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Capítulo 28 — Entrega e Confiança 🔞

🔞 Este capítulo contém conteúdo para leitores adultos.


— Então começamos devagar. Eu vou explicando tudo, e a decisão de avançarmos ou não é sempre tua. És tu quem está no comando. Um simples não, e eu paro. Compreendes? O submisso é quem tem o poder.

        Leo passou um dedo pelas faces rosadas do jovem, desceu a mão pelo pescoço e pousou-a sobre o ombro de Rafael, vendo-o relaxar.

        Rafael apenas abanou a cabeça, mas logo sentiu os dedos de Leo no seu queixo, erguendo-lhe o rosto.

— Anjo, preciso de ouvir-te, sempre.

— Compreendo — respondeu Rafael, com convicção na voz.

        Leo pousou-lhe a mão na nuca, num gesto mais de carinho do que de domínio. Por um instante, a dúvida atravessou-lhe o coração: seria capaz de submeter alguém que ama? E se Rafael não estivesse realmente preparado? E se o rejeitasse depois?

        Mas rapidamente afastou esses pensamentos ao ver no rosto de Rafael a entrega, a confiança e a vontade de estar e aprender

        Leo desligou a água e envolveu Rafael numa toalha, secando-o com cuidado. Depois, entrelaçou novamente os dedos nos dele e levou-o de volta ao quarto, onde a luz suave ainda os esperava.

        Ali, com o silêncio a envolver os dois, Leo sentou-se na beira da cama e puxou Rafael para perto, mantendo-o entre as suas pernas, as mãos pousadas nas ancas do mais novo, mas sem qualquer pressão.

— Rafael — começou, num tom calmo, firme — quando falamos de dominar, não estamos a falar de força, nem de controlo pelo controlo. Estamos a falar de confiança. De eu guiar… e tu deixares-te guiar porque te sentes seguro comigo. É sobre comunicação, respeito e limites. Nada mais.

        Rafael ouviu-o com atenção, o coração acelerado pela expectativa.

        Leo continuou:

— Eu digo o que quero que faças… e tu só fazes se te sentires confortável. Se algo te incomodar, dizes. Se quiseres parar, paramos. Dominar não é sobre te prender. É sobre te proteger enquanto exploras algo novo. E eu nunca te vou deixar sozinho nisso.

        Rafael respirou fundo, absorvendo cada palavra.

        E pela primeira vez, Rafael sentiu que compreendia verdadeiramente o que estava a pedir.

— Vamos começar — disse Leo, colocando Rafael à sua frente. — Basta dizeres “não” e eu paro, não precisamos de uma palavra de segurança.

         Rafael franziu o sobrolho, um pouco confuso com a explicação. Leo sorriu e esclareceu:

— Anjo, a palavra de segurança é uma palavra combinada entre os dois, usada para parar tudo quando sentires que é demais ou se houver desconforto. Mas, para nós, “não” basta.

— Percebido. Então a nossa palavra será “não”.

— Isso mesmo. Só preciso que confies em mim. Eu vou guiar-te.

          Leo manteve-se à frente de Rafael, com a respiração estável e o olhar firme, mas tranquilo. Rafael ainda se sentia vulnerável, mas estava atento, como se cada palavra de Leo fosse um fio a que se agarrava.

         Respirando devagar para controlar o nervosismo, Rafael ouviu Leo pedir, num tom baixo e controlado:

— Anjo, quero que te ajoelhes.

         Sem hesitar, Rafael ajoelhou-se devagar, mantendo o olhar em Leo até ao último instante. Leo aproximou-se um passo, a sua presença preenchendo o espaço.

— Agora afasta um pouco as pernas, só o suficiente para te sentires estável.

          Rafael ajustou a posição, respirando fundo. O chão frio sob os joelhos ajudava-o a manter-se consciente do próprio corpo. Leo observava-o atentamente, procurando qualquer sinal de desconforto, mas o que viu nos olhos de Rafael foi amor.

— Mantém as costas direitas e cruza as mãos atrás das costas, ao nível da lombar.

