36 – Quem Havia de Dizer
O Miguel acordou antes do Carlos, como quase sempre, e ficou ali quieto, com a luz cinzenta da manhã a entrar pelas frestas, enquanto observava o homem que amava, deitado a seu lado, relaxado, com um braço protetor à volta da sua cintura e a respiração calma.
Esticou o braço para a mesa de cabeceira, para pegar no telemóvel, e sentiu-o apertá-lo mais contra si.
O Miguel apenas abriu um sorriso, e deixou-se aconchegar, e abriu o telemóvel. Tinha uma mensagem. Da Íris. Enviada na noite anterior, já tarde.
📩 <Miguel. Preciso de falar contigo. A sério. Fui ao Limiar hoje, com o Vicente. E acho que já percebi quem é o teu Carlos. Quem ele é a sério. Amanhã apareço aí, e tu vais contar-me TUDO, ouviste? Nem penses que te safas desta.>
O sono fugiu-lhe de repente.
O coração do Miguel acelerou, o medo a trespassar-lhe a alma, com aquele instinto de sempre, de esconder, de proteger, de guardar as coisas com medo do que os outros pensassem.
Ela sabe. A Íris sabe. Como? O que é que ela sabe, ao certo? O que é que ela vai pensar de mim?
O velho medo subiu-lhe pela garganta, o medo de ser olhado de outra maneira, de ver na cara da melhor amiga a estranheza, o juízo, o afastamento.
Mas foi algo fugaz, com o medo a dissipar-se logo de seguida, dando lugar ao alívio, que lhe encheu o peito e lhe afrouxou os ombros. Porque, no fundo, o Miguel queria que a Íris soubesse. Porque guardar algo do género de alguém que era quase uma irmã, que o conhecia melhor do que qualquer outro, pesava-lhe mais do que ele admitia. Cada vez que corava e mudava de assunto, cada meia-verdade, cada parte que não contava, era um bocadinho de distância entre os dois. E o Miguel odiava essa distância.
E agora ela sabia. Ou estava quase a saber. E ele já não ia ter de esconder.
Um sorriso nasceu-lhe na cara, sozinho, na penumbra do quarto.
— Que foi? — murmurou o Carlos, a voz pastosa de sono, sentindo-o mexer-se. — É cedo ainda, dorme.
— Não tenho sono. — O Miguel virou-se para ele. — A Íris mandou mensagem.
— E que tem isso demais? — O Carlos tinha a confusão estampada no rosto. Eram amigos, isso era natural, ou não?
— Ela esteve no Limiar ontem, com o Vicente. — O Miguel começou a explicar, largando o telemóvel e olhando-o nos olhos. — Somou dois mais dois, e percebeu quem tu és. — Uma pausa, e depois, baixo, com uma coisa molhada e feliz na voz: — Descobriu tudo sozinha. Intrometida.
— E que tem isso de mal? — perguntou o Carlos, a ler-lhe a cara, à procura de aflição. — Estás com vergonha?
O Miguel pensou. E percebeu que a resposta era a mais fácil do mundo.
— Não tem nada de mal, muito pelo contrário. É algo bom — disse. — Ela quer falar comigo hoje. — Encostou a testa ao ombro do Carlos. — Estava cansado de lhe esconder a melhor coisa que me aconteceu. Ela é a minha família. Quero que ela saiba. Quero que ela te conheça a sério.
O Carlos beijou-lhe o cabelo, e não disse nada, mas por dentro guardou aquilo, o Miguel a chamar família a alguém, o Miguel a querer juntar os dois mundos dele. Era mais um sinal de quanto o rapaz tinha crescido, de quanto já não tinha medo de ser inteiro.
— Então convida-a — disse apenas. — Esta é a casa dela também, quando quiseres.
O Miguel abriu novamente o telemóvel, mas, antes de enviar a mensagem, inclinou-se e, num gesto rápido e tímido, depositou um breve beijo nos lábios do Carlos. Apanhado de surpresa, o Carlos ficou sem reação.
Por dentro, porém, o coração transbordava-lhe de felicidade. Aquele pequeno gesto atingira-o em cheio.
