29 – O Que Se Conta aos Amigos
Depois de deixar o Miguel na pastelaria, o Carlos seguiu diretamente para O Limiar. Pela mesma razão de sempre: era ali que estavam os amigos. E havia coisas que não se diziam por mensagem, nem por telefone, nem por meias palavras. Havia coisas que só se diziam cara a cara.
E o Carlos precisava de as dizer. Devia-lhes isso.
Com tudo o que começava a mover-se à volta do Miguel, o Jaime, as ameaças, aquele receio surdo que já não o largava, o Carlos percebia cada vez melhor que talvez viesse a precisar deles. Não por fraqueza, mas porque havia batalhas que um homem não devia travar sozinho, mesmo quando sabia vencê-las.
E os amigos de verdade serviam precisamente para isso: para estarem no lugar certo antes mesmo de serem chamados.
Quando entrou, a casa estava na sua noite morna do costume, a música baixa, as luzes fundas, o vaivém sereno de quem ali se sentia em casa. O Carlos atravessou o salão a cumprimentar meia dúzia de caras conhecidas, de regresso ao lugar que fora seu durante tantos anos, e dirigiu-se à mesa do fundo, onde os amigos costumavam estar.
Mas os seus passos foram travados quando uma mulher se destacou do grupo junto ao bar e veio ter com ele. O Carlos não a conhecia, era cara nova, dos anos em que estivera fora, mas percebeu, pela maneira como ela se moveu, que ela sabia muito bem quem ele era. Alta, elegante, um vestido escuro pensado para ser visto, um sorriso treinado que já contava com a vitória.
— Então é verdade. — Parou à frente dele, perto demais, a cabeça inclinada. — O Carlos Sousa voltou. Falam de si há semanas, sabia? O Dom que regressou. — Estendeu a mão, os dedos a roçarem-lhe o braço. — Tenho muita curiosidade em perceber se a fama é merecida.
O Carlos olhou-a. E foi delicado, como sempre o era, mas houve, na maneira como recuou o braço, uma distância clara, cortês, que não deixava margem para dúvidas.
— Lisonjeado — disse, a voz calma, um sorriso pequeno e educado que não chegava aos olhos. — Mas receio que a fama vá ter de ficar por contar. Não estou disponível. — E, porque era quem era, suavizou: — Há uma pessoa. Uma só. E não há curiosidade no mundo que valha mais do que ela.
A mulher ergueu as sobrancelhas, entre o divertido e o contrariado, mas soube perder, fez um pequeno aceno, meio de brincadeira, meio de rendição.
— Sortuda, essa pessoa.
— O sortudo sou eu — disse o Carlos, e havia nisso uma verdade tão simples e tão inteira que a mulher, por um instante, deixou cair o sorriso treinado e ficou só a olhá-lo, quase com inveja daquilo. Depois recuou, e voltou para o seu grupo, e o Carlos seguiu o seu caminho para a mesa do fundo, já a esquecê-la.
E não deu por que, de um canto do salão, um par de olhos o seguia desde que ele entrara.
🍃 🍃 🍃
O Máximo estava ao balcão, onde estava quase sempre, no sítio de onde se vê tudo sem que ninguém repare que se está a ver.
Vira o Carlos entrar. Endireitara-se, no instante, como um animal que fareja qualquer coisa no ar.
Ouvira falar do Carlos Sousa muito antes de o ver. O nome dele vivia n'O Limiar como uma espécie de lenda, o Dom que partira, o lugar que o Ivo lhe guardara anos a fio, à espera. O Máximo entrara para a casa nesses anos de ausência, e crescera a ouvir o nome sem nunca lhe pôr uma cara.
Até à noite em que ele voltara.
O Máximo estava lá nessa noite. Vira a casa inteira virar-se para o receber, o Ivo a abraçá-lo, o respeito com que todos pronunciavam o nome dele, como se um rei tivesse regressado ao seu trono. E, a partir dessa noite, o Máximo quisera ser visto por aquele rei.
Tentara. Oferecera-se, mais do que uma vez, nas semanas que se seguiram, com o seu melhor sorriso, com o discurso mais bem ensaiado. E, mais do que uma vez, o Carlos recusara-o.
Não com crueldade. Fora pior. Fora com distração, o Carlos mal o olhara, de cada vez, como quem afasta um assunto sem importância, e passava adiante, e não se lembraria dele no dia seguinte. O Máximo fizera tudo bem, o corpo tratado, as palavras certas, a postura estudada ao pormenor. E, mesmo assim, aquele homem olhara-o e vira... nada. Como se ele não estivesse ali.
O Máximo lembrava-se. De todas as vezes.
E agora via aquilo.
