30 – O Fim da Sombra
O Carlos chegou ao Sanctum ao fim da tarde, como sempre, para levar o Miguel para casa. A rotina já instalada entre os dois: ele chegava, esperava pelo fim do turno, e o Miguel saía com aquele sorriso discreto que fazia o resto do mundo perder importância.
Agora, a bicicleta permanecia amarrada ao cano, junto à lavandaria, quase esquecida. Já não era preciso pedalar pela cidade quando havia um carro à espera, e, mais do que o carro, havia o Carlos.
Assim que entrou, o porteiro aproximou-se.
— Senhor Carlos, a Dona Mirella pediu para falar consigo. Está à sua espera no escritório.
O Carlos parou por um instante, e percebeu logo. Os "uns dias" que a Mirella lhe pedira tinham chegado ao fim. Ela descobrira alguma coisa. E a espera, finalmente, também tinha acabado.
O Miguel viu-o entrar e seguir diretamente para a sala da Mirella, em vez de ocupar o lugar do costume, e, por um instante, os olhares cruzaram-se. O Carlos deu-lhe um pequeno aceno, tranquilo, quase impercetível, como quem dizia que estava tudo bem. O Miguel devolveu-lho da mesma forma.
Não foi preciso mais nada. Àquela altura, o Miguel já conseguia ler o Carlos melhor do que lia muita gente. Sabia distinguir a calma verdadeira da calma usada como armadura. E aquela, embora controlada, trazia qualquer coisa por baixo.
Ainda assim, confiou. Sabia que a verdade viria quando tivesse de vir, e que o Carlos lha diria no momento certo. Por isso voltou ao trabalho, tentando agarrar-se às tarefas do costume. Mas, sem dar por isso, o coração ficou-lhe mais apertado.
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Na sala, a Mirella esperava-o atrás da secretária, uma pasta fina pousada à frente dela. Não havia sorriso nenhum na cara dela, só a serenidade de sempre, e por baixo, aquela dureza que o Carlos sabia reconhecer.
— Senta-te — disse ela.
O Carlos sentou-se.
— Descobri o teu homem. — A Mirella pousou a mão na pasta, mas não a abriu logo. — E é pior do que pensavas, e melhor para ti do que esperavas.
— Melhor como?
— O ginásio dele não é só um ginásio. — Inclinou-se um pouco para a frente. — O teu Jaime tem um negócio por baixo do balcão. Dois, na verdade. — Ergueu um dedo. — Vende substâncias proibidas aos clientes: anabolizantes, e outras coisas piores, sem receita nem escrúpulo, a quem lhe pague. — Ergueu outro. — E o ginásio serve de entreposto para material roubado. Equipamento, eletrónica, coisa fácil de escoar. Entra pela porta das traseiras, sai pela mesma, e ninguém faz perguntas. — Recostou-se. — Os nomes, os fornecedores, os números. Está tudo aqui. — Deu um toque na pasta. — Não é nada de hediondo. Não há sangue, não há violência. Mas há o suficiente, Carlos. O suficiente para o pôr atrás das grades uns bons anos. O suficiente para lhe tirar o ginásio, a fachada, a vida inteira que montou.
O Carlos ouviu, sem interromper, a cara sem expressão.
— E como é que descobriste isto tudo? — perguntou, por fim.
A Mirella deixou-se sorrir, um sorriso pequeno, quase divertido.
— Já te disse. Conheço a gente certa. — Empurrou a pasta pela secretária. — Um homem que trata mal os rapazes que servem aos outros esquece-se de uma coisa: que os rapazes que o servem a ele também têm olhos. E boca. E memória. — Encolheu os ombros. — Basta alguém que os saiba ouvir.
O Carlos olhou para ela durante alguns segundos, mas sabia que a Mirella não diria mais nada. Quando ela decidia que uma conversa terminara, não havia pergunta que lhe arrancasse o que ainda não queria dar.
— Está tudo aqui. Cópias. O que precisas para o afundar, se quiseres. Uma chamada tua às pessoas certas, e este homem não volta a incomodar ninguém durante uns bons anos.
O Carlos pegou na pasta. Folheou-a devagar, a cara sem expressão, os olhos âmbar a correr as páginas. E, à medida que lia, a Mirella via-lhe instalar-se na cara aquela coisa firme, total, calma, a coisa que fazia do Carlos um homem a quem não convinha declarar guerra.
— Obrigado — disse, por fim, fechando a pasta.
— Não vais usar isso, pois não? — A Mirella olhou-o. — Não da maneira que eu disse.
— Não. — O Carlos ergueu os olhos. — Não quero afundá-lo. Isso seria fácil demais. E deixava-me as mãos sujas. Além disso, não quero que o Miguel viva com a ideia de que o homem que ama mandou alguém para a cadeia por causa dele.
