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Capítulo 13 — O Primeiro Beijo

        Assim que cruzaram a porta, Leo percebeu a inquietação do rapaz. Parou, virou-se para ele e, com delicadeza, segurou-lhe os ombros, obrigando-o a encará-lo. O olhar de Rafael mantinha-se no chão, incapaz de esconder a vulnerabilidade.

        Com um gesto suave, Leo levantou-lhe o queixo, procurando os olhos do seu Anjo.

— Anjo, que se passa? Olha para mim… estás nervoso? Não queres sair comigo? Achas que ainda é cedo? Tens medo de mim? Por favor, fala comigo, meu Anjo.

         Vendo que Rafael permanecia calado e desconfortável, Leo decidiu não insistir. Pegou novamente na mão do rapaz, preparando-se para guiá-lo de volta ao interior da casa.

— Desculpa se me precipitei… fiquemos por aqui, se te sentires mais confortável. Eu só queria estar contigo e conhecer-te melhor.

         Leo parou, ainda segurando a mão de Rafael.

        O silêncio pesou no ar. Rafael olhou para o chão, as mãos a tremer, o coração acelerado enquanto procurava as palavras certas.

— Desculpa… não é nada do que estás a pensar. Eu também quero sair contigo, quero estar contigo e não tenho medo de ti. Não tenho mesmo. É só que…

        Rafael hesitou, desviando o olhar, receoso de afastar quem tanto desejava ao seu lado.

— Fala, Anjo…— pediu Leo, a voz baixa e ansiosa. — Estou aqui a tentar adivinhar o que se passa e não quero imaginar o pior.

          Rafael respirou fundo.

— Tenho medo que deixes de gostar de mim… exatamente por ser muito novo. Não tenho experiência de qualquer tipo, tudo isto é novo para mim. Deves querer alguém mais velho, com mais experiência. Não sei o que fazer ou como me comportar para que não deixes de gostar de mim

         A voz vacilou, mas a sinceridade era absoluta. O medo de não ser suficiente, de ser rejeitado antes mesmo de viver aquele sentimento, transbordava em cada palavra.

        Leo não hesitou.

— Para… apenas para. Meu anjo, meu garotinho…

        Puxou Rafael para os seus braços e abraçou-o com ternura, acariciando-lhe a cabeça e depositando beijos suaves no alto. Rafael sentiu o coração acelerar ao ouvir aquelas palavras, um sorriso tímido surgindo-lhe nos lábios enquanto se aconchegava ainda mais.

— Eu gosto de ti como és e pelo que és — continuou Leo, com voz firme e doce. — Sei que não tens experiência, e isso é algo que aprecio em ti. Gosto de poder ensinar-te tudo aos poucos. Não quero que te transformes em algo que não és só para me agradar. Sê tu mesmo, é só o que te peço. Se fores tu mesmo, prometo que serei eu mesmo também. E, acima de tudo, quero diálogo. Qualquer dúvida, qualquer medo… falamos. Nada de imaginar coisas sozinho. Prometes?

— Prometo. E desculpa-me… — suspirou Rafael, olhando-o nos olhos, sentindo-se mais seguro a cada palavra.

        Leo sorriu.

— Está tudo bem. E acredita: vou respeitar o teu tempo. Tudo acontecerá ao teu ritmo, só quando tu quiseres. Nunca te forçarei a nada… bom, mentira —inclinou-se ligeiramente, com um brilho divertido — não te livrarás de uns beijinhos. Vou querer beijar a tua boca, provar o seu interior e sentir a maciez dos teus lábios. Isso não está aberto a negociação.

         Rafael soltou um riso tímido, ainda aconchegado nos braços dele.

— Obrigado pela paciência. Estou a comportar-me como uma criança, mas quero muito que gostes de mim… porque eu gosto muito de ti. Sinto-me confortável contigo, sem medo de nada… bem, agora um bocadinho assustado…

        Leo endireitou-se, preocupado, mas Rafael apressou-se a explicar, rindo nervosamente:

— Nunca beijei. Daí estar assustado… e se tu não gostares…

        Rafael não terminou a frase.

         Leo afastou-o apenas o suficiente para ver o seu rosto. Depois aproximou-se devagar e tocou os lábios dele com os seus — um beijo leve, delicado, quase um sussurro.

        O rosto de Rafael tingiu-se de vermelho, os olhos brilhando de emoção.

— Isto foi para te calares e deixares de pensar parvoíces — murmurou Leo, com um sorriso. — Vou adorar ensinar-te. E vou adorar ser o primeiro. Percebido?

