35 – O Limiar da Intimidade
Passaram-se alguns dias até a Íris se decidir.
Não por medo; a curiosidade nela era maior do que qualquer receio, mas porque uma coisa daquelas queria-se com a cabeça no sítio. Continuou a ver o Vicente nesse entretempo, os jantares, os passeios, as tardes na pastelaria, e a cada dia que passava sentia-se mais certa de que queria ir. De que queria ver, com os próprios olhos, aquele mundo que fazia parte do homem de quem estava a gostar.
E numa noite de sexta, enfim, disse-lhe que sim. Que estava pronta.
O Vicente veio buscá-la já depois do fecho. E, no carro, a caminho, a Íris deu por si mais nervosa do que esperava, não assustada, mas com aquele frisson de quem vai pisar terreno desconhecido. O Vicente reparou, e estendeu-lhe a mão por cima da consola.
— Podemos voltar para trás a qualquer momento — disse, baixo. — É só dizeres. Não tens de provar nada a ninguém, muito menos a mim. Eu só quero que me conheças como sou.
E a Íris apertou-lhe a mão, e respirou, e acalmou, porque essa era uma das boas coisas que aquele homem lhe fazia: acalmava-a. Mesmo à porta do desconhecido, a mão dele era chão firme.
Mas a Íris ainda não tinha aprendido a ler o Vicente, e não tinha percebido que, por baixo da aparência calma, estava alguém cujo interior tremia perante o medo de não ser aceite.
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O Limiar não era nada do que ela imaginara.
Metade da cabeça dela esperava... não sabia bem o quê. Qualquer coisa de sórdido, talvez. Escuro, exagerado, como nos filmes que o Vicente dizia que mentiam. Mas o que encontrou foi uma casa: bonita, quente, de luz baixa e boa madeira, mais parecida com um clube privado antigo do que com o que quer que ela tivesse temido. Havia conversa, e riso, e copos, e gente bem-vestida a falar como se fala em qualquer sítio onde as pessoas se conhecem e gostam umas das outras.
Por baixo de tudo, a Íris sentia uma corrente que não sabia nomear: uma atenção, um cuidado, gestos que não sabia ler, mas percebia especiais. Um mundo dentro de outro mundo. Ao seu lado, o Vicente movia-se com uma naturalidade que ela nunca lhe tinha visto, como um peixe de volta à água. Longe do homem um pouco inseguro, de falar calmo e muitas vezes pensado, que ela já ia conhecendo.
Aquele Vicente era outro.
O Vicente mudou assim que entrou no seu mundo, um mundo no qual se mexia bem, que o tornava forte, sem nem mesmo dar por isso.
A Íris viu. E gostou.
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— Vicente! — A voz caiu sobre eles como um trovão simpático, e a Íris viu aproximar-se um homem enorme, de sorriso rasgado e braços já abertos. — Até que enfim que apareces. E, parou, olhou para a Íris, e o sorriso alargou-se ainda mais — não vens sozinho.
— Íris — disse o Vicente, e havia orgulho na voz —, este é o Ivo.
— O tal do gigante barulhento — disse a Íris, antes de conseguir travar a língua.
Houve um instante de silêncio. E depois o Ivo desatou a rir, uma gargalhada enorme, de casa cheia, e virou-se para o Vicente com ar ofendido de brincadeira.
O Ivo, mais uma vez, via a felicidade num dos amigos, e o sorriso fácil externo negava-lhe o que lhe ia na alma.
— É assim que falas de mim? Gigante barulhento? — Voltou-se para a Íris, a estender-lhe a mão, encantado. — Gosto dela. Gosto muito dela. Esta pode voltar.
E a Íris, que chegara tensa, sentiu o riso soltar-lhe os ombros, e percebeu que talvez não fosse assim tão difícil, afinal.
E o Vicente deu por si a respirar fundo, como se o mundo lhe tivesse saído de cima dos ombros: a aprovação do Ivo, o olhar confiante que a Íris lhe enviava. Estou bem.
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O Sílvio era como o Vicente o descrevera: contido, sério, um homem que se guardava. Cumprimentou a Íris com uma inclinação de cabeça e poucas palavras, mas havia nos olhos dele uma atenção que não era fria, só reservada. À Íris bastou-lhe olhar para perceber que o Sílvio era daquelas pessoas observadoras, mas de poucas falas.