Fez uma pausa, a mão ainda pousada sobre a pasta.
— Eu quero que ele desapareça. Quero que perceba que eu sei. Que basta eu querer. Que, se der mais um passo na direção do Miguel, perde tudo o que tem. Homens como ele não têm medo da justiça. Têm medo de perder a máscara.
Um sorriso mínimo atravessou-lhe o rosto, sem chegar aos olhos.
— Vou mostrar-lhe o que tem a perder. Depois disso, ele próprio se afasta.
A Mirella olhou-o por um bom bocado. E depois assentiu, devagar, com qualquer coisa parecida com orgulho.
— Sempre soubeste fazer isto sem sujar as mãos.
Recostou-se na cadeira, cruzando os braços.
— Vai. Mas, Carlos...
Ele já se levantava quando parou.
— Quando ele aparecer — porque vai aparecer — não estejas sozinho com ele.
O Carlos virou ligeiramente o rosto. A Mirella sustentou-lhe o olhar.
— Faz com que o Miguel veja. Não para o assustares. Para ele perceber, com os próprios olhos, que já não está sozinho. Que há alguém entre ele e a sombra. Às vezes, ser protegido não basta. É preciso ver a proteção acontecer.
O Carlos ficou imóvel à porta, e percebeu que ela tinha razão. Como quase sempre.
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O Miguel já tinha o casaco vestido quando o Carlos saiu da sala da Mirella. Esperava-o junto à porta das traseiras, e havia-lhe no rosto a pergunta antes mesmo de a fazer.
Saíram para a rua, para o fim de tarde, e foi só quando chegaram ao carro que o Miguel a fez.
— O que é que a Mirella queria?
O Carlos abriu-lhe a porta, e esperou que ele entrasse, e deu a volta, e sentou-se ao lado dele. Não meteu logo o carro em andamento. Ficou um instante, as mãos no volante, a decidir, mas não a decidir se contava. Isso já estava decidido. A decidir só como.
— Lembras-te de eu te ter dito que ia tratar do Jaime? — disse, por fim. — Pedi ajuda à Mirella. Para saber quem ele é, o que faz, por onde o posso apertar. — Olhou para o Miguel. — E ela descobriu. Descobriu tudo.
O Miguel ficou muito quieto.
— Não te vou esconder isto, Miguel — continuou o Carlos, e a voz dele era calma, firme, sem drama nenhum. — Prometemos um ao outro contar as coisas. Eu andei a guardar esta enquanto não tinha nada nas mãos, para não te pôr a carregar um peso que ainda não podia tirar-te. Mas agora tenho. E agora conto-te. — E contou. Do ginásio, do que o Jaime fazia por baixo do balcão, do que a Mirella tinha na pasta. Sem exageros, sem esconder. — Chega para o afundar, se eu quisesse. Mas não é isso que vou fazer.
O Miguel ouviu tudo, os olhos cinzentos muito abertos.
— Então... — A voz saiu-lhe pequena. — O que é que vais fazer?
O Carlos meteu, enfim, o carro em andamento. E, quando respondeu, a voz dele era serena, quase suave, e por baixo dela havia uma coisa que o Miguel nunca lhe ouvira, uma coisa dura e paciente e absolutamente certa de si.
— Por agora, esperar. — Uma pausa. — Ele há de voltar. Gente assim volta sempre. E, quando ele voltar... — Olhou em frente, para a estrada. — Eu vou estar à espera dele.
E o Miguel olhou para o homem ao lado dele, para o perfil calmo contra a luz do fim de tarde, e sentiu, ao mesmo tempo, duas coisas que não se contradiziam: um arrepio pequeno, porque havia ali um lado do Carlos que ele estava só a começar a conhecer, e uma segurança enorme, funda, quente. A segurança de estar do lado certo daquele homem. De ter, entre si e a sombra, alguém assim.
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A espera não durou muito.
Quatro dias depois, o Jaime voltou a aparecer, agarrado àquela convicção irritante de que a insistência movia montanhas, e de que, mais cedo ou mais tarde, o Miguel acabaria por ceder. Para o Jaime, a palavra "não" nunca parecera existir de verdade. Não quando era dita por alguém que ele julgava poder dobrar.
Mas o Carlos soube esperar. Tinha algo que a vida e a Dominação lhe tinham ensinado: a paciência.
Conhecia bem homens como o Jaime. Sabia que voltavam sempre ao mesmo sítio, à mesma porta, ao mesmo vício de testar limites. E o Jaime voltou.
Ao fim da tarde, à porta das traseiras do Sanctum, estava ele outra vez, à espera de que o Miguel terminasse o turno.
