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Capítulo 30 — A Possibilidade

         Enquanto caminhava, Leo deixava que os pensamentos o atravessassem, e Rafael estava com centro deles.

         Ao aproximar-se do escritório, percebeu que Rafael ainda não tinha enviado uma mensagem. Assim que parou, resolveu escrever ele mesmo:

📩 — Chegaste bem, meu Anjo? Fico preocupado.

         A resposta não se fez esperar. Rafael sentiu o coração aquecer ao ler a mensagem de Leo, percebendo o quanto era importante para ele.

📩 — Desculpa, fiquei na conversa com Nuno e esqueci. Já estou na sala de aulas. Amo-te.

         Leo sorriu com a resposta e respondeu:

📩 — Também te amo.

         Quando regressou ao escritório, Luisa sentia-se satisfeita com o tempo dedicado à irmã. O gesto simples de cuidar de quem ama trazia-lhe uma sensação de paz, mesmo que não tivesse comprado nada para si. Sentou-se à secretária, observando a luz suave que entrava pela janela, e pensou em como pequenos momentos, como aquele passeio, podiam transformar um dia comum numa memória especial.

         Enquanto organizava os papéis sobre a mesa, deu por si a sorrir. Admirava Leo — a postura, a forma como liderava, a serenidade com que enfrentava os desafios. Era o tipo de profissional que a inspirava a ser melhor.

        Com um suspiro tranquilo, voltou ao trabalho.

        Foi então que ouviu a porta do escritório abrir-se. Leo entrou, com o passo firme de sempre, mas Luísa, desta vez, sorriu-lhe de forma calma e genuína — não havia nervosismo, nem aquele rubor antigo.   Apenas a tranquilidade de quem, finalmente, se reencontrou consigo mesma.

— Bom dia, Luísa. Tudo bem por aqui? — perguntou Leo, pousando alguns documentos na mesa.

— Bom dia, senhor Leo. Tudo ótimo, obrigada. — respondeu ela, com serenidade. — Espero que o seu fim de semana também tenha corrido bem.

         Leo retribuiu o sorriso e entrou no seu escritório, pronto para começar o dia. Luísa ficou à secretária, sentindo-se simplesmente ela própria — e isso, percebeu, era tudo o que precisava para começar uma nova semana.

         Perto da hora de almoço, o som do elevador ecoou pelo corredor.

        Luísa levantou o olhar da secretária, sem grande expectativa — até que as portas se abriram.

        De lá saiu um homem alto, de postura tranquila. Trazia o casaco leve sobre o braço e o cabelo ligeiramente desalinhado, como quem vinha de uma manhã longa, mas ainda assim carregava uma serenidade natural.

        Havia algo nele — talvez o cansaço discreto, talvez a forma como observava o espaço — que parecia ocupar o ambiente sem esforço.

        Ele deu alguns passos para dentro do escritório… e então viu-a.

       Luísa sentiu o corpo ficar imóvel por um instante — algo quente, inesperado, que lhe subiu ao peito como um sobressalto suave.

       Os olhos dele encontraram os dela e ficaram assim, presos um no outro por longos segundos. Sem palavras. Sem sorrisos exagerados. Apenas aquele silêncio cheio de significado.

        Só um reconhecimento silencioso, como se ambos tivessem tropeçado num momento que não estavam preparados para sentir.

        O homem desviou o olhar apenas para se orientar no espaço, mas antes de seguir para o gabinete, voltou a olhar para ela — rápido, discreto, mas suficiente para deixar um arrepio leve no ar.

        Luísa ficou imóvel, com a respiração presa, sem saber explicar o que tinha acabado de acontecer.

        Só a sensação de que aquele olhar tinha aberto uma porta que ela nem sabia que existia.

        O homem aproximou-se com um sorriso suave, cansado, mas caloroso.

— Bom dia — disse ele, pousando a bata sobre o balcão. — O Leo está?

        A voz tinha firmeza, mas havia nela uma gentileza serena que apanhou Luísa de surpresa, fazendo-a pestanejar.

— Está sim… — respondeu, levantando-se. — Posso avisá-lo.

