39 – A Apresentação
O Carlos sabia que tinha chegado a hora de apresentar o Miguel à casa, à sua família de coração, ao seu mundo, como algo mais do que simples companheiro, como o homem que amava, e não apenas como o funcionário do Sanctum que lhe servia cafés, e que o mudara desde que entrara na vida dele.
Essa parte os amigos já conheciam. Mas o que não sabiam era que o Miguel deixara, há algum tempo, de ser só o companheiro, para ser também o submisso. O mundo tinha de saber que, por detrás de uma porta fechada, os dois tinham construído uma dinâmica, com cuidado, bem devagar, e que era, agora, uma parte tão sua como o amor.
Havia meses que o Carlos pensava nisso. Mas sentia que o rapaz ainda não estava pronto, e que a relação ainda não tinha o chão firme que uma coisa daquelas pedia. Agora, com a relação mais firme, com os amigos do Carlos a serem também os amigos do Miguel, com eles a saberem do namoro e do facto de viverem juntos, tinha chegado a hora.
Agora o Miguel já não era o rapaz perdido que entrava de cabeça baixa. Era um homem que sabia quem era, o que queria, a quem pertencia, e que o pertencer, longe de o diminuir, o tinha tornado mais inteiro do que alguma vez fora. E o Carlos, que o vira crescer assim, decidiu que chegara o momento de o assumir diante de todos.
Escolheu uma noite especial, uma daquelas em que a casa se enchia, em que os Doms de referência estavam presentes, em que O Limiar era mais do que uma casa: era uma comunidade reunida. O Ivo sabia.
A Mirella fora convidada, e viera, com o Lorenzo a seu lado. E, com eles, vinha uma terceira pessoa, uma jovem que ninguém ali reconheceu, discreta, de olhar atento, que se manteve um passo atrás e não disse nada a ninguém. A Clara. A rapariga do turno da noite do Sanctum, a quem a Mirella estendera a mão uns tempos antes, do mesmo modo, e pela mesma razão, que estendera a mão ao Miguel. Ninguém se deu ao trabalho de a apresentar, e ela não pareceu esperar que o fizessem. Ficou só a ver, com aqueles olhos que pareciam guardar tudo, o rapaz que a Mirella acolhera antes dela a ser recebido, agora, no centro de todos.
Os amigos estavam ali todos.
E, a certa altura da noite, o Carlos levou o Miguel pela mão até ao palco. O silêncio foi-se instalando conforme os dois passavam. Todos os olhos se viraram para eles: o Carlos, alto e sereno, e o rapaz ruivo a seu lado, corado, nervoso, mas de cabeça erguida.
Quando chegou ao centro do palco, sem largar a mão do Miguel, o Carlos pediu a atenção da casa. Não precisou de erguer a voz; bastou-lhe estar ali, e a sala calou-se por ele.
— Estarão a perguntar-se porque estou aqui, e o que faz o Miguel aqui também. — Começou o Carlos. — Não é novidade para nenhum de vocês que é a pessoa que amo, que me mudou a vida e me transformou num homem melhor. Esse Miguel já conhecem. — Olhou para o Miguel, e a voz dele, tão contida sempre, deixou passar toda a ternura do mundo. — Mas o que venho aqui apresentar é o outro Miguel. O que aceitou ser meu submisso. O homem que eu esperei a vida inteira sem saber que esperava. O homem que me deixou a vida completa. O homem que me aceitou não só como homem, mas como Dominador.
O Miguel estava corado, o olhar preso ao chão enquanto o Carlos discursava. Não sabia o que ele ia dizer, e ouvir aquelas palavras fez com que o coração lhe acelerasse e as lágrimas teimassem em cair.
O Carlos viu, e num gesto que tinha um pouco dos dois mundos, limpou-lhe as lágrimas, afagou-lhe a nuca, e deixou a mão pousar ali, obrigando-o, com doçura, a levantar o olhar.
— Miguel, obrigado por entrares na minha vida num momento tão sombrio, e por lhe dares luz. Tenho muito orgulho de ti e do homem em que te transformaste. Quero que todos saibam que eu, Carlos Sousa, encontrei, enfim, a minha pessoa. — Fez uma pausa. — E peço desculpa, mas os meus tempos como Dominador nesta casa chegaram ao fim. — Depois virou-se para o Ivo. — Desculpa, Ivo. Manténs o amigo, mas o Dominador da casa acabou.
Houve um instante de silêncio.
E depois a casa desfez-se em calor. O Ivo foi o primeiro, claro, um brado, palmas, os braços ao ar, e atrás dele veio o resto, os aplausos, os sorrisos, as vozes, um copo erguido aqui, uma palavra ali. O Sílvio, do seu canto, ergueu o copo e inclinou a cabeça, num gesto que do Sílvio valia por um abraço. O Vicente e a Íris, de mãos dadas, sorriam. E a Mirella? Essa olhava para o seu antigo protegido e para o rapaz que acolhera no Sanctum, com os olhos húmidos de orgulho. Vira duas pessoas perdidas encontrarem-se e soubera, antes deles, que se pertenciam. Olhou para a figura feminina ao seu lado, com o mesmo olhar com que olhara quando vira o Miguel pela primeira vez. E, pela sua mente, associou-a a uma pessoa.