Só que, dessa vez, o Miguel não saiu primeiro.
Nos últimos dias, por segurança, o Carlos tinha passado a antecipar-lhe todos os movimentos. Esperava o Miguel como sempre, mas saía antes dele; e, naquela tarde, antes que o Miguel aparecesse, foi o Carlos quem atravessou a porta das traseiras, com a pasta da Mirella sempre ao alcance da mão.
E, quando os olhos do Jaime se cruzaram com os dele, o Carlos percebeu que a espera acabara.
O Jaime estava encostado à parede do costume, do outro lado da rua, e endireitou-se quando viu a porta abrir-se. Mas não era o rapaz que saía.
Era o outro.
O ricaço.
Por um instante, o sorriso do Jaime abriu-se com aquela segurança de quem se julga sempre mais esperto do que os outros. Conhecia aquele homem de vista. Já se tinham cruzado algumas vezes, e sabia que era com ele que o Miguel andava.
Na cabeça do Jaime, aquilo só podia ter um nome: interesse.
Porque era assim que ele media o mundo, por aquilo que podia ganhar, usar ou perder. Via ali um homem de fatos caros, mãos cuidadas e dinheiro suficiente para comprar silêncio, conforto e gente. Um homem que, na imaginação dele, nunca levara um murro na vida e vinha agora, certamente, tentar assustá-lo com a carteira.
O Jaime quase teve vontade de rir.
Se era para isso que o outro tinha saído primeiro, então talvez aquela conversa fosse até mais divertida do que esperava.
— Ora — disse o Jaime, e a bravata voltou-lhe à voz com demasiada facilidade. — Se não é o ricaço em pessoa. Vieste defender o teu rapazinho?
Nesse momento a porta abriu-se outra vez, e o Miguel saiu, e estacou ao ver a cena. O Carlos, sem se virar, disse apenas:
— Fica aí, Miguel. Não é contigo. Mas quero que vejas.
E o Miguel ficou.
O Jaime cruzou os braços, encostando-se melhor à parede, como se ainda tivesse controlo sobre a conversa.
— Ele deve ser mesmo bom, para te dares a esse trabalho. Mas não me leves a mal, isto é entre mim e o Miguel. Ele vai ser meu. Mais cedo ou mais tarde, vai perceber isso. E nem tu, nem o teu dinheiro, nem esse ar de dono do mundo...
O Jaime não chegou a terminar.
A voz do Carlos cortou-lhe a frase como aço.
— Acabaste?
Não levantou o tom, não precisava. Havia naquela pergunta uma frieza tão limpa que o sorriso do Jaime vacilou antes mesmo de ele perceber que tinha vacilado.
O Carlos atravessou a rua devagar, sem pressa, as mãos nos bolsos. Não havia raiva visível nele, não havia espetáculo, e talvez fosse precisamente isso que fez o sorriso do Jaime vacilar. Parou diante dele, com a calma de quem não vinha discutir, nem negociar, nem medir forças.
— Agora ouves-me tu.
O Miguel ficou junto à porta das traseiras, longe o suficiente para não estar no meio, perto o suficiente para ouvir tudo.
— Chamas-te Jaime Silva — disse o Carlos, parando diante dele. — Trabalhas no ginásio da Rua Nova. Moras num primeiro andar na Travessa do Forno, sozinho, desde que a tua mãe deixou de te atender o telefone.
O Jaime calou-se, o sorriso preso a meio da cara.
— Como é que...
— E não é só isso que eu sei.
O Carlos parou à distância certa: perto o suficiente para não haver dúvidas, longe o suficiente para não parecer uma ameaça física. A voz dele era calma, quase suave. E foi isso que assustou o Jaime mais do que qualquer grito.
— Sei muito mais, Jaime. Sei tudo, na verdade. E acho que está na altura de percebermos, os dois, com quem é que cada um se meteu.
Foi então que o Jaime sentiu o mesmo arrepio de meses antes, no passeio. Só que agora não recuou por cortesia. Recuou porque, pela primeira vez, percebeu que talvez tivesse subestimado gravemente o homem à sua frente.
— Não sei quem tu pensas que és — começou, a tentar recuperar a bravata —, mas isto é entre mim e o...
— Sei exatamente quem sou — interrompeu o Carlos, sem levantar a voz. — E, mais importante do que isso, sei exatamente quem tu és.
Tirou uma mão do bolso, devagar.
— Sei do ginásio. Sei do que se passa nas traseiras. Sei dos nomes, dos horários, dos valores, das coisas que mudam de mão quando julgas que ninguém vê. Sei o suficiente para te fazer perder tudo com uma chamada.