         Rafael obedeceu, sentindo o corpo responder ao comando com uma mistura de nervosismo e concentração. Ao juntar as mãos atrás das costas, uma onda de vulnerabilidade percorreu-lhe o corpo — intensa, mas não desconfortável.

         O coração batia-lhe forte, consciente da presença d Leo ao seu redor, a ternura com que ele lhe tocava, acalmava-o ao emsmo tempo que o deixava ansioso.

        Leo ficou imóvel por um instante.

— Tu és lindo nessa posição, meu anjo, tão entregue.

         Ver Rafael ajoelhado, vulnerável e consciente, mexeu profundamente com Leo, despertando respeito, admiração e uma silenciosa sensação de responsabilidade.

        Leo inclinou-se ligeiramente, aproximando-se tanto que Rafael sentiu a sua respiração junto ao ouvido.

— Está tudo bem? — perguntou, suave.— Como te sentes? Queres parar?

— Sinto-me exposto — respondeu Rafael, em voz baixa — mas quero que me mostres mais, por favor.

        O corpo de Rafael não escondia o quanto estava a ser afetado por tudo aquilo; a sua intimidade denunciava-o, sentia-se vulnerável, mas também feliz ao perceber que Leo reagia da mesma forma. Leo afastou-se por instantes, foi até ao armário e tirou uma venda, regressando para junto de Rafael e envolvendo-o ainda mais na sua presença.

          Rafael fixou o olhar na venda e depois em Leo, o corpo reagindo com um sobressalto involuntário ao perceber a intenção.

— Vou colocar isto em ti, mas só se disseres que sim.

        Rafael respirou fundo.

— Sim… podes.

         Leo passou a venda pela cabeça de Rafael com cuidado, ajustando-a para que ficasse confortável. Privado da visão, Rafael sentiu o mundo desaparecer e uma nova onda de vulnerabilidade quase o fez recuar, mas o calor da presença de Leo serviu-lhe de âncora.

Se em algum momento quiseres tirar, dizes — lembrou Leo. — A tua voz é a tua segurança.

         Sem ver, todos os outros sentidos de Rafael ficaram mais atentos: o perfume de Leo tornou-se mais intenso, ouvia-lhe a respiração forte, os passos no quarto, o abrir de armários — tudo parecia mais próximo, mais real.

          Leo ficou parado por um instante, indeciso sobre o que usar. O seu lado dominador quase se sobrepôs ao outro — o que amava profundamente a pessoa à sua frente, de olhos vendados, e a quem não queria assustar, muito menos magoar.

         Acabou por escolher um objeto e regressou para junto de Rafael, que permanecia alerta, tentando perceber o que se passava à sua volta, mas mantendo a confiança.

— Anjo, reforço o que te tenho dito: se em algum momento quiseres parar, só tens de o dizer, entendido?

        Rafael anuiu com a cabeça, mas logo sentiu uma palmada leve na nádega — seca, precisa. Não havia dor, apenas um leve ardor que ficou na pele como um lembrete, quente e presente, trazendo-o de volta ao momento.

— Entendi… — respondeu, com a voz firme. — Mas eu confio em ti.

          Leo guiou Rafael com cuidado, fazendo-o apoiar as mãos na cama enquanto ajustava a sua posição com firmeza tranquila. Os gestos que o conduziam eram acompanhados por carícias suaves, pensadas para o acalmar e ajudar a relaxar.

          A cada toque, Rafael sentia-se mais seguro, mais presente naquele momento. Havia uma atenção constante em cada movimento de Leo — não apenas nas mãos, mas também na proximidade, na forma como percorria lentamente as suas costas até à nuca, despertando-lhe arrepios involuntários.

Era uma mistura de tranquilidade e intensidade, de cuidado e expectativa, que fazia Rafael entregar-se sem resistência, confiando no que estava a acontecer entre eles.

         Rafael sentia-se exposto, vulnerável, mas ao mesmo tempo confiante.

         Primeiro ouviu o clique do frasco e o frio do gel em contacto com a sua pele, fê-lo estremecer, não de medo, não de frio, mas sim de antecipação. Depois sentiu algo mais duro, frio, a forçar a sua entrada traseira, naquele gesto havia carinho, cuidado.