Via a mulher aproximar-se do Carlos, e via o Carlos recusá-la, mas recusá-la com cuidado. Com um sorriso. Com uma frase suave. Com aquela cortesia toda que o Máximo não tivera direito a receber. A ela, uma desconhecida qualquer, o Carlos dava a delicadeza de a mandar embora com jeito. A ele, tinha-o mandado embora como quem enxota uma mosca.
A ela, trata com luvas, pensou o Máximo, os dedos a apertarem o copo. A mim, nem me viu.
E foi crescendo dentro dele, devagar, a coisa que crescia sempre que o mundo lhe confirmava aquilo que ele já sabia de si, que os outros eram vistos, e ele não. Que havia gente que entrava numa sala e todos se viravam, e ele podia passar a vida inteira ali, ao balcão, e ninguém se viraria nunca.
O Carlos era dessa gente. E o Máximo odiava-o por isso com uma paciência funda, silenciosa, que ainda não tinha nome nem plano, mas que farejava, agora, uma direção. Porque um homem daqueles tinha sempre um ponto fraco. E o ponto fraco de um homem daqueles era, quase sempre, a "pessoa" de quem ele falava com aquela voz.
O Máximo bebeu um gole, e continuou a ver. Sempre a ver.
Não tinha pressa. Os invisíveis nunca têm.
E, do balcão, os olhos do Máximo continuaram a segui-lo, até à mesa do fundo, onde o esperavam os únicos homens d'O Limiar que o Carlos Sousa via de verdade.
🍃 🍃 🍃
Os amigos tinham-no visto entrar. Tinham-no visto atravessar o salão, e tinham visto a mulher destacar-se do grupo do bar e ir ter com ele, e tinham visto, também, a maneira subtil, cortês e definitiva como o Carlos a dispensara antes de chegar à mesa.
O Ivo, atrás da sua mesa, de copo já a postos. O Sílvio, recostado, o copo na mão e um sorriso a formar-se. O Vicente, com aquele ar sonhador que não lhe era costume, e sobre o qual, curiosamente, ninguém ainda tinha comentado.
— Mal entraste e já partiste corações. — O Ivo abriu os braços, teatral, quando o Carlos puxou a cadeira. — Coitada da rapariga. Levou com o gelo todo.
— Ora, eu até que fui simpático — disse o Carlos, sentando-se.
— Foi glacial — corrigiu o Sílvio, sem tirar o sorriso. — Mas educado. Reparei. — Ergueu o copo meio centímetro, num brinde trocista. — O amor tornou-te cavalheiro, Sousa. Antes só serias glacial.
O Carlos deixou-se sorrir, pediu uma bebida ao empregado com um simples aceno e, contrariando o costume, foi ele quem puxou a conversa. Naquela noite era diferente: havia coisas que precisava de dizer, e não queria continuar a adiá-las.
— Preciso de vos contar uma coisa. — Pousou as mãos na mesa. — Duas, na verdade. Uma boa e uma má.
— A boa primeiro — disse o Ivo. — Assim a má depois custa menos. Ou será ao contrário?
— Deixa-te de filosofias, Ivo. — O Vicente, que até ali apenas ouvia, cortou-o. — Vais contar as duas, por isso tanto faz.
O Carlos deixou-se sorrir.
— A boa já vocês sabem, só não sabem que agora é oficial. — Rodou o copo. — O Miguel e eu. É a sério. Muito a sério. — Procurou as palavras, ele que raramente procurava. — Levei-o à casa da costa, este fim de semana. — Ergueu os olhos, e viu-os perceberem o peso daquilo: os três conheciam a casa, os três sabiam há quantos anos ele não lá punha os pés. — Confessámos o nosso amor... — Parou, e disse-o à maneira dele, simples e cheia: — Tenho a certeza de que o Miguel é o tal. Para a vida toda.
Fez-se um silêncio, e depois o Ivo levantou-se, o Ivo, que fazia tudo em grande, e contornou a mesa e abraçou o Carlos com força, um abraço de urso que quase o levantou da cadeira.
Mas ali, com a cara enterrada no ombro do Carlos, além da alegria genuína pela felicidade do amigo, uma pequena sombra passou-lhe pelos olhos, fugaz, de saudade de uma coisa que ele nunca tinha tido.
E eu, quando?
Durou o tempo de um piscar de olhos. E o Ivo, que passara a vida a esconder o que sentia atrás de barulho, endireitou-se, afastou-se, e já trazia o riso outra vez na cara, inteiro, como se a fresta nunca se tivesse aberto.
— Estava na altura, Sousa. — A voz dele estava rouca. — Tu mereces. E o Miguel pareceu-me uma pessoa fantástica. Ficámos muito felizes. — Fungou, aparatoso, a desmanchar a própria emoção com uma palhaçada. — Olha, até me pôs os olhos marejados, o malandro. Isto é alergia, de certeza.
O Sílvio ergueu o copo, sério, e disse só:
— À vida que vais ter. Que sejas feliz.
