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01 – O Peso do Vazio

A luz de julho entrava pelas frinchas das cortinas e caía, sem pedir licença, sobre a cama desfeita.

Leo abriu os olhos e voltou a fechá-los. A cabeça latejava. O teto não era o dele, o cheiro dos lençóis também não, e a rapariga que dormia de costas para ele, com o cabelo espalhado pela almofada, era uma estranha. Tentou lembrar-se do nome dela e não encontrou nada. Nem um princípio de nome.

Aos poucos, a noite foi voltando em pedaços. O Henrique a insistir ao telefone, sai de casa, homem, não te faz bem ficares aí fechado. O bar cheio, a música alta, um copo, depois outro. Uma gargalhada que não era a dele, uma mão no braço, um táxi. O resto era nevoeiro.

Era sempre assim. Um quarto de hotel, alguém sem nome, e ele a sair antes de o dia começar a sério. Nunca levava ninguém para casa.

Nunca.

Pegou no telemóvel pousado na mesa de cabeceira. Oito e meia. Segunda-feira. Por baixo das horas, um lembrete que ele próprio escrevera: Quinta. Lar. Mãe.

Vestiu-se em silêncio, com a camisa da véspera a cheirar a tabaco e a perfume alheio. À porta, parou um segundo e olhou para trás. A rapariga continuava a dormir, tranquila, alheia a tudo. Ele saiu sem fazer barulho. Na receção, pagou o quarto e o pequeno-almoço que ela havia de tomar sozinha. Era o mínimo.

Conduziu até casa com os vidros abertos, à procura de ar. A vivenda apareceu ao fim da rua, branca, grande demais para um homem só, com as buganvílias que a mãe plantara a trepar pelo muro. O pai tinha-a construído quando chegou de Itália com uma mala e uma ideia, e deixara-a aos três filhos. Leo era o único que lá vivia. O Lorenzo tinha a sua casa, a mulher, os gémeos; o Lucca vivia praticamente no hospital. Ele tinha quartos vazios.

Tomou um duche a escaldar, engoliu dois comprimidos com um copo de água e escolheu o fato cinzento, o que usava nos dias em que precisava de parecer inteiro.

Às nove e vinte, o Mercedes desceu a rampa da garagem da L&L.

No átrio, a capa da revista deste mês ocupava a parede inteira: uma modelo de dezanove anos descoberta numa praia do Algarve, agora em Milão. Leo passou por ela sem olhar. Tinha sido ele a vê-la primeiro, tal como vira tantas outras, e não sentia nada. Houve um tempo em que sentia.

O elevador subiu até ao último andar. As portas abriram-se para o escritório envidraçado, a cidade inteira lá em baixo, pequena e silenciosa.

E a Maria, sentada no sofá da sala de espera.

Não estava à secretária, onde devia estar. Estava ali, de pernas juntas e mala no colo, como uma visita. Tinha os olhos inchados, de quem dormiu pouco ou chorou muito, e o baton que costumava usar tinha sido esquecido.

Leo parou.

Um mês antes, depois de um jantar com clientes que se arrastara até tarde, tinha-a levado a casa. Ela convidara-o a subir. Ele subiu. Arrependeu-se antes de sair do prédio, e na manhã seguinte tratou-a por Maria e não por tu, com a esperança de que ela percebesse. Ela não percebeu.

— Bom dia, Leo.

— Bom dia, Maria. — Pousou a pasta na mesa de apoio, devagar. — Prefiro que continue a tratar-me por Sr. Leo. Como sempre.

Ela corou. Apertou a alça da mala.

— Desculpe. Sr. Leo. — Engoliu em seco. — Preciso de falar consigo. Não é sobre trabalho.

— Então talvez não seja aqui o sítio.

— É aqui. — Levantou-se. — Tem de ser aqui, porque se sair por aquela porta sem lhe dizer, não volto a ter coragem.