         Leo pousou a mão espalmada nas costas de Rafael, deixando-a ali por um momento — um gesto simples, mas que dizia estou aqui.

— Respira — murmurou.

         Rafael obedeceu. O ar saiu devagar, trêmulo, e o corpo foi cedendo com ele.

         Leo esperou. Não havia pressa. Só quando sentiu os músculos de Rafael libertarem a tensão é que avançou, introduzindo o plug com uma lentidão quase deliberada, calibrando cada milímetro pela respiração do outro. Rafael fez um som pequeno, involuntário — não de dor, mas de algo que ainda não tinha nome para si próprio. Uma plenitude estranha, nova, que o fez morder o lábio e fechar os punhos na colcha.

— Continua a respirar, Anjo — disse Leo, e a voz soou mais grave do que o habitual.

         O plug ficou no lugar. Leo ficou quieto por um instante, observando Rafael: a curvatura das costas, o tremor leve nos ombros, a forma como os dedos foram abrindo devagar, como pétalas. Estava bem. Estava entregue.

         Regressou ao armário sem pressa.

         O flogger que escolheu era suave — as tiras de camurça eram finas, quase sedosas —, pensado para acordar a pele, não para a castigar. Voltou para junto de Rafael e ficou parado atrás dele, em silêncio, deixando que a antecipação fizesse o seu trabalho.

— Vou tocar-te — avisou, num tom baixo. — Só isso.

           Deixou as tiras caírem pela primeira vez nas costas de Rafael com uma leveza quase cerimonial. O som foi suave, abafado, e o efeito foi imediato: Rafael estremeceu, um arrepio a percorrer-lhe a espinha de cima a baixo. Leo repetiu o gesto, desta vez um pouco mais abaixo, e depois mais abaixo ainda, seguindo a linha das costas com uma atenção meticulosa.

          Entre cada toque, deixava a mão livre pousar brevemente na pele aquecida — para contrastar, para acalmar, para lembrar Rafael que era ele quem estava ali.

          As tiras percorreram os ombros, as omoplatas, a curva da lombar. Depois os flancos, com mais delicadeza, sabendo que ali a pele era mais sensível. Rafael gemeu baixinho, o som mais parecido com espanto do que com dor, e Leo parou.

— Está bem?

— Sim — veio a resposta, rouca, quase presa na garganta. — Continua.

         Leo moveu-se para o lado, para que as tiras pudessem alcançar as coxas. Ali a sensação era diferente — mais intensa, mais próxima de um limite que Rafael ainda estava a descobrir. O mais novo arqueou ligeiramente, involuntariamente, e Leo reconheceu o gesto: não era recuo. Era o corpo a aprender uma linguagem nova.

          A cada passagem do flogger, a pele de Rafael ia ganhando calor. Não havia marcas — Leo não o queria assim —, apenas uma rubor difuso, como se a superfície do corpo tivesse acordado de um sono longo.

         Quando terminou, Leo largou o flogger e aproximou-se devagar. Pousou os lábios entre as omoplatas de Rafael — um beijo quieto, quente — e ficou assim por um segundo.

— Fizeste muito bem — disse, contra a pele.

         Rafael não respondeu com palavras. Deixou a cabeça cair ligeiramente para a frente e soltou um suspiro longo, fundo, como se tivesse estado a segurar o ar desde o início.

         Leo inclinou-se, pousou as mãos nos ombros de Rafael e ajudou-o a levantar com cuidado — um gesto firme, mas cheio de atenção. Rafael estava trêmulo, as pernas pouco seguras, e Leo susteve-o por um instante antes de o guiar para a cama, deitando-o de costas com uma lentidão quase reverente.

        A venda continuava no lugar.

— Mãos acima da cabeça — disse Leo, num tom que não admitia hesitação, mas que também não pressionava. — E não as moves. Seja o que for que aconteça.

        Rafael obedeceu, estendendo os braços e cruzando os pulsos sobre a almofada. A posição deixava-o completamente aberto — o peito exposto, o ventre, tudo — e a consciência disso atravessou-o como uma corrente. Estava entregue. Completamente.

