38 – A Armadilha de Aparências
O Miguel começou a acompanhar o Carlos ao Limiar, de uma forma natural, simplesmente porque aquele lugar fazia do Carlos quem ele era, era parte da vida dele, tal como o Miguel o era também. As idas não eram frequentes; umas noites iam ao Sanctum, outras apenas descontrair no Bar Destinos, outras apenas ficavam em casa.
Mas, de cada vez que iam, o Miguel ia de cabeça erguida, com uma naturalidade que ele próprio, meses antes, não teria imaginado possível, e eram recebidos pelos amigos do Carlos sem alaridos, e tratavam-no como se o conhecessem há muito tempo. Os amigos do Carlos tornaram-se os amigos do Miguel, também.
O Ivo recebia-o sempre com um abraço que lhe esmagava as costelas e uma piada pronta. O Sílvio cumprimentava-o com uma inclinação de cabeça e meia dúzia de palavras, mas com um respeito que o Miguel aprendera a ler. O Vicente, esse, era sempre mais reservado, mas sempre com um aperto de mão e uma frase de ânimo.
Ninguém achava estranho vê-lo ali. Era o Miguel. Era o companheiro do Carlos. Era a pessoa que descongelara o mais reservado dos quatro. Fazia parte. Estavam-lhe agradecidos.
Mas o que ninguém sabia era que, por detrás de portas fechadas, outra dinâmica começava a surgir.
Ao Limiar, por agora, o Miguel ia como quem vai à casa da família do namorado: bem-vindo, à vontade, parte da paisagem. E era bom. Era uma coisa boa, simples, quente, essa de pertencer a um sítio sem ter de fazer nada para o merecer.
Foi numa dessas noites que o Miguel reparou num par de olhos verdes e cabelo ruivo como o dele, que o olhava do outro lado do balcão.
Um olhar que o fez tremer de forma involuntária, como se uma corrente de ar frio o tivesse atravessado.
Desviou os olhos. E, quando voltou a olhar, o homem já não o olhava.
— Quem é aquele? — perguntou ao Carlos, baixo, com um gesto discreto. — O ruivo, ao balcão.
O Carlos seguiu-lhe o olhar, e por um instante qualquer coisa lhe passou pela cara, mas depressa a afastou.
— Ninguém de importante. — Puxou o Miguel um pouco mais para si. — Chama-se Máximo. Anda por aqui há uns anos. — E mudou de assunto, com uma naturalidade que, se o Miguel estivesse mais atento, teria percebido ser propositada.
O Miguel deixou o assunto morrer, mas não conseguia esquecer aquele olhar. E, nas vezes seguintes que foi ao Limiar, deu por si a evitar aquele homem sem saber bem porquê. O seu instinto, no qual aprendera a confiar, dizia-lhe que mantivesse a distância.
Quando o Máximo se aproximava, com um sorriso amável e uma conversa fácil, o Miguel respondia por educação, mas mantinha a distância, e evitava os lugares onde o Máximo pudesse estar.
O Máximo percebeu. E onde outros homens teriam desistido, a mente dele apenas mudou de planos.
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O Máximo elaborou um plano simples, porque não acreditava no amor entre aqueles dois. Aliás, não acreditava no amor de todo: no mundo dele, era uma coisa frágil, uma coisa que se comprava e se perdia, uma coisa que qualquer sombra de dúvida bastava para estilhaçar.
Então, na mente perturbada do Máximo, o seu plano era algo simples, cruel na sua simplicidade, e infalível.
O Carlos amava o rapaz, logo estava vulnerável. Bastava fazer o Carlos duvidar, plantar-lhe a imagem do rapaz nos braços de outro, e o amor partir-se-ia, e o Carlos ficaria de novo sozinho. E o Máximo estaria presente para o ajudar.
Se eu não posso ser visto, pensava, ao menos posso apagar o que ele vê.
O Máximo sabia que o rapaz não confiava nele, pela maneira como o Miguel se afastava, educado mas fechado, sempre com um pé atrás. E foi precisamente por isso que soube como o apanhar: ele confiava no Carlos.
A oportunidade veio numa noite de casa cheia.
O Máximo não a deixou escapar.
Viu o Carlos afastar-se, por minutos, chamado pelo Ivo, e o Miguel ficou sozinho, com o seu copo, encostado a uma coluna, à espera. E aproximou-se, com um ar apressado, prestável, não com aquele sorriso amável de sempre.
— O Carlos está à tua procura. — Disse-o depressa, com um à-vontade e uma certeza na voz que fizeram com que o Miguel não desconfiasse. — Pediu-me para te dizer. Está naquela sala ali ao fundo, a das gravuras, a tratar de uma coisa, e quer que vás ter com ele. Parecia importante.
E o Miguel hesitou, apenas um instante, o mesmo velho arrepio a passar-lhe pela pele, como sempre que se tratava do Máximo. Mas o recado era do Carlos, e por ele o Miguel iria ao fim do mundo, quanto mais a uma sala ao fundo do corredor. A desconfiança dele era do mensageiro, não da mensagem. E foi a mensagem que o levou.
Foi.
A sala era pequena, reservada, com gravuras antigas nas paredes e pouca luz. E estava vazia. Nem sinal do Carlos.
O Miguel parou à entrada, uma inquietação a subir-lhe pela espinha. Não está aqui. Ele disse que...
E, atrás dele, a porta fechou-se.
Quando o Miguel se virou, quem estava ali era o Máximo. Encostado à porta que acabara de fechar, com um sorriso que já não tinha nada de prestável.
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O resto aconteceu depressa.
O Máximo planeara também isso.
O Carlos vinha a sair do escritório do Ivo quando foi abordado por um dos funcionários.
— Senhor, o seu rapaz está na sala das gravuras, e não está sozinho. A porta está fechada.
O Carlos nem agradeceu, o coração a querer saltar-lhe do peito. Que terá acontecido? Se alguém lhe fizer mal, mato-o. Em nenhum momento lhe passou pela cabeça que o Miguel pudesse estar com mais alguém por vontade própria.
Apressou o passo em direção à sala. E, de dentro, assim que ouviu os passos apressados no corredor, o Máximo fez o seu lance.
Aproximou-se do Miguel de repente, invadiu-lhe o espaço, pôs-lhe uma mão na cintura e a outra na parede atrás dele, encostando-o, o corpo demasiado perto, a cara demasiado próxima, a encenar, para quem entrasse naquele segundo, o quadro perfeito de dois homens apanhados em flagrante.
O Miguel gelou, e empurrou-o, com força, com nojo.
— Tira-te de cima de mim! Mas que raio é que estás a...
A frase ficou a meio, porque a porta se abriu nesse instante, e o Carlos entrou.
E, por momentos, o mundo pareceu ficar em suspenso.
Mas logo se voltou a mover no ritmo certo, porque o Carlos viu algo que nunca passou pela mente do Máximo. Viu a mão na cintura do Miguel, viu os corpos muito perto, mas viu, acima de tudo, outra cabeça ruiva. E percebeu. E o ar voltou a entrar-lhe nos pulmões, aquele que não soubera estar a reter.
— Carlos. — A voz saiu-lhe estrangulada, a acabar de empurrar o Máximo para longe. — Carlos, isto não é... ele mentiu, disse que tu estavas aqui, eu...
O medo de que o Carlos interpretasse mal aquilo que via, de que pudesse acreditar naquilo que via, deixava-o assustado, sem fala.
Mas o que viu no olhar do Carlos estava longe do que ele imaginara. Aliás, estava longe do que o próprio Máximo pensara.
Não havia fúria. Não havia dor. Não havia a mais pequena sombra de dúvida.
No olhar do Carlos, o Miguel conseguiu ler:está tudo bem. Eu sei. Eu conheço-te. Eu confio.
E depois o Carlos virou os olhos, devagar, para o Máximo. E sorriu. Um sorriso que não tinha nada de divertido. Um sorriso que abalou o Máximo, porque havia ali uma confiança que ele não imaginava. Uma confiança que, no mundo dele, não existia.
— Máximo. — A voz dele era suave, quase gentil, e por isso mesmo aterradora. — Devo dizer que é um esforço impressionante. Conseguires atrair o Miguel até aqui, e imaginar que uma cena como esta me pudesse abalar. — Inclinou a cabeça. — E, acima de tudo, abalar a confiança que tenho no meu ruivo. Muito trabalho para nada.
O Máximo, que esperava tudo menos aquela calma, ficou um instante sem chão. E o meu ruivo pairou-lhe no ar por breves momentos.
— Eu não sei o que julgas que...
— Julgo que te esqueceste de uma coisa. — O Carlos avançou um passo para dentro da sala, sem pressa, as mãos nos bolsos. — Não. De duas coisas. E foi uma delas que te traiu. Tu achas que o amor é uma coisa que se parte com uma imagem. Que basta pores o meu homem contra uma parede e chamares-me, e eu vejo, e acredito, e fico destroçado. — Abanou a cabeça, quase com pena. — É porque é assim no teu mundo, não é? No teu mundo, tudo é frágil. Tudo se compra e se perde. Ninguém confia em ninguém, porque ninguém é digno de confiança.
O Carlos aproximou-se dos dois, e afastou o Máximo do Miguel, aconchegando-o contra si.
— Máximo, tu e ele não são a mesma pessoa. Tu não és, nem nunca vais ser, o meu ruivo. Nunca. E foi isso que te traiu.
O Máximo empalideceu.
— Mas eu conheço este homem. — A voz do Carlos baixou, e havia nela uma ternura feroz. — Sei o que ele sente por mim porque ele mo diz, todos os dias, com a boca e sem ela. Sei que ele não me trairia nem que a vida lhe fosse nisso. Aliás, sabes o que ele fez, ainda agora, mal aqui entrei? Tentou explicar-me que tu o enganaste. Ele, apanhado numa cilada que tu armaste, e a primeira coisa que lhe saiu foi proteger a verdade. — Olhou o Máximo de alto a baixo. — Podias tê-lo posto contra dez paredes. Eu olharia para ele, e ele para mim, e saberia a verdade só de o ver. Como soube agora.
Fez-se um silêncio terrível.
— Não há imagem no mundo — disse o Carlos, baixinho — que valha mais do que aquilo que eu sei.
O Máximo abriu a boca, e voltou a fechá-la. O seu plano infalível desmoronou-se como um baralho de cartas, e viu-se exposto ao ridículo, sabendo que a arma que escolhera, o amor daqueles dois, tinha sido exatamente o que o derrotara.
Isso foi o que mais lhe doeu.
— Sai — disse o Carlos. Só isso. Sem levantar a voz. — Sai, e fica longe dele. Porque a única coisa que conseguiste esta noite foi que eu passe a saber quem tu és. E acredita, Máximo, isso não te convém.
E o Máximo saiu. De cabeça erguida, a fingir desdém, mas por dentro a arder de uma humilhação nova, mais funda do que todas as outras. A humilhação de ter jogado a sua melhor cartada e de ter perdido, não por falta de esperteza, mas porque havia ali, entre aqueles dois, uma coisa que ele não sabia sequer nomear, e que era mais forte do que toda a sua paciência.
Não faz mal, disse a si próprio, no corredor, as mãos a tremer de raiva. Não faz mal.
Mas fazia. Fazia todo o mal do mundo. E, algures dentro dele, a coisa velha, a inveja, a ferida, a fome de ser visto, deu mais uma volta, e apertou, e endureceu, e começou a transformar-se numa coisa muito pior.
🍃 🍃 🍃
Naquela sala, quando os dois ficaram sozinhos, o Miguel desfez-se nos braços do Carlos.
— Desculpa, eu não sabia. Ele disse que tinhas sido tu... — as palavras saíam-lhe atropeladas, o corpo a tremer. — Disse que estavas aqui à minha espera, e eu nunca teria vindo com ele, Carlos, tu sabes que eu desconfiava dele, mas era o teu nome, era a ti que ele dizia que eu vinha ter, e eu...
— Miguel. — O Carlos apertou-o mais contra si, e depois afastou-se só o suficiente para lhe pegar na cara com as duas mãos e obrigá-lo, com doçura, a olhá-lo. — Eu sei. Não tens de me explicar nada. Fizeste exatamente o que qualquer pessoa que me ama faria: vieste ter comigo. Ele usou isso. Usou o que há de mais bonito em ti contra ti. — Limpou-lhe uma lágrima com o polegar. — Mas ouve-me bem: eu nunca, nem por um segundo, pensei que tu me tivesses traído. Nem por um segundo. Ouviste?
E o Miguel, a tremer, percebeu que era verdade. Que a confiança daquele homem nele era tão sólida, tão inteira, que nem a imagem mais condenatória do mundo a conseguira arranhar.
E aquilo, que devia ter sido a pior noite, virou-se do avesso e tornou-se outra coisa completamente diferente.
Tornou-se a noite em que o Miguel percebeu, no corpo todo, até onde ia a confiança do Carlos. Que era ilimitada. Que era à prova de tudo. O ataque do Máximo, que fora feito para partir o que os unia, só o tinha tornado mais forte.
— Anda — disse o Carlos, baixinho, puxando-o para o peito, abraçando-o inteiro. — Acabou. Já passou.
E o Miguel encostou a cara ao peito dele, e deixou-se abraçar, e sentiu, por baixo da face, o coração do Carlos a bater, calmo e certo, como sempre.
E, lá fora, no corredor, os passos do Máximo afastaram-se na escuridão.
Mas não para longe.
Nunca para muito longe.