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28 – A Mesa da Montra

📩 <Espero-te hoje no café. Tenho novidades, e tu andas sumido, meu malandro.>

A mensagem chegou a meio da semana, quando o Miguel estava a acabar de se arranjar para o turno. Riu assim que a leu. Era a Íris, simples, direta, incapaz de deixar uma saudade passar sem lhe pôr uma alcunha em cima.

Ficou a olhar para o ecrã durante alguns segundos, com um sorriso pequeno. Tinha estado, de facto, mais ausente. Não por falta de vontade de a ver, mas porque a vida dele, de repente, se enchera de Carlos, de boleias, de cafés, de beijos roubados e de sentimentos grandes demais para caberem nos dias.

Respondeu-lhe logo.

📩 <Vou. Depois do turno passo aí.>

Quando o Carlos o foi buscar, ao fim da tarde, o Miguel pediu-lhe que o deixasse na pastelaria. Queria estar com a amiga. Queria ouvi-la, contar-lhe coisas, rir com ela sem pressas, voltar, por umas horas, àquele lugar antigo onde a Íris era a sua pessoa antes de qualquer outra pessoa existir.

O Carlos não estranhou, nem se melindrou. Muito pelo contrário. Gostava daquela amizade. Via nela a mesma coisa que via nos seus próprios amigos: uma ligação antiga, limpa, sem interesse por baixo, feita de presença e de lealdade. E isso, para o Carlos, tinha valor.

— Claro que sim — disse apenas, desviando o carro na direção da Baixa. — A Íris tem prioridade hoje.

O Miguel olhou-o de lado, enternecido.

— Não tens ciúmes?

O Carlos sorriu, sem tirar os olhos da estrada.

— De uma mulher que gostava de ti antes de mim? Seria falta de inteligência. E eu tento não ser burro todos os dias.

O Miguel riu-se, e o riso dele encheu o carro.

O Carlos deixou-o à porta da pastelaria, esperou que ele entrasse, e só arrancou quando o viu ser recebido pela Íris com um abraço apertado e uma enxurrada de palavras que, mesmo da rua, pareciam impossíveis de travar.

O Miguel ainda se virou uma vez, pelo vidro da montra, e viu o carro afastar-se. Sorriu sem dar por isso, antes de a Íris lhe agarrar outra vez no braço.

— Nem penses que me enganas com esse ar de santinho — disse ela, já a puxá-lo para dentro. — Senta-te. Eu ainda tenho de fechar isto, mas tu não sais daqui sem me contares tudo.

O Miguel riu-se e obedeceu. Enquanto a Íris despachava os últimos clientes, ele ficou encostado ao balcão, a vê-la trabalhar como sempre a vira desde miúdos: rápida, barulhenta, dona daquele pequeno mundo de bolos, cafés e frases atiradas por cima do ombro.

Quando o último cliente saiu, a Íris virou a placa da porta, apagou parte das luzes, e serviu-lhes a ambos um galão e o que restava dos bolos do dia. Depois sentaram-se os dois a uma mesa junto à montra, como faziam desde sempre, desde antes de a vida os complicar a ambos.

— Então — disse a Íris, os cotovelos na mesa, o queixo nas mãos, os olhos a brilhar de curiosidade. — Conta. E não me poupes nos pormenores, que eu bem vejo essa cara. Andas com essa cara há semanas, Miguel Braz. Uma cara de quem anda apaixonado até às orelhas.

O Miguel corou, aquele corar que só ele tinha, riu-se, e baixou os olhos para o galão.

E depois contou.

🍃 🍃 🍃

Contou-lhe tudo. Ou quase tudo.

Não contou de uma vez, aos tropeções; foi antes deixando sair, aos poucos, entre um gole de galão e uma migalha de bolo apanhada do prato. Contou-lhe do Carlos como nunca lhe tinha contado antes, não já o encantamento tímido dos primeiros tempos, nem o primeiro beijo à beira-mar que ela lhe arrancara à força meses antes.

Contou-lhe do que aquilo se tinha tornado.

Da casa do Carlos. Da Berta, que o recebia como se ele sempre tivesse tido lugar àquela mesa. Dos almoços, dos amigos, das boleias, dos cafés, dos pequenos rituais que, sem darem por isso, se tinham tornado deles. Contou-lhe do mundo inteiro daquele homem a abrir-se devagar para o deixar entrar.

A Íris ouviu sem o interromper, o que, vindo dela, era quase uma prova de amor.

— Estás mesmo metido até ao pescoço — disse, por fim, baixinho, mas a sorrir.

O Miguel riu-se, envergonhado.

— Acho que sim.

— Achas?

Ele levantou os olhos para ela. O sorriso tremia-lhe um bocadinho nos cantos.

— Estou.

A Íris pousou os cotovelos na mesa, o queixo nas mãos, e ficou a olhá-lo como se quisesse guardar aquela versão dele para sempre.