🍃 🍃 🍃
A Íris pediu para sair mais cedo. A ansiedade não a largava desde a noite anterior, e agravara-se depois de o Miguel lhe enviar uma mensagem com a morada e dizer que estava pronto para falar com ela.
Apareceu ao cair da tarde. Mal a porta se abriu, preparou-se para lançar as primeiras farpas, convencida de que seria o Miguel a recebê-la. Mas quem surgiu foi a Berta.
— Boa tarde, menina — cumprimentou-a a Berta, com um sorriso feliz que não conseguia esconder. — Deve ser a Íris. O menino Miguel disse-me que viria.
Ver aquela casa encher-se de gente deixava a Berta feliz. No íntimo, sabia que isso se devia a um jovem de cabelo ruivo que, sem sequer perceber, trouxera vida de volta à casa e, sobretudo, ao coração do Carlos.
— Sim, sou eu.
— Vamos, entre. O Miguel está na sala, à sua espera — disse a Berta, afastando-se para dar passagem à Íris. — O meu nome é Berta, sou a governanta da casa. Siga-me, por favor.
A Íris seguiu-a, maravilhada com cada divisão por onde passava.
— Pode entrar. Ele está à sua espera.
A Berta afastou-se, e a Íris entrou sem bater. O Miguel estava sentado no sofá; levantou os olhos do telemóvel e sorriu.
— Tu — disse ela, apontando-lhe o dedo, entre a acusação e o riso, enquanto entrava na sala como um furacão. — Miguel Braz, tens muito que me explicar. Muito mesmo. Mas, antes disso, levanta o rabo desse sofá e dá-me um abraço.
O Miguel riu-se, levantou-se e abraçou-a. Naquele abraço não havia julgamento, apenas a Íris de sempre: a amiga que o conhecia desde miúdo e que nunca lhe falhara.
Sentaram-se. A Íris, que por norma falava pelos cotovelos, ficou em silêncio, de olhos postos nele, dando-lhe espaço para começar.
— Estou à espera. O teu Carlos e o Carlos do Vicente são a mesma pessoa ou não?
— Sim, é o mesmo Carlos.
— Sim, claro que é o mesmo. Foi o que eu pensei, ontem à noite. Mas tinha de ter a certeza, tinha de ser da tua boca. — A Íris pensou nisso, com honestidade. — O Vicente fala muito dele, assim como dos amigos. — Encolheu os ombros, e havia qualquer coisa nova na voz dela, uma coisa pensativa. — Ontem estive no Limiar, Miguel. Vi aquele mundo. E não era nada do que eu imaginava. — Procurou as palavras. — Eu esperava uma coisa... sei lá, sórdida. E encontrei uma casa. Gente que se trata com cuidado. Uma espécie de... respeito, que eu não sabia explicar. Vi coisas que não percebi, e mesmo assim não me pareceram erradas. Pareceram-me... — Calou-se, corada de repente. — Íntimas. Muito íntimas.
O Miguel percebeu, pelo rubor dela, que a Íris tinha visto mais do que dizia. E não a pressionou. Percebeu que ela precisava do seu espaço, de digerir todas as informações.
— É isso mesmo — disse só, baixinho. — É íntimo. É a coisa mais íntima que há.
A Íris olhou para ele.
— E tu... — começou, e a pergunta saiu-lhe com cuidado, como quem pisa terreno novo. — Tu estás bem com isso? Tu aceitas isso? É isso mesmo que queres? Ele não te pressiona?
— Íris, eu conheci o Carlos nesse meio, portanto nunca fui ao engano. — O Miguel pegou nas mãos da amiga, que tremiam um pouco. — Ele nunca me empurrou para nada. Começámos a namorar de uma forma natural. Falámos sobre a parte de ele ser Dominador, mas nunca foi uma imposição, ele perguntou se eu queria, certificou-se disso com frequência, deu-me espaço até que isso pudesse acontecer. — Fez uma pausa, os olhos postos nos da amiga. — Se há coisa que eu tenho a certeza na vida, é que nada acontece ali sem eu querer. Sou eu que quero. Descobri que é ali que eu me sinto... eu. Inteiro. Sei que é difícil de perceber, de fora.
— Não é assim tão difícil — disse a Íris, devagar.