         Leo ficou parado junto à cama por um momento, a olhar para ele.

       Havia qualquer coisa de sagrado naquele silêncio.

        Quando o flogger tocou o peito pela primeira vez, Rafael inspirou de golpe. As tiras eram suaves, mas a pele da frente era diferente — mais íntima, menos preparada para aquele estímulo. Leo trabalhou devagar, sem pressa, descendo pelo esterno, pelos flancos, deixando o calor acumular-se camada por camada.

        Quando as tiras roçaram os mamilos, Rafael arqueou, um som pequeno e involuntário a escapar-lhe dos lábios. Leo pausou, observou, e repetiu — desta vez ainda com mais leveza, sabendo exatamente o efeito que produzia. Rafael apertou os punhos acima da cabeça, mas não os moveu.

— Muito bem — murmurou Leo.

         Desceu. A face interna das coxas recebeu as tiras com uma intensidade diferente, mais aguda, e Rafael torceu-se ligeiramente, o corpo a tentar fugir ao que ao mesmo tempo procurava. Leo pousou a mão livre na anca do mais novo — uma âncora — e continuou.

         Quando o flogger tocou o membro, Rafael soltou um gemido aberto, sem defesa, o som mais honesto que Leo lhe havia ouvido até então. Não era dor. Era algo entre a surpresa e o desejo, uma fronteira que    Rafael estava a aprender a reconhecer como sua.

         Leo largou o flogger.

         O silêncio que se seguiu foi diferente do anterior — mais carregado, mais quente. Leo percorreu com as mãos o que as tiras tinham aquecido, devagar, como se estivesse a ler o corpo de Rafael pela primeira vez. Rafael tremeu sob aquele toque, os braços ainda esticados, os pulsos cruzados, fiel ao que lhe fora pedido.

— Não movas as mãos — lembrou Leo, em voz baixa, antes de se debruçar e retirar a venda com cuidado.

        Rafael piscou os olhos, desorientado pela luz. Demorou um segundo a focar o rosto de Leo sobre si — e quando o fez, algo nele cedeu por completo.

        Leo ergueu-lhe as pernas devagar, com uma atenção que tornava o gesto simultaneamente íntimo e solene. Com os mesmos cuidados de sempre, retirou o plug — Rafael fechou os olhos, a respiração a prender-se um instante —, e Leo ficou quieto, à espera.

— Continuo? — perguntou.

        Não era protocolo. Era genuíno.

        Rafael abriu os olhos e encontrou os de Leo.

— Continua — respondeu, com uma voz que não tremeu.

        Leo entrou nele devagar, como se quisesse que Rafael sentisse cada instante sem que nenhum se perdesse. Rafael manteve os braços acima da cabeça, os pulsos juntos, agarrando-se à almofada quando o corpo inteiro se ajustou àquela presença nova — densa, real, incontornável.

         Havia uma dor breve, honesta, que Rafael não escondeu. E Leo viu-a, reconheceu-a e parou.

— Respira.

        Rafael respirou. E a dor foi-se desfazendo como névoa, substituída por qualquer coisa que ele ainda não sabia nomear — uma plenitude que não era apenas física, que descia até a um lugar dentro de si onde nunca ninguém tinha chegado.

         Leo moveu-se com uma lentidão deliberada, os olhos fixos em Rafael, lendo-o em tempo real. Não havia pressa. Havia apenas os dois, o calor entre eles, a respiração que foi encontrando um ritmo comum.

         Rafael não tirou as mãos do lugar.

         Mesmo quando o corpo lho pediu, mesmo quando tudo nele queria agarrar Leo, puxá-lo, tê-lo mais perto — manteve os pulsos cruzados sobre a almofada, e essa contenção tornou-se a sua própria forma de entrega. Leo viu isso. Sentiu isso. E inclinou-se para beijar Rafael na testa, num gesto que não tinha nada de dominador — tinha tudo de amor.

— Estou aqui — disse, contra a pele dele. — Não vou a lado nenhum.