E o Vicente, esse, apenas sorriu, e havia naquele sorriso algo de diferente, algo que os amigos não viram, algo que o deixava tentado a partilhar com eles, mas que sabia que ainda era cedo.
— E a má? — perguntou o Sílvio, quando o Ivo se voltou a sentar. — Disseste que havia uma má.
O sorriso saiu da cara do Carlos, e no lugar dele instalou-se a outra coisa, a firme, a que eles conheciam.
— Há um homem. — E contou-lhes. Do Jaime. De tudo. Do princípio, o tipo que se atirou ao Miguel, a chantagem, a Íris, e do resto, o mais recente e o mais grave: o Jaime à porta do Sanctum, à espera do rapaz, a insistir, a ameaçar. — Ele não desiste. Voltou. E há de voltar mais, se eu não fizer nada.
Foi então que o Vicente se endireitou na cadeira.
Tinha estado calado, a ouvir. Mas qualquer coisa naquela história o fez ficar sério, mais uma vez as fichas a caírem, tal como no almoço em casa do Carlos.
— Espera. — A voz dele saiu mais dura do que era costume. — O Jaime? O ex-namorado da rapariga da pastelaria? — Olhou para o Carlos. — Aquele que eu pus na rua, há uns meses, quando ele foi lá chateá-la, e eu mandei-o embora? — Uma pausa, a conta a fechar-se-lhe na cabeça. — Essa é a melhor amiga do teu rapaz. A Íris. — Abanou a cabeça, devagar, a medir o tamanho da coincidência, e depois com nojo. — É o mesmo homem, Carlos. Andava com a rapariga e, ao mesmo tempo, atrás do teu Miguel. As duas coisas ao mesmo tempo. — A voz endureceu-lhe. — Que raio de homem faz uma coisa destas? Devia era ter-lhe dado uns bons socos naquele dia, e não me ter contentado em pô-lo na rua.
— É esse mesmo — confirmou o Carlos, pensando em como o mundo podia ser pequeno, que até o Vicente conhecia tal pessoa.
— Então tu também o conheces? — disse o Ivo, olhando de um para o outro.
— Conheci-o naquele dia, como o ex da rapariga que foi lá fazer escândalo. Não sabia de mais nada. — O Vicente pousou o copo, e havia nele agora uma coisa que raramente se lhe via: não a timidez do costume, mas uma firmeza calada, quase zangada. — Não gostei. Tem um sorriso fácil e olhos de quem calcula. É do género que se acha esperto de mais para que o apanhem. — Encolheu os ombros grandes. — Naquele dia bastou-me levantar. Homens assim são valentes com quem julgam mais fraco, e cobardes com quem lhes faz frente.
E o que o Vicente não disse, o que ainda guardava para ele, era o quanto tudo aquilo mexia com ele.
O ambiente à mesa mudou. Os três amigos, que um instante antes riam e brindavam, endireitaram-se, e nos rostos deles, no do Ivo, no do Sílvio, e no do Vicente com uma razão que só ele sabia, instalou-se qualquer coisa dura, protetora, a mesma coisa que se instalara no do Carlos.
— O que precisas que a gente faça? — perguntou o Ivo, e não havia gozo nenhum na voz agora. — Diz. Somos quatro. Aquele palhaço que venha ver o que são quatro.
— Nada, para já. — O Carlos abanou a cabeça. — A Mirella está a tratar de saber quem ele é. Pediu-me uns dias. E, quando eu souber com quem lido, então ele vai saber quem é o Carlos Sousa, e não preciso de sujar as minhas mãos. — Olhou-os, um a um. — Só precisava que soubessem. Porque, se um dia eu precisar de vocês, quero que já estejam a par. E porque... — Hesitou, coisa rara nele. — Porque não quero carregar isto sozinho. E vocês são a única família que tenho, além da Berta e do rapaz.
Houve um silêncio, e depois o Ivo pousou-lhe a mão no ombro.
— Estamos cá — disse. — Para o que for. Sempre estivemos, sempre estaremos. — Apertou. — Trata dele à tua maneira, Sousa. Mas, se a tua maneira falhar, ou se aquele homem passar dos limites, tu chamas-nos. E aí a maneira é a nossa. — Um sorriso sem humor nenhum. — E a nossa é bem menos delicada que a tua.
O Carlos assentiu, e sentiu uma coisa quente e sólida por baixo de tudo: a certeza de que não estava sozinho. Acontecesse o que acontecesse, fosse o que fosse que viesse, tinha aqueles três homens às costas, como os tivera a vida toda.
Bebeu com eles até tarde. E, quando se foi embora, foi para casa mais leve, porque a felicidade partilhada cresce, e o peso partilhado diminui, e ele, naquela noite, tinha feito as duas coisas com as pessoas certas.