Ele esperou. Lá fora, um avião cortava o céu sem som nenhum.

— Estou grávida. — A voz tremeu-lhe na última palavra, mas não baixou os olhos. — E é seu.

Durante um instante, Leo não ouviu mais nada.

Não foi a notícia que o atingiu. Foi o que veio atrás dela, sem ser chamado. Um corredor de hospital pintado de verde-água. O zumbido de uma máquina junto à cama. A mão da mãe a apertar a dele com demasiada força, e a voz de um médico que falava baixo, como se isso tornasse as palavras mais leves. Lamento. Não vai ser possível.

Tinha vinte e cinco anos, nesse dia.

— Sr. Leo?

A Maria continuava de pé, à espera. Deu um passo na direção dele e, sem pensar, pousou a mão na barriga, ainda lisa.

— Eu sei que não era isto que queria — disse ela. — Eu também não. Mas agora é assim. Agora estamos ligados, não é? Para sempre.

Para sempre. Leo sentiu a frase como um anzol.

— Maria. — A voz saiu-lhe mais rouca do que queria. Pigarreou. — Obrigado por me dizer. Mas eu não posso ser o pai desse bebé.

— Como assim, não pode? — Uma ruga fina abriu-se-lhe entre as sobrancelhas. — Foi uma noite, eu sei, mas foi…

— Não posso.

Não disse mais nada. Não ia dizer. Aquilo que tinha acontecido naquele corredor verde-água sabiam-no os pais, os irmãos e o Henrique. Mais ninguém. Não ia ser a Maria, numa segunda-feira de manhã, com a mala apertada contra o peito.

Ela olhou-o como quem espera o resto da frase. Como o resto não veio, alguma coisa no rosto dela endureceu.

— Está a dizer que eu estou a mentir.

— Estou a dizer que não sou o pai. — Leo contornou a mesa e pôs o móvel entre os dois. — E acho que é melhor, para si e para mim, que deixe de trabalhar aqui. Passe pelos Recursos Humanos. Vai receber tudo a que tem direito, e mais um mês. Faço questão.

A Maria ficou muito quieta. Depois riu-se, um riso curto, sem graça nenhuma.

— Um mês.

— Maria…

— Não. — Pendurou a mala no ombro. — Já percebi.

Caminhou até ao elevador com as costas direitas. Carregou no botão uma vez, e outra, e outra, como se a pressa fizesse as portas abrir mais depressa. Quando finalmente se abriram, entrou sem se voltar.

As portas fecharam-se.

Leo deixou-se cair na cadeira. Ficou muito tempo a olhar para a secretária vazia do outro lado do vidro: o bloco de notas dela, a caneca com um gato desenhado, um casaco de malha esquecido nas costas da cadeira. Pensou que alguém teria de lho devolver. Pensou que não seria ele.

Pensou na mão dela pousada na barriga.

Depois pensou noutra mulher, anos antes, a dizer-lhe exatamente a mesma coisa, com outro nome e outra cara. Nessa altura, rira-se. Hoje não tinha vontade nenhuma de rir. Fechou os olhos.

Chega.

Pegou no telefone e ligou para os Recursos Humanos. Não havia ninguém na casa que pudesse ocupar o lugar da Maria, disseram-lhe. Deram-lhe o número de uma empresa de trabalho temporário.

📞 — "Bom dia. Fala Leo Mattos, da L&L. Fiquei sem secretária esta manhã e preciso de alguém com urgência."

📞 — [Com certeza, Sr. Mattos. Tem alguma preferência?]

Leo olhou outra vez para a caneca do gato.

📞 — "Alguém discreto. Que venha para trabalhar."

📞 — [Envio-lhe alguém ainda hoje.]

Desligou. A cidade continuava lá em baixo, pequena e silenciosa, e a dor de cabeça ainda não tinha passado.

Quando sair o próximo livro, queres saber?

Mais nada. E podes sair da lista quando quiseres.

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