— Continua.

E o Miguel continuou.

Falou-lhe do fim de semana à beira-mar, da casa dos pais do Carlos, do mar, das estrelas, da maneira como ele desligara o mundo inteiro para ficarem só os dois. Corou ao contar algumas partes, claro. A Íris percebeu. E, pela primeira vez na vida talvez, teve o bom senso de não o obrigar a dizer em voz alta aquilo que o rubor já explicava muito bem.

Limitou-se a erguer as mãos, em rendição.

— Está bem, está bem. Não pergunto. Mas fica registado que estou a ser uma amiga exemplar.

— És muito generosa — murmurou o Miguel, ainda vermelho.

— Sou uma santa.

Ele riu-se outra vez. E, talvez por isso, por aquele riso lhe ter aberto o peito, contou-lhe por fim a coisa maior.

— Eu disse-lhe que o amava.

A Íris ficou imóvel.

O Miguel baixou a voz, mas o sorriso não lhe saiu do rosto.

— E ele disse-me também.

Os olhos dele ficaram húmidos, mas não havia tristeza, havia felicidade, e o não saber o que fazer com ela.

— Íris, eu nunca pensei... nunca na vida pensei que isto fosse possível. Que alguém me quisesse assim. Por inteiro. Sem eu ter de me encolher, sem ter de agradar, sem ter medo de fazer alguma coisa errada. — Engoliu em seco. — Ele quer-me. A mim. Assim como sou.

A Íris tinha os olhos a brilhar também.

— Ah, Miguel.

Estendeu a mão por cima da mesa e apertou-lhe a dele.

— Se tu soubesses há quanto tempo eu esperava para te ver assim.

A voz dela embargou-se um bocadinho, e ela riu-se logo a seguir, como se pudesse disfarçar.

— Tu passaste a vida a cuidar de toda a gente. De mim, principalmente. Sempre a pôr-te em último, sempre a engolir o que precisavas para os outros ficarem bem. — Apertou-lhe a mão com mais força. — Já era altura de alguém te pôr a ti em primeiro. Já era mais do que altura.

O Miguel baixou os olhos, e desta vez não conseguiu rir.

— Ele põe.

— Ainda bem — disse ela, simples. — Ainda bem, fofo.

Ficaram um instante assim, de mãos dadas por cima da mesa, no silêncio bom de quem se conhece há tanto tempo que nada precisa de ser dito.

E foi nesse silêncio que o Miguel sentiu o peso da única coisa que não lhe tinha contado.

O Jaime.

Não lhe contou que ele voltara. Que aparecera à porta do Sanctum. Que ainda andava por ali, como uma sombra à espreita. Para a Íris, aquilo estava encerrado, pusera-o fora da pastelaria com um riso e uma porta fechada, e o assunto tinha morrido ali.

Só que o Miguel sabia que não tinha morrido.

— Estás bem? — perguntou a Íris, de repente, estreitando os olhos. — Perdeste aí a cara por um segundo.

O Miguel sorriu depressa demais.

— Estou. Só... é muita coisa.

Ela estudou-o por mais um instante. Conhecia-o bem demais para não perceber que havia qualquer coisa. Mas talvez, naquela noite, também ela quisesse acreditar só na parte boa.

— Pois é — disse, mais suave. — Mas desta vez é coisa boa.

— É — respondeu ele. — É mesmo.

E escolheu deixá-la ficar com isso.

Não era mentira, não propriamente. Era só a maneira de o Miguel proteger. Era guardar a sombra para que ela não tivesse de a carregar. Para não lhe devolver o medo, para não manchar aquela tarde, para não lhe pôr o Jaime outra vez dentro da cabeça quando, por fim, ela parecia livre dele.

Fez pela Íris o que o Carlos fazia tantas vezes por ele: guardou a parte escura, na esperança de a poder resolver antes que chegasse a quem amava.

Se havia ironia nisso, no rapaz que aprendera a não esconder nada e que, ainda assim, escondia uma coisa por amor, o Miguel não a viu.

Só viu a amiga à sua frente, feliz por ele.

E quis que ela continuasse assim. Sem sombra nenhuma no olhar.

🍃 🍃 🍃

— Mas eu também tenho novidades — disse a Íris, endireitando-se na cadeira.

Havia agora nela um brilho diferente. Não era o brilho espalhafatoso de quem quer contar uma fofoca; era mais baixo, mais envergonhado, quase tímido. Um brilho que o Miguel não se lembrava de alguma vez lhe ter visto., E acho que vais gostar delas.

— Diz.

A Íris baixou os olhos para o galão, mexendo-o sem o beber.

— Lembras-te do cliente de que te falei? Aquele que se levantou por mim quando o Jaime apareceu na pastelaria a fazer espetáculo?

O Miguel teve de se esforçar para não sorrir demasiado.

— O senhor do galão das nove?

