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34 – A Lista

O Miguel levou uns dias a ganhar coragem para pegar numa caneta.

Ler já fora difícil. A lista era clara, direta, sem rodeios, cada coisa no seu nome certo, como quem conhecia aquele mundo por dentro.

Não era a lista de um principiante. Era a lista de um homem que sabia exatamente o que perguntava e confiava que o Miguel saberia responder.

O rubor era todo do Miguel. O Carlos chamava as coisas pelo nome certo não para o expor, mas para o respeitar, para lhe dar informação real e deixá-lo decidir de verdade.

O Miguel percebeu isso. E, sozinho no quarto, uma noite, com a folha em cima da cómoda e o coração aos saltos, começou a responder.

🍃 🍃 🍃

Sem pressa. Marca só o que for verdade. O que não estiver aqui e quiseres, acrescenta. O que tiveres dúvidas, deixa em branco: falamos. C.

✔️ sim

❎ não

? a falar

Restrição
 Bondage (pulsos, tornozelos): ✔️
 Algemas / cordas: ✔️
 Venda: ✔️
 Mordaça: ?
 Imobilização total: ?

Sensação
 Spanking / disciplina: ?
 Pinças: ?
 Cera: ?
 Sangue / agulhas: ❎
 Marcação (posse): ✔️

Serviço e protocolo
 Rituais de serviço: ✔️
 Ajoelhar / posições: ✔️
 Regras de protocolo (o tratamento, as regras do dia a dia): ✔️
 Controlo de orgasmo: ✔️
 Uso de plug / brinquedos: ?

Exposição
 Cena em privado: ✔️
 Controlo em público: ?
 Exibição a terceiros: ❎
 Partilha com outros: ❎

Palavra de segurança: inegociável.

🍃 🍃 🍃

Algumas respostas foram fáceis.

Havia coisas que o Miguel já conhecia, a venda, as mãos presas, uma ordem dita no escuro, e que sabia, sem hesitar, que queria repetir. A essas marcou sim, com um sorriso pequeno a fugir-lhe para o canto da boca.

Outras nunca tinha experimentado, mas acenderam-lhe qualquer coisa só de as ler. Ajoelhar. Servir. Levar no corpo uma marca. Não sabia explicar porquê, mas confiou nesse impulso novo dentro de si. Também a essas marcou sim.

Depois vieram as dúvidas: coisas que o assustavam e atraíam na mesma medida. Não conseguia dizer que sim, mas também não queria fechar a porta. A essas pôs um ponto de interrogação, que, mais do que dúvida, queria dizer: estou disposto a tentar, contigo.

Por fim, os não.

Foram poucos, mas firmes. Partilha com outros, não. A sua entrega tinha só um nome: Carlos. A simples ideia de pertencer, ainda que por uma noite, a outra pessoa, dava-lhe um aperto no peito, e fazia o seu corpo tremer, só de imaginar.

Exibição a terceiros, nessa o seu coração balançou. Por um lado, a ideia de ser visto por outros dava-lhe um pouco de vergonha, esse não era ele; por outro, o seu coração dizia-lhe que, se aquilo fosse muito importante para o Carlos, talvez tentasse. Não o faria por vontade própria, mas por amor, porque a felicidade do Carlos era também a sua felicidade.

Ficou muito tempo com a caneta suspensa sobre aquela linha.

No fim, marcou não, mas um não pequeno, acompanhado de uma frase que tencionava dizer-lhe depois: este é não. Mas, se fosse muito importante para ti, eu tentava.

O último item da lista chamou a atenção do Miguel por estar registado como inegociável, e, embora não soubesse ao certo o que aquilo significava, deu-lhe alguma segurança, algum conforto.

Nessa noite, o Miguel ficou acordado até tarde, a pensar no que aquela lista dizia sobre ele. Não só sobre o que aceitava ou recusava, mas sobre a pessoa que, enfim, começava a deixar-se ser.

Quando se sentiu pronto, levou a lista ao Carlos.

🍃 🍃 🍃

O Carlos não estava habituado a esperar.

Tinha entregado a lista ao Miguel e pedido que a visse com calma. Agora, porém, descobria que a paciência não era tão simples quando o assunto era o homem que amava.

Os dias passavam e o Miguel não dizia nada. E, com o silêncio, vinham as dúvidas.

Talvez não devesse ter trazido o assunto para cima da mesa. Talvez estivessem bem como estavam. O que mais temia não era um "não", mas que o Miguel se assustasse ao perceber aquela parte dele. Ou pior: que dissesse "sim" apenas por amor, e não por vontade própria.

Tinha-lhe dito que não havia respostas erradas, que nada mudaria entre eles. Acreditava nisso. Mas, sozinho com os seus pensamentos, dava por si a precisar de ouvir as mesmas palavras.

Mesmo assim, não pressionou. Continuou a agir como sempre: os pequenos-almoços, as boleias, os gestos de todos os dias. O Miguel não devia carregar o peso daquela espera.