        E Rafael, com os olhos fechados e as mãos quietas acima da cabeça, acreditou.

        Leo não se afastou de imediato.

        Ficou sobre Rafael por um momento, a respiração ainda pesada, a testa encostada à dele — como se precisasse daquele ponto de contacto para voltar a si próprio também. Depois, com cuidado, separou-se devagar e deitou-se ao lado do mais novo, puxando-o imediatamente para os seus braços.

         Rafael veio sem resistência, o corpo mole, os olhos semifechados.

— Estás bem? — perguntou Leo, a voz rouca, mas suave.

— Estou — respondeu Rafael, e a palavra saiu pequena, como se viesse de muito longe.

         Leo não insistiu. Ficou a observá-lo em silêncio, a mão a mover-se devagar pelas costas do mais novo — um movimento lento, rítmico, sem intenção além do conforto. Rafael tinha o rosto encostado ao seu peito, e Leo sentia-lhe a respiração a normalizar, a ir ficando mais funda, mais quieta.

         Mas havia qualquer coisa.

        Leo conhecia-o bem o suficiente para sentir.

— Rafael — chamou, baixinho.

          O mais novo levantou os olhos, e Leo viu neles qualquer coisa que não era tristeza, mas que tinha o mesmo peso. Uma emoção que não encontrava forma, que ficava suspensa entre o peito e a garganta sem saber por onde sair.

— O que é isso? — perguntou Leo, sem alarme, apenas com atenção.

         Rafael abanou a cabeça, um gesto pequeno.

—Não sei. Não é nada mau. É só… — parou, procurou palavras — …muito.

        Leo abraçou-o mais fundo, encostando os lábios à sua cabeça.e.

— É normal — disse. — O corpo liberta muita coisa. Não tens de perceber agora o que é.

         L eo abraçou-o mais fundo, encostando os lábios à sua cabeça.e. ele não tentou escondê-la. Leo sentiu-a antes de a ver — o calor breve contra o seu peito — e não disse nada. Apenas continuou a mover a mão pelas costas do mais novo, devagar, sem pressa, como se o tempo lhes pertencesse.

          Depois de alguns minutos, Leo levantou-se com cuidado, certificando-se de que Rafael ficava coberto antes de se afastar. Regressou pouco depois com um copo de água e uma toalha quente, que usou para limpar o corpo do mais novo com uma atenção quase silenciosa — cada gesto pensado, nenhum apressado.

           Rafael deixou-se tratar, os olhos a seguir Leo com uma expressão que misturava gratidão e qualquer coisa mais profunda, mais difícil de nomear.

— Obrigado — disse, quando Leo se voltou a deitar ao seu lado.

         Leo olhou para ele.

— Porquê?

         Rafael demorou um momento, como se quisesse escolher bem as palavras.

— Por me teres mostrado esse lado teu. Sei que não era fácil… mostrar isso a mim.

          Leo ficou quieto, a olhar para ele com uma expressão que Rafael raramente lhe via — aberta, sem defesas.

— Como te sentiste? — perguntou, por fim. — A sério.

        Rafael pensou. Não havia resposta simples, e Leo sabia disso, por isso esperou.

— Assustado no início — admitiu, com honestidade. — Mas não do tipo mau. Era mais… não saber o que esperar. — Fez uma pausa curta. — E depois foi desaparecendo. E fiquei só… presente. Mais presente do que alguma vez me senti.

           Leo ouviu-o sem interromper.

— Gostaste? — perguntou, e havia na voz dele uma vulnerabilidade que Rafael reconheceu como rara.

— Gostei — respondeu Rafael, sem hesitar desta vez. — Muito mais do que pensei que ia gostar.

          O canto da boca de Leo subiu, mas ficou em silêncio.

— Quero aprender mais — acrescentou Rafael, e disse aquilo a olhar diretamente para Leo, para que não houvesse margem para dúvida. — Contigo. Ao teu ritmo. Quero conhecer tudo o que és.

          Leo demorou um momento antes de responder.

— Contigo é diferente — disse, por fim.

         Rafael levantou o olhar.

— Diferente como?

