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40 – Ninguém Te Vê

O Máximo começou a trabalhar nas sombras, a plantar o novo plano com calma, porque ele não tinha pressa. Estudara tudo. Os horários, os hábitos. Sabia que o Carlos começara a levar o Miguel a uma das salas privadas do piso de cima, e as horas a que isso acontecia. Sabia que ali a luz era sempre baixa. E sabia, sobretudo, uma coisa que os dois faziam sempre da mesma maneira: era o Miguel que subia primeiro, e o Carlos atrás, uns minutos depois, quando acabava o que estava a fazer lá em baixo. Entre uma entrada e outra havia uma janela de tempo. Pequena. Mas suficiente.

Suficiente, se ele não estivesse sozinho.

Porque o Máximo percebera, ao desenhar o plano, uma coisa: não conseguia estar em dois sítios ao mesmo tempo. Não podia tratar do rapaz e subir e posicionar-se, tudo naquela janela curta. Precisava de mãos. Precisava de alguém que tratasse do Miguel enquanto ele subia.

E foi por isso que, dias antes, se chegou a um dos funcionários mais novos da casa, um que sabia descontente, mal pago, com pouca lealdade à casa e menos ainda ao Carlos. Não lhe contou tudo. Contou o suficiente, e ofereceu o suficiente, para que o rapaz aceitasse fazer uma coisa simples, no momento em que ele lhe fizesse sinal: intercetar o Miguel, levá-lo com um recado a uma sala lá em baixo, e trancar a porta.

O funcionário não fez perguntas. Havia coisas, naquela casa, que era melhor não perguntar.

🍃 🍃 🍃

O Carlos abriu a porta. A sala estava como sempre, na penumbra, uma luz baixa e quente. E, junto à janela, de costas para a porta, estava o Miguel.

Mas algo não batia certo. Era o mesmo cabelo ruivo, os ombros descaídos, o mesmo corpo... mas a postura não era a mesma.

Não era assim que o seu Miguel o esperava. Não na sombra, não de costas para ele.

Nunca.

A figura na sombra pensou que era o suficiente. Ficou ali, de costas, cabeça baixa, à espera de que o Carlos se aproximasse, de que caísse na ilusão, de que o momento se consumasse.

O Carlos deu dois passos para dentro da sala.

E parou.

Houve um silêncio. E, quando o Carlos falou, a voz dele já não era suave.

Era gelo.

— Tu não és o Miguel.

A figura estremeceu. Virou-se, devagar. E era o Máximo.

Mas no rosto do Carlos não havia choque nenhum. Havia uma fúria fria, contida, absoluta, e por baixo dela, nem uma ponta de dúvida.

— Como... — O Máximo tentou. — Como é que soubeste? Nem sequer me viste a cara.

— Achas que eu não conheço o meu Miguel? — O Carlos falou baixo, e cada palavra caiu como uma pedra. — Achas que me basta um cabelo da mesma cor e uma sala às escuras? — Avançou, e o Máximo recuou por instinto. — Eu conheço a maneira como ele respira quando está à minha espera. Conheço a linha dos ombros dele, a maneira como inclina a cabeça, o ar que a sala tem quando é ele que lá está. Soube que não eras ele antes de acabar de abrir a porta.

Parou, muito perto, e os olhos dele cravaram-se nos do Máximo, que agora tinha um olhar perdido, o desespero de mais uma vez ter um plano seu a dar errado.

— E sabes, o Miguel nunca me esperaria de costas para a porta, e nunca nessa posição. E até me podias ter enganado com isso. Mas há uma coisa que tu não podes mudar, por mais que tentes. Sabes qual é?

Fez uma pausa, o olhar fixo nos olhos do outro.

— Os olhos, Máximo. Os olhos. Os dele são cinzentos como um céu de inverno. Os teus... são apenas... verdes.

O Máximo ficou branco.

E foi então que o Carlos percebeu o que aquilo queria dizer. Que, se o Máximo estava ali, no lugar do Miguel...

— Agora diz-me onde está o Miguel. — A voz do Carlos não subiu, mas ganhou uma coisa que fez o sangue do outro gelar. — O que é que lhe fizeste?

🍃 🍃 🍃

Mas o Carlos não deu tempo ao Máximo de se explicar. Saiu daquela sala, sentindo um aperto no peito, como se algo o estivesse a sufocar. A voz, que raramente se elevava, sobrepunha-se à casa, que àquela hora estava lotada. Chamava pelo Miguel, e em questão de segundos tinha ao seu redor o Ivo, o Sílvio, e gente da casa.

Todos com a mesma pergunta na cara. O Carlos era das pessoas mais calmas que eles conheciam.

— Que se passa, Carlos? Porque gritas? Onde está o Miguel? Não devias estar com ele? — O Ivo perguntou, ao dar-se conta de que o Carlos estava sozinho. E, ao olhar para a sala, que tinha a porta entreaberta, viu o Máximo encolhido a um canto.