E o Miguel olhou para ela, surpreendido, porque não era a resposta que esperava.
— Não? — perguntou. — Devia ser difícil? Desde quando amar é difícil? Amiga, eles podem ser Dominadores, mas antes de mais são homens, e amam-nos. Apenas isso. E acredita em mim quando te digo: os dois juntos é algo de transcendental.
O Miguel disse-o com um sorriso e um brilho nos olhos que a Íris percebeu bem; ali, conseguiu ler o amigo por inteiro.
Ela ficou a processar tudo o que o Miguel dissera. A resposta demorou. Brincou com a chávena que a Berta lhe trouxera, os olhos postos nela, e, quando falou, foi mais baixo, quase para si própria.
— Sabes, o que sinto com o Vicente não se compara ao que sentia com o Jaime. — disse. — Com o Vicente sinto a calma, sinto que me posso deixar ir, que posso confiar, que ele vai tratar das coisas. Com ele não tenho de estar sempre a guardar as coisas para mim, para não ferir, para me sentir amada, como sentia que precisava de fazer com o Jaime. Como sempre fiz a vida toda. Com o Vicente isso acontece naturalmente, essa vontade de me entregar, de confiar, de me colocar nas mãos dele. Achei que era fraqueza. Mas não é, pois não?
A Íris parou um pouco, a olhar o Miguel nos olhos, apertando-lhe mais as mãos, e deu a resposta ainda antes de o Miguel poder dizer alguma coisa.
— É outra coisa. É confiar tanto em alguém que se pode deixar de carregar tudo sozinha.
O Miguel sentiu o peito apertar-se-lhe, porque a Íris, sem saber, acabava de descrever, com as palavras dela, exatamente aquilo que ele sentia com o Carlos.
— É isso — disse, baixo. — É exatamente isso, Íris. Não é fraqueza. É a coisa mais forte que há, confiar assim.
— Íris, o Vicente alguma vez te pressionou, te enganou de alguma maneira, para que desconfies dele? Ou será que é esse querer entregar-te que te assusta?
— Miguel, eu e o Vicente já andamos a sair há uns tempos, e tu sabes disso. Ele tem sido respeitador, se me entendes. Há uns dias, acabou por me confessar aquilo que era, deu-me a conhecer a outra parte dele, só porque queria algo mais sério comigo, e não me queria enganar. Daí me ter levado ontem ao Limiar. E aquilo que eu vi ali atraiu-me, também. O Vicente, ali, era mais confiante.
— Só te posso dar a minha opinião. Tu gostas dele, eu vejo isso, e assustou-te um pouco a parte dele ser Dominador. Mas acredita... se ele te ama, vai respeitar-te e não se vai impor. Fala com ele com calma. Diz-lhe o que sentes.
A Íris assentiu, devagar, a guardar aquilo. E depois, porque o momento se tinha tornado sério de mais para o gosto dela, endireitou-se e voltou a ser a Íris protetora de sempre.
— E ele trata-te bem? — perguntou, e agora a voz era a séria. — Olha para mim e diz-me a verdade. Porque, Dom ou não Dom, se aquele homem alguma vez te fizer mal, eu própria...
— Trata-me como ninguém nunca me tratou na vida. — O Miguel disse-o sem hesitar. — Nunca me senti tão seguro. Tão cuidado. Tão visto. — Procurou como explicar-lhe. — Sabes aquela sensação de estar sempre à espera do pior, de achar que as coisas boas não são para nós? Eu vivi assim a vida toda. E com ele isso acabou. Com ele eu não tenho medo.
A Íris olhou para ele por um longo momento. E o que quer que procurasse na cara dele, encontrou-o, porque os ombros dela desceram, e o rosto suavizou-se, e ela estendeu a mão por cima da mesa e apertou a dele.
— Então ainda bem — disse, baixo. — Ainda bem, Miguel. A sério.
Ficaram os dois calados um momento, a olhar um para o outro, e havia entre eles uma coisa nova, um entendimento que não precisava de mais palavras. Dois miúdos da mesma rua pobre, cada um a descobrir, pelo seu lado, a mesma coisa impossível: que se podia largar o peso do mundo nos braços de alguém, e que isso, longe de os diminuir, os fazia maiores.