Mas, à noite, quando ficava sozinho com os pensamentos, a dúvida regressava sempre:
E se, por querer mais, estraguei a melhor coisa que a vida me deu?

Foi com esse peso que, ao fim de dias que lhe pareceram semanas, chegou a casa numa noite e encontrou o Miguel à sua espera na sala.

Com a folha na mão.

🍃 🍃 🍃

O Carlos parou à porta da sala, e viu o Miguel de pé, junto ao sofá, com a folha nas mãos. Os seus olhos cruzaram-se por momentos, e o Carlos não viu o medo, nem a vergonha, que tanto receara, mas sim uma calma nervosa, aquele tipo de calma de quem tomou uma decisão e a traz com convicção.

— Já a preenchi — disse o Miguel, e estendeu-lha.

O Carlos aproximou-se devagar, pegando na folha, e, antes de a ler, olhou para o rapaz, nos olhos, à espera de encontrar ali o que o assustava. Mas o Miguel sustentou-lhe o olhar, sereno, e o Carlos percebeu, com um alívio que quase o fez fechar os olhos, que o que quer que estivesse escrito naquela folha não fora escrito com medo.

O Carlos sentou-se, com o Miguel ao seu lado, e começou a ler.

Leu devagar, em silêncio, os olhos a percorrerem as marcas do rapaz, os sim firmes, os pontos de interrogação tímidos, os poucos não. E o Miguel, a seu lado, sentia o coração a bater-lhe na garganta, a tentar ver-lhe na cara alguma reação, sem saber se tinha respondido bem, se havia sequer maneira de responder bem.

O Carlos não disse nada durante muito tempo. E, quando falou, a voz dele estava mais baixa do que o costume.

— Obrigado — disse.

O Miguel piscou os olhos.

— Porquê?

— Por seres honesto — continuou o Carlos, e ergueu os olhos da folha. — Por não teres medo de dizer o que gostas e o que não gostas. Por não me teres dado as respostas que achavas que eu queria. Pelos muitos talvez que vejo aqui. — Pousou uma mão na cara do rapaz. — Tens ideia de quantas pessoas não conseguem dizer o que querem e o que não querem? Mas tu fizeste-o. E isso, para mim, é o mais importante.

O Miguel corou, e qualquer coisa dentro dele, uma tensão que trazia havia dias, desfez-se.

— Carlos, só fiz o que o meu coração me disse para fazer. Eu confio em ti, acima de tudo.

🍃 🍃 🍃

Reveram a lista juntos, linha a linha.

O Carlos foi esclarecendo o que precisava de ser esclarecido. Explicava os conceitos, respondia às perguntas e fazia questão de deixar claro o que cada escolha significava e, principalmente, que nunca aconteceria sem conversa, confiança e acordo dos dois.

E falava tudo com aquela naturalidade de quem conhecia aquele mundo por dentro, sem dramatismo nem mistério. E o Miguel ouvia-o com atenção, corando de vez em quando, mas absorvendo cada palavra. Era a primeira vez que alguém lhe explicava aquelas coisas de forma aberta e honesta, como quem ensina uma linguagem nova e não como quem partilha um segredo proibido.

Nos sim, o Carlos demorou-se pouco. Um aceno aqui, um sorriso discreto ali. Pareciam respostas que, de alguma forma, já conhecia.

Nos pontos de interrogação, porém, ficou mais tempo. Explicou cada um com calma, respondeu às perguntas do Miguel e repetiu mais do que uma vez que não havia pressa.

— Isto não é uma decisão para hoje — disse. — Um dia podemos falar melhor sobre esses. Experimentar algumas coisas, perceber como te sentes. E tanto pode acabar num sim como num não. Qualquer uma das respostas está certa.

O Miguel assentiu, sentindo o nó de ansiedade no peito aliviar um pouco.

E depois chegou aos não.

— Partilha com outros — leu o Carlos, baixo. E olhou para ele, o tom de voz a ficar mais firme. — Este contigo não devia sequer ter entrado aqui. Contigo, ele não vai acontecer. Tu és meu e só meu; nem que me pedisses de joelhos eu te iria partilhar com outros. Nunca. — A voz dele soou quase feroz.

O Miguel sentiu o peito aquecer.

E depois o Carlos chegou à outra linha. E o Miguel endireitou-se, porque sabia qual era, e sabia o que tinha para dizer.

— Exibição a terceiros — leu o Carlos. Uma pausa. — Também não.

— Espera — disse o Miguel, endireitando-se ligeiramente no sofá.

O Carlos ergueu os olhos.

O Miguel respirou fundo. Tinha ensaiado aquilo na cabeça, e mesmo assim custou-lhe dizê-lo em voz alta.

— Esse é não — começou, devagar. — É... eu não me imagino a gostar disso. De ser visto por outros, exposto. Não sou assim, dá-me vergonha só de pensar. Mas... — Engoliu em seco. — Mas se fosse uma coisa muito importante para ti, se fosse uma coisa de que gostasses mesmo muito, eu... eu tentava. Por ti. Não por mim. Mas eu tentava.