         Houve um breve silêncio, e só então ela acrescentou:

— Desculpe… é…?

         Ele estendeu a mão, o sorriso a crescer um pouco mais.

— Lucca. Sou o irmão do Leo.

         A mão dela encontrou a dele, e por um instante, o mundo pareceu abrandar.

         Não houve faíscas cinematográficas, nem música de fundo — apenas um reconhecimento silencioso, como se algo dentro dela tivesse finalmente encontrado espaço para respirar.

— Prazer, eu sou a Luísa — apresentou-se ela, sorrindo de forma genuína, sem qualquer esforço. — Estou a substituir a Maria como secretária temporária do senhor Leo.

         O nervosismo misturava-se com a curiosidade, mas Luísa fez questão de manter a voz firme, consciente do papel que precisava de desempenhar.

          Lucca, atento aos gestos dela, inclinou ligeiramente a cabeça, os olhos azuis-claros fixando-se nos dela com uma intensidade natural, mas nada invasiva.

— E a Maria, onde está? — perguntou, recordando-se da última vez que ali estivera e fora atendido por outra pessoa. Aquela ausência intrigava-o; Maria nunca lhe inspirara confiança, sobretudo depois de perceber as intenções pouco discretas dela para com ele — algo que, por instinto, optou por nunca partilhar com Leo. Preferiu resolver sozinho, afastando-se de qualquer situação desconfortável. Agora, diante daquela nova figura, sentia uma energia diferente, quase refrescante.

         Enquanto analisava discretamente Luísa, Lucca deu por si a reparar no tom ruivo do cabelo dela, no rubor que subia pelas faces e fazia sobressair as pequenas sardas. Esse detalhe, tão singelo, tornou-se um ponto de foco para ele — era sinal de honestidade, de emoção verdadeira, e isso moveu algo dentro dele, afastando pensamentos menos agradáveis do passado recente.

         Luísa, ciente do peso daquele olhar, respondeu com sinceridade:

— Não sei, senhor. O senhor Leo apenas me disse que a tinha dispensado, mas não mencionou o motivo. — Sentiu o coração acelerar, intimidada não pela aparência, mas pelo modo como Lucca a observava — não com julgamento, mas com curiosidade genuína, quase como se a procurasse ver para além do que mostrava à superfície.

        O rubor de Luísa, a maneira como desviava o olhar, revelavam-lhe mais do que as palavras, deixou Lucca, inesperadamente, cativado.

— Nunca ouvi falar de ti — disse, agora com um brilho curioso e um sorriso franco. — Mas confesso que estou a gostar do que vejo.

         Sentindo o calor a espalhar-se ainda mais pelas faces, Luísa baixou os olhos, tocada por um sentimento novo: pela primeira vez em muito tempo, não se sentia apenas uma sombra, mas alguém que era visto e reconhecido na sua própria essência. Decidiu, então, recuperar o profissionalismo para se proteger daquele turbilhão de emoções, retirou a mão com delicadeza e murmurou:

— Vou anunciá-lo ao senhor Leo — esforçou-se para soar confiante, mesmo que o coração continuasse a bater mais depressa.

         Virou-se para bater à porta do gabinete, mas antes de dar o primeiro passo, ouviu Lucca dizer, num tom leve:

— Tens um sorriso bonito.

        Ela deteve-se, respirou fundo e voltou a sorrir — não por hábito, mas porque o gesto lhe nasceu naturalmente.

— Obrigada — murmurou, antes de desaparecer no corredor.

          Dentro do gabinete, Leo levantou o olhar quando ela entrou.

— Senhor Leo… o seu irmão está lá fora.

         Leo franziu o sobrolho, surpreendido.

— O Lucca? Agora?

— Sim — respondeu Luísa, tentando manter a compostura. — Disse que veio só… ver o irmão.

        Leo sorriu, levantando-se.

— Ele faz isso às vezes. Quando tem um intervalo no hospital.

        Passou por ela e abriu a porta.

         Lucca virou-se imediatamente, o sorriso a iluminar-lhe o rosto cansado.

— Mano.

— Lucca — cumprimentou Leo, abraçando-o com força. — Que surpresa boa.