Deixou a frase assentar, e viu a cor desaparecer do rosto do Jaime.
— Vê se me entendes bem — continuou. — Está tudo escrito. Tudo guardado. Tudo pronto. Basta-me carregar num botão.
O Jaime abriu a boca, mas não saiu som nenhum.
— Não vou fazê-lo hoje — disse o Carlos. — Não porque não possa, ou porque me falte vontade, mas porque não preciso. Homens como tu sabem quando perderam. E tu acabaste de perceber que perdeste.
Deu meio passo em frente.
— A partir de hoje, vives com uma certeza: eu tenho o dedo em cima desse botão. Hoje. Amanhã. Daqui a um ano. Sempre.
Fez-se silêncio na rua.
O Jaime olhava para o Carlos, e a arrogância tinha-se-lhe escoado toda da cara. No lugar dela ficou outra coisa: o cálculo rápido e sujo de quem percebe, enfim, que perdeu, e que perdeu feio.
— Portanto vais fazer o seguinte — disse o Carlos. — Vais desaparecer. Da vida do Miguel, da vida da Íris, desta rua, deste lado da cidade. Não voltas a aparecer, não voltas a ligar, não voltas a escrever. Nunca mais.
A voz baixou ainda mais.
— Porque, no dia em que voltares a chegar perto do que é meu, eu carrego no botão. E tu sabes que carrego.
Os olhos âmbar mantiveram-se fixos nos dele, frios e imóveis.
— Fui claro?
O Jaime olhou do Carlos para o Miguel, e do Miguel para o Carlos. E o Carlos viu-o perceber, finalmente, o tamanho daquilo que tinha diante de si. Viu-o encaixar as peças: o homem do carro, o ricaço, o homem que sabia demasiado, o homem que ele nunca levara a sério e devia ter levado.
— Isto não vale a pena — resmungou o Jaime, a recuar, fingindo que a decisão era dele. — Nem ele vale a pena. Fica com ele.
— Fico — respondeu o Carlos, sem hesitar. — Fico, sim.
E o Jaime foi rua abaixo, depressa, sem olhar para trás. Havia na forma como se afastou qualquer coisa de definitivo, a maneira de quem percebe que encontrou um muro alto demais para trepar.
O Carlos ficou a vê-lo desaparecer na esquina. Só quando teve a certeza de que ele não voltava é que se virou para o Miguel.
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O Miguel estava parado à porta, e tinha assistido a tudo sem dizer palavra.
O Carlos aproximou-se, e a coisa firme já lhe tinha saído da cara, e no lugar dela estava só o homem que o Miguel conhecia, o de olhos quentes, o que o olhava como se ele fosse a única coisa no mundo.
— Acabou — disse o Carlos, baixo. — Não te vai voltar a incomodar. Prometo-te.
O Miguel demorou a responder. Com a adrenalina a baixar, as peças começavam a assentar-lhe dentro, e uma dessas peças tinha o nome da Íris.
Era isto que ele era, pensou. Por baixo do sorriso todo, era isto. Um homem que vendia veneno, que guardava coisa roubada, que mentia a toda a gente, principalmente à pessoa que dizia amar. Agradeceu mentalmente o dia em que a Íris ouviu quem o Jaime era de verdade e lhe virou as costas, senão teria sido a vida dela a apodrecer ao lado daquela mentira.
Mas ela virara. Contra todas as expetativas, conseguira seguir em frente, para os braços de um homem que a via de verdade. A Íris estava bem. Estava feliz. E, fosse o que fosse que o Jaime tivesse sido, ela nunca mais teria de sofrer por causa dele.
E o Miguel sentiu por ela uma onda de alívio quase tão grande como a que sentia por si próprio. Escapámos os dois, pensou. Cada um à sua maneira, escapámos os dois.
Levantou os olhos para o Carlos.
— Tu... — começou, e não soube como acabar. — Fizeste isto por mim.
— Faço isto, e muito mais, sempre que for preciso. — O Carlos ergueu-lhe o rosto com a mão, o polegar na face dele. — Tu já não tens de te defender sozinho, Miguel. Ouviste? Nunca mais. Agora somos dois. E, quando um de nós não chega, há mais três homens e uma mulher que chegam.
E o Miguel riu-se, um riso molhado, meio a chorar, e atirou-se aos braços do Carlos ali mesmo, na rua, à porta do Sanctum, sem se importar com quem visse. E o Carlos abraçou-o, e segurou-o, e sentiu-o tremer contra o peito, não de medo, dessa vez, mas de alívio, do peso enorme que finalmente lhe saía dos ombros.
A sombra tinha desaparecido. De vez.
E o que ficava, agora, era só o caminho à frente dos dois, limpo, aberto, e todo por viver.