— Esse. — Ela respirou fundo, e o sorriso teimou em nascer-lhe apesar da vergonha. — O Vicente.

O Miguel sorriu por dentro. Sabia perfeitamente quem era o Vicente. Sabia da conversa dos amigos, sabia do galão das nove, sabia que o mundo era muito mais pequeno do que a Íris imaginava. Mas, bom amigo que era, calou-se. Aquela novidade era dela para dar, e ele não lha ia estragar.

— Lembro-me — disse apenas.

A Íris mordeu o lábio, coisa rara nela.

— Nós temos saído.

O Miguel inclinou-se na cadeira, a fingir surpresa com todo o empenho.

— Têm?

— Há umas semanas. Ele convidou-me para jantar numa sexta-feira, todo atrapalhado. Um homem daquele tamanho, Miguel, sem saber onde pôr as mãos, quase incapaz de me olhar enquanto perguntava. — Riu-se, abanando a cabeça, e havia uma doçura nova na voz dela. — E eu, que já andava há meses à espera que ele ganhasse coragem.

— E foi? — O Miguel sorriu. — Como correu?

A Íris ficou um instante calada, à procura da resposta certa.

— Foi bom.

Disse-o de forma simples. E, nela, aquele "bom" valia por um discurso.

— Foi fácil, sabes? Como se não houvesse nada a provar. Ele não tenta ocupar a sala toda, mesmo sendo grande o suficiente para isso. É calmo. Atento. Repara nas coisas. Pergunta e depois ouve mesmo a resposta. — Baixou os olhos, passando o dedo pela asa da chávena. — Desde essa sexta já saímos mais vezes. Sem pressa. Ele não tem pressa nenhuma. E eu, com ele, também não.

O Miguel ouviu-a, e o peito encheu-se-lhe de ternura. Conhecia aquele tom. Era o tom de quem começa a cair e ainda mal se atreve a admitir.

— Íris — disse, baixo, a sorrir. — Tu gostas dele.

Ela levantou os olhos, apanhada. Depois riu-se, um riso pequeno, rendido, quase incrédulo.

— Gosto.

A palavra pareceu surpreendê-la a ela própria.

— Gosto mesmo, Miguel. E isso assusta-me um bocadinho.

— Por causa do Jaime?

A Íris desviou o olhar para a montra, onde a rua já escurecia devagar.

— Também. Mas não é só isso. Com o Jaime, eu acho que gostava mais da ideia. Da ideia de ter alguém, de fazer planos, de poder dizer "nós". Era tudo muito barulhento, muito rápido. Eu ria alto, fazia de conta que estava tudo bem, e talvez até acreditasse. Mas havia sempre uma parte de mim a tentar convencer-se.

O Miguel ficou quieto, não a interrompeu, e a Íris voltou a olhar para ele.

— Com o Vicente é diferente. Não tenho de me convencer de nada. Não fico a medir as palavras, nem a tentar ser mais engraçada, mais bonita, mais fácil de gostar. Com ele, eu descanso. — Sorriu, envergonhada. — Parece uma coisa pequena, mas não é.

— Não é pequena — disse o Miguel.

— Não. — Ela abanou a cabeça. — O Jaime fazia-me sentir escolhida quando lhe convinha. O Vicente faz-me sentir vista. E isso... isso é outra coisa. Uma coisa muito maior.

O Miguel teve de engolir qualquer coisa que lhe subiu à garganta, porque eram quase as palavras dele. As mesmas que poderia ter dito do Carlos. A Íris encontrara, do lado dela do mundo, aquilo que ele encontrara do dele: alguém em cuja presença podia finalmente parar de se defender.

— Ele faz-me sentir segura — confessou ela, mais baixo. — E isso é novo para mim. Faz-me sentir que valho alguma coisa sem ter de estar sempre a provar.

O Miguel estendeu a mão por cima da mesa e apertou-lhe os dedos.

— Então não tenhas medo de gostar. Eu sei uma coisa ou outra sobre isso. Deixa acontecer.

A Íris riu-se, limpando disfarçadamente o canto de um olho.

— Olha quem fala. O rei de guardar tudo cá dentro, a dizer-me para deixar acontecer.

— Aprendi — respondeu ele, com um sorriso. — Tarde, mas aprendi.

Ela apertou-lhe a mão com força. Ficaram assim um instante, os dois, unidos por aquilo que tinham sobrevivido e por aquilo que, finalmente, começava a chegar-lhes.

Depois a Íris, porque era a Íris e não aguentava muito tempo sem voltar à superfície, endireitou-se e abriu um sorriso malandro.

— Olha só para nós. Os dois. Depois de tudo.

O Miguel sorriu.

— Quem diria.

— Quem diria — repetiu ela.

E brindaram, com os galões já frios, à coisa improvável e boa que a vida lhes tinha reservado a ambos, depois de tanto tempo a acharem que não era para eles.

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