        Leo escolheu as palavras com cuidado, como quem mexe em algo frágil.

— Já o fiz antes. Com outros. — Fez uma pausa breve. — Mas nunca com alguém que amasse. E isso assustava-me mais do que admito.

         Rafael ficou quieto, à espera.

— Tinha medo — continuou Leo, a voz mais baixa — de que te magoasse. Não o corpo… a outra coisa. Que misturasses o que acontece ali com o que sinto por ti e ficasses confuso. Ou que eu próprio ficasse.

— E ficaste?

         Leo olhou para ele por um momento.

— Não. — E havia alívio genuíno naquela palavra. — Foi o contrário. Nunca me senti tão perto de ti como esta noite.

         Rafael encostou a cabeça ao peito de Leo, e Leo sentiu-o acomodar-se ali com um cuidado que dizia tudo.

— Eu sabia que ias tratar-me bem — murmurou Rafael. — Por isso pedi. Precisava que soubesses que confio em ti. Em tudo o que és.

          Leo fechou os olhos por um instante.

        Havia anos que guardava aquele lado de si como algo separado — um compartimento fechado, longe de tudo o que era importante. E Rafael, com a sua calma e a sua teimosia suave, tinha simplesmente aberto a porta e entrado.

        Sem medo. Sem julgamento.

       Apenas ele.

— Obrigado — disse Leo, por fim.

         Rafael levantou a cabeça, surpreendido.

— Eu é que devia agradecer.

— Não. — Leo olhou para ele com uma seriedade quieta. — Obrigado por não teres desistido de conhecer-me todo.

          Rafael não respondeu. Voltou a encostar a cabeça ao peito de Leo, e desta vez ficou ali, quieto, a ouvir o coração do outro a bater num ritmo já familiar.

          Leo pousou a mão nas suas costas e recomeçou aquele movimento lento, rítmico, que Rafael já associava a segurança.

          E ali, sem mais palavras, deixaram que o silêncio dissesse o resto.

         Rafael aninhou-se contra ele, o nariz no pescoço de Leo, e fechou os olhos. A mão de Leo continuou a mover-se pelas suas costas — lenta, constante, como uma promessa que não precisava de palavras.

         E ali, envoltos pelo calor e pelo silêncio do quarto, Rafael adormeceu.

         Leo ficou acordado mais algum tempo, com o mais novo nos braços, a observar a forma como a respiração dele se ia tornando mais funda, mais tranquila. Havia qualquer coisa dentro do peito de Leo que também tinha cedido naquela noite — uma parede antiga, que ele nem sabia que ainda estava de pé.

        Fechou os olhos.


🍃 🍃 🍃


         A manhã chegou devagar, com a luz suave a entrar pelas frestas das cortinas. Rafael despertou primeiro, ainda aninhado no peito de Leo, e ficou ali alguns segundos a observar o rosto dele — tranquilo, sereno, quase menino no sono. Sorriu, sentindo o coração aquecer com a lembrança da noite anterior.

          Leo abriu os olhos pouco depois, preguiçoso, e deixou um beijo leve na testa de Rafael.

— Bom dia, Anjo. Como estás? Foi demais? — Na voz de Leo havia uma preocupação genuína, como se tivesse ultrapassado um limite, como se tivesse escalado um muro sem saber o que o esperava do outro lado do outro lado.

— Bom dia, amor. — respondeu Rafael, com aquele sorriso que só Leo conseguia arrancar-lhe, aconchegando mais nos braços do amado. — Estou bem, dorido, mas muito bem. Aquele foste tu…e eu gostei daquele Leo também. Não me importo de o ver e sentir mais vezes, se esse Leo me quiser ensinar mais.

         Leo libertou o ar que não sabia estar a reter ao ouvir a resposta de Rafael.

— Amo-te, meu pequeno Anjo.

— Também te amo.

        Ficaram assim por instantes, num silêncio confortável, até Leo murmurar:

— Preparado para o almoço de hoje?

        Rafael riu baixinho.

— Eles já te conhecem, Leo. Só falta o Jorge… e ele avalia tudo.