         Rafael sorriu, finalmente descontraído.

— Sim, senhor. Percebidíssimo.

        Leo riu e beliscou-lhe o queixo.

— Atrevidote, o meu garotinho.

— Disseste para ser eu mesmo — respondeu Rafael, franzindo a testa de forma adorável.

        Leo abriu a porta do carro para ele, num gesto cheio de cuidado. O rapaz entrou, ainda com um sorriso tímido, e Leo deu a volta para se sentar ao volante.

        O caminho demorou cerca de quinze minutos. Sempre que podia, Leo procurava a mão de Rafael para entrelaçar os dedos nos dele. Era o único toque que se permitia dar. Embora desejasse aproximar-se mais, controlava-se — e, surpreendentemente, sentia-se bem assim.

— Anjo, mais calmo?— perguntou, sem tirar os olhos da estrada.

— Sim, agora já estou bem.

— Confortável?

          Rafael assentiu. O tom de Leo fazia-o sentir-se protegido.

        Leo apertou-lhe a mão com suavidade, mas Rafael afastou-a devagar… apenas para pousá-la sobre a própria perna, convidando-o silenciosamente a tocá-lo ali.

— E com isto também— disse Rafael, num tom brincalhão — desde que fique quietinha e não avance muito.

        Leo soltou uma gargalhada.

— Mensagem recebida, meu pequeno Anjo.

         Rafael sorriu, mas a curiosidade venceu-o.

— Porque é que me chamas assim?

        Leo virou o rosto por um instante, preocupado.

— Não gostas? Posso chamar-te outra coisa.

— Nada disso. Eu gosto. Só queria saber porquê.

         Leo sorriu, lembrando-se do primeiro encontro.

— Porque naquele dia… quando te vi… pareceste-me um anjo. O meu pequeno Anjo de olhos azuis, que me sorriu de um jeito tímido e derreteu o gelo no meu coração.

       Rafael corou, desviando o olhar.

— Gosto quando me chamas de Anjo… ou garotinho.

        Leo pousou a mão na coxa dele, num gesto lento, quase reverente.

— É o que tu és. O meu pequeno Anjo… o meu garotinho.

        O toque fez Rafael estremecer. Um som suave escapou-lhe dos lábios, involuntário, quase impercetível.

        Leo fingiu não notar, mas o coração dele vibrou com aquele pequeno sinal de sensibilidade. Havia algo de profundamente encantador em Rafael — algo que o fazia querer protegê-lo e provocá-lo ao mesmo tempo.

        Manteve a mão quieta, apenas pousada, firme e respeitosa. Mas a mente fugiu-lhe por um instante — para o som que Rafael tinha feito, involuntário, quase inaudível, e para quantos outros sons poderia arrancar-lhe com paciência e tempo. O desejo era real, físico, difícil de ignorar. Mas havia algo mais forte do que o desejo: a vontade de fazer aquilo direito.

        E, em silêncio, pensou:

       "Tão sensível, meu Anjo… mal imaginas o esforço que faço para não te provocar mais gemidos como aquele. Mas vou esperar. E quando chegar a altura… vou aprender cada um deles


🍃 🍃 🍃


         O carro desacelerou ao sair da estrada principal, mergulhando numa via estreita ladeada por ciprestes e sombras densas.

         O restaurante surgiu à frente como uma aparição: um antigo casarão de pedra, com janelas amplas e varandas de madeira escura. Lanternas pendiam dos beirais, lançando uma luz dourada sobre jardins cuidados, roseiras em flor, caminhos de cascalho e uma fonte discreta a murmurar ao fundo. Tudo ali parecia pensado para acolher, envolver, seduzir sem pressa.

         Rafael engoliu em seco. Sentia-se pequeno diante da imponência do lugar, mas também especial — como se aquele cenário tivesse sido montado só para ele. O toque discreto de Leo na sua coxa carregava uma tensão silenciosa. O silêncio entre ambos era cheio de significados.

         “Ele está a conter-se por mim.”

         A ideia aqueceu-lhe o peito. Havia algo na forma como Leo o olhava, conduzia e tocava — sempre atento aos limites — que o fazia sentir-se visto. Não apenas desejado, mas compreendido.

        Ao descer do carro, o ar fresco da noite envolveu-o. O perfume das flores misturava-se ao aroma distante da comida. Rafael inspirou devagar, tentando acalmar o turbilhão dentro de si. Leo veio ao seu lado, sem pressa, e pousou-lhe a mão nas costas; um gesto simples, mas que dizia: “Estou contigo.”

