37 🔞 – A Rede
O Carlos foi conduzindo o Miguel no seu mundo de uma forma progressiva, com muita calma, com coisas simples. Algumas o Miguel já as conhecia: os olhos vendados, as imobilizações físicas, a negação do orgasmo. Outras foram ensinadas, e aprendidas por ele de uma forma natural: as várias posições, o uso de instrumentos que, longe de lhe darem dor, o estimulavam bem mais, tornando-o mais sensível; os prendedores de mamilos, o uso de plugs.
De todas as coisas da lista que o Miguel tinha marcado com aquele pequeno traço tímido, havia uma que lhe despertava mais curiosidade, algo que nem ele próprio sabia dizer porquê. Não que gostasse da dor, porque ele não era, de facto, assim. Apenas queria saber como era. A ideia de sentir, de ser marcado, de levar no corpo um sinal do Carlos, estimulava-o. Não pela dor, mas pela entrega.
Um dia, depois de uma curta sessão de bondage, o Miguel tomou coragem e falou com o Carlos.
— Carlos, gosto do que fazemos, muito. Esse teu outro lado também gosto, mas sinto que preciso de mais. Quero saber até onde consigo entregar-me, até onde consigo ir contigo. Podes ajudar-me com isso?
O Carlos percebeu-o exatamente como era. Sabia que o Miguel não era masoquista, tal como ele próprio não era sádico. Mas entendia-o perfeitamente. E foi por isso que o preparou com todo o cuidado do mundo.
— Miguel, tens a certeza? Por mim, tudo o que temos feito está ótimo. Só que me deixes ter o controlo, que estejas disponível para mim quando eu preciso de algo, e já está mais que perfeito. Eu não sou o Sílvio.
O Carlos falou calmo, tentando perceber se o Miguel pedia por vontade própria, porque queria aprender, saber exatamente com o que podia ou não lidar, ou se apenas o queria agradar.
— Carlos, eu sei disso, mas eu quero. Mostra-me, por favor.
— Certo, se tens a certeza. Então vem comigo. — Pegou-lhe na mão e levou-o ao quarto, sentou-se numa ponta da cama, e deitou o Miguel sobre o seu colo, deixando-o exposto o suficiente para saber o que se iria passar.
O Miguel não tremeu. Muito pelo contrário: confiou.
— Miguel, vou devagar. Lembra-te de uma coisa: isto não é sobre aguentares. É sobre sentires. Não tens de aguentar nada para me agradar... espero que não seja esse o motivo. Tens uma palavra que para tudo. Ainda te lembras qual?
— Âmbar — disse o Miguel, baixo, e havia qualquer coisa de reconfortante em saber que a tinha, ali, à mão, como uma corda de segurança.
— Âmbar — confirmou o Carlos, acariciando-lhe as costas, parando nas nádegas.
E começou.
🍃 🍃 🍃
O Carlos começou leve.
A primeira veio quase sem aviso, a mão dele a descer sobre o tecido das calças do Miguel, um baque surdo, mais som do que dor. O Miguel estremeceu, mais de surpresa do que de outra coisa, o corpo a retesar-se à espera de um ardor que, através da roupa, mal chegou. Ficou um instante à escuta de si próprio, do que sentira. Não era mau. Era só... estranho. Novo.
A segunda veio igual, medida, contida, e o Carlos deixou a mão pousada depois, quieta, a sentir o corpo do rapaz debaixo dela.
— Como estás? — perguntou, baixo.
— Bem — disse o Miguel, e era verdade. — Mal senti.
Houve um sorriso na voz do Carlos, um sorriso que o Miguel não viu, mas ouviu.
— Eu sei. Isto foi só para começar. Para o teu corpo perceber que não há nada a temer. — Os dedos dele desceram à cintura das calças do Miguel. — Agora tiramos isto. Se ainda quiseres.
— Quero.