         Leo afastou-se do irmão e, antes de o convidar a entrar, lançou um olhar rápido para Luísa — um olhar que dizia que tinha percebido a mudança, mas que a respeitava.

— Luísa, vamos almoçar mais cedo hoje. Se alguém ligar, diz que volto dentro de uma hora.

— Claro, senhor Leo — respondeu ela, com um sorriso tranquilo.

        Antes de entrar no gabinete, Lucca lançou-lhe um último olhar. E Luísa sentiu o coração bater num compasso novo, inesperadamente leve, enquanto permanecia por instantes a fitar a porta fechada, como se pudesse atravessá-la com o olhar.

        Leo recebeu o irmão com um sorriso feliz. Lucca entrou, largou o casaco numa cadeira e deixou-se cair no sofá com um suspiro profundo — o tipo de suspiro que só se dá quando se está entre família.

       Leo observou-o com atenção e percebeu o olhar de Lucca perdido na porta por onde Luísa havia passado. Havia algo diferente naquele olhar, algo que Leo não conseguia nomear, mas reconhecia — porque já tinha sentido aquilo antes.

         Por um instante, Lucca sentiu o coração acelerar ao cruzar o olhar com Luísa, sem saber explicar o motivo daquela inquietação repentina. O calor do momento deixou-o um pouco fora de si, e a imagem da ruivinha de sorriso doce não lhe saía da cabeça.

        Leo sorriu, entretido com a situação. Será? Seria interessante. Lucca merecia alguém como Luísa, e  Luísa alguém como Lucca.

— Estás com um ar estranho — comentou Leo, cruzando os braços, divertido.

— Não é nada. Estava aqui a pensar no que terá acontecido à Maria — respondeu Lucca, forçando um sorriso e desviando o olhar, numa tentativa clara de mudar de assunto. O coração, no entanto, ainda pulsava forte pela presença de Luísa.

— Queres mesmo saber o que aconteceu à Maria? Ou o teu interesse está em Luísa? — Leo perguntou, num tom trocista.

        Lucca franziu a testa e respondeu, tentando parecer indiferente:

— Porque estaria interessado na tua secretária?

— Talvez porque, desde que a porta se fechou, não deixas de a encarar. E sei que não tens fetiches por portas — brincou Leo.

        Lucca forçou um sorriso e respondeu, tentando mudar de assunto:

— Podemos ir almoçar agora. Preciso de ar.

— Certo, vamos ao sítio do costume.

        Ambos pegaram os respetivos casacos e saíram. Antes de partir, Lucca lançou um último olhar a Luísa, que corou e desviou o olhar, como se uma flecha tivesse atingido o seu coração em cheio. O momento entre os dois ficou suspenso no ar, carregado de expectativa e de emoções ainda não reveladas.

         Ao saírem do escritório, os dois irmãos caminharam lado a lado pelo corredor silencioso. O som ritmado dos passos ecoava de forma leve, quase sincronizada, enquanto o elevador descia lentamente até ao piso deles. Quando as portas se abriram, entraram sem trocar palavra — não por falta de assunto, mas porque ambos pareciam absorvidos nos próprios pensamentos.


🍃 🍃 🍃


        O elevador deslizou até ao rés-do-chão, e, ao saírem para a rua, o ar fresco da manhã envolveu-os com uma sensação de alívio imediato. Leo ajeitou o casaco, Lucca inspirou fundo, como quem precisava daquele momento para se recompor, e seguiram em direção ao restaurante habitual, a poucos minutos dali.

         O caminho era curto, familiar, e a rotina daquele percurso tornava tudo mais simples. O trânsito leve, o murmúrio distante da cidade e o sol tímido a atravessar as árvores criavam um ambiente tranquilo, perfeito para a conversa que inevitavelmente surgiria entre eles.

         Quando chegaram à porta do restaurante, Leo empurrou-a com naturalidade, dando passagem ao irmão. Só então Lucca pareceu despertar do silêncio em que tinha mergulhado desde que deixara o escritório.

         Assim que se sentaram no restaurante, Leo pousou o guardanapo no colo e lançou um olhar de lado ao irmão.