        Leo ergueu uma sobrancelha, fingindo preocupação.

— Então vou ser avaliado pelo arquiteto mais crítico da família?

— Provavelmente — respondeu Rafael, divertido. — Mas ele vai gostar de ti.

        Leo puxou-o para um beijo lento, cheio de calma.

— Desde que tu gostes de mim, o resto é fácil.

         Tomaram banho juntos, e o vapor quente parecia envolver os dois num casulo onde o mundo deixava de existir. Começaram a brincar, a salpicar água um no outro, mas a brincadeira não durou muito. Bastou um olhar mais demorado, um toque que ficou tempo demais, para que o ambiente mudasse.

         Leo aproximou-se por trás, deslizando as mãos pela cintura de Rafael, puxando-o devagar contra si. O toque era suave, mas carregado de intenção. Rafael prendeu a respiração, sentindo o corpo responder antes mesmo de pensar.

          Leo sorriu contra o pescoço dele, deixando um beijo lento, quase preguiçoso, que se transformou num segundo beijo mais profundo, mais firme. As mãos de Rafael subiram pelo peito de Leo, explorando-o com uma ousadia nova, como se estivesse a testar limites — e a descobrir que não havia limites ali, não com ele.

— Se continuares a tocar-me assim… — murmurou Leo, num tom baixo, rouco, provocador — não te deixo sair deste banho tão cedo.

         Rafael sentiu o rosto aquecer, mas não recuou. Pelo contrário, aproximou-se mais, deixando as mãos descerem um pouco, só o suficiente para provocar um suspiro de Leo — um som baixo, contido, que fez o corpo de Rafael vibrar.

— Então não deixes — respondeu, surpreendendo até a si próprio.

         Leo riu baixinho, um riso quente, satisfeito, e virou-o de frente, prendendo-o com o olhar.

— Estás a provocar-me, amor.

— Talvez — murmurou Rafael, mordendo o lábio.

          O toque de Leo tornou-se mais lento, mais profundo, mais íntimo, claro o suficiente para que ambos soubessem exatamente o que estavam a fazer. As respirações aceleraram, os corpos moveram-se num ritmo que só eles entendiam, guiados por desejo, confiança e descoberta.

        As palavras misturavam-se com toques:

— Assim está bem?

— Está… continua.

— Diz-me se for demais.

— Não é. Quero-te.

          O vapor abafava o mundo, e o silêncio só era quebrado por suspiros partilhados, por beijos que começavam suaves e terminavam intensos, por movimentos que diziam tudo sem precisar de ser descritos.

         E naquele banho, guiados pela confiança e pelo desejo tranquilo de estarem juntos, voltaram a encontrar-se de forma íntima e profunda. E o que veio depois pertenceu apenas aos dois.

         Quando finalmente saíram do banho, apoiados um no outro, ainda com o coração acelerado e as faces coradas, Rafael encostou a testa à de Leo, sorrindo como quem guarda um segredo só deles.

— Isto… — murmurou, ofegante — vai ser difícil de superar.

         Leo passou o polegar pelo lábio dele, provocador..

— Então vamos tentar superar mais tarde.

        Rafael riu, empurrando-o de leve no peito.

— Tu és impossível.

— Só contigo — respondeu Leo, puxando-o para um beijo lento, cheio de promessa.

          Vestiram-se depois, ainda a trocar olhares cúmplices e pequenos toques que denunciavam o que tinha acontecido — e o que ainda podia acontecer mais tarde

          O telemóvel vibrou em cima da cómoda.

          Rafael pegou nele e sorriu ao ver o nome da mãe.

📩 “Filho, o almoço é à 1h. Venham com calma. Beijinhos.”

         Rafael mostrou a mensagem a Leo, que se aproximou para espreitar.

— A tua mãe é tão organizada — comentou Leo, divertido.

— Ela gosta de ter tudo controlado — respondeu Rafael, rindo. — E gosta de garantir que ninguém chega atrasado.

          Leo deu-lhe um beijo rápido no pescoço antes de se afastar para calçar os sapatos.

— Então vamos fazer-lhe a vontade.

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