32 – A Conversa
O Carlos passou o dia inteiro a escolher o melhor momento, e, sobretudo, o melhor lugar, para conversar com o Miguel.
Devia-lhe aquela conversa. Depois da noite anterior, isso tornara-se claro de uma forma impossível de ignorar. Queria o Miguel também naquela outra parte da sua vida: a parte que existia antes dele, que ele tinha deixado um pouco de lado desde que começaram a sair, mas que nunca desaparecera.
Continuava lá. Fazia parte do Carlos, do homem que era, da forma como se conhecia e se entendia.
Mas não queria falar disso na cama, aí o "sim" podia vir depressa demais, embalado pelo desejo, pelo calor, pela entrega do momento. E o Carlos não queria um sim nascido do corpo antes da vontade. Queria o Miguel lúcido. Inteiro. Com espaço para pensar, perguntar, recusar, aceitar, ou simplesmente precisar de tempo.
Por isso escolheu o jantar.
A mesa entre os dois parecia-lhe o lugar certo para uma conversa séria: comida, luz calma, distância suficiente para que o corpo não respondesse antes da cabeça.
Estavam sentados à mesa. A Berta acabara de servir a comida e retirara-se com a discrição de quem sabia muito bem quando devia desaparecer. Ficaram os dois a sós.
O Carlos estava mais quieto do que o habitual. Mais calado. Mexia pouco na comida, e o Miguel percebeu-o quase de imediato. Já o conhecia bem demais para não notar quando havia qualquer coisa por detrás daquele silêncio.
Por fim, o Carlos afastou o prato, pousou as mãos sobre a mesa e olhou-o de frente.
— Miguel. — O Carlos olhou-o com seriedade, mas sem dureza. — Há uma coisa sobre a qual preciso de falar contigo. Quero que me ouças até ao fim, sem pressa e sem medo.
Fez uma pausa, como se quisesse garantir que cada palavra chegava ao sítio certo.
— Seja qual for a tua resposta, nada muda entre nós. Nada mesmo. Não há respostas erradas. Pode ser sim, pode ser não, pode ser talvez. Pode até ser "ainda não sei". Mas tem de ser verdadeiro. Não porque eu quero, não porque aches que me deves alguma coisa, mas porque tu também o queres.
O olhar dele suavizou-se.
— Está bem?
O Miguel pousou o garfo devagar. O coração deu-lhe um pequeno salto, não de medo, mas daquela apreensão silenciosa de quem sente que uma porta importante está prestes a abrir-se.
Olhou para o Carlos e assentiu.
— Está bem — disse, baixo. — Estou a ouvir.
O Carlos ficou um instante em silêncio, à procura de por onde começar. Ele, que raramente precisava de procurar palavras, procurou-as agora com cuidado.
— Antes de te falar do resto, preciso de te perguntar uma coisa — disse, pousando o olhar nele. — Ontem à noite, quando te pedi para fechares os olhos e te segurei as mãos... como é que te sentiste?
Fez uma pausa, atento à reação do Miguel, sem o pressionar.
— Eu vi como reagiste. Vi como te entregaste, como confiaste em mim. Mas não quero ficar apenas com aquilo que eu vi. Quero saber o que tu sentiste. De verdade.
A voz dele baixou um pouco.
— E preciso que sejas honesto comigo, Miguel. Mesmo que a resposta seja confusa. Mesmo que ainda não saibas explicar bem. Só quero a verdade.
O Miguel ficou calado por alguns segundos, a tentar encontrar as palavras certas. Baixou os olhos por instinto, e ficou a olhar para as próprias mãos pousadas na mesa.
— Senti-me seguro — disse por fim, baixo. — Nervoso, sim. Envergonhado também. Mas nunca com medo de ti.
Olhou para o Carlos, corado, mas sem fugir.
— Quando me seguraste as mãos e me pediste para fechar os olhos, houve uma parte de mim que quis controlar tudo. Mas depois ouvi a tua voz, senti-te ali, e percebi que podia parar de tentar. Que podia confiar.
Respirou fundo.
— Foi bom. Estranho, mas bom. Como se eu pudesse largar as rédeas por um bocadinho e soubesse que tu não me deixavas cair.
A voz saiu ainda mais baixa:
— Eu gostei. Muito.
O Miguel confessou-o com o rosto corado, a respiração ligeiramente acelerada pela lembrança. O Carlos sorriu. Era a resposta que esperava ouvir, não por satisfazer uma expectativa sua, mas por senti-la verdadeira, inteira, nascida do fundo da alma da pessoa que amava.