E depois, porque era a Íris, o brilho malandro voltou-lhe aos olhos, a desmanchar de vez o momento sério.
— Olha só para nós os dois — disse, entre o riso e as lágrimas. — Dois pobres coitados da mesma rua, que não tinham nada nem ninguém. E agora andamos os dois metidos no mesmo mundo esquisito, cada um com o seu Dom. — Abanou a cabeça, incrédula. — Quem havia de dizer, Miguel. Quem raio havia de dizer.
E o Miguel riu-se com ela, e por um instante foram só os dois, os de sempre, os que tinham crescido a partilhar o pouco que tinham, e que a vida, contra tudo, andava agora a encher de coisas boas.
🍃 🍃 🍃
Foi então que a porta da entrada se abriu, e a voz do Carlos soou pelo corredor.
— Miguel? — Passos, o som das chaves a pousarem numa mesa. — Estás em casa?
— Na sala — respondeu o Miguel, e havia na voz dele uma alegria que não conseguiu esconder, a alegria de ter, ali, ao mesmo tempo, as duas pessoas que mais amava no mundo.
O Carlos apareceu à porta da sala, e parou um instante ao ver que o Miguel não estava sozinho. Mas não houve nele surpresa nenhuma, nem desconforto. Olhou para a jovem sentada no sofá, e um sorriso pequeno, dos dele, assomou-lhe à cara.
— Deves ser a Íris — disse, e não era uma pergunta. Aproximou-se, e estendeu-lhe a mão com uma naturalidade de quem já a conhecia de algum lado, ainda que fosse só das histórias que o Miguel lhe contava. — Ouvi falar muito de ti. Coisas boas, quase todas.
A Íris apertou-lhe a mão, e ergueu uma sobrancelha, a medi-lo de alto a baixo sem qualquer vergonha.
— Quase todas? — repetiu. — Espero bem que sim. As outras são segredo de estado.
O Carlos riu-se, baixo, um riso curto e verdadeiro, e o Miguel, a ver aquilo, os dois a medirem-se com bom humor, sentiu uma coisa quente instalar-se-lhe no peito.
E depois o Carlos voltou-se para ele, e inclinou-se, e deu-lhe um beijo na boca, simples, breve, um beijo de quem chega a casa e cumprimenta o que é seu, sem cerimónia, sem esconder, à frente de quem estivesse. E o Miguel recebeu-o como quem já não tem nada a esconder de ninguém, e menos ainda da Íris.
Quando o Carlos se endireitou, a Íris tinha a mão no peito, num arremedo de comoção, mas os olhos a rir.
— Bem — disse. — Então é este o famoso Carlos. O homem que pôs este parvo a andar por aí com um sorriso parvo há meses. — Cruzou os braços, num veredicto de brincadeira. — Vou ter de te vigiar, sabes? Ele é como um irmão para mim. Se lhe partires o coração, não há Dom nenhum que te safe de mim.
— Íris! — protestou o Miguel, vermelho.
Mas o Carlos, esse, não se riu da ameaça. Olhou para a Íris, e havia agora nos olhos dele uma coisa séria, quase grata, por baixo do humor.
— Fico descansado — disse, e falava a sério. — Todos precisamos de alguém que nos vigie os que amamos. Ainda bem que ele te tem. E obrigado por estares presente na vida do Miguel.
E a Íris, que viera pronta para desconfiar, para o pôr à prova, para defender o amigo com unhas e dentes se fosse preciso, olhou para aquele homem que acabara de dizer aquilo, e percebeu, ali, que não ia ser preciso defender o Miguel de nada. Que o rapaz estava, enfim, em mãos que o mereciam.
E o Miguel, no meio dos dois, a olhar de um para o outro, os seus dois mundos ali reunidos na mesma sala, a darem-se bem, teve de respirar fundo para não se desfazer ali mesmo. Porque havia um ano era um rapaz sozinho num quarto por cima de uma lavandaria. E agora tinha aquilo. Tinha uma casa, um homem, uma amiga que era irmã, tudo junto, tudo seu, tudo ali.
Tudo o que ele nunca tinha ousado querer.