E o Carlos despiu-o, devagar, sem pressa nenhuma, e o Miguel deixou-se despir, e ficou exposto sobre o colo do homem que amava, a pele nua ao ar do quarto, e havia naquilo uma vulnerabilidade que lhe apertou o peito e que, ao mesmo tempo, o fez sentir-se estranhamente seguro. Porque estar assim, exposto, entregue, e saber que estava em mãos que nunca lhe fariam mal, era uma coisa que ele não sabia que precisava até a ter.
A mão do Carlos afagou-lhe a pele nua, devagar, morna, a prepará-la, a acalmá-la.
E depois veio a terceira.
E, dessa vez, o Miguel sentiu-a a sério.
O baque foi nítido, direto, pele contra pele, e o ardor subiu-lhe logo, quente, uma picada larga que se espalhou e latejou e depois começou, devagar, a desvanecer, deixando a pele a arder, viva, acordada. O Miguel prendeu a respiração, o corpo a reagir sozinho, e por um instante não soube o que sentia, se dor, se outra coisa, o calor a espalhar-se pelo corpo e a acendê-lo de uma maneira que ele não pensava ser possível, as duas coisas entrançadas de tal modo que a cabeça dele não as conseguia separar.
O Carlos esperou. Deixou o ardor assentar. Afagou o sítio onde a mão caíra, com uma ternura que era o oposto exato da palmada, e o contraste, o ardor e o afago, a dor e o cuidado, fez qualquer coisa girar dentro do Miguel, uma coisa quente e funda que ele não tinha nome para.
— Ainda comigo? — perguntou o Carlos.
— Ainda — disse o Miguel, a voz mais rouca do que esperava.
E vieram mais. Espaçadas, lidas, cada uma seguida do afago, do calor da mão a acalmar o que a mão acendera. E o Miguel foi percebendo, palmada a palmada, uma coisa que o surpreendeu: que não era a dor que o levava. A dor estava lá, sim, real, mas não era ela que o fazia arquear-se, que lhe esvaziava a cabeça de tudo o que não fosse aquele momento, que o fazia querer mais. Era o resto. Era estar ali, exposto e entregue. Era aquele lume que estava cada vez mais aceso dentro dele. Era saber-se marcado pela mão do Carlos, levar no corpo o calor que era prova de que era dele. Era largar-se, deixar de decidir, deixar de pensar, e confiar o corpo inteiro a outra pessoa que o segurava.
A dor era só a porta. O que estava do outro lado era a entrega. E era isso que o acendia.
Por cima dele, o Carlos lia-o todo, cada estremecer, cada som, cada mudança na respiração do rapaz, via o corpo do Miguel reagir. E o que via enchia-o de uma coisa funda, o Miguel a largar-se assim, a confiar-lhe o corpo a esse ponto, a florescer debaixo das mãos dele. Havia desejo nisso, claro que havia, o corpo do Carlos não o negava. Mas por cima do desejo havia outra coisa, maior: a reverência de quem recebe uma entrega tão completa e sabe o peso do que lhe é dado. O Miguel estava a pôr-se inteiro nas mãos dele. E o Carlos segurava-o como se segura uma coisa sagrada.
Não foram muitas. O Carlos não quis que fossem. Aquilo não era sobre quantidade, nem sobre resistência, era sobre o Miguel atravessar a porta e descobrir o que havia do outro lado. E, quando percebeu que o rapaz já lá tinha chegado, que já não estava a aguentar nada, mas a sentir tudo, parou.
🍃 🍃 🍃
E, se para o Miguel aquilo era uma travessia, para o Carlos era outra coisa, uma que ele nunca dizia em voz alta, mas que o atravessava toda inteira.
Porque conduzir aquilo, marcar o rapaz que amava, dar-lhe a dor certa na medida certa, exigia dele um domínio de si que poucos imaginariam. Por fora, o Carlos era só calma, mãos firmes, voz baixa, o controlo de sempre. Por dentro, era um homem a segurar-se com todas as forças, a medir cada gesto, a ler cada estremecer da pele do Miguel, a calcular até onde podia ir e onde tinha de parar. Um passo em falso, uma palmada a mais, um instante de distração, e podia magoá-lo a sério, magoar aquilo que mais amava no mundo. E isso, o Carlos não o permitiria nem que a vida lhe fosse nisso.
