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Capítulo 1 — O Peso do Vazio

      A luz suave da manhã filtrava-se pelas cortinas, pousando sobre o casal adormecido. Leo abriu os olhos devagar, sentindo a cabeça latejar, como se martelos retinissem dentro do crânio. Por instantes, não reconheceu o quarto — nem, sobretudo, a jovem nua que repousava ao seu lado. Um desconforto percorreu-lhe o corpo. Quem era ela? Tentou recuperar memórias, mas tudo estava enevoado.

      A rapariga mexeu-se levemente, sem acordar. E então, como uma onda amarga, a noite anterior regressou-lhe à mente. Um amigo desafiara-o a sair; ele aceitara, mais por cansaço da solidão do que por vontade. A noite começara num dos bares mais badalados da cidade e terminara naquele quarto de hotel anónimo, ao lado de alguém cujo nome desconhecia. Era sempre assim. Nunca levava ninguém para casa.

       Nunca.

       Havia razões para isso. Mas evitava pensá-las.

      Não sabia o que procurava — apenas que a falta crescia.

       A dor de cabeça intensificou-se. Estendeu a mão para o telemóvel: 8h30. Uma segunda-feira. Estava atrasado, e detestava atrasos. Vestiu-se depressa, fugindo do quarto antes que a jovem acordasse. Pagou discretamente a conta na receção — o mínimo que podia fazer.

        No parque de estacionamento, entrou no Mercedes preto e conduziu até casa, uma vivenda majestosa herdada do pai. O progenitor, italiano, viera a Portugal em negócios, apaixonara-se e ali construíra família e fortuna. O verdadeiro legado não fora o dinheiro, mas os bens materiais — como aquela casa, dividida entre os três filhos.

        Leo, o primogénito, tinha 32 anos. Formado em Ciências da Comunicação, começara no jornalismo de moda e depressa percebeu que a rotina o sufocava. Criou então a própria revista, a L&L, dedicada a novos talentos e aos grandes acontecimentos do mundo da moda. O sucesso foi rápido. Depois veio a L&LEscola de Modelos Prestígio, hoje uma referência internacional.

       Aos 32 anos, Leo era dono de um património invejável e visto como um dos solteiros mais cobiçados do país. Alto, de porte atlético e olhar claro, surgia frequentemente nas listas dos homens mais atraentes. Mas não pretendia abdicar da liberdade. O passado deixara-lhe marcas profundas; tornara-se reservado, protetor do próprio coração. Para muitos, parecia frio. A verdade era outra: aprendera que tudo é efémero — e que a felicidade pode desaparecer num instante.

       Poucos atravessavam as muralhas que ergueu. A família era o seu porto seguro, e Henrique Rodrigues, amigo de infância e sócio, era dos poucos que conheciam o seu verdadeiro eu.

        Leo entrou na garagem subterrânea do edifício. O relógio marcava quase uma hora de atraso. A dor de cabeça persistia, e o peso do dia oprimia-lhe os ombros. O elevador levou-o ao último andar, onde o escritório se abria sobre a cidade — um contraste gritante com a turbulência interior que carregava.

      Ao abrir a porta, encontrou Maria, a secretária, sentada no sofá da sala de espera. Estava tensa, desconfortável. O momento era delicado — não apenas profissionalmente, mas por tudo o que ficara mal resolvido entre os dois.

      Leo parou, respirando fundo. O coração acelerou, não pela surpresa, mas pelo que sentia. Entre ambos existia uma história breve, marcada por impulsos de solidão e arrependimento. Ele lamentava ter profundamente cruzado a linha entre o profissional e o pessoal.

— Bom dia, Leo— cumprimentou Maria, com um sorriso tímido.

      Ele sentiu a necessidade de impor distância, mas com respeito.

— Bom dia, Maria. Gostava de manter a nossa relação exclusivamente profissional. Prefiro que me trate por Sr. Leo, como sempre.

        Ela hesitou, os olhos denunciando ansiedade.

— Compreendo, Sr. Leo. Sei que talvez tenha passado dos limites…, mas precisava de falar consigo. Estou numa situação delicada e achei que devia contar-lhe pessoalmente.

        Leo sentiu um nó no peito. Cada palavra dela lembrava-lhe que as suas escolhas tinham consequências.

— Descobri que estou grávida — disse, por fim. — E o bebé é seu.

        O impacto das palavras caiu como um silêncio absoluto. Leo ficou imóvel, sentindo o sangue pulsar nos ouvidos.      Recordou a única noite que tinham partilhado — um momento de fraqueza que lamentara de imediato. Nunca alimentara qualquer esperança de relação. Agora, sentia-se encurralado.

       Um frio percorreu-lhe a espinha. Não era apenas medo. Era a memória antiga daquilo que perdera. As paredes brancas do hospital, o som das máquinas, o toque da mãe no corredor vazio. O corpo fragilizado pelas cirurgias. O diagnóstico que lhe roubara a esperança de ser pai.

       Maria observava-o, como se esperasse uma reação específica.

Achei que devia saber… afinal, agora estamos ligados para sempre, não é?

        Leo respirou fundo. A voz saiu-lhe rouca, carregada de dor.

— Maria… agradeço a sua sinceridade. Mas preciso ser honesto consigo. Não posso ser o pai desse bebé.

        O silêncio prolongou-se. Maria apertou a mala contra o peito, mantendo a postura.

        Leo continuou, firme:

— Recomendo que procure apoio da sua família. Quanto à nossa relação profissional, será melhor seguirmos caminhos diferentes. Passe pelos Recursos Humanos para formalizar a saída. Farei o possível para que tudo decorra com respeito.

         Maria ergueu-se devagar, recolhendo a dignidade que restava.

        Sozinho, Leo deixou-se cair na cadeira. As lembranças voltaram: o hospital, a mulher que pensou amar e que o traiu, a tristeza que o consumiu. O segredo que guardava moldava tudo — as relações, a forma como via o mundo.

         Com um suspiro, ligou aos Recursos Humanos. Precisava de uma nova secretária.

📞 — “Bom dia, fala Leo Mattos, dono da revista L&L. Fiquei sem secretária e precisava de alguém temporário.”

📞 — [Tem preferência de género?]

📞 — “Mulher…, mas acima de tudo, alguém dedicado ao trabalho. Preciso de confiança.

📞 — [Enviarei alguém ainda hoje.]

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