— Estás muito calado hoje.

         Lucca mexeu no copo de água, evitando o olhar direto.

— Só estou cansado. A manhã foi puxada.

         Leo arqueou uma sobrancelha, divertido.

— Certo, vou fingir que acredito em ti, e que minha secretária nada tem a ver com isso

        Lucca travou um sorriso involuntário, mas disfarçou-o com um suspiro.

— Não faças filmes.

— Eu? — Leo inclinou-se para a frente, apoiando os braços na mesa. — Tu é que ficaste a olhar para ela como se tivesses visto um cometa.

        Lucca revirou os olhos, mas o rubor leve denunciou-o.

— Estás a exagerar.

— Estou, claro — concordou Leo, com um sorriso trocista. — Não fosse o mesmo olhar que eu fiz quando vi o meu Anjo pela primeira vez.

         Leo falava dele com uma leveza nova, com um brilho discreto nos olhos que Lucca não via há anos.

        Lucca passou a mão pelo cabelo, tentando recuperar o controlo da expressão, abanou a cabeça, mas não conseguiu evitar o sorriso que lhe escapou.

— Não estou à procura de nada, Leo, embora ela seja simpática.

— Ninguém disse que estavas — respondeu o irmão, agora num tom mais suave. — Mas às vezes as melhores coisas aparecem quando não procura-mos.

         Lucca ficou em silêncio por um momento, mexendo distraidamente no talher.

— Foi só um olhar — murmurou, quase para si mesmo.

         Leo sorriu, satisfeito.

— Às vezes é assim que começa.

        O silêncio que se seguiu não foi desconfortável.

       E, pela primeira vez, Lucca permitiu-se admitir que aquele olhar talvez tivesse significado mais do que estava disposto a aceitar. Sentindo-se vulnerável, desviou rapidamente o assunto para Rafael, mas não pôde evitar reparar no brilho nos olhos do irmão


🍃 🍃 🍃


         Os dias seguintes correram com uma normalidade quase perfeita.

         Rafael e Leo entraram numa rotina suave: mensagens de bom dia, encontros ao fim da tarde, jantares simples, conversas longas que terminavam sempre com um sorriso.

        Rafael parecia mais seguro, mais leve, mais ele próprio, e Leo parecia… completo.

        Nuno e Luís também encontraram o seu ritmo: Pequenos gestos, olhares cúmplices, conversas que se prolongavam até tarde.

        O tipo de intimidade que nasce devagar, mas nasce forte.

        E Luísa…

        Luísa descobriu que sorria mais vezes ao telefone, que se apanhava a pensar em olhos azul-claros tranquilos e que o coração lhe acelerava sempre que o elevador soava perto da hora de almoço.

        Lucca passava pelo escritório sempre que podia — às vezes por poucos minutos, outras vezes para um café rápido com o irmão.

        E sempre que chegava, havia aquele instante silencioso entre ele e Luísa.

       Um olhar. Um quase-sorriso. Um reconhecimento que crescia devagar, mas crescia.

       Nada declarado.

        Nada assumido.

        Só… possibilidade.

        A vida parecia encaixar-se, tudo parecia seguir um rumo calmo, estável, quase perfeito.

         Mas, como tantas vezes acontece quando tudo parece finalmente no lugar, a vida preparava-se para mudar o rumo.

        Ninguém percebeu quando o carro de vidros escuros estacionou do outro lado da rua da faculdade, com o motor ligado durante longos segundos, um ronronar baixo que se confundia com o trânsito habitual.

        Parecia apenas mais um veículo à espera de alguém.

        E talvez fosse.

       Ou talvez não.

        A tarde avançava tranquila, sem pressa, sem sobressaltos, mas, por baixo dessa tranquilidade, algo começava a mover-se — silencioso, quase invisível, como a primeira nuvem que anuncia uma tempestade ainda distante.

        Ninguém reparou no carro de vidros escuros estacionado do outro lado da rua, com o motor ligado durante longos segundos.

        Parecia apenas mais um veículo à espera de alguém.

       Talvez fosse. Ou talvez não.

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