Fez-se um silêncio.

E o Miguel viu passar, na cara do Carlos, uma coisa que não esperava. Esperava que ele ficasse comovido, ou satisfeito. Mas o que viu foi uma seriedade funda, quase severa, e por baixo dela qualquer coisa que tremia.

Foi nesse instante que percebeu que aquelas palavras tinham tocado num ponto importante.

O Carlos pousou a folha, virou-se todo para ele, e pegou-lhe na cara com as duas mãos.

— Ouve-me com muita atenção — disse, e a voz dele saiu baixa e intensa. — Porque isto é a coisa mais importante que eu tenho para te dizer, e preciso que a graves para sempre. — Fez uma pausa. — Eu nunca, ouviste? Nunca vou querer uma coisa que tu não queres. Nunca vou aceitar um sim que na verdade é um não disfarçado de amor. Se tu não queres ser exibido, então não és exibido. Ponto final. Não há "por mim". Não há "se fosse importante para ti". Os teus não são não. A sério. Sempre.

— Mas eu quero dar-te...

— Eu sei. — O Carlos abrandou a voz, e havia agora nela uma ternura que doía. — Eu sei que queres. E essa vontade de te dobrares por mim, de me dares até o que não te apetece, é uma das coisas mais bonitas que alguém alguma vez me ofereceu. — Encostou a testa à dele. — Mas é precisamente por ser tão bonita que eu não a posso aceitar. Porque, se eu deixasse, tu darias e darias até não sobrar nada de ti. E eu não te quero assim. Eu não quero uma versão tua que se apaga para me agradar. Quero-te inteiro, Miguel. Com os teus nãos. Sobretudo com os teus nãos.

O Miguel sentiu os olhos encherem-se.

— Aquilo que tu ofereceste agora — continuou o Carlos, baixo —, guarda-o. Não mo dês. Guarda-o para ti, como a prova de que amas assim tanto. Mas nunca, nunca cedas num limite teu só porque achas que me faz feliz. Porque nada — nada, Miguel — me faz mais feliz do que saber que tu estás inteiro, e seguro, e a ser exatamente quem és.

O Miguel não conseguiu falar. Só assentiu, com os olhos a arder, e o Carlos puxou-o e beijou-lhe a testa, e ficaram assim um bocado.

— E já agora — disse o Carlos, passado um momento, mais leve, a desanuviar —, sobre isso de seres exibido. — Afastou-se só o suficiente para o olhar. — Nem que quisesses. Houve um tempo, antes de ti, em que essas coisas faziam parte do que eu era. Subir a um palco. Mostrar. Partilhar, até. — Encolheu os ombros. — Mas isso era antes. Antes de te conhecer, antes de saber o que era o amor. Tu não és os outros. Os outros eu só queria; a ti eu amo. — Abanou a cabeça, devagar. — Não. Definitivamente, tu não és uma cena. Não és um número. És a minha casa. E ninguém entra na minha casa. És o amor da minha vida.

E o Miguel percebeu, com uma onda quente a subir-lhe pelo peito e os olhos a ficarem nublados pelas lágrimas que tentavam sair, que não havia melhor declaração de amor do que aquela que tinha ouvido. E isso encheu-lhe o coração de um amor e de uma ternura que não sabia serem possíveis.

🍃 🍃 🍃

Foi o Miguel que cortou o silêncio.

— Carlos, aquele último item da lista, a palavra de segurança? Porque a colocaste logo como inegociável? O que quer isso dizer? — perguntou, ao lembrar-se do item.

— A palavra de segurança — disse o Carlos. — Porque é talvez a mais importante de todas. É ela que te vai dar segurança, tal como o nome diz. Escolhes uma palavra, que não deverá ser uma que uses habitualmente, e no momento em que a disseres eu paro tudo, seja em que altura for. E fica tudo bem: deixo de ser o Dom e passo a ser o homem que te ama. Sem perguntas, sem hesitação, sem discussão. Tu tens poder, és tu quem manda; uma palavra, e eu apenas obedeço.

O Miguel ficou a pensar. Não queria uma palavra qualquer. Queria uma que dissesse alguma coisa. E, quando percebeu qual era, corou até às orelhas, mas não desviou os olhos.

— Âmbar — disse, baixo.

O Carlos ficou muito quieto.

— Âmbar?

— É a cor dos teus olhos. — O Miguel corou mais, mas não desviou o olhar. — Foi a primeira coisa que eu vi em ti. E é... — Procurou as palavras. — Se eu alguma vez precisar de parar, quero chamar por ti. Pelo homem. Não pelo Dom. E os teus olhos são tu. O verdadeiro tu. — Encolheu os ombros, envergonhado da própria ternura. — Por isso, âmbar.

O Carlos teve de respirar fundo, porque aquilo, a maneira como o rapaz acabara de transformar a palavra de segurança numa declaração de amor, foi quase demais.

— Âmbar — repetiu, baixo, como quem sela um pacto. — Está bem. Âmbar. Nunca me vou esquecer.

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