         Leo estacionou no recanto reservado do restaurante, sob a sombra de uma figueira antiga.  Contornou o carro para abrir a porta de Rafael, estendendo-lhe a mão com um gesto de cuidado e solenidade.

        Rafael saiu devagar, olhos arregalados diante do cenário. O casarão iluminado parecia saído de um conto antigo; janelas altas, varandas de madeira esculpida, jardins perfumados.

— Isto aqui é lindo…— murmurou, quase sem fôlego. Depois olhou para Leo, com um brilho nos olhos. — Obrigado.

        Leo sorriu e, com um toque leve nas costas de Rafael, respondeu:

— Anda, Príncipe. Vamos entrar.

         O calor da mão de Leo era firme, reconfortante. Rafael deixou-se guiar, sentindo o coração bater mais rápido — não só pela beleza do lugar, mas pela presença ao seu lado.

        À entrada, foram recebidos por um senhor de idade, sorriso fácil e olhos que pareciam guardar histórias de décadas.

— Boa noite, Sr. Mattos! Já não o víamos por aqui há algum tempo. Como vai a família?— disse ele, animado.

— Boa noite, Afonso. A família vai bem, obrigado. E a sua? — respondeu Leo, natural.

— Tudo tranquilo. A minha filha teve um menino há pouco tempo. Já sou avô— disse o homem, orgulhoso.

— Parabéns. Este aqui é o meu… — Leo hesitou. A palavra namorado pairou na ponta da língua, mas não saiu. Não queria assumir algo que ainda não tinham conversado. — Meu amigo.

         Rafael cumprimentou o senhor com um sorriso educado, mas sentiu o olhar demorado do homem pousar sobre si; não hostil, mas curioso, talvez avaliador. Isso bastou para que a sua mente começasse a correr.

         “Ele já é conhecido aqui… Com quem será que costuma vir? Será este lugar um dos seus refúgios? Será que todos me olham como mais um?”

        A dúvida instalou-se como uma sombra, e o sorriso de Rafael esmoreceu. Afonso percebeu, mas não comentou. Leo notou a mudança: o franzir leve das sobrancelhas, o silêncio repentino, o desvio do olhar.

        Leo pousou a mão nas costas de Rafael, num gesto quase impercetível, mas cheio de intenção.

— Está tudo bem?— murmurou, enquanto Afonso os conduzia à mesa.

        Rafael assentiu, mas a resposta veio com atraso.

— Sim… só estou a pensar demais, talvez.

         O interior do restaurante era amplo e acolhedor, com uma estética que preservava a alma da antiga quinta. Vigas de madeira escura cruzavam o teto; objetos rústicos — arados, lanternas, molduras gastas — decoravam as paredes com elegância. Cada peça parecia contar uma história, como se o tempo tivesse sido restaurado em detalhes.

          O chão de pedra polida refletia a luz suave das velas, e o aroma no ar misturava vinho, alecrim e pão acabado de sair do forno.

         Foram conduzidos a uma mesa junto à janela, onde cortinas de linho filtravam a luz suave dos candeeiros exteriores. Leo puxou a cadeira para Rafael com um gesto cortês, mas os olhos que o acompanhavam diziam mais do que qualquer palavra.

— Estás bem?— perguntou Leo, com a voz baixa, quase íntima.

— Estou… só um pouco nervoso. Este lugar é tão bonito. Parece que tudo aqui tem história.

— Tem mesmo. E agora, também tem a tua — disse Leo, sorrindo.

         Rafael sentiu o calor subir-lhe ao rosto.

         Enquanto escolhiam os pratos, Rafael observava Leo em silêncio. Havia algo na forma como ele se movia; a segurança nos gestos, o modo como os dedos tocavam o menu, como se cada escolha fosse feita com intenção.

— Anjo, o que se passou? E não me digas que não é nada… esse teu rostinho lindo não me engana— disse com suavidade, estendendo a mão para acariciar a bochecha de Rafael.

        O toque foi leve, mas incendiou algo dentro do rapaz. Rafael corou imediatamente, entre o feliz e o desconcertado, como se o gesto tivesse revelado demais. Era uma tortura doce; aquela mistura de afeto e desejo contido.

— Bem… é só estranho —murmurou Rafael, desviando o olhar. — Todos te conhecem aqui. E olharam-me de um jeito… não sei. Parecia que estavam a pensar que eu sou só mais um que tu trazes.