O Miguel, no meio de tudo aquilo, mal conseguia respirar. Ele, que crescera sem ninguém, que enterrara a mãe sozinho, que passara a vida a ser o rapaz de quem ninguém dava por falta, estava ali, no centro de uma sala cheia, a ser reconhecido, aplaudido, acolhido, visto, como o amor de um homem bom, diante de toda uma comunidade que o recebia como um dos seus.
Olhou para o Carlos, com os olhos a arder.
E o Carlos apenas lhe apertou a mão, inclinou-se, e disse-lhe ao ouvido, só para ele, no meio de todo o barulho:
— Já não estás sozinho. Nunca mais vais estar.
E o Miguel teve de morder o lábio para não chorar ali, diante de toda a gente.
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Quando desceram do palco, juntaram-se à mesa, e festejaram, felizes.
— Hoje é por conta da casa. — E depois, com o ar descontraído que lhe era habitual, o Ivo virou-se para o Carlos, e ergueu o copo. — À felicidade. Tu mereces, amigo.
O Ivo levantou o copo, e todos o seguiram.
O Sílvio, feliz pelo amigo mas não dado a multidões, afastou-se ligeiramente, com o copo na mão.
Foi quando sentiu uma presença a seu lado, e se virou.
Era ele.
O mesmo rapaz magro, de olhos fundos, que semanas antes lhe tinha sido oferecido como um presente por um Dom que se cansara dele. O que ele recusara, por não aceitar nada que fosse imposto, e que lhe atormentava a alma desde essa altura.
Estava ali, agora. E sozinho.
O Sílvio olhou em volta, só para ter a certeza, e não viu nenhum Dominador.
E o jovem, embora de cabeça baixa, como era hábito, deixava ver, para quem o soubesse ler, uma determinação pequena, trémula, mas real.
— O senhor... — começou, e a voz saiu-lhe rouca, pouco usada. — Naquele dia, disse que só tocava em quem lho pedisse. Que ele próprio tinha de querer. Não que fosse imposto.
O Sílvio ficou muito quieto, a olhá-lo.
— Disse.
O rapaz engoliu em seco. As mãos dele tremiam, mas não recuou.
— Então eu vim pedir. — Ergueu os olhos, e sustentou, com um esforço enorme, o olhar do Sílvio. — Desta vez ninguém me mandou. Fui eu que quis vir. Agora sou eu quem quer.
Fez-se um silêncio entre os dois, no meio do barulho da festa.
E o Sílvio, o sádico com honra, o homem que nunca tocava no que lhe era dado, olhou para aquele rapaz que atravessara sozinho uma sala cheia para lhe pedir, com a boca dele, uma coisa que mais ninguém nunca lhe perguntara se ele queria, e sentiu qualquer coisa mexer-se-lhe no peito, uma coisa que não sentia havia muito tempo.
Não lhe respondeu depressa. Um homem como o Sílvio não fazia nada depressa, e muito menos isto.
— Como te chamas? — perguntou, apenas. Baixo. Sério.
— Gabriel, senhor.
— Gabriel.
O Sílvio repetiu-o, devagar, quase num sussurro, o nome a entrar-lhe na alma e a deixar lá uma leve marca, tão leve que o Sílvio nem se apercebeu. Só sabia que aquele nome lhe soava bem.
E o Gabriel, pela primeira vez em não sabia quanto tempo, ouviu o próprio nome dito por alguém como se ele valesse alguma coisa.
E, sem que ninguém lho pedisse, ajoelhou-se aos pés do Sílvio. E este apenas o deixou ficar.
Fosse o que fosse, por que motivo fosse, algo começou entre os dois, ali, naquela noite, pelas mãos de um rapaz que atravessou uma sala por vontade própria, não por imposição nem por oferta.
O que aconteceu entre os dois a partir dali é outra história. Uma que ainda não é para agora, que se há de contar noutro livro, num outro tempo.
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E, numa parte mais escura do salão, estava o Máximo. Que via tudo.
Via o Carlos e o rapaz no centro do palco, com a casa a aplaudi-los. Via o Sílvio a curvar-se para ouvir um rapaz qualquer. Via o Vicente de mão dada com uma morena. Via gente a encontrar-se, a pertencer, a ser vista, por onde quer que olhasse.
E ele ali, de copo na mão, encostado à parede, invisível no meio de toda aquela luz.
O Máximo tinha tentado de tudo. Tinha oferecido, e foi recusado. A armadilha, arrasada na mesma noite. A paciência, algo que se provou inútil. Na mente dele, um pouco distorcida da realidade, tinha jogado limpo, e em todas perdera.
E, olhando para o rapaz ruivo no centro do salão, o rapaz que tinha tudo o que devia ter sido dele, a cara que era quase a sua, a vida que ele nunca tivera, o Máximo sentiu a última corda partir-se-lhe por dentro.
Só espera. Vou acabar por te partir, de uma maneira ou de outra. Ele vai ser meu.
Pousou o copo.
E, dessa vez, quando saiu da casa para a noite, não ia a fugir de uma humilhação. Ia com a mente a trabalhar de novo, um novo plano a formar-se.
E, pela primeira vez em muito tempo, o Máximo sorriu. Um sorriso sem alegria nenhuma. O sorriso de quem já decidiu.