O Carlos pegou-lhe na mão por cima da mesa, entrelaçou os dedos nos dele, e começou com calma:
— Miguel, tu sabes o que eu sou. Sabes que sou Dominador. Nunca te escondi isso. Conheceste-me no Sanctum, estiveste n'O Limiar quando me apresentaram à casa, ouviste chamarem-me Dom. Sabes que esse mundo faz parte da minha vida.
Fez uma pausa. A mão grande apertou ligeiramente a mais pequena, não para prender, mas para ancorar.
— Mas preciso que compreendas uma coisa: isto não é apenas algo que eu faço. Não é uma função, nem um papel que visto quando entro numa casa. É parte de mim. Uma parte funda, tão verdadeira como qualquer outra.
O Miguel assentiu devagar. Aquilo, de facto, não era novidade. Mas ainda não sabia onde o Carlos queria chegar.
Ou talvez soubesse.
Talvez alguma parte dele, mais honesta do que a razão, já tivesse começado a perceber.
O Carlos sentiu o assentimento do Miguel e continuou, devagar:
— O que aconteceu ontem mexeu comigo. Não pelo que fizemos, mas pela forma como te vi reagir. Pela confiança. Pela maneira como te entregaste quando percebeste que eu não te ia deixar cair.
O Miguel baixou os olhos, corado, mas não retirou a mão.
— Eu gostei — disse, quase num sussurro.
— Eu sei. — O Carlos apertou-lhe os dedos com cuidado. — E eu também gostei. E muito. Eu quero que entres nesse meu mundo, e é precisamente por isso que precisamos de falar antes de dar mais algum passo.
Fez uma pausa, escolhendo bem as palavras.
— Aquilo que viste n'O Limiar, aquilo que viste em mim, não é apenas uma cena. Não é só quarto, nem desejo, nem jogos. Há regras. Há limites. Há confiança. Há palavras que param tudo. Há conversas antes, durante e depois. Há responsabilidade. E, se algum dia isto existir entre nós dessa forma, tem de existir com verdade.
O Miguel ouviu em silêncio, atento.
— Eu não quero que entres no meu mundo só porque me amas — continuou o Carlos. — Não quero que digas sim para me agradar, nem porque achas que é isso que espero de ti. Quero-te inteiro, Miguel. Com dúvidas, com perguntas, com medo se houver medo, com vontade se houver vontade. Mas verdadeiro. Gostava de te ensinar o que é, de te mostrar, de descobrir contigo o que gostas e o que não gostas, ao meu lado, com todo o cuidado do mundo. Gostava de ser o teu Dom também, Miguel, não só o teu homem. E de te ter, a ti, como... — Parou, e escolheu a palavra com ternura. — Como aquilo que eu acho que já és, por dentro, sem nem mesmo saberes o nome.
O Miguel ficou muito quieto. Havia-lhe muita coisa a passar pela cara, e o Carlos, que sabia esperar, deixou-o ter o tempo dele.
— E se... — O Miguel começou, e parou, e recomeçou. — E se eu não for bom nisso? E se eu fizer tudo mal?
— Não há "mal". — O Carlos quase sorriu. — Não é um exame, Miguel. É uma coisa que se aprende devagar, os dois, sem pressa. E eu tenho toda a paciência do mundo para ti.
— E se eu... — Outra hesitação. — E se houver coisas que eu não quero fazer?
— Então não as fazes. — A resposta veio sem um segundo de dúvida. — Nunca. Isto não é eu a mandar e tu a obedeceres a tudo. Isto é uma coisa que construímos juntos, com regras que decidimos os dois, com limites que és tu que pões. Eu conduzo, sim. Mas conduzo dentro daquilo que tu me deres para conduzir, e nem um passo além. — Olhou-o, muito sério. — O poder é teu, Miguel. Tu é que mo dás. E podes tirá-lo quando quiseres, com uma palavra, e eu paro. Sempre. Isso nunca muda.
O Miguel ficou a olhar para ele, e o Carlos viu-lhe nos olhos a coisa a assentar, o medo a dar lugar a outra coisa, mais funda.
— E se eu disser que não? — perguntou o Miguel, baixinho. — A tudo. Se eu disser que não quero nada disto?
— Então não temos nada disto. — O Carlos disse-o com uma calma total, sem uma sombra de mágoa. — E amamo-nos exatamente como nos amamos hoje, e eu sou o homem mais feliz do mundo na mesma. Isto não é uma condição, Miguel. Eu não te amo por causa disto. Amo-te, e isto é uma coisa que eu gostava de partilhar contigo se tu quiseres. Só isso. — Estendeu a mão por cima da mesa, e pousou-a sobre a dele. — Tu não me deves este sim. Não mo deves de maneira nenhuma.