         Leo soltou uma gargalhada inesperada — não de escárnio, mas de ternura. Rafael levantou o rosto, surpreso.

— Com ciúmes, Anjo?

— Por que teria ciúmes? Não são ciúmes. É só que… — tentou continuar, mas a frase morreu na garganta.

        Leo não o pressionou; limitou-se a olhá-lo com compreensão.

— Não és mais um. E se algum dia alguém aqui pensar isso… é porque não te viu como eu te vejo.

       Rafael sentiu o coração apertar e, ao mesmo tempo, expandir.

— Tontinho… não precisas de ter ciúmes — disse Leo, com um sorriso suave. — Tenho 32 anos, não sou nenhum santo. É natural que tenha tido os meus casos antes…, mas isso foi antes de te conhecer.

          Rafael manteve o olhar baixo, os dedos brincando com a borda do guardanapo.

— Agora és só tu— continuou Leo, baixando ainda mais a voz. — E és diferente. És especial para mim. Sei que é cedo, mas… estás a tornar-te alguém muito importante na minha vida.

        As palavras entraram como luz por uma fresta que Rafael nem sabia que tinha deixado aberta.

— Nunca te traria a um sítio onde trouxe outros… nunca — disse Leo, firme. — Aliás, sabes por que te olharam assim quando entrámos?

        Rafael abanou a cabeça.

— Porque nunca aqui trouxe ninguém. A não ser a minha família. Este lugar é especial. É onde venho com os meus irmãos e o resto da família. E quando me confirmaste que vinhas jantar comigo… eu quis trazer-te aqui.

          Leo fez uma pausa, inclinou-se ligeiramente sobre a mesa e completou:

— Devem estar a pensar quem és tu. Porque sabem que não és da família. Ou melhor… não eras. Porque se tu quiseres… irás fazer parte dela.

         Rafael ergueu o rosto devagar, os olhos brilhando com surpresa e emoção. A insegurança que o consumia minutos antes começava a dissolver-se, substituída por algo mais profundo: a sensação de ser escolhido, de ser visto com verdade.

— Disse alguma coisa que não tenhas gostado? — perguntou Leo, preocupado, inclinando-se sobre a mesa. — Tens de começar a acreditar em mim, por favor.

        O tom era sincero, quase aflito. A ideia de ter magoado Rafael, mesmo sem querer, mexia com ele mais do que esperava.

        Antes que Rafael pudesse responder, um dos empregados aproximou-se com discrição.

— Aqui, senhores— disse, entregando os menus com um sorriso educado.

        Sobre a mesa, dispôs uma seleção de entradas: pão fresco, manteigas aromatizadas, queijos locais, azeitonas temperadas e outras pequenas iguarias que perfumaram o ar com promessas de aconchego.

— Obrigado— agradeceu Leo, tentando recuperar o equilíbrio emocional.

— Já volto para receber os pedidos. Entretanto, o que vão querer beber?

— Para mim, vinho tinto da casa. E tu, Anjo?

        Rafael corou ao ouvir o apelido em público, mas não disse nada. Sabia que Leo não o fizera por provocação; era natural, espontâneo. E, no fundo, gostava.

— Uma cola, por favor.

       O empregado recolheu os pedidos e afastou-se.

      O silêncio voltou, mas desta vez foi Rafael quem o quebrou. Respirou fundo e olhou para Leo com uma expressão que misturava vulnerabilidade e coragem.

— Eu… não chorei porque me magoaste. Foi o contrário. — A voz saiu baixa, mas firme. — É que… ninguém nunca me disse essas coisas. Que sou especial. Que posso fazer parte de alguma coisa.

         Leo não respondeu de imediato. Apenas estendeu a mão por cima da mesa e entrelaçou os dedos nos de Rafael, num gesto calmo e seguro.

— Então deixa-me ser o primeiro de muitos. Porque tu és especial. E não quero que duvides disso nem por um segundo.

         Rafael sorriu, ainda com os olhos marejados, mas agora com uma luz nova — a de quem começa a acreditar.

— Leo…— começou, hesitante. — Desculpa-me. É só que… para mim, tudo isto é novo. Mas eu acredito em ti, juro que acredito. Só te peço um pouco de tempo para me habituar.

        Leo manteve o olhar firme, atento.