— O Máximo — disse o Carlos, e a frieza da voz era pior do que qualquer grito. — Ele fez alguma coisa ao Miguel. Preciso que o encontrem, Ivo.

E a casa mexeu-se. O Ivo, com uma cara que ninguém lhe conhecia, saiu a dar ordens, e num instante meia dúzia de homens espalhou-se pelos corredores, pelas escadas, pelas salas de serviço.

Foi um dos funcionários mais velhos que deu o alerta, ao passar pelo corredor de serviço e ouvir gritos abafados e alguém a bater na porta. Estava fechada, e a chave tinha desaparecido. Correu a chamar o Ivo, e foi este que arrombou a fechadura.

Quando a porta se abriu, o Miguel quase caiu para fora. Estava pálido, tremia dos pés à cabeça, mas não era só do frio da arrecadação. Era algo que lhe vinha da alma, a memória das vezes em que estivera sozinho e sem ninguém para o ajudar.

Só que, dessa vez, vieram.

O Miguel percebeu que não estava sozinho.

— Está tudo bem, rapaz. — O Ivo segurou-o, com aquelas mãos enormes de repente suaves. — Já passou. O Carlos está lá em cima. Anda.

E o Miguel, a tremer, subiu.

🍃 🍃 🍃

Assim que o Miguel entrou na sala, correu para o Carlos, que o esperava com os braços abertos. O Carlos pegou-lhe na cara, e os seus olhos percorreram o Miguel de alto a baixo, à procura de um mal que, graças a Deus, não estava lá.

— Estás bem? Fizeram-te alguma coisa? — Na voz do Carlos havia preocupação. — Foi ele?

O Carlos virou o corpo para o Máximo, que se encolheu ainda mais, o olhar fixo no chão.

— Eu estou bem. Ninguém me tocou. — O Miguel abanou a cabeça, contra as mãos dele. — Alguém me disse que tu, ou o Ivo, queria falar comigo, levou-me lá para baixo e trancou-me. Foi algum dos funcionários.

O Ivo, ao ouvir aquilo, virou-se de repente.

— Um funcionário? — A voz dele, sempre tão cheia de riso, saiu dura como pedra. — Qual deles?

O Miguel descreveu-o, e o Ivo mandou dois homens ir à procura dele.

Quando o trouxeram, ficou pálido, começou a tremer, ao ver o Máximo encurralado, o Carlos de fúria fria, o Miguel são e salvo, a expressão fria no rosto do Ivo. Percebeu, nessa altura, que escolhera o lado errado, e que estava prestes a pagar por isso.

— Miguel, foi ele? — O Ivo perguntou, aproximando-se do jovem pálido, agarrando-lhe um braço.

O Miguel apenas conseguiu confirmar com a cabeça.

— Porquê? — A pergunta, na voz do Carlos, soou ríspida, fria, daquelas que não aceitam o silêncio como resposta.

Não foi feita a ninguém em particular. Foi atirada para o geral.

— O senhor Máximo só me pediu que desse um recado ao senhor Miguel, e que o fechasse no depósito. Só sei isso. — A voz do funcionário soou trémula, gaguejante.

E foi então que o Máximo, encurralado, sem nada a perder, começou a falar.

— Tu só tinhas uma missão. Uma missão simples. E fizeste com que o meu plano desse errado. — Começou por atacar o cúmplice, convencido de que a culpa de ter falhado fora dele. A sua mente não lhe permitia ver muito mais.

— Eu cumpri o que me disse. — O funcionário quase gritou. — Não tenho culpa de nada. O senhor é louco.

O Máximo deu um sorriso, quase sinistro. E, mesmo vendo o seu plano desfeito em menos de nada, ainda a sua mente distorcida achava que ele tinha tudo para dar certo.

— Foi por muito pouco, muito pouco mesmo, que tu não foste meu, Carlos. Era para ser eu. Que tem ele que eu não tenho? — Nos olhos do Máximo brilhava agora o ódio. — Eu estudei-vos durante semanas. Sabia os vossos horários, sabia quando subiam para a sala privada. E esse aí... — Virou-se para o pobre do funcionário. — Só tinha uma missão simples: conduzir o Miguel para o depósito. O resto era fácil. Bastava eu subir para a sala, e deixar que o Carlos me tocasse. Então ficaria com ele, o amor deles ficaria em cacos, e eu iria recolhê-los.

E, à medida que ele falava, o silêncio na sala ia ficando mais pesado. Porque toda a gente percebia, enfim, a dimensão do que aquele homem tinha tentado. E o funcionário, a um canto, tinha a cara de quem percebia, tarde de mais, no que se metera.

— Fora — disse-lhe o Ivo, só isso. E o funcionário foi levado, para nunca mais pôr os pés naquela casa.

— Tu tens de ser meu, Carlos. Se tu não existisses... ele era meu. — O Máximo deu um passo em frente, descontrolado, desnorteado, sem saber bem para onde, e o Carlos protegeu o Miguel com o corpo, por reflexo.