E ela não pôde deixar de reparar que aquele ar duro e sério era mais casca do que fruto. Que por baixo daquela pele grossa havia mais do que ele deixava ver, muito mais, ainda que ela não soubesse dizer o quê.
Viu um homem aproximar-se do Sílvio a conduzir outro, mais novo, magro, de olhos baixos, pela nuca. Viu que lho oferecia, com um gesto, como quem oferece uma coisa. E viu o Sílvio olhar para o rapaz, não com desprezo, mas com uma espécie de gravidade, e recusar. Baixo, firme, sem drama.
Mais tarde, o Vicente explicou-lhe o que ela tinha visto, mesmo sem ela lho ter pedido. E a Íris ficou a pensar naquilo.
— Eu posso ser muitas coisas, mas tenho os meus princípios — dissera o Sílvio. — E um deles é não tocar em alguém que me foi oferecido. Quem quiser tem de vir por vontade própria, não por imposição. — Encolhera os ombros. — Mesmo aqui. Ou sobretudo aqui. São seres humanos, não coisas que se possam trocar e oferecer.
E a Íris olhou para o rapaz magro, que, entretanto, se afastava de cabeça baixa, e uma série de sentimentos passou por ela: pena, ternura, não sabia bem, e um deles foi o respeito pelo homem sério que o recusara por respeito.
Há aqui mais regras do que eu julgava, pensou. E mais cuidado.
O Vicente e a Íris trocaram olhares por breves instantes, e ambos perceberam o que ia na alma do outro.
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Ao canto, um homem observava.
A Íris não deu por ele, não havia razão para dar; era só mais um rosto, encostado a uma coluna, com um copo na mão. Mas o homem, esse, deu por ela. Deu por ela e pelo Vicente, pela maneira como ele lhe pousava a mão nas costas, pela maneira como a apresentava, com orgulho, à casa toda. Deu por como lhe abriam a mesa. Por como o Ivo a acolhera. Por como, em poucos minutos, aquela desconhecida já tinha um lugar.
E o Máximo, porque era o Máximo, claro, sentiu a coisa velha remexer-se-lhe por dentro. A ela, que chegava agora, sem nada, sem ter feito nada, abriam-lhe a porta e a mesa e os braços. A ele, que ali andava havia anos, a tentar, a merecer, a esforçar-se, nunca ninguém abrira nada.
Chegam, e são recebidos. E eu estou aqui há anos, e continuo a ser paisagem.
Bebeu um gole, e os olhos dele vaguearam pela sala, e pousaram, do outro lado, sobre outra coisa que lhe apertava sempre a mesma ferida: um certo casal que não estava ali naquela noite, mas cuja ausência ele sentia como se estivesse. Um homem que voltara, e que toda a gente respeitava sem ele ter de fazer nada para o merecer. E, ao lado desse homem, na cabeça do Máximo, um rapaz ruivo, ruivo como ele, mais novo do que ele, que aparecera do nada e ficara com tudo o que devia ter sido dele.
O Máximo pousou o copo. E continuou a observar, do seu canto, invisível, a guardar coisas que ninguém sabia que ele guardava.
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A noite já ia avançada quando os olhos dela, sem que ela os mandasse, fugiram para um canto mais resguardado da casa, para uma soleira além da qual se adivinhava outra sala, outra luz, outra coisa.
E viu algo que não conseguiu compreender, um pequeno fragmento, apanhado de relance, antes de o instinto lhe mandar desviar os olhos.
Um homem sentado, e, aos pés dele, outro, ajoelhado, sereno, a cabeça pousada contra a coxa do primeiro como quem descansa num sítio onde está seguro. A mão do homem sentado repousava-lhe na nuca, quieta, sem peso, e havia naquele gesto uma coisa que a Íris não sabia nomear, uma posse que não era violenta, um cuidado que não era brando, os dois ao mesmo tempo, entrançados um no outro de uma maneira que ela nunca vira e que, no entanto, lhe pareceu, por um segundo louco, a coisa mais íntima do mundo.
Foi apenas uns instantes, mas o que ficou marcado na mente da Íris foi a cara de paz do rapaz que estava ajoelhado.
E a Íris desviou os olhos, como se tivesse sido apanhada a espreitar por um buraco de fechadura.