— Eu gosto de ti. Gosto mesmo. Tu és um homem maduro, seguro de si… adoro a forma como me tratas. Sinto o teu carinho em cada gesto, em cada palavra. Estamos juntos há pouco tempo, mas… eu sinto-me tão confortável contigo. Só tenho medo… medo de que, por ser novo e não ter experiência, tu te canses de mim.

         Leo sorriu com ternura, e a sua voz veio como um abraço.

— Anjo, isso não vai acontecer. Nunca me cansarei de ti. Vou adorar ensinar-te, mostrar-te o mundo como eu o vejo. Isso encanta-me. Mas sabes… não é só desejo o que sinto por ti. Não que não te deseje; acredita, desejo-te muito. Só estar contigo já me deixa em chamas. E sei que tu também sentes.

        Rafael corou, desviando o olhar, mas não afastou a mão que Leo segurava com firmeza.

— Mas antes de tocar o teu corpo… eu quero algo mais valioso — disse Leo, com suavidade.

— O quê?— perguntou Rafael, confuso.

        Leo estendeu o dedo e tocou o centro do peito do rapaz, sobre o coração.

— Isto. O teu coraçãozinho. É isso que quero primeiro. O meu… já é teu.

        Rafael sentiu um nó na garganta, mas conseguiu sorrir.

— Eu acho que o meu também já é teu.

        Leo apertou-lhe a mão com mais força, como quem sela uma promessa silenciosa.

       Depois, com cuidado, perguntou:

— Anjo… tu podes comer de tudo? A tua doença não te impõe restrições?

       Rafael compreendeu o carinho implícito na pergunta.

— Calma. Eu posso comer de tudo. Só preciso controlar o meu açúcar depois. E, se for preciso, faço insulina.

— Controlar como?— perguntou Leo, genuinamente interessado.

— Picando o dedo. Tenho uma máquina que mede o açúcar. Consoante os valores, vejo a insulina que preciso tomar.

— Meu Anjo, essa diabetes faz parte de quem tu és, por isso quero aprender sobre ela. Quero saber o que fazer se algum dia for preciso. Odiei ver-te ali, deitado, inconsciente… e não saber o que fazer. Quero estar preparado. Quero cuidar de ti.

         Rafael olhou para ele com os olhos marejados, cheios de confiança.

— Eu ensino-te. Tudo o que precisares. Porque eu também quero que fiques.

        Rafael observou Leo atentamente, ainda incerto se ele estava a brincar ou a falar a sério. Mas o olhar de Leo não deixava dúvidas: a sinceridade estava ali, explícita no brilho dos seus olhos.

— Claro que te ensinarei, se estiveres mesmo interessado — disse Rafael, com um sorriso tímido.

         Para aliviar o peso emocional, Leo mudou de assunto com naturalidade:

— Preferes carne ou peixe?

— Tanto faz. O que aconselhas?

— O bacalhau com natas deles é excelente.

— Então pode ser. Eu gosto.

        Os pedidos foram feitos. O aroma das entradas envolvia o espaço com aconchego. A conversa fluía com naturalidade, como se já se conhecessem há muito tempo. Havia pausas suaves, sorrisos partilhados, olhares que diziam mais do que palavras.

— Nunca me preocupei com os sentimentos dos outros com quem estive —confessou Leo, a voz baixa. — Normalmente era só sexo… e depois adeus. Contigo é diferente. Muito diferente.

         Rafael absorvia cada palavra como se fossem pétalas a pousar-lhe no peito.

— Não te quero deixar— continuou Leo. — Quero que me conheças como sou de verdade. Preocupo-me contigo, com o que pensas, com o que sentes. Quero que tudo entre nós seja agradável para ti, ao teu ritmo. Tu és o mais importante neste momento… não aquilo que eu possa estar a desejar.

         As palavras tinham peso. Rafael via isso nos olhos dele — a sinceridade, a ternura, o cuidado. E algo dentro dele se aquecia, como se finalmente tivesse encontrado um lugar onde podia repousar.

         E quando pensou isso, um sorriso nasceu-lhe no rosto; pequeno, mas cheio de significado.

        Leo viu o sorriso e sorriu também.

— Sabes, Anjo… quando te vejo sorrir assim, sinto que tudo vale a pena. Que cada espera, cada dúvida, cada medo… tudo se dissolve nesse teu sorriso.

        Rafael baixou os olhos, tímido, mas feliz. A mão de Leo ainda segurava a sua, e o calor daquele toque parecia dizer tudo o que ainda não tinham dito.

— Eu não quero ser só o teu homem — disse Leo, com suavidade.

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