— Eu nunca seria teu. NUNCA. Mesmo que o Miguel não existisse, eu nunca te iria querer. Tu não és ninguém, Máximo. Um falso submisso. Apenas isso.

O Carlos continuava abraçado ao Miguel, pronto para dizer a sentença. Sabia que, dissesse o que dissesse, o Ivo não iria contra.

Mas, antes de o Carlos a proferir, o Miguel falou.

Todos ficaram a olhar para a pequena figura ruiva, de olhos cinzentos.

🍃 🍃 🍃

— Não.

A palavra saiu pequena, mas saiu. E o Miguel, que passara a vida inteira a calar-se, a engolir, a sofrer sozinho e em silêncio, deu um passo em frente, para fora dos braços do Carlos, para o meio da sala, para diante do homem que o tinha trancado no escuro.

O Carlos, surpreendido, deixou-o ir. Percebeu, com um instinto fundo, que aquele momento era do Miguel. Que não lho devia tirar.

— Não — repetiu o Miguel, e a voz, dessa vez, saiu-lhe mais firme. Olhou para o Máximo, e, pela primeira vez, não baixou os olhos. — Eu sei o que tu és. Sei o que tentaste fazer. E sei porquê. — Respirou. — Porque olhaste para mim e viste alguém parecido contigo. O mesmo cabelo. Mais ou menos a mesma idade. E deve ter-te comido por dentro, não deve? Ver-me a mim, com tudo o que tu querias, e pensar: porque é que a ele e não a mim?

O Máximo não disse nada. Mas qualquer coisa na cara dele estremeceu.

— Eu vou dizer-te porquê — continuou o Miguel, e havia na voz dele, agora, uma coisa nova, uma coisa que nem ele sabia que tinha. — Não é pela cara. Não é pelo cabelo. Não é por nada do que se vê. — Deu mais um passo. — É porque, quando o Carlos me olha, eu deixo-o ver-me. Inteiro. Com os meus medos, com as minhas falhas, com tudo o que eu sou. Não finjo ser outra coisa. Não me disfarço. Não armo ciladas para ser amado. Simplesmente... deixo-me ver. — Os olhos dele encheram-se, mas a voz não tremeu. — E tu passas a vida a estudar as pessoas, a calcular, a encenar, a fazer-te passar por quem não és. E depois perguntas-te porque é que ninguém te vê de verdade. — Abanou a cabeça, devagar. — Ninguém te vê, Máximo, porque tu nunca deixas ninguém ver. Escondes-te atrás de tanta coisa que já não há lá ninguém para encontrar.

O silêncio na sala era absoluto.

— Podias ter sido visto — disse o Miguel, mais baixo, e havia agora, incrivelmente, quase uma pena na voz dele. — Bastava teres deixado. Mas escolheste isto. E isto é uma vida muito só.

O Máximo abriu a boca. Não saiu nada. E, pela primeira vez em toda a noite, talvez pela primeira vez em muitos anos, os olhos verdes dele encheram-se de qualquer coisa que não era cálculo, nem inveja, nem desprezo.

Era vergonha. E, por baixo dela, uma tristeza funda e velha, de criança que nunca foi olhada.

Mas era tarde. Tarde demais, pelo menos para aquela noite.

O Carlos pousou uma mão no ombro do Miguel, um gesto de orgulho imenso, silencioso, e depois virou-se para o Máximo, e a sentença dele foi curta.

— Sai desta casa. E não voltes. — Olhou para o Ivo, que assentiu. — O Limiar está fechado para ti. Todas as casas vão saber o que fizeste. Acabou.

E o Máximo saiu, escoltado, de cabeça baixa, não a fingir desdém, dessa vez, porque já não tinha desdém nenhum para fingir. Saiu como o que era: um homem só, apanhado, exposto, a levar consigo a única coisa que sempre tivera, a sua invisibilidade, agora mais pesada do que nunca.

E, quando a porta se fechou atrás dele, o Miguel, que tinha estado tão firme, tão inteiro, tão corajoso, sentiu as pernas cederem-lhe de repente, esvaziado de toda a coragem que gastara.

E o Carlos apanhou-o, como sempre, antes que ele caísse.

— Eu vi-te — murmurou o Carlos, contra o cabelo dele, apertando-o com força. — Vi o que acabaste de fazer. Sabes há quanto tempo eu esperava para te ver falar assim? Para te ver ergueres a cabeça, defenderes-te, dizeres o que sentes? — Afastou-se só o suficiente para lhe ver a cara. — Foste magnífico, Miguel. Magnífico.

E o Miguel, esvaziado e cheio ao mesmo tempo, encostou-se a ele, e deixou-se segurar, e percebeu, com uma espécie de espanto, que qualquer coisa nele tinha mudado para sempre naquela noite.

O rapaz que se calava tinha, enfim, encontrado a voz.

E já não a ia perder.

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