou para o pão. Depois para a mãe. Depois para o pai.
— Posso jantar fora hoje?
A mãe e o pai trocaram um olhar. Um daqueles.
— Com o Nuno? — perguntou a mãe.
— Não. — Engoliu em seco. — Com uma pessoa que conheci. Não conhecem.
— Uma pessoa — repetiu o pai, devagar.
O rádio passou das notícias para uma música qualquer. Rafael sentiu o coração a bater-lhe na garganta, e percebeu que se não dissesse agora nunca mais ia conseguir dizer.
— É um homem.
Silêncio.
O pai não se mexeu. Ficou só a olhar para ele por cima dos óculos, com as mãos pousadas no jornal, e Rafael viu-lhe os dedos apertarem as folhas, um bocadinho, e depois soltarem. A mãe pôs a mão em cima da mesa, perto da dele, sem lhe tocar.
— Um homem — disse ela, com muito cuidado. — Gostas dele, filho?
Rafael sentiu os olhos arder.
— Gosto.
— E… — O pai pigarreou. A voz saiu-lhe mais baixa do que o costume. Não havia zanga nela. Havia outra coisa, mais antiga, como quem abre uma gaveta que sabia que um dia ia ter de abrir. — Gostas de homens, Rafael?
— Não sei. — Saiu-lhe num fio. — Não sei, pai. Desculpem. Nunca gostei de ninguém. Nunca pensei nisso. Sei que gosto dele. Que me sinto bem quando estou com ele. — Olhou para o pão, desfeito entre os dedos. — Desculpem.
— Porque é que estás a pedir desculpa? — perguntou a mãe.
Rafael não conseguiu olhar para ela.
— Porque acho que vos desiludi.
A mãe levou a mão ao peito, como se lhe tivessem dado um empurrão.
— Rafael. Olha para mim. — Esperou que ele olhasse. Tinha os olhos molhados. — Tu és o nosso filho. Não há desilusão nenhuma em saber quem tu és. Ouviste? Nenhuma.
O pai ficou calado mais um bocado. Depois dobrou o jornal ao meio, devagar, como fazia quando a conversa era séria, e pousou-o na mesa.
— Eu estou calado — disse — não é por zanga. É por medo. — Tirou os óculos e esfregou os olhos. — O mundo não é fácil para quem é diferente, Rafael. Só isso. Tenho medo que te magoem lá fora. — Pôs os óculos outra vez. — Mas aqui em casa, escolhas tu quem escolheres, sejas tu quem fores, és nosso. Isso não muda.
Rafael ficou a olhar para ele, sem conseguir falar.
O pai pegou na chávena.
— Como é que ele se chama? — perguntou. — Esse homem.
— Leo.
— E é da tua idade?
Rafael hesitou uma fração de segundo a mais do que devia.
— É um bocadinho mais velho.
A mãe levantou uma sobrancelha. Só uma. O pai não disse nada, mas fez aquele som com a garganta que fazia quando perdia um peão no xadrez.
— Queremos conhecê-lo — disse a mãe. — Antes de saíres com ele. Não é pedido.
— Ele queria vir falar convosco — disse Rafael, e sentiu-se corar outra vez. — Ontem. Eu é que disse que não. Que falava eu.
Os pais trocaram outro olhar. Desta vez, Rafael conseguiu ler aquele: *ele quis vir falar connosco. Primeiro.* A mãe quase sorriu.
— Então que venha. Às sete. E depois vão jantar.
Rafael levantou-se tão depressa que a cadeira arrastou no chão. Abraçou a mãe. Abraçou o pai, que resmungou qualquer coisa sobre o jornal e depois não o largou logo.
Subiu as escadas de dois em dois degraus e fechou a porta do quarto com as costas.
Vou jantar com o Leo.
Atirou-se para a cama, de braços abertos, a olhar para o teto.
Vou jantar com o Leo.
🍃 🍃 🍃
Na cozinha, o pai ficou a olhar para a chávena.
— Um bocadinho mais velho — disse, por fim.
— Eu ouvi.
— Viste a cara dele quando disse aquilo?
— Vi. — A mãe pousou a mão em cima da dele. — Também vi a cara dele quando disse que gostava.
O pai suspirou.
— Tenho medo, Clara.
— Eu sei. Eu também. — Apertou-lhe a mão. — Às sete ficamos a saber.
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No quarto, a euforia durou dez minutos. Depois vieram as perguntas.
E se ele se arrepender?
E se ele me quiser beijar e eu não souber?
E se eu disser uma coisa estúpida?
E se os meus pais olharem para ele e perceberem quantos anos tem, e disserem que não, e ele nunca mais me escrever?
— Merda — disse, para o teto. — Merda, merda.
Pegou no telemóvel. Escreveu uma mensagem. Apagou. Escreveu outra. Apagou também. Levou quase três horas a escrever uma coisa que tinha seis palavras.
Quando finalmente carregou em enviar, já passava do meio-dia, e o coração parou-lhe no peito como um relógio a que tivessem tirado a pilha.
Mais nada. E podes sair da lista quando quiseres.