E foi talvez por isso, precisamente porque o Carlos lhe dava a liberdade toda de dizer não, que o Miguel soube, com uma clareza que o surpreendeu, que a resposta dele era sim.
Não era um sim para agradar. Não era um sim por medo de o perder. Era um sim que vinha de um sítio fundo, um sítio que ele estava só agora a começar a conhecer, o mesmo sítio de onde vinha o alívio de largar as rédeas, o gosto de se entregar, a paz de não ter de decidir. O sítio que o Carlos tinha visto nele antes de ele próprio o ver.
— Quero — disse o Miguel. E depois, mais firme, como se a própria voz o surpreendesse: — Quero, sim. Quero aprender. Quero que me mostres. Quero ser isso para ti. — Os olhos encheram-se-lhe, mas não de tristeza. — Acho que sempre quis. Só não sabia que tinha um nome.
O Carlos sentiu qualquer coisa apertar-lhe o peito, o alívio, a ternura, o desejo, tudo junto.
— Então vamos devagar. Mais devagar ainda do que até agora. Eu explico-te tudo. Tu perguntas tudo. Fazemos limites, combinamos palavras, percebemos o que queres experimentar e o que não queres. E, acima de tudo, tu podes mudar de ideias. Sempre.
— Mesmo depois de dizer sim?
— Principalmente depois de dizer sim. — A voz do Carlos saiu firme. — Um sim não é uma prisão. É uma porta aberta. E podes fechá-la quando quiseres.
O Miguel ficou calado durante alguns segundos, a absorver aquilo. Depois respirou fundo, e levantou-se da cadeira. E, sem que o Carlos lhe dissesse nada, sem que nada naquela conversa o tivesse preparado para aquilo, sem sequer decidir fazê-lo, como se o corpo soubesse uma coisa que a cabeça ainda estava a aprender, contornou a mesa, e ajoelhou-se ao lado da cadeira do Carlos.
O que fez surpreendeu-o até mesmo a ele. Porque é que fiz isto?, pensou, por um segundo, o rosto a corar. De onde veio isto? Mas, no instante seguinte ao espanto, veio outra coisa: a perceção, quieta e absoluta, de que estava bem. De que aquele chão, ao lado daquele homem, com os olhos erguidos para ele, era exatamente onde o corpo dele queria estar. Como se já o tivesse feito mil vezes. Como se tivesse passado a vida inteira a caminho daquele sítio, sem saber.
O Carlos olhou para ele, o rapaz ruivo ajoelhado a seu lado, os olhos cinzentos erguidos, cheios de uma entrega que ninguém lhe tinha pedido, e teve de respirar fundo, porque aquilo foi quase demais.
Não disse nada. Não havia nada a dizer.
Apenas ergueu a mão, devagar, e pousou-a na nuca do Miguel. Sem força. Só a mão quente, firme, a envolver-lhe a nuca, o gesto que dizia, sem palavras, eu vejo o que tu és. E recebo-te. E vou guardar-te aqui.
E o Miguel fechou os olhos, e encostou a cabeça à mão dele, e soltou um suspiro fundo, o suspiro de quem, depois de uma vida a segurar tudo sozinho, encontra enfim um sítio onde pousar.
Ficaram assim muito tempo, sem falar. O homem sentado, o rapaz ajoelhado a seu lado, a mão na nuca, a noite quieta à volta dos dois.
E, quando por fim o Miguel voltou a erguer os olhos, o Carlos sorriu-lhe, aquele sorriso raro, inteiro, que só o Miguel conhecia.
— Anda cá — disse, baixo, e puxou-o para cima, para o colo, para os braços, e beijou-lhe o alto dos caracóis. — Não é assim que se começa. Começa-se devagar, com conversa, com calma. Mas isto... — Apertou-o. — Isto que acabaste de fazer, sem que ninguém te dissesse... isto disse-me tudo o que eu precisava de saber.
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Mais tarde, já no sofá, com o Miguel encostado a ele, o Carlos foi buscar uma coisa a uma gaveta. Umas folhas, dobradas.
— Não é para agora — disse, pousando-as no colo do Miguel. — Não é para leres já, nem para responderes hoje. É só uma lista. Coisas que existem naquele mundo, umas que vais querer, outras que não, outras de que nunca ouviste falar. — Beijou-lhe a têmpora. — Lê com calma, quando te apetecer. Marca o que te desperta curiosidade, risca o que não queres nem pensar. E depois, quando estiveres pronto, falamos. Sem pressa nenhuma. Temos a vida toda.
E o Miguel pegou nas folhas, e segurou-as com as duas mãos, como se fossem uma coisa preciosa, a chave de uma porta que ele, enfim, e por sua própria vontade, escolhia abrir.