Mas o corpo dela não desviou tão depressa como os olhos, e qualquer coisa dentro dela acendeu-se, um formigueiro estranho, uma curiosidade quente que lhe subiu pela pele acima e a fez corar sozinha, ali de pé, sem ninguém lhe ter feito nada, sem sequer perceber o que era aquilo que a imagem lhe tinha mexido lá dentro. Só sabia que mexera. Que aquele rapaz ajoelhado, de olhos fechados e cara em paz, lhe tinha ficado atravessado nalgum sítio, e que esse sítio, agora, formigava.
Não é nada, disse a si mesma, e enxotou o pensamento como quem enxota uma mosca. É a novidade. É o sítio.
E voltou-se para o Vicente, e encostou-se a ele, e fez de conta, para si própria, que aquele formigueiro não tinha existido.
Mas o Vicente, que reparava em tudo, que a lia melhor do que ela julgava, tinha visto. Vira os olhos dela fugirem para aquele canto. Vira o rubor subir-lhe sozinho à cara. E não disse nada, aquele não era o momento, apenas o guardou para si.
Um dia, pensou, sem pressa nenhuma. Mas não hoje.
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Foi já em casa, sozinha, a tirar os brincos em frente ao espelho, que a coisa lhe caiu em cima.
Estivera a pensar na noite, no Ivo, no Sílvio, naquele mundo inteiro que afinal era mais terno do que estranho. E, sem ela dar por isso, a cabeça à solta foi passando os nomes daquela casa, um a um, como quem arruma a noite antes de dormir. O Ivo. O Sílvio. E o outro de que o Vicente falara, aquele que ela não chegara a conhecer, o tal amigo reservado e apaixonado depois de anos sozinho, o Carlos.
A Íris parou, com um brinco a meio.
Carlos.
O Vicente tinha um amigo Carlos. Daquele mundo. Um homem que voltara depois de anos fora, reservado, e que andava agora, ao que o Vicente dissera, apaixonado como nunca.
E o Miguel tinha um Carlos. O seu Carlos. Um homem que voltara, reservado, que o Miguel descrevia sempre como alguém de poucas palavras e muito respeitado, apaixonado depois de uma vida inteira sozinho.
A Íris pousou o brinco devagar.
Não podia ser. Ou podia?
Carlos era um nome como tantos. Havia Carlos aos pontapés no mundo. Mas... um Carlos reservado, que voltara depois de anos, apaixonado tarde, ligado àquele mundo, à mesma cidade, às mesmas casas onde o Miguel trabalhava?
E, de repente, tudo fez um sentido enorme e vertiginoso. O Sanctum, onde o Miguel trabalhava, era uma casa daquele mundo, o mundo do Vicente, o mundo do Limiar. E se o Carlos do Miguel era o Carlos do Vicente, então o namorado do seu melhor amigo não era só um homem rico e sério que aparecera do nada. Era um homem daquele mundo. Um Dom.
E o Miguel, o seu Miguel...
A Íris olhou para a própria cara no espelho, os olhos a arregalarem-se à medida que as peças caíam, uma atrás da outra, no sítio: o rubor do Miguel quando lhe falara do fim de semana, as partes que ele não dissera, a maneira como ele mudara nos últimos tempos, mais seguro, mais inteiro.
— Não — disse, em voz alta, para o espelho vazio. — Não me digas que...
Se o Carlos era daquele mundo, então talvez o Miguel, o seu Miguel, também já lá estivesse. Talvez houvesse, por baixo daquele namoro que ela julgara conhecer de cor, um mundo inteiro que o melhor amigo nunca lhe contara.
A Íris pegou no telemóvel antes sequer de decidir que o ia fazer. Os dedos correram-lhe pelo ecrã, depressa, o coração a bater.
📩 <Miguel. Preciso de falar contigo. A sério. Fui ao Limiar hoje, com o Vicente. E acho que já percebi quem é o teu Carlos. Quem ele é a sério. Amanhã apareço aí, e tu vais contar-me TUDO, ouviste? Nem penses que te safas desta.>
Carregou em enviar. E ficou a olhar para o ecrã, o coração aos saltos, entre o espanto, a alegria, e uma pontinha de mágoa, a mágoa boa de quem descobre que o amigo que julgava conhecer de cor ainda tinha, guardado, um mundo inteiro por partilhar.
Do outro lado da cidade, um telemóvel iluminou-se no escuro.