Era esse o segredo que ninguém via, que aquele controlo todo não era frieza. Era o contrário. Era amor levado ao extremo da atenção. Era conter o próprio desejo, o próprio fogo, para que o do outro pudesse arder em segurança. O prazer do Carlos não estava em bater. Nunca estivera. Estava em ver o Miguel largar-se, confiar, florescer, e em saber que era ele, o Carlos, quem tornava aquilo possível, quem segurava a rede por baixo do rapaz que se atrevia a saltar.
E havia mais, por baixo de tudo, uma coisa que lhe apertava a garganta e que ele mal se atrevia a olhar de frente.
Aquele rapaz confiava-lhe o corpo. Inteiro. Sem reservas, sem medo, sem uma sombra de dúvida. Punha-se ali, exposto, vulnerável, à mercê das mãos do Carlos, e a única coisa que havia nos olhos dele quando os erguia era confiança. Confiança absoluta. E o Carlos, que passara a vida inteira sozinho, fechado, sem deixar ninguém aproximar-se do que quer que fosse verdadeiro nele, não sabia o que tinha feito para merecer aquilo. Aquela entrega. Aquele dom.
Tu não fazes ideia do que me dás, pensou, a olhar para o rapaz derreado no seu colo. Não fazes ideia do que é, para um homem como eu, ser aquele em quem tu confias assim.
E, algures no meio daquilo, o Carlos deu por si a reparar em quanto o Miguel tinha crescido.
Lembrava-se do rapaz que entrara no Sanctum de cabeça baixa, oito meses antes, a pedir só trabalho, a não ousar querer nada, a encolher-se como quem pede desculpa por existir. E agora, aquele mesmo rapaz punha-se ali, nas mãos dele, e pedia. Pedia para ir mais longe, para explorar o que sentia, para descobrir até onde conseguia entregar-se. Já não se encolhia. Já não pedia desculpa. Sabia o que queria, e tinha coragem de o querer.
O Carlos guardou aquilo, como guardava sempre as coisas do Miguel, num sítio fundo e calado do peito. O rapaz que não ousava querer, agora ousava. E não havia, para o Carlos, prova maior de que tinham construído, os dois, uma coisa boa.
E, com tudo aquilo a passar-lhe por dentro, o Carlos puxou o Miguel para cima, para os braços, para o colo, e envolveu-o inteiro.
🍃 🍃 🍃
Ficaram assim muito tempo.
— Portaste-te lindamente. Estás seguro. Estou aqui. Foste perfeito. — O Carlos dizia-o com aquela voz morna, carregada de carinho e de afeto, junto ao cabelo do Miguel, enquanto o envolvia, uma mão a afagar-lhe as costas, a outra a segurar-lhe a nuca.
E o Miguel, derreado contra o peito do homem que amava, a pele das nádegas ainda quente, ainda a formigar, deixou-se ficar, a respirar devagar, a descer aos poucos daquele sítio alto e estranho onde tinha estado.
Não sabia bem o que sentia. Sentia a cabeça leve, como se um peso, que ele nem sabia que carregava, lhe tivesse sido tirado. E havia uma vontade de chorar que não era tristeza, e um bem-estar tão grande que quase doía, e, por cima de tudo, a certeza de que ali, com aquele homem, estava seguro. De que se tinha dado, na mesma medida em que recebera.
— Como te sentes? — perguntou o Carlos, baixo, os lábios no cabelo dele.
O Miguel pensou. Procurou a palavra. E, quando a encontrou, era a mesma de sempre, a única que servia.
— Inteiro — disse. — Sinto-me inteiro.
E o Carlos apertou-o com mais força, e não